Sid & Nancy (1986), Alex Cox

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A primeira vez que assisti Sid & Nancy foi no início dos anos 90, já quase 10 anos depois do lançamento do filme e mais ou menos 15 anos depois da morte de Sid Vicious. Na época, estava fascinado por Sex Pistols, The Clash, Ramones e Dead Kennedys, e assistir ao filme vinha como um movimento natural na minha incessante busca pelas referências do legado cultural do punk. Mas alguma coisa não caiu muito bem. O filme não parecia combinar com as histórias que eu lia, os documentários que eu assistia e a música que eu ouvia.

Agora em 2009, ou seja, 30 anos após a morte de Vicious e quase 25 anos depois do seu lançamento, fui rever Sid & Nancy para escrever esta humilde resenha. Para minha surpresa, consegui identificar qual a origem daquele sentimento de estranheza que se abateu sobre este pobre pesquisador há mais de 15 anos: Sid & Nancy é um típico produto dos anos 80; logo é um filme datado.

O punk dos anos 70 sob a ótica dos anos 80: datado.

O punk dos anos 70 sob a ótica dos anos 80: datado.

Antes que os leitores mais emotivos comecem a espumar de ódio , amaldiçoando a pobre família deste que vos fala, vamos deixar algumas coisas mais claras. É fato que o filme não foi feito nos anos 70, e se assim fosse, seria completamente diferente. Para mim, os anos 80 sempre soaram como uma época extremamente indefinida (a ponto de ter virado cult nos anos 2000 por pura falta de compreensão até agora). Tinha Guerra Fria, Reagan, Tatcher e Gorbachev; tinha yuppies completamente à vontade e hippies que ainda não tinham se tocado que o sonho tinha acabado; tinha discoteca metamorfoseada em algo medonho e entupido de gel com glitter. Mas tudo isso parecia muito frágil e transitório (ou seria melhor dizer efêmero?), e não definia nada. Era, de fato, uma época desesperadora. E isso aparece no filme. O desespero na qual Sid e Nancy vivem imersos é extremamente condizente com os anos 80. Se analisarmos por essa perspectiva, o trágico fim do casal representa também o trágico fim de uma era de grande produção cultural, que só iria dar sinais de recuperação parcial na década seguinte.

Sid e Nancy se acabando pelas drogas: a metáfora da destruição do legado cultural dos anos 70.

Sid e Nancy se acabando pelas drogas: a metáfora da destruição do legado cultural dos anos 70.

A clássica cena do beijo, uma das muitas imagens memoráveis registradas por Cox.

A clássica cena do beijo, uma das muitas imagens memoráveis registradas por Cox.

Nada disso quer dizer que o filme de Alex Cox seja ruim. É uma das melhores coisas produzidas no período em matéria de cinema. E volto a dizer, um representante legítimo do seu período. Mesmo focado no cenário punk, Cox produz imagens belíssimas, como a famosa cena do beijo de Sid e Nancy em um beco com uma chuva de lixo, que nada têm a ver com aquela estética do fuck it, pichações sujas e alfinetes para todos os lados. A história é conduzida de maneira regular, sem grandes inovações narrativas, mas com muita eficiência. E claro, Gary Oldman está magnífico, como sempre. Se até agora os mais céticos não se convenceram a assistir o filme diante de nenhum dos argumentos apresentados aqui, então que o façam por Gary Oldman. Satisfação garantida.

Na filmografia de Cox, Sid & Nancy casa muito bem com Repo Man, mas está bem distante de Walker e O Patrulheiro em termos de cinema. Assista ao filme e depois vá ouvir os Sex Pistols originais. Em vinil, de preferência.

3Leopoldo Tauffenbach

6 thoughts on “Sid & Nancy (1986), Alex Cox

  1. Ainda não assissti e fiquei com muita vontade depois de ler seu texto.
    Concordo com você que os anos 80 foi um cenário triste para os movimentos surgidos nos anos 70, mesmo com o pop em alta para o metal e o eletronico underground os anos 80 valeu a pena… de resto é algo muito fraco e de apelo visual.

  2. Caro Leopoldo, também assisti o filme na mesma época e sobre as mesmas circunstâncias (estava começando a me ligar no punk também, aliás ainda tenho esse link! Não tão radical quanto naquela época, of course…). Agora tenho que rever essa obra. Quanto a escutar os Pistols em vinil… Comigo já não rola faz tempo… Pois um filha da puta robou meu LP do Nevermind The Bollocks em meados dos anos 90… Shit!!!

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