Fervura Máxima (Hard Boiled, 1992), John Woo

por Luiz Alexandre

John Woo já tinha se reinventado em Hong Kong e seus filmes já haviam virado referência e contribuíram para a criação do gênero conhecido como “Heroic Bloodshed” (algo como “Sangria Heróica”), envolvendo um homem ou mais empunhando pistolas e enfrentando os inimigos mais desonrados da China. O tipo de cinema que o Chang Che fazia na década de 70, seus honrados espadachins que iam até o limite pelo que acreditavam, muitas vezes perdendo suas vidas, ganhou uma nova abordagem: eles passaram a usar pistolas, roupas elegantes, eram homens das ruas, solitários, anacrônicos, capazes de derrubar cem homens armadas até os dentes com muita desenvoltura, caso isso fosse necessário.

Depois de tantos trabalhos envolvendo membros da tríade, Woo começava a ser criticado por, veja só, glorificar essas organizações. Foi então que decidiu fazer um filme novo com uma pequena mudança: em vez do pistoleiro ser um homem ligado a uma organização criminosa, dessa vez o protagonista seria um policial. Contando novamente com o astro que ajudou a criar, Chow Yun Fat, dessa vez o homem de ação é o Inspetor “Tequila” Yuen, um sujeito durão e corajoso que quando não está trocando tiros e caçando criminosos toca saxofone em um bar de Jazz. Ele investiga as ações de um chefe criminoso chamado Johnny Wong (interpretado pelo xará Anthony Wong) que está contrabandeando armas. Em sua busca por justiça conhecerá o enigmático Tony, feito pelo também xará Tony Leung Chiu Wai, que já havia trabalhado com Woo em Bala na Cabeça. Tony na verdade é um policial infiltrado na gangue de Wong, cujo único contato na polícia é o Superintendente Pang (Philip Chan, que na vida real também é um oficial de polícia), que também é chefe de Tequila. Depois de uns estranhamentos iniciais, envolvendo até mesmo a namorada de Tequila, os dois decicem unir suas forças contra o cruel Wong, investindo todo o seu poder de fogo e, porque não, “cavalice” contra os tríades.

Não vou enrolar muito, o filme é simplesmente fantástico. As cenas de ação, com “lutas de pistola” tão bem coreografadas quanto um filme dos Venoms, que se fazem representados pelo magnífico personagem de Philip Kwok, o pistoleiro de um olho só, Mad Dog, que trabalha para Wong e uma curta participação de Lo Meng.

Aliás, Kwok, um velho conhecido dos fãs de Kung Fu Old School, exala carisma e virilidade com seu personagem. Assim como Tequila e Tony, Mad Dog é um homem com habilidades muito acima da de um homem comum, que apesar de trabalhar com um dos indivíduos mais perversos de Hong Kong, não suja suas mãos com sangue inocente. È o velho “bandido com senso moral” que mesmo velhos cineastas como Howard Hawks gostavam de trabalhar, e aqui Woo não fez feio.

Mas o destaque vai pra parceria entre o esquentado Tequila e o sofrido Tony, O primeiro ganha nossa simpatia pelo seu jeito “fuck you” todo especial de ser, pela maneira desajeitada com que tenta voltar com sua namorada, os ciúmes que sente com as flores que recebe (na verdade um artifício de Tony para mandar pistas para a polícia nos cartões que acompanham as flores), sem contar sua incrível habilidade de encarar milhões de inimigos sozinho. Além do nome fantástico, o personagem deve ter sido feito do mesmo material que indivíduos como Paul Kersey, John Matrix e Dirty Harry Calahan, ou seja, um sujeito durão até o osso como os bons da velha escola.

Já Tony, também um exímio guerreiro, sofre com o fato de ser obrigado a se passar por um bandido, tendo que trair a confiança daqueles que ama, como o Sr. Hoi (o falecido Hoi Shan Kwan) que sempre o acolheu como um filho. A cena em que ele mata o velho tríade para conquistar a confiança de Wong. Aliás, se Chow Yun Fat rouba o show com sua marra e malandragem, Leung, que provavelmente está para o drama como Jackie Chan está para as artes marciais, consegue ser cool, durão e sensível, criando uma persona ainda mais rica que Chow.

As grandiosas cenas de ação estão presentes por toda a película, com três destaques: a cena de abertura, no restaurante, com Tequila e seus colegas trocando chumbo pesado contra os tríades, a cena de invasão de um galpão pela gangue de Johnny Mo, acompanhada pelo enfrentamento de Tequila e a antológica e longuíssima batalha no hospital que serve de fachada para os bandidos, em especial o duelo de armas entre Mad Dog contra os dois policiais e uma cena de vários minutos, sem cortes, mostrando Tequila e Tony derrubando vários criminosos a bala. Inacreditável que algumas das belas cenas de violência estilizada deste filme, como a cena de Tequila descendo as escadas se apoiando no corrimão, tenham sido elaboradas de improviso. John Woo nem precisava de tanto após a feitura de Bala na Cabeça e The Killer, mas outra vez mais ele mostrou que sua fama não era apenas hype. Do início ao fim, o que vemos aqui não são apenas chineses violentos trocando “gentilezas”, mas homens de honra indo em direção ao inferno para enfrentar o mau. Contando apenas com um ao outro e nada mais. Howard Hawks, Sam Peckinpah e Chang Che devem estar orgulhosos!

9 thoughts on “Fervura Máxima (Hard Boiled, 1992), John Woo

  1. Chamar John Woo de “mestre da ação” hoje em dia é algo questionável.

    Nos tempos de Alvo Duplo e Fervura Máxima sim, lá estava o mestre…

  2. Filme de ação predileto… levaria para uma ilha deserta tranquilo, se pudesse escolher apenas 1 filme de ação para ver o resto da vida!

  3. Se esse filme fosse uma mulher, eu queria casar com ele! hahahahaha

    Filmão do Woo, acho que ele nunca vai superá-lo. Não que eu me importe com isso, se ele fizer filmes que sejam metade desse aí já vão ser filmões.

  4. Um filme que não sai de minha alma, como todos os feitos pelo John Woo em Hong Kong. Fervura Máxima apresenta uma força que não envelhece, uma aura mágica que, conforme dito acima, foi gerada a partir de uma intervenção divina. Há mensagens claras e belas a ensdinarem que o objetivo do viver consiste na força do resistir a todo fator opressivo e destrutivo do próprio existir em si mesmo. Sobreviver aos tiroteios, realizar magnífico feitos e salvar o mundo são apenas detalhes dentro de um contexto bem maior que fica nas entrelinhas…

    John Woo, verdadeiramente, é um Mestre!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s