Conan, O Bárbaro (Conan the Barbarian, 1982), John Milius

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A história de Conan gerou uma saga dentro e fora das telas. As origens do projeto datam de 1977, quando o produtor Edward R. Pressman, impressionado pela presença de Arnold Schwarzenneger em Pumping Iron, decidiu materializar o guerreiro cimério criado por Robert E. Howard. Depois de muito tempo, após o projeto ser recusado por diretores como Alan Parker e Ridley Scott, acabou vendido a Dino De Laurentis, que indicou John Milius para reescrever o roteiro e dirigi-lo. Somente cinco anos depois de concebido, o projeto Conan tornaria realidade.

Como aço bruto: Conan aprende a arte da guerra como gladiador

Como aço bruto: Conan aprende a arte da guerra como gladiador

Logo nos primeiros minutos, o narrador anuncia que esta seria uma “história de pesar”. O filme começa com Conan ainda criança assistindo toda sua vila ser exterminada por uma horda de guerreiros. Seu misterioso líder toma a espada de seu pai e decapita sua mãe. Conan é então levado a um lugar ermo, onde se encontra a “roda da aflição”, uma espécie de moinho de trabalhos forçados. Em uma belíssima sequência, vemos o garoto transformar-se em homem, único sobrevivente de uma geração de escravos, até que finalmente é vendido para um homem que o transforma em gladiador. Seu êxito diante de seus oponentes lhe confere benefícios dignos dos maiores guerreiros, como treinamento com grandes mestres orientais e acesso à literatura. Já um grande guerreiro, Conan é libertado por seu senhor, e ele então parte em busca do enigma do aço – o segredo roubado do deus Crom em tempos imemoriais – e dos responsáveis pelo massacre de seu povo. Com a ajuda do arqueiro Subotai (Gerry Lopes) e a bela Valeria (Sandahl Bergman), Conan descobre que o assassino de seus pais é o maligno Tulsa Doom, o sacerdote de um culto de fanáticos que mantém a filha de um rei (Max Von Sidow) em seu poder. Agora Conan deve resgatar a filha do rei Osric e vingar a morte de seu povo.

Da esq. para a dir.: Subotai, Conan e Valeria ouvem uma proposta irrecusável na corte do rei Osric

Da esq. para a dir.: Subotai, Conan e Valeria ouvem uma proposta irrecusável na corte do rei Osric

O roteiro inicial escrito por Oliver Stone talvez fosse mais fiel ao universo fantástico de Howard, repleto de monstros, bruxas e criaturas mutantes. Mas Milius resolveu seguir por outro caminho, ambientando a história em uma época primitiva que poderia muito bem ter existido e, portanto, mais verossímil. Ainda que exista um tom fantástico no filme, ele sempre está sob uma perspectiva mais humana que sobrenatural. Os personagens não convivem de forma natural com a magia, mas reagem à ela com assombro e violência.

O maligno Tulsa Doom realizando lavagem cerebral em seus seguidores

O maligno Tulsa Doom realizando lavagem cerebral em seus seguidores

Extremamente violento, a tragetória do guerreiro cimério é análoga ao enigma do aço que ele tanto almeja descobrir. Como nos vários estágios de confecção de uma espada, Conan é forjado pela brutalidade de um mundo primitivo até se tornar um guerreiro imbatível. É a frase de Nietzche apresentada no início do filme: “o que não nos mata, nos torna mais fortes”. Assim, a resposta ao enigma se dá como no processo de individuação Junguiano: pelo autoconhecimento.

Conan mostra a que veio ao invadir o palácio de Doom

Conan mostra a que veio ao invadir o palácio de Doom

A excelência deste filme se deve à perfeita combinação de todos os seus elementos. Milius dirige com maestria, tirando o máximo dos atores e sempre apontando a câmera para o lugar certo, extraindo o essencial de cada cena para devolvê-las ao espectador com a mesma intensidade de uma obra-prima renascentista. Os magníficos cenários de Ron Cobb dialogam com perfeição com as locações espanholas, que emolduradas pela magistral trilha de Basil Poledouris – uma das mais belas e impressionantes já compostas no cinema – acabam por atuar como personagens essenciais à condução da narrativa.

Conan reza a Crom antes de sua última batalha contra os soldados de Tulsa Doom

Conan reza a Crom antes de sua última batalha contra os soldados de Tulsa Doom

Conan é um épico subestimado; um filme grandioso e memorável, mas colocado em segundo plano na história do cinema, sem nunca ter sido reconhecido por seu verdadeiro valor. Talvez isso seja simplesmente pelo fato de ser um filme à frente de seu tempo. Tal como no final do filme, onde temos a promessa de ver um Conan-Rei, fica a expectativa de que algum dia seja reconhecido como um dos maiores épicos já realizados no cinema.

5

Leopoldo Tauffenbach

25 thoughts on “Conan, O Bárbaro (Conan the Barbarian, 1982), John Milius

  1. Caro Leopoldo:

    Exelente texto.

    Uma curiosidade que posso completar, como aluno fiel das aulas de moral e ética do Conan e sua espada selvagem (tenho toda a coleção de HQs) é que houve um roteiro produzido na década de 1930 com a participação direta do Robert E. Howard.

    O roteiro e os esbolços de cenas (um draft do que seria o story board) foram publicados numa edição (122 ou 127 se não me engano).

    Era um roteiro infinitamente superior em complexidade e muito mais fiel aos contos do Conan.

    Com o suicídio do Robert E. Howard o projeto foi engavetado até o John Milius.

    Tive o prazer de ajudar a edição dos contos do Robert E. Howard sobre o cimério na Conrad. Recomendo a leitura.

    Saudações barbaras,

    E que Crom chute sua bunda!

  2. E agora com o Marcus Nispel escalado para fazer o remake/nova versão, o negócio é rever “Conan, o Bárbaro” pela ducentésima vigésima nona vez”.

  3. “O roteiro inicial escrito por Oliver Stone talvez fosse mais fiel ao universo fantástico de Howard, repleto de monstros, bruxas e criaturas mutantes.”

    Para provar que que manter o material original nem sempre ajuda o filme. Watchmen foi fiel a obra e foi um saco. Agora teria sido interessante ver a versão do Stone.

    E pra mim Conan é um dos maiores e melhores épicos da história do cinema, pau a pau com qualquer Lean, Leone e Boorman, sendo considerado o mesmo por muitos ou não. Engraçado q na minha época era considerado apenas como “O filme q deu incío ao estrelato do Arnie” e nada mais, e ano a ano foi ganhando mais notoriedade.

    • Pois é… mas curiosamente foi o que tentaram fazer em “Conan, o Destruidor” e ficou bobo. Pra mim, a parte mais interessante do projeto de Stone é que eram para ser 12 filmes, algo como a série de James Bond, onde todo o ano teríamos uma nova aventura. Isso sim teria sido interessantíssimo.

  4. Ficou bobo porque o Dino de Laurentis quis infantilizar a trama e não porque o filme procurou ser “mais fiel”. E para mim, “Conan, o Bárbaro” é extremamente fiel aos escritos de Howard, pelo menos quanto a ambientação – Conan jamais rezaria para Crom, por exemplo. Nos livros, ninguém encara a magia como a coisa mais normal do mundo, exceto feiticeiros e demônios. Inclusive, a magia é a única coisa que faz o cimério ter receio.

  5. Eu gosto tanto desse filme que decorei toda a oração à Crom e com sotaque austríaco ainda por cima! :P
    Gosto até do “Destruidor” guardando as devidas proporções, gostei da história mais fantasiosa.

    Vejam como é a vida! Hoje em dia qualquer filmeco tem orçamento de 200 milhões e é praticamente moleza filmar o roteiro mega épico do Oliver Stone que na época não dava pra filmar. Mas há um diferencial, não há muitos diretores machos como o John Milius. Como dizia aquela raposinha: “Oh vida! Oh ceus, oh azar!”

  6. Eu também gosto do “Destruidor”. Na verdade gosto até do “Guerreiros de Fogo”! Tem o Schwarza e o Ernie Reyes Jr., dois de meus ídolos de infância, lutando lado a lado!

  7. Amigos

    Um dos melhores filmes da década de 70 pra mim foi o Big Wednesday. E olha que é uma década dificil. Sendo assim, afirmo estar ansioso para ver quem vai escrever deste filme. Poderiam me adiantar quem ficou com a tutela de um dos melhores filmes de guerra sem mostrar guerra?

  8. Eu gosto mais de Guerreiros de Fogo do que de Destruídor! Por mais herege que isso possa parecer para alguns…

  9. Eu também prefiro “Guerreiros”. Não só porque vi nos cinemas, mas também porque eu só gosto de uns dois ou três momentos do “Destruidor”.

    Sabiam que o moleque de “Guerreiros” fez uma ponta como um daqueles protetores do cemitério do último Indiana Jones ?

    • É o sujeito que baixa o cacete no Shia LeBouf.
      Ele apresenta um programa chamado Final Fu (Desafio das Lutas, passa no Multishow). Eu me amarro nele desde aquele seriado, o pequeno mestre. A participação dele no Último Dragão (que também deve ser refilmado…) também é dez!

    • Opa, não tinha visto a pergunta, Vébis. Na verdade tivemos um pequeno contratempo e eu vou escrever algumas palavras, nada de muito aprofundado, mas espero não te decepcionar, porque o filme é realmente muito bom!

      Abraço!

  10. Ernie Reyes JR também fez um “brasileiro” no BEM VINDO À SELVA (” Euu vôo ti quebrá” hahaha) e claro, foi o sidekick das Tartarugas Ninja na parte 2. Tenho maior saudade desse seriado dele!

    Revi Guerreiros do Fogo porque eu estava remasterizando com a dublagem clássica e vi que continua um guilty pleasure, mas o filme tem muitas coisas legais. Aquelas paisagens que a gente não vê mais nos filmes de hoje em dia, e o personagem do Ernie que é bem engraçado. E a trilha do Morricone não é tão ruim quanto eu pensava.

    • A participação dele no “Bem Vindo a Selva” é um barato. Aliás, vi um filme dele recentemente na locadora, Red Canvas. Deve ser Bzão, mas sem dúvida que conferirei.

  11. Ouvir a trilha sonora é uma aula de construção temática além de me remeter aquele universo é de arrpiar o que a mente constrói, pena que no brasil ainda se tenha a idéia absurda de que só os clássicos são tocáveis… Mas como admirador de épicos Conan é Conan! Porém sei o que fizeram como Jason… E Arnold S. é seu representante! Como Lou Ferrigno é o Hulk! Esse blog é muito bom!! só li coisa boa!!

  12. Conan jamais rezaria para crom, mas acontece que por desespero de ver sua amada valeria morta, por amor ele rezou mesmo sabendo que crom não ouviria, foi uma ultima esperança do bárbaro. As vezes temos que ver um filme e tirar concluzoes imaginativas pois filmes são verdadeiramente assim, fantasia. Espero que façam outros filmes com este, que pra mim, foi o melhor personagem criado em todos os tempos.

  13. Curiosidade: Milius Big Rider

    “Conan o Bárbaro” foi o filme que marcou minha infância e pelo pouco reconhecimento dessa obra prima, como anteriormente descrito, não o vi mais por um bom tempo. Quando vi pela primeira vez em uma locadora na adolescência tratei de locar, nesta época, viciado em HQs do Conan e em surf, estranhei a imagem de “Subotai” e sua assombrosa semelhança com um dos melhores surfistas Havaianos de todos os tempo, Gary Lopes, o Mr Pipeline, e não é que era! Descobri também que Gary e Milius são chegados, pois ambos são surfistas! hahaha. Olha só e em pensar que a “gun” preferida do diretor era uma prancha para surfar em Waimea deduzi que ele poderia até fazer o Conan rei com ele mesmo no papel, hahah. surf Big Rider é coisa de barbaro!
    Ps. Gary Lopes acabou aparecendo em outros filmes, faz uma participação especial em “Surf no Havai”, por exemplo.
    Ps 2. Não é de se estranhar que Milius adapte tão bem um filme de guerra com cenas de surf em “Big wednesday”.

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