O Vento e o Leão (The Wind and the Lion, 1975), John Milius

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por Ronald Perrone

A estreia na direção de John Milius já era um tanto ambiciosa. Dillinger (73) era uma bela e classicista obra sobre a vida do lendário assaltante americano dos anos 30, John Dillinger, vivido por Warren Oates. Para seu segundo trabalho, no entanto, o diretor resolveu aumentar o nível de dificuldade, pretensão e grandiosidade na concepção de um novo filme.

Não que O Vento e o Leão consiga ser melhor que o seu trabalho anterior – bem, pelo menos eu prefiro Dillinger – mas Milius escreve aqui uma história de aventura de proporções épicas para a época, que transcorre pelas areias do deserto marroquino, inserindo um tom político que lhe é característico, filmou batalhas espetaculares e dirigiu atores em inspiradas interpretações. O resultado não deixa de ser uma belíssima peça cinematográfica, bem definido pelo compañero Leandro Caraça,como o Lawrence da Arábia de John Milius.

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Eden Pedecaris (Candice Bergen), americana que vive no Marrocos no início do século passado, é sequestrada juntamente com seu casal de filhos por Raisuli (o escocês Sean Connery), líder de um grupo rebelde, cujo desígnio de tal ato é apenas provocar o sultão, que anda fazendo concessões para os estrangeiros que cada vez mais invadem o país.

Já nos Estados Unidos, o presidente Theodore Roosevelt (Brian Keith), tentando a reeleição, toma conhecimento do ocorrido e aproveita o fato como discurso para sua campanha, além de efetivamente agir com a decisão de intervir militarmente até que a americana seja liberta. Embora acabe gerando esse conflito diplomático, a aproximação de Eden e Raisuli é uma descoberta de dois mundos buscando a compreensão mútua. Ela deixa de enxergá-lo como um malfeitor e passa a admirá-lo como um homem de ideais.

windlion3A questão da política americana retratada por Milius é um ponto forte e não deixa de ser bastante atual. Difícil encontrar filmes que sejam tão claros ao apontar os Estados Unidos como o país imperialista e intervencionista que realmente é e sempre foi. Além de tocar na ferida explicitamente, quase todas as seqüências com Brian Keith possuem elementos metafóricos que abrem algumas janelas para a reflexão neste sentido, até porque Milius não faz uma crítica. Apenas trabalha os fatos como ponto de partida para a reflexão. E tendo em vista o posicionamento político do diretor, é bem capaz de que ele fosse a favor das atitudes do governante americano…

Para o elenco, inicialmente, Feye Dunaway era a escolha para viver Éden Pedecaris, mas acabou ficando mesmo com a belíssima Candice Bergen, que já havia interpretado uma personagem similar no excelente Caçada Sádica (71), de Don Medford. Na trama, que se passa no velho oeste americano, Oliver Reed é um bandido que sequestra a mulher de Gene Hackman, interpretada por Bergen. Da mesma maneira, o sequestro serve de ponte para novas descobertas e transformações.

windlion4Sean Connery, sempre muito carismático, convence tranquilamente como líder árabe, desbancando outros grandes atores como Omar Sharif e Anthony Quinn, ambos cotados para papel. Vários interpretes têm seus momentos de brilho. O diretor John Huston, por exemplo, numa modesta participação como conselheiro de Roosevelt deixa sua marca, mas é Brian Keith quem rouba a cena como o presidente americano em uma atuação expressiva e digna de nota.

Milius ainda separa um tempo precioso para impressionantes cenas de ação – especialmente na batalha explosiva que acontece ao final, magistralmente conduzida, editada e reforçada com belíssima trilha de Jerry Goldsmith – e para o humor, bastante sóbrio, com o personagem de Connery. No fim das contas, O Vento e o Leão consegue, ao mesmo tempo, ser uma complexa alegoria e uma grande diversão.

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4 thoughts on “O Vento e o Leão (The Wind and the Lion, 1975), John Milius

  1. O Dillinger eu assisti – aliás, está vindo uma nova versão por aí, do mestre Michael Mann -, já esse O Vento e o Leão não conhecia. Fiquei interessado. E tem gente que diz que o Sean Connery só foi na vida 007? Foi procurar… Esse clima Lawrence da Arábia me agrada muito.

  2. Cara, vi esse filme há um tempão na televisão aberta. Com certeza, há mais de dez anos. Na época não curti muito, mas tô louco pra rever.

  3. Sem duvida um dos grandes épicos dos anos 70 do mestre Millius.
    uma obra genial com atuações grandiosas. AInda bem que vi na tela grande.
    Ao lado de O Homem que queria ser Rei, com o mesmo Connery, uma aventura maravilhosa.
    Não esquecer que Connery nos anos 70 fez ainda outra aventura esplendorosa, Robin e Marian, com um duelo de espada no final com nada mais nada menos com Robert Shaw.
    O cinema dos anos 70 foi o maior de todos os tempos.

  4. Parabéns pela lembrança de O vento e o Leão. Assisti este filme na televisão e me lembro que fiquei impressionado…claramente uma crítica aberta ao imperialismo estadunidense. Tem uma cena fantástica onde o Roosevelt diz que o símbolo dos EUA não deveria ser aquela águia …mas um urso, forte e ameaçador, pronto para pisar em qualquer um…grande filme!
    RAFAEL HQ.

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