No Coração do Perigo (Heroes shed no Tears, 1986), John Woo

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por Otávio Moulin

No Coração do Perigo, de certa forma, é o primeiro filme verdadeiro de John Woo. Rodado na Tailândia em 1983, o longa libertou o cineasta de amarras estéticas e narrativas de seus trabalhos anteriores feitos sob encomenda para os grandes estúdios de Hong Kong, Shaw Bros. (em que seguia a linha de seu mentor, Chang Cheh, em fitas de artes marciais) e Golden Harvest (que priorizava comédias como dos irmãos Hui).

Woo conseguiu fundir todos os temas e elementos estilísticos que fariam sua fama em obras abraçadas internacionalmente como The Killer e Fervura Máxima. Há tiroteios rebuscados com grande uso de câmera lenta, forte relacionamento entre personagens masculinos e uma eterna busca por redenção através do derramamento do sangue. Também se já encontra a ousadia de utilizar atores esquecidos ou em papéis diferentes do que costumam desempenhar, como faria novamente depois com o ofuscado ex-herói da pancadaria Ti Lung em Alvo Duplo e, claro, o então colecionador de fracassos Chow Yun-Fat em múltiplas parceiras de sucesso.

Em No Coração do Perigo brilham dois grandes artistas de Hong Kong em papéis invertidos. De um lado está Eddie Ko, famoso por seus papéis de vilão em filmes de wuxia da Shaw Bros., que vira o mocinho e lidera um grupo de mercenários chineses no chamado Triângulo Dourado, uma região entre Mianmar, Tailândia e Vietnã que abriga várias rotas de narcotráfico. No outro está o nobre Lam Ching Ying, na pele de um seboso coronel vietnamita que caça o grupo de forma impiedosa para retribuir a perda de um olho em um confronto inicial.

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Aliás, este primeiro encontro dita o clima da narrativa e mostra um amadurecimento brutal de Woo em composição de cena. Como em um western dos bons, Ko e Lam travam, antes de mais nada, um duelo de presenças sabiamente valorizado pelo diretor e iniciam ali um combate arrebatador que não deixa nenhum personagem imaculado, especialmente o filho pequeno do mocinho que mora na região. Sim, pois o relacionamento de pais e filhos, com uma discussão sobre amadurecimento e descoberta do que é a honra, também tem espaço entre os tiroteios incessantes que recheiam o filme.

Mais cru e sujo do que seus trabalhos mais famosos, No Coração do Perigo foi uma fita B que serviu como esboço para futuros trabalhos de Woo, tanto que muitas seqüências foram recriadas em obras posteriores de maneira mais refinada, como o embate final que lembra o visto em Fervura Máxima. Assim, já não é uma fita que impressiona tanto diante de certas comparações, mas é essencial para entender a evolução do diretor.

Pena que muitos elementos inseridos pelo estúdio consigam poluir a narrativa do cineasta. Julgado grosseiro e violento pelos chefões da Golden Harvest em 1983, o filme ficou na geladeira por vários anos e só chegou aos cinemas asiáticos depois do sucesso de blockbusters hollywoodianos como Rambo II – A Missão ou Comando para Matar, quando pareceu mais adequado. Só que o filme ganhou trechos novos, sem aprovação de Woo, que inserem um personagem americano, alguma nudez e elementos cômicos que nunca se encaixam na base cuidadosamente planejada pelo diretor. São interferências que geram um ruído desnecessário, mas não conseguem tirar a importância deste embrião de uma nova era de “banho de sangue heróico” no cinema de Hong Kong.

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