Perdita Durango (1997), Álex de la Iglesia

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Após o sucesso de seus dois longas iniciais, Álex de la Iglesia estava pronto para deixar de ser um nome cultuado e se firmar enfim como um dos principais cineastas da nova geração espanhola. Nesta co-produção internacional – e sua primeira falada em inglês – ele abraçou a obra do escritor Barry Gifford, que já havia sido levado às telas anos antes por David Lynch em Coração Selvagem. Ambientado no mesmo universo mas cronologicamente anterior, Perdita Durango não traz o surrealismo perverso do criador de Twin Peaks. No lugar aparece a irreverência e o humor negro típicos de Iglesia. Se em Coração Selvagem, a personagem de Perdita ganhou as formas de Isabella Rosselini, aqui é Rosie Pérez (no melhor papel de toda sua carreira) quem dá vida a uma andarilha violenta e amoral. Pior do que ela apenas Romeo Dolorosa, um perigoso psicopata com real fixação pelo clássico Vera Cruz de Robert Aldrich. Ocupando o seu tempo ocioso com assaltos a banco e rituais satânicos para turista ver (com direito a desmembramentos de cadáver), Dolorosa encontra a sua cara metade em Perdita Durango. Vivido por Javier Bardem, que já era um sex symbol graças as colaborações com o diretor catalão Bigas Luna, o criminoso é de longe a figura mais carismática de todo o filme.

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As situações grotescas mostradas por Álex de la Iglesia resultaram em vários minutos de cortes impostos. E como prova de que a mente dos censores não possui muita lógica, até mesmo a bela conclusão que homenageia Vera Cruz acabou podada da maioria das versões internacionais. Felizmente aquela que chegou aos cinemas brasileiros estava completa. Nada mais óbvio o filme ser enquadrado na caretíssima década de noventa. Além dos já citados rituais de magia negra, temos fortes sequências de sexo e violência, adolescentes torturados, pedofilia infantil e contrabando de fetos com propósitos cosméticos. Todos esses momentos brutais acabam sendo contrabalanceados com o toque pessoal do diretor e o talento do elenco escalado. Temos as participações mais do que especiais de Santiago Segura, do diretor Alex Cox, do lendário Screamin’ Jay Hawkins, e de James Gandolfini (antes de estourar com a Família Soprano) que aparece como o dedicado agente Dumas. Os acidentes que sofre durante o filme acabam por compará-lo com o azarado Coiote dos desenhos do Papa-Léguas. Apesar de construir uma filmografia de respeito com o passar dos anos, foram poucas as vezes em que Álex de la Iglesia conseguiu repetir a excelência alcançada em Perdita Durango. Em tempos em que o termo cult perdeu boa parte do seu significado, esta obra resgata todo o valor e encanto daquelas maravilhas cinematográficas que não podem ser diminuídas com o suposto bom gosto de quem se acha apto para julgá-las.

4,5

Leandro Caraça

5 thoughts on “Perdita Durango (1997), Álex de la Iglesia

  1. “Onde os fracos não tem vez”!!!??? Que nada!!! O maior personagem de Javier Barden é o antológico Romeo Dolorosa. Espetacular.

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