Walker (1987), Alex Cox

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Sinopse: Em meados do século XIX, William Walker, americano bastante popular por ter tentado anexar o México aos Estados Unidos, alia-se a uma das facções da guerra civil que assolava a Nicarágua. Aos poucos, as intenções e objetivos de Walker vão ficando mais claros, quando ele mesmo promove um golpe de estado e se declara presidente.

Comentários: A partir dos anos 60, não foram poucos os filmes que tentaram apresentar um outro olhar sobre a conquista do oeste americano. O Pequeno Grande Homem e Um Homem Chamado Cavalo tentavam dar voz aos índios e até mesmo John Ford iria relativizar a bravura indômita do cowboy em Cheyenne Autumn. A mitologia do western era questionada dentro do próprio país, enquanto era revisada e reescrita na Itália.

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Mas foi preciso esperar mais tempo para que a imagem do cowboy fosse aplicada explicitamente à política intervencionista americana. Alex Cox, diretor de Walker, sabia que o cowboy americano não se limitou a matar índios dentro de seu próprio território. Para além do oeste, queria conquistar outras lugares, principalmente ao sul.

Cox, diretor inglês que foi estudar cinema nos Estados Unidos, tornou-se cult nos anos 80 após cruzar ladrões de carro e alienígenas em Repo Man (1984), colocar Sid Vicious e Nancy Spungen como protagonistas de uma bela e estranha história de amor em Sid e Nancy (1986) e fazer a mistura de faroeste e policial mais estranha, pop e fuleira de todos os tempos, com Elvis Costello, Dennis Hopper, Jim Jarmuch e até Courtney Love no mesmo cul-de-sac em A Caminho do Inferno (1987). Mas ele viria mesmo acertar o alvo, em vários sentidos, com Walker.

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Estávamos no auge da era Reagan nos Estados Unidos e Thatcher na Inglaterra. Eram os anos seguintes à new wave, uma época normalmente acusada de alienada. Ao mesmo tempo, havia a revolução Sandinista na Nicarágua, louvada e apoiada por artistas vindos do punk como The Pogues e The Clash (que deu a um álbum triplo o nome do movimento). Mesmo nos Estados Unidos, Cox era ligado intimamente a essa cena – A Caminho do Inferno foi feito com as “sobras” de um projeto em prol dos Sandinistas que acabou não saindo. Estando na Nicarágua para acompanhar as eleições de 1984, Cox foi inquerido por um sandinista: se ele era um cineasta tão interessado no país, por que não fazer um filme sobre ele? Cox respondeu que cinema custava caro, mas nem ele, nem seus amigos sandinistas acharam satisfatória a resposta.

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Anos depois, graças à entrada em cena do produtor peruano Lorenzo O’Brien, Cox achou o formato ideal para um filme sobre a Nicarágua na história de William Walker, um médico e advogado de Nashville que fez fama como mercenário. A invasão da Nicarágua por Walker é um paralelo evidente com o envolvimento americano com os “contras” nos anos 80.

Produto da sua época, o cinema de Cox não é sutil, embora extremamente inteligente e com um humor bem particular. Walker começa sério, mas, à medida que o caráter demente do personagem vai se tornando mais claro, o filme também vai mostrando sua narrativa anti-naturalista, que inclui distanciamentos brechtianos (há um plano genial no filme, com um nicaraguense enterrado até o pescoço na areia, uma garrafa de coca-cola ao lado, e, ao fundo, Walker e um jornalista conversando sobre as questionáveis mudanças de posição do nosso “herói”), planos-sequências absurdos, humor negro nos momentos mais inesperados e até mesmo uma série de anacronismos que vão ficando cada vez mais fortes – a presença de televisores, de coca-cola e até de um helicóptero retira o espectador do naturalismo, à força. Punk is not dead!!!

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Ed Harris encarna Walker de forma absoluta, passando toda a demência do personagem, principalmente no final do filme, quando o clima psicodélico low-fi explicita de forma genial a maluquice americana. Se Apocalipse Now é The End de The Doors, Walker é I’m So Bored With USA do The Clash. Não por acaso, Joe Strummer, que já tinha participado de A Caminho do Inferno e Sid e Nancy, foi chamado para compor a trilha sonora do filme, fazendo um trabalho primoroso de mistura de timbres latinos e batidas rock. Com certeza, um dos melhores trabalhos do saudoso militante.

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Alex Cox não deixa de ser um equivalente cinematográfico do The Clash (com toda a imprecisão que esse tipo de comparação carrega). Político e irreverente, direto, mas nada paternalista. Em um determinado momento de Walker, um nicaragüense agradece aos céus pela presença dos americanos na sua terra. Cox sabia como poucos bater forte contra o imperialismo americano e, ao mesmo tempo, expor o facínio daquela cultura. Chegou a ser quase tão popular quanto um Jarmush, para cair no esquecimento nos anos 90, embora tenha trabalhado ativamente. Walker foi malhado pela crítica americana e desprezado pela própria distribuidora, Universal, que fez questão de lançá-lo em pouquíssimos cinemas quase sem divulgação. Em tempos de Iraque ocupado, pode dizer mais sobre o jeito cowboy de ser do que muito documentário-denúncia que existe por aí.

Milton do Prado
Participação especial

5 thoughts on “Walker (1987), Alex Cox

  1. Um dia quero ver esse filme da maneira certa. Está no meu top 3 do Cox, no momento, mas acho que se visse sem ser naquela VHS, ia achar ainda melhor.

  2. Ah, e pra quem gostou do texto do Milton, recomendo o texto dele sobre Rivette, publicado na última edição da revista Teorema. É um dos melhores textos de reflexão sobre cinema que li recentemente e um dos mais estimulantes em termos de pura cinefilia.

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