JAILBREAKERS(1994), William Friedkin

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por Ronald Perrone

Por volta de 1994, os produtores Lou Arkoff e Debra Hill resolveram investir numa série de telefilmes nos quais vários b-movies clássicos dos anos 50 e 60, especialmente da AIP (American International Pictures), uma das maiores empresas de filmes de baixo orçamento, seriam refilmados por diretores da atualidade. REBEL HIGHWAY era o título da série e nomes como John Milius, Joe Dante, John McNoughton e Robert Rodriguez faziam parte da relação que comandaria algumas dessas pequenas produções de curto orçamento e pouca duração (a projeção não chegava a 80 minutos).

William Friedkin ficou responsável por JAILBREAKERS, que apesar de inspirado em THE JAILBREAKERS (1960), de Alexander Grasshoff, não chega a ser uma refilmagem. A trama se passa numa pequena cidade americana nos anos 1950, quando Angel, uma cheerleader do ginásio, conhece Tony Falcon, o líder de uma gangue de motoqueiros. O romance esquenta ao ponto do rapaz cometer uma série de furtos noite adentro e a moça consentir com esse novo tipo de vida. O sujeito acaba preso, ela conhece outro rapaz mais “certinho”. Tony foge da cadeia e, mesmo prestes a ficar noiva, Angel decide fugir com seu verdadeiro amor para o México, onde mais uma série de crimes coloca em risco a relação dos pombinhos, ao mesmo tempo que em que a polícia aperta o cerco pra cima de Tony.

Apesar de não ser lá um filme muito expressivo na filmografia de Friedkin, JAILBREAKERS mantém a ideia básica do projeto em questão, que é ser apenas um exemplar divertido, revivendo o ciclo de filmes drive inn. No elenco, destacam-se Shannen Doherty, como a ninfetinha Angel, Antonio Sabato Jr, fazendo pose de motoqueiro badass como Tony Falcon, e um jovem Adrien Brody em início de carreira como membro da gangue de motoqueiros.

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12 HOMENS E UMA SENTENÇA (12 Angry Men, 1997), William Friedkin

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por Marcelo Miranda

Por que eu não estava fazendo filmes como aquele?“, questionava-se William Friedkin em meados dos anos 1990, ao rever 12 HOMENS E UMA SENTENÇA (12 Angry Men, 1957), estreia de Sidney Lumet na direção. Friedkin vinha de uma série de fracassos, o último deles o suspense policial JADE (1995). Numa autobiografia, o diretor chega a cogitar que talvez estivesse sofrendo da tão falada “maldição” que acometeu quase toda a equipe de O EXORCISTA (1973), maior sucesso de sua carreira. Eram os tempos do julgamento de O.J. Simpson e, intrigado pela repercussão do caso, Friedkin retornou ao clássico de Lumet sobre um júri responsável por decidir se um garoto de 18 anos deve ou não ser condenado à morte pela acusação de ter matado o pai a facadas. O cineasta decidiu que seria uma boa ideia atualizar o roteiro de Reginald Rose e criar uma nova versão da mesma história. Friedkin levou o projeto ao canal Showtime, que bancou a produção, orçada em apenas US$ 1,75 milhão.

Friedkin fez de seu 12 HOMENS E UMA SENTENÇA algo tão ou mais potente que a versão de Lumet. A experiência a seu favor contava muito, é claro. Enquanto Lumet, aos 33 anos, dirigia seu primeiro filme para cinema em 1957, Friedkin, ao pegar o mesmo projeto quatro décadas depois, já era um veterano de 62 anos e pelo menos 15 longas no currículo. Mesmo assim, o que se vê é de um frescor impressionante, como se o diretor colocasse à prova toda sua experiência sem clamá-la para si. Por mais que haja movimentos de câmera cuidadosamente modulados e imensa atenção ao ritmo e à montagem (o que dá ao filme uma fluidez como pouco se vê ainda hoje no cinema comercial), Friedkin se abre à plena generosidade de deixar elenco e texto brilharem talvez mais do que sua mão de cineasta (o que, claro, é uma ilusão, já que a harmonia dependia de seu comando, tanto nos oito dias de ensaio quando nos doze de filmagem).

O diretor se cercou de um time invejável de atores (“o melhor elenco com o qual eu tinha trabalhado até então”, escreve ele na autobiografia), que incluía um trio de nomes lendários (Jack Lemmon, George C. Scott e Armin Mueller-Stahl), alguns convocados reconhecidos da TV (James Gandolfini, Tony Danza) e um antigo parceiro (William Petersen, de VIVER E MORRER EM LA, feito em 1985), entre outros. O maior acréscimo em relação à adaptação de Lumet foi a atualização do roteiro de Rose (trabalho auxiliado pelo próprio, aliás) em questões relativas a choques raciais e étnicos nas discussões dos doze personagens. Aqui há quatro atores negros e um imigrante do Leste Europeu, e a presença deles é suficiente para instalar um novo tipo de tensão, mesmo quando não anunciada diretamente, porém presente em olhares, gestos ou expressões. Em determinados momentos, o choque explode em agressões verbais, mas o que se destaca, realmente, é o quanto a luta de forças existe desde o instante inicial em que todos adentram a sala.

O embate não é apenas sobre um garoto de 18 anos ser ou não culpado pelo assassinato do pai, mas a guerra íntima destes 12 homens em torno de crenças e moral numa América falida de valores. O espectador nunca chega a conhecer totalmente os personagens (nem sequer os nomes, exceto no final, quando dois deles se apresentam); as personalidades são delineadas ali, dentro da sala do júri, num espaço e tempo delimitados, nos quais cada pessoa colocará para fora o que lhe move naquela situação-limite. Deve-se imaginar que se tratam de pessoas num ponto muito específico de suas vidas. O filme mantém a característica original do texto de fazer com que aqueles homens existam, de fato, apenas dentro do filme, sem olhar para fora nem julgá-los para além do que efetivamente é mostrado e ouvido.

A câmera de Friedkin busca dar conta de enquadrar corpos e espaço enquanto toda a ação (intensa) acontece. Trabalho árduo dentro de uma sala pequena composta por mesa, cadeiras, janelas e um ar condicionado enguiçado (o calor é elemento essencial no filme). Alguns momentos são notáveis no manejo da narrativa e fazem com que o público se sinta “dentro” da sala mais do que na versão de Lumet.

Usemos de exemplo o momento em que o jurado 8 (Henry Fonda antes, Jack Lemmon agora) é o único a levantar a mão para votar em “inocente”. Em Lumet, há um plano único, aberto, enquadrando todos os homens na mesa, com Fonda visto de costas. O coordenador do júri pede aos que creem em “culpado” que ergam a mão, no que 11 o fazem. Em seguida, pede-se que os votantes em “inocente” se apresentem, e Fonda levanta o braço. Corta-se, então, para um contraplano de 180º, mostrando agora Fonda de frente, ao fundo do quadro.

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Plano “culpado”…

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… e contraplano “inocente”

Na versão de Friedkin, os mesmos fatos acontecem, porém o diretor opta por fazer tudo num plano só. A câmera, atrás de Jack Lemmon, começa a se movimentar em panorâmica lateral logo que os votantes levantam o braço para “culpado” e atravessa a mesa mostrando um a um, até se colocar atrás do coordenador do júri no exato instante em que Lemmon levanta a mão para votar sozinho em “inocente”. O giro também é de 180º, porém existe uma “caminhada” que faz todos aqueles personagens habitarem um mesmo espaço exíguo e, de alguma maneira, iguala-os dentro de um mesmo desafio (que será, afinal, o mote do filme).

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O impacto estético dessa movimentação de câmera é a chave para o tipo de objetividade e elegância “invisível” que Friedkin tenta capturar ao longo de todo o filme. Escolhas como essa pautam cada momento, fazendo do espectador uma espécie de 13º personagem dentro da sala.

12 HOMENS E UMA SENTENÇA fez razoável sucesso quando exibido na TV e virou campeão de reprises (qual assinante de Telecine nunca se deparou com alguma chamada do filme?). Não foi suficiente, porém, para resgatar a carreira de Friedkin de um limbo do qual ela parecia não querer sair. O trabalho lhe deu “respeito e autoconfiança”, segundo suas palavras, mas ainda não era o que ele buscava. Uma nova fase só se iniciaria a partir da relação de Friedkin com a ópera (ele dirigiu várias desde então).

Ao cinema, Friedkin voltou em 2000, no controverso REGRAS DO JOGO, novamente em torno de um julgamento – desta vez num tribunal militar e sem limitação de espaço. 12 HOMENS E UMA SENTENÇA permanece como um filme querido em sua carreira, ao qual sempre se pode retornar com segurança e convicção de se tomar contato com alguns dos momentos mais inspirados de um realizador de potência única.

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REGRAS DO JOGO (Rules of Engagement, 2000), William Friedkin

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por Ronald Perrone

William Friedkin nunca fugiu de uma boa polêmica nos projetos que dirigiu e não faltam exemplos em sua carreira de filmes que dividiram opiniões com temas incomuns, ideologias dúbias, personagens controversos, como CRUISING, RAMPAGE, VIVER E MORRER EM LA, OS RAPAZES DA BANDA, só para citar alguns. Mas se tem um filme em que o diretor realmente procurou “sarna para se coçar” foi REGRAS DO JOGO, um conto que levanta algumas questões morais tendo como base o militarismo americano e a ideia do que significa o uso da violência numa situação militar.

O filme começa na guerra do Vietnã, quando uma unidade americana, liderada pelo tenente Hays Hodgers (Tommy Lee Jones), fica encurralada por soldados inimigos. A situação só melhora quando o tenente Terry Childers (Samuel L. Jackson), em outro local, consegue capturar um comandante vietcong, forçando a retirada da tropa em cima de Hodgers e seus soldados, salvando-lhes a vida.

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Trinta anos mais tarde, Childers, agora coronel, comanda uma operação de resgate do embaixador americano no Yemen, interpretado por Ben Kingsley, durante um protesto nos arredores da embaixada. A coisa esquenta quando alguns soldados americanos são mortos por atiradores posicionados nos edifícios próximos à embaixada e Childers ordena que seu pelotão abra fogo contra a multidão nas ruas, supostamente composta por civis, incluindo mulheres e crianças, armadas com paus e pedras.

Mas a dúvida que REGRAS DO JOGO coloca na roda durante o seu desenrolar é se Childers realmente ordenou a execução de inocentes ou se a multidão possuía armas e atirou primeiro, colocando a vida dos americanos em risco. Sem deixar de analisar, também, todas as complicações que envolvem códigos éticos e morais decorrente dessa complexa tomada de decisão. Childers acaba acusado de assassinato, vai à corte marcial e pede para que seu velho amigo Hodgers, agora um advogado militar, lhe defenda no julgamento.

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O povo americano adora esse tipo de história, que de forma superficial eleva o espírito militarista do país, o que me lembra AMERICAN SNIPER, filme recente que vem tendo reações similares. Assim como o filme de Clint Eastwood, REGRAS DO JOGO foi muito bem nas bilheterias. A crítica é que não foi muito receptiva, especialmente na Europa, onde os filmes de Friedkin sempre tiveram uma aceitação melhor do que em seu país.

Na minha opinião, há realmente uma ideologia a ser questionada e pensada com cuidado, mas acho louvável que Friedkin confronte o espectador dessa maneira, forçando-o a refletir sobre questões que, embora sejam polêmicas, até hoje permanecem atuais sobre a política invasora dos Estados Unidos. Não vejo, no entanto, como uma crítica ao governo americano, muito menos um filme racista, como muitos comitês árabes acusaram na época, mas um olhar sobre uma situação que reflete muita coisa complexa a ser discutida.

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Além disso, é um filme muito forte cinematograficamente. É impossível não se impressionar com Samuel L. Jackson gritando “Waste the motherfuckers!!!” enquanto mulheres e crianças são executadas à sangue frio. De acordo com o próprio Friedkin, a sequência do tiroteio na embaixada americana no Yemen foi a mais difícil que realizou em toda sua carreira. O resultado é brutal, tenso, realmente espetacular. No mais, as investigações de Hodgers sobre o que realmente aconteceu ao se preparar para o julgamento, e que tomam conta de grande parte da narrativa, transformam REGRAS DO JOGO num thriller bem interessante também.

Jones e Jackson dão um espetáculo à parte. Friedkin conta que o máximo que precisava fazer ao dirigi-los era mostrar suas posições em cena, o resto era o talento dos caras em encarnar seus personagens. Além da dupla e do já citado Ben Kingsley, o restante do elenco é formado por bons nomes, do calibre de Guy Pearce, Anne Archer, Philip Baker Hall e Amidou, que trabalhou com Friedkin em SORCERER.

REGRAS DO JOGO consegue um grande feito equilibrando uma trama que possui boa carga de tensão, entretenimento, com uma dose generosa de elementos para a reflexão. E mesmo aquele espectador que não vai concordar muito com as conclusões que tirar ao final, é impossível ficar indiferente à força do cinema de Friedkin e sua ousadia em confrontar o público com temas controversos e subversivos.

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C.A.T. SQUAD (1986) / C.A.T. SQUAD: PYTHON WOLF (1988), William Friedkin

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por Ronald Perrone

Não é difícil se enganar e pensar que logo após uma obra-prima como VIVER E MORRER EM LA, William Friedkin seria capaz de pegar um pequeno projeto feito para a TV e transformar em algo relevante dentro de sua filmografia, especialmente em se tratando de um  thriller policial. Mas não é bem isso que acontece com C.A.T. SQUAD e C.A.T. SQUAD: PYTHON WOLF, duas pequenas obras que, infelizmente, pouco têm a acrescentar no currículo do diretor.

Até que a trama de espionagem/policial permite que Friedkin explore alguns elementos característicos de seus outros trabalhos e evoca, guardando as devidas proporções, instantes de OPERAÇÃO FRANÇA e VIVER E MORRER EM LA, demonstrando idiossincrasias de seu cinema, especialmente ao criar tensão e elaborar sequências de ação (ajuda muito a trilha do grande Ennio Morriconi para criar um clima). São momentos de frescor em trabalhos cujo formato não lhe permite sair de um estilo simplista, com personagens e situações rasas que na maior parte do tempo não remete ao grande diretor que é.

CAT_SQUAD_08No primeiro filme, a trama apresenta a tal equipe C.A.T. (Counter Assault Technical), um grupo de experientes agentes do governo que utiliza métodos nada ortodoxos para resolver alguns problemas ligados a terrorismo que os homens da lei comuns não conseguem. Oficialmente, o esquadrão C.A.T. nem sequer existe e isso permite que entrem em ação sem muitas interferências burocráticas. A missão aqui é parar um assassino profissional contratado para eliminar cientistas ao redor do mundo antes de uma importante conferência.

Grande parte da força de C.A.T. SQUAD se perde por conta da escolha do elenco e por Friedkin não conseguir trabalhar os dilemas e uma pretensa profundidade dos personagens por conta do formato urgente de filme para a televisão. O líder do grupo, John ‘Doc’ Burkholder, vivido por Joe Cortese, por exemplo, não tem carisma algum, da mesma forma que os outros membros da equipe. A única exceção é Bud Raines, encarnado pelo grande Steve James (AMERICAN NINJA), que consegue desempenhar um papel com dignidade. E o jovem Eddie Velez, que faz o assassino, também não convence como um perigoso matador profissional intercontinental, o que incomoda um bocado.

bscap0000Na trama do segundo filme, lançado dois anos depois, C.A.T. SQUAD: PYTHON WOLF, descobre-se que alguns incidentes internacionais aparentemente desconexos fazem parte de atividades de uma organização terrorista na África do Sul, que planeja montar uma arma nuclear poderosíssima. E, claro, apenas o esquadrão C.A.T. poderá detê-los, principalmente quando um de seus membros, John Sommers (Jack Youngblood), é capturado pelos terroristas durante uma missão ultra-secreta na região.

Falar de C.A.T. SQUAD: PYTHON WOLF é basicamente repetir tudo o que disse sobre o primeiro da série. Mas há um pequeno salto qualitativo aqui em termos de diversão, no sentido de que o filme não se leva tão a sério quanto o exemplar anterior e se aceita como um produto menor, cuja intenção é servir de escapismo barato a quem se propõe a assistir zapeando uma TV. Temos uma aventura mais urgente e absurda, mais cenas de tensão, uma leveza narrativa fruto da falta de pretensão e até de um certo desleixo na direção e montagem. Há também uma substituição no elenco que beneficia um bocado a produção. Sai a sem graça Patricia Charbonneau e entra Deborah Van Valkenburgh como membro feminino do grupo, que consegue dar mais dramaticidade à personagem. Há uma pequena participação também do subestimado e meio esquecido Miguel Ferrer.

bscap0008Sequências como a perseguição que ocorre numa estação de metrô, muito bem elaborada visualmente e tensa, ou Steve James aplicando seus métodos para arrancar informação de um suspeito – o fato de termos Steve James mais vezes em ação em comparação ao primeiro – garantem alguns momentos interessantes ao espectador menos exigente. No entanto, nada disso adianta muito. PYTHON WOLF é melhor que o primeiro, mas a parte burocrática do roteiro é conduzida com pressa e mão pesada, o que torna a experiência tão sonolenta quanto o anterior.

Se considerarmos que Friedkin surgiu da televisão, aqui o formato não lhe favorece, apesar de alguns anos mais tarde ter voltado em grande estilo à TV, com a refilmagem de 12 HOMENS E UMA SENTENÇA. As cotações são as seguintes:

C.A.T. SQUAD:  2 cleef

C.A.T. SQUAD: PYTHON WOLF:  2 cleef e meio

LAS BRUJAS DE ZUGARRAMURDI (2013), Álex de la Iglesia

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O gordinho espanhol Álex de la Iglesia estava devendo um grande filme há um bocado de tempo. Qual foi o último trabalho realmente relevante do homem? Pra mim foi CRIME FERPEITO, de 2004, ou seja, o que aconteceu? Não sei explicar, mas embora LAS BRUJAS DE ZUGARRAMURDI não seja ainda o filme que veio para recolocar a carreira do Iglesia de volta nos trilhos, representa um pouco um retorno à boa forma, mesmo estando longe do nível de um EL DIA DE LA BESTIA ou PERDITA DURANGO.

Um dos principais aspectos da queda de qualidade dos últimos filmes de Iglesia me parece ser uma tendencia do sujeito a se prender num padrão pessoal de produção criativa que tem saído de seu controle. Tudo nos seus filmes tem que ser completamente absurdo, cheio de simbolismos, enfim, exagerado de todas as formas possíveis e à sua maneira, esquecendo que existe um recurso básico que poderia ajudá-lo a se conter nessa profusão de ideias onde tudo é aproveitado e inserido à força na tela. Esse recurso é conhecido como sutileza, uma palavrinha que deve ter caído do dicionário do homem.

foto-las-brujas-de-zugarramurdi-4-511No entanto, embora LAS BRUJAS DE ZUGARRAMURDI também sofra de todo esse mal, de alguma maneira os exageros e simbolismos conseguem funcionar melhor e acaba divertindo sem cansar o público, como era o caso de BALADA TRISTE DE LA TROMPETA. Na trama temos José, um pai dedicado, apesar da profissão não ser das mais exemplares para um homem nessa posição. O sujeito é um ladrão de meia-tigela e logo no início do filme decide assaltar uma loja de penhores em Madrid com seu amigo Antonio, justamente no fim de semana em que precisa cuidar do seu filho. Vale destacar que o sujeito está fantasiado dessas estátuas humanas “prateadas”, caracterizado de Jesus. Jesus Prateado…

As coisas não correm muito bem no serviço, os dois ladrões e o menino acabam sequestrando um táxi forçando o motorista a levá-los até à França. Mas acabam presos num vilarejo repleto de bruxas, que estão prestes a realizar um ritual e precisam de uma criança para um sacrifício… Oops!

foto-hugo-silva-y-mario-casas-en-las-brujas-de-zugarramurdi-3-825Pois é, material dos bons o que temos aqui. O ritmo alucinado e alguns momentos genuinamente atmosféricos também garantem que o espectador não tire os olhos da tela – e a belezinha Carolina Bang, que faz uma das bruxas, contribui bastante pra isso – mas, infelizmente, LAS BRUJAS DE ZUGARRAMURDI nunca parece atingir todo o potencial que se espera nas mãos do Iglesia. É o tipo de filme que se revela na sua falta de pretensão e tenta se garantir assim: bobo, divertido, sem qualquer risco, sem algo que realmente instigue o espectador.

É preciso elogiar, entretanto, o tratamento visual do filme, que trabalha bem a atmosfera e as cores como efeito dramático. A influência de Sam Raimi – em seus primeiros tabalhos – é evidente em vários dos elementos visuais de horror, na maneira como mistura o gênero com comédia e, especialmente, no uso de efeitos especiais num CGI meio tosco, mas que dá um charme estético interessante. Os diálogos são ágeis e engraçados e a galeria de personagens é carismática, com alguns rostos bem conhecidos do cinema espanhol, como Carmen Maura. No entanto, no fim das contas, LAS BRUJAS DE ZUGARRAMURDI não consegue passar disso, de um visual bacana com personagens simpáticos e engraçadinhos. Longe de ser ruim (e muito melhor que as comédias atuais de Hollywood), mas sempre espero mais do Iglesias.

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BLUE CHIPS (1994), William Friedkin

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por Daniel Vargas

Embora a sétima arte tenha andado de mãos dadas com o esporte desde sempre, não resta dúvidas que o sucesso (e Oscar) inesperado de Rocky em 1976 tenha sido uma espécie de divisor de águas para filmes esportivos cuja sua ascendência do final dos anos 70 até os 80-90 foi inegável. De Vale Tudo (Slap Shot, 1977), Big Wednesday (1978), Breaking Away (1979), Touro Indomável (1980) e O Campeão (The Champ, 1979), até o segundo Oscar em menos de 10 anos para um filme cuja a temática central era esporte – para Carruagens de Fogo em 81 – tivemos dos mais variados exemplos de filmes desportivos notáveis: A Chance (All the Right Moves, 1983), Karate Kid (1984), Um Homem Fora de Série (1984), Momentos Decisivos (Hoosiers, 1986), Fora da Jogada (Eight Men Out, 1988), Sorte no Amor (Bull Durham, 1988), Homens Brancos Não Sabem Enterrar (1992), Cobb (1994). Esses 3 últimos de um dos nomes mais prolíficos do gênero que obviamente entende sobre o mundo dos esportes por dentro, Ron Shelton, o roteirista de Blue Chips, que, a primeira vista, foi um dos filmes mais atípicos do Friedkin.

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Depois de 2 anos consecutivos vitoriosos, o treinador de basquete universitário Pete Bell (Nick Nolte) se vê em uma sinuca de bico depois de um ano desastroso, onde uma derrota a mais na campanha pode custar seu cargo, mostrando a volubilidade dessa carreira. Ele vai então atrás de novos talentos espalhados pelo vasto EUA, lhes prometendo uma bolsa de estudos integral na universidade em que treina, em Los Angeles. Em troca de defender a mesma no basquete, é claro. É impagável a maneira como o personagem do Nolte vai dizendo ser seguidor de uma religião diferente da outra conforme vai conhecendo as crenças e costumes das famílias de cada atleta almejado que conhece. Mas isso é até onde o treinador Pete vai em termos de malandragem e “privilégios”. Da maneira legal. Incorruptível, o treinador faz questão de salientar porquê não abre mão de jogar limpo: “Primeiro porque eu posso ser pego e perder meu emprego. Segundo porque talvez eu NÃO possa ser pego“, diz, enfático.

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Mas quando ele percebe o quão afundado em corrupção e propinas a sua profissão está, quando até um dos seus promissores atletas parecem estar mais a par disso que ele mesmo, “exigindo” uma quantia exorbitante pelo seu valor de maneira ilegal na cara dura, como se estivesse pedindo dinheiro para a merenda, ele percebe que talvez ele terá que pular sua tão adorada ética para que possa satisfazer seus empregados, usando dinheiro dos “amigos do programa” do associado do time, o inescrupuloso “Happy” (J.T. Walsh) por quem Pete mantem um desprezo notório, a fim de conseguir manter seus novos jogadores, obter melhores resultados e se manter empregado. E aí que o roteiro de Shelton se destaca tanto ao sair da mesmice dos filmes sobre esporte onde o interesse maior foca em quem vai terminar ganhando a competição. Aqui o embate ético é o mais importante. Aliado a diálogos realistas de esquemas táticos e cenas documentais, que às vezes nos fazem pensar que estamos vendo de fato bastidores de jogos (a presença de jogadores reais de basquete como Shaquille O’Neal como um dos novos talentos de Pete e cenas memoráveis de jogos de basquete ajudam demais a sensação de um filme que parece ter propriedade no que fala).

E quando finalmente os podres desse combinado fraudulento começam a sair pelo ventilador, nós vemos a mão do Friedkin que transforma um filme sobre esportes em um thriller psicológico sobre morais e ética. Pete vai descobrindo pouco a pouco o quão seu rabo já estava preso a esses esquemas ilícitos sem ele ao menos saber, o levando a questionar até mesmos suas conquistas passadas e os nomes dos seus jogadores em quem ele mais confiava. Apesar de separados, sua ex-mulher Jenny Bell (Mary McDonnell) parece ser sua aliada mais do que nunca, chegando a ser tutora de vários de seus atletas. Totalmente avessa as maracutaias da profissão, ela se decepciona depois que percebe que Pete se deixou levar em nome da vitória. Agora ele desacreditado pelas pessoas que ama e por si mesmo, precisa chegar a uma conclusão final onde o jogo principal será a reconquista de seu caráter. Onde ele em seu discurso final apoteótico parece mesmo decidido a resgatar. Mesmo que custe sua carreira profissional para sempre.

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Vale destacar sozinha a performance do Nolte, que é coisa de louco. Entregue ao papel de uma maneira assombrosa, ele parece ser seguidor da linha dura Muricy Ramalho da filosofia “aqui é trabalho, meu filho” em volume máximo. Muito se fala de Al Pacino em Any Given Sunday (1999) quando pegam referências de treinadores linha dura no cinema, que esbravejam, xingam, chutam e dão discursos espetaculares e motivadores, mas o trabalho de Nolte nesse quesito me parece superior. E um pouco mais sutil, apesar de igualmente feroz. Seu andar sempre curvado, endurecido, com os largos braços caídos, a confrontação direta com os árbitros, há milésimos de chegar as vias de fato. Em uma cena, ele pega a bola de basquete de um auxiliar e chuta para arquibancada, talvez até mesmo para que impeça de fazer o mesmo com um ser humano. Em outra cena, depois da derrota do seu time, ele entra no vestiário já bufando, jogando a roupa dos jogadores do vestiário no chão enquanto re-afirma o quão desgostoso ele está com eles. Sai do vestiário, apenas para voltar segundos depois e continuar o sermão, finalizando ao tacar um galão de água na parede, deixando todos no vestiário pasmos ao sair pela segunda vez, apenas para voltar uma terceira para uma discussão aparentemente mais “calma e intimista”, onde ele pega uma cadeira e desabafa sentado frente a seus jogadores o quanto o basquete o estava desgastando. A que ao final do terceiro discurso, a mesma cadeira acaba virando alvo da sua fúria também. Uma cena perto de parecer excessiva, mas que é fundamental para entendermos a paixão obsessiva do personagem central por seu trabalho. Um trabalho primoroso de Nolte que para mim equivale a uma das suas 5 melhores atuações. O que em termos do que Nolte já fez, não é pouco.

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KILLER JOE – MATADOR DE ALUGUEL (Killer Joe, 2011), William Friedkin

tumblr_inline_nah122uEW91sk0n7opor Otavio Pereira

Killer Joe – Matador de Aluguel foi lançado no ano de 2011, mas só chegou ao Brasil no começo de 2013 e o mais interessante é que foi parar nas salas de cinema. Cinco anos se passaram desde o último longa-metragem de William Friedkin, intitulado Possuídos, de 2006. Neste intervalo, o diretor realizou três trabalhos, dois no ano de 2007, são eles: The Painter’s Voice, curta documentário em vídeo, e o episódio nove da oitava temporada de CSI: Investigação Criminal intitulado Cockroaches. Em 2009 voltaria a dirigir um episódio de CSI, desta vez para nona temporada, sendo o episódio dezoito que se chamou Máscara. Retornando a parceria com Tracy Letts, onde trabalharam no subestimado Possuídos, Friedkin adapta de forma magistral o que originalmente seria uma peça de teatro. Possuindo grande força narrativa Killer Joe é um suspense policial tenso, com início cativante e final desconcertante.

tumblr_n73lbh8jQn1qa7aslo1_500Na trama temos Chris Smith (Emile Hirsch), um verdadeiro perdedor que no desespero de arranjar dinheiro para pagar suas dívidas convence seu pai Ansel Smith (Thomas Haden Church) a contratar um assassino profissional para dar um fim em sua mãe e assim abocanhar o dinheiro do seguro. Só que para executar o trabalho o assassino Killer Joe Cooper (Matthew McConaughey) precisa receber o pagamento adiantando, como não possui um centavo sequer, acaba dando como garantia sua jovem irmã Dottie Smith (Juno Temple).

A partir desta premissa já vemos o que o dinheiro é capaz de fazer com o ser humano. Com o decorrer do filme, que mescla boas doses de humor negro e violência, as situações criadas para desenvolver a trama e as personagens, com destaque para Killer Joe Cooper, culminam em uma catarse impactante de violência psicológica e humilhação, com boas doses de sadismo e psicopatia. Tudo sendo mostrado de forma impressionante e, para muitos, indigestas. Além da excelente direção, temos ótimas atuações, com destaque para Matthew McConaughey que assusta quando entra em cena, mas não posso esquecer de falar da fotografia, esta que possui detalhes saturados em certos planos a destaques fortes em ambientes fechados. Em resumo, mais um excelente trabalho de William Friedkin que sempre nos deixa pensativos ao final de seus filmes.

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CAÇADO (The Hunted, 2003), William Friedkin

tumblr_inline_n91weq5xMf1sk0n7opor Leandro Caraça

Em Caçado, de 2003, Aaron Hallam (Benicio Del Toro) é uma máquina de matar descontrolada, um militar super-treinado que surta durante uma operação na Guerra da Bósnia e desaparece. Semanas depois, na fronteira dos EUA com o Canadá ele mata dois homens que estavam caçando na floresta. Para capturar Aaron, o FBI pede ajuda a L.T. Bonham (Tommy Lee Jones), aposentado instrutor militar que ensinou a Aaron tudo o que ele sabe. O que se seguirá a partir de então, é um vigoroso jogo de caça e presa entre dois homens preparados para matar. Quantos cadáveres ficarão pelo caminho até Aaron ser capturado ou morto?

Após Regras do Jogo (2000), Friedkin volta a trabalhar com Tommy Lee Jones e conduz com precisão e sobriedade um dos mais puros filmes de ação do começo do milênio. Pode-se dizer, erroneamente, que Jones está repetindo o mesmo tipo de papel que se acostumou a fazer depois de O Fugitivo (1993) e que tudo não passa de uma cópia de Rambo – Programado Para Matar (1982). Ainda que tais comparações sejam pertinentes, Caçado tem uma identidade própria, coisa que Friedkin consegue imprimir desde o início.

huntedDel Toro é claramente uma ameaça para todos que se aproximam dele e fica claro que somente sua morte colocará um ponto final nisso. Jones por sua vez, é um homem que se ausentou da sociedade, vivendo isolado numa cabana nas florestas do Canadá. Só aceita a missão porque sabe o quão letal é Aaron. Precisa então matar o melhor aluno que já teve. Em certo momento perto do fim, é revelado que Bonham deixou de manter contato com Aaron, o que pode ter ajudado na descida à loucura deste.

Sem muito traquejo e com capacidades de rastreamento dignas de um animal, Jones é retratado como um cruzamento entre Charles Bronson e Wolverine. Seus embates com Del Toro são o ponto máximo de um filme que não perde tempo com amenidades. Não existe, por exemplo, a obrigatória trama amorosa entre Jones e a agente do FBI interpretada por Connie Nielsen. Sem firulas e repleto de ação, Caçado é o melhor filme de Friedkin desde Viver e Morrer em Los Angeles (1985).

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JADE (1995), William Friedkin

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por Bruno Martino

Jade é, basicamente, um cine privé com alto orçamento. Substitua Linda Fiorentino por Shannon Tweed e David Caruso por Andrew Stevens que teríamos a sessão erótica perfeita pros sábados de madrugada. Isso é ruim? Depende do seu ponto de vista. É decepcionante pelo fato de quem dirige é William Friedkin, talvez não seria se fosse um Jim Winorsky ou Fred Olen Ray. Mesmo assim não deixa de ser um bom filme, claro, aquém de outras obras do diretor.

David Caruso é Corelli, um detetive que se vê numa trama de assassinato onde estão envolvidos o governador (Richard Crenna), uma psicóloga que é um antigo amor do passado (Linda Fiorentino) e o atual marido dela e melhor amigo de Corelli, o advogado Matt (Chazz Palminteri). E aí que traições, chantagem, assassinatos e o pau comem solto (metafórica e biblicamente falando). Lembra tanto o grande sucesso Instinto Selvagem que a história chega a parecer uma reciclagem. Marque aí: Um assassinato sangrento, uma mulher sedutora sendo acusada, tentativas de assassinato ao detetive, etc. Só que no quesito putaria perde feio já que são poucas as cenas quentes do filme. Co-estrelam a bela Angie Everhart (o que dá ainda mais um ar de cine prive à coisa toda), Victor Wong em uma ponta, e o sempre competente Michael Biehn no clássico arquétipo do policial pé-no-saco. David Caruso manda bem como o policial gamado na mulher problema de Linda Fiorentino, chegando a desenvolver certas nuances interessantes do personagem, quem diria que ele acabaria como detetive inexpressivo de CSI:Miami? Aliás foi devido ao fracasso de Jade e de O Beijo da Morte que Caruso voltou pra TV dando um tempo na malfadada incursão no Cinema.

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Escrito por Joe Esterhas o mesmo de Instinto Selvagem, o que explica as várias semelhanças, o roteiro foi tão mudado por Friedkin que o roteirista pensou até em tirar o nome dos créditos. Apesar dos pesares, a história mesmo sendo frouxa consegue prender e o filme conta com vários clichês do cinema de Friedkin. Sim, temos uma boa perseguição de carros que mesmo não sendo tão clássica como a de Operação França ou Viver e Morrer em LA, não faz feio. E é impressionante como Friedkin consegue fazer suspense com uma perseguição de carros em baixa velocidade, quando os mesmos ficam impossibilitados de correr devido a uma parada de Ano Novo no bairro chinês. Vale ressaltar também uma das mais chocantes cenas de atropelamento já filmadas.

Vale a pena dar uma bizoiada em Jade, mesmo não sendo a última bolacha do pacote na filmografia de Friedkin mostra que o homem consegue tirar leite até de pedra.

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A ÁRVORE DA MALDIÇÃO (The Guardian, 1990), William Friedkin

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por Leandro Caraça

William Friedkin confessou ter realizado este filme de terror como um favor para o produtor Joe Wizan. A Árvore da Maldição não tem destaque dentro da rica filmografia do cineasta, e na época no lançamento, conseguiu pouca atenção. Às vezes parece que o diretor está parodiando a si mesmo, pois se em O Exorcista ele fez Linda Blair vomitar uma gosma verde, agora Friedkin mostra uma árvore maligna que esguicha litros e litros de sangue ao ser cortada.

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O drama do casal que, sem desconfiar, acaba contratando uma bruxa druida como babá do seu filho, nunca atinge os patamares dos grandes filmes de Friedkin. Os diálogos são rotineiros e o próprio roteiro parece que foi escrito a toque de caixa, o que vai gerar momentos indignos de alguém do calibre do diretor de Operação França. Se por um lado, a bruxa Camilla – interpretada pela inglesa Jenny Seagrove – se apresenta como uma ótima (e sensual) vilã, por outro temos um Miguel Ferrer desperdiçado como um coadjuvante qualquer. E o comediante Brad Hall, que chegou a fazer parte do programa Saturday Night Live na primeira metade dos anos 80, tem mais tempo em cena do que o recomendável.

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Ainda que Friedkin estivesse em sua fase mais complicada e o filme passe longe de ser uma produção de primeira linha, o diretor consegue manter as coisas nos eixos. Nas cenas de suspense e horror é quando ele se solta mais, dando vazão ao exagero que o filme pedia. Bem dirigidas e montadas, as sequências de maior violência tornam A Árvore da Maldição em um filme acima da média. A criatura título, uma árvore que se alimenta das almas de bebês e que também gosta de destroçar corpos de seres adultos, traz o encanto de uma época em que os monstros animatrônicos estavam em alta. Não deixa de ser um razoável exemplar do gênero, valendo mais pelos momentos em que William Friedkin oferece aquilo que o público mais quer ver. Litros e litros de sangue.

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