Aliens – O Resgate (Aliens, 1986), James Cameron

por Ronald Perrone

James Cameron é fã de carteirinha de Alien – O Oitavo Passageiro (1979), de Ridley Scott, e precisou colocar em prova sua capacidade e talento, que não eram claros naquele período, para ter seu nome escrito na cadeira de diretor desta continuação. Ainda estamos em 1980, passado apenas um ano do lançamento do original, os produtores já começam a viabilizar a idéia de uma sequência. O problema maior é encontrar um script que justificasse mais um filme.

Os produtores David Giler e Walter Hill chegaram ao pobre Cameron através do roteiro de O Exterminador do Futuro (que ainda não havia sido realizado) e resolveram marcar um encontro para trocar idéias. Lá pelas tantas, depois de algumas doses de whisky, comentaram o desejo de realizar a continuação de Alien e Cameron se interessou subitamente. Após vários roteiros recusados, James Cameron, que mal havia dirigido Piranhas 2 e trabalhou apenas na parte técnica de algumas produções de ficção, conseguiu colocar na mesa dos executivos uma estória que finalmente chamou-lhes a atenção. O roteiro ainda não estava pronto (e muita coisa foi mudada junto com outras pessoas), mas já era meio caminho andado; a base desse script eram idéias que o diretor estava desenvolvendo para um filme chamado Mother.

No entanto, era um risco colocar nas mãos de James Cameron a direção de um filme que exigia muito investimento, muita estrutura, muita coisa que aquele sujeitinho ainda não havia trabalhado. Ninguém podia assegurar se ele era realmente capaz de administrar todo o aparato que seria colocado em suas mãos. A prova de fogo foi o filme que Cameron estava realizando, ainda em fase de pré-produção. Se conseguisse ser bem sucedido, teria o emprego na continuação de Alien. Mas todos nós sabemos que O Exterminador do Futuro foi um sucesso, então…

Aliens recebeu este título (e não Alien 2) porque em 1980, um italiano chamado Ciro Ippolito produziu, escreveu e dirigiu uma “sequência picareta” de Alien chamado Alien 2, com a trama se passando na terra. Mas Aliens é um nome que se encaixa perfeitamente ao filme de Cameron, pois uma das principais diferenças do original é que desta vez Ripley (Sigourney Weaver) terá de enfrentar um exército de aliens ao invés de um único como no primeiro filme.

Sendo assim, o diretor de Avatar tomou um caminho diferente ao de Ridley Scott. O primeiro filme da série era um exercício de claustrofobia, atmosférico ao extremo e trabalha muito bem o suspense. Sem dúvidas é um dos filmes contemporâneos mais eficazes nesse sentido. Já o filme de James Cameron segue uma proposta que impõe um ritmo mais frenético à narrativa, com bastante ação, tiroteios, explosões, correrias, muita carnificina, etc (Cameron estava trabalhando também no roteiro de Rambo 2 antes de começar este aqui, talvez estivesse muito focado nesses elementos…). O mais impressionante disso é que o respeito de Cameron pelo original é fundamental para balancear o tom entre os dois filmes. Aliens possui atmosfera suficiente para permanecer ao lado de Alien e possui ação de tirar o fôlego suficiente para garantir a proposta de Cameron.

A trama de Aliens se passa 57 anos após os acontecimentos do primeiro filme. Ripley desperta do seu sono criogênico depois de ter sua nave encontrada pela companhia pela qual trabalhava; toma conhecimento de que toda sua família morreu; mal se recupera e já é persuadida para retornar ao planeta alienígena numa missão para averiguar a situação dos colonos que habitam o planeta, já que a comunicação com eles fora interrompida. Ela se faz de difícil, etc, mas acaba aceitando e desta vez terá ajuda de um grupo de fuzileiros navais carregando um grande poder de fogo.

O que se segue a partir daí é suspense intenso da melhor qualidade com altas doses de ação em cenários de ficção científica e atmosfera dark muito bem elaborados, inspirados nas artes de H. R. Giger e intensificados pela ótima trilha sonora de James Horner; a contagem de corpos é altíssima, muitos fuzileiros matando aliens, sendo mortos também pra dar uma balanceada, embora o número de aliens seja bem maior, até chegar a um ponto em que Sigourney Weaver questiona James Cameron sobre o filme estar muito violento, ter muitas armas, e essas baboseiras, mas a resposta do diretor já demonstrava um sujeito que não se deixa levar por frescuras de ator: “então vamos fazer uma cena que um Alien lhe ataca e você tenta bater um papinho com ele”, algo nesse sentido…

Além de Weaver, que recebeu uma indicação ao Oscar pela sua atuação, o restante do elenco merece uma atenção à parte. Temos Michael Biehn voltando a trabalhar com o diretor, Lance Henriksen fazendo um andróide para o desespero de Ripley (quem não se lembra de Ian Holm no primeiro filme?), Bill Paxton como alívio cômico involuntário, Paul Reiser, William Hope, Jenette Goldstein e outras feras que compõem um excelente time. E é curioso como grande parte deles são subestimados atualmente.

A versão que revi e recomendo fortemente é a estendida, na qual James Cameron realiza um estudo humano muito interessante com a personagem de Sigourney Weaver e ajuda bastante na compreensão de seus atos, no instinto materno com o qual ela acolhe e protege a garotinha, única sobrevivente dos colonos, enxergando a oportunidade de ter uma família novamente. O confronto final entre Ripley e a alien rainha toma proporções épicas visto dessa forma. A protagonista tentando proteger sua “filha” e a criatura também com um instinto de proteção pelos seus ovos.

Get away from her, you bitch!

Sobre a rainha e seu aspecto visual impressionante, vale destacar os incríveis efeitos especiais da equipe comandada pelo genial Stan Winston. É um troço realmente assustador! Não só ela, mas todos os aliens aparentam bem mais flexibilidade, agilidade e realismo em relação ao alien solitário do primeiro filme, embora o conceito de Giger ainda permaneça intacto. É a prova de que o talento manual de um verdadeiro gênio dos efeitos especiais sempre vai superar o resultado de um CGI.

Aliens é um filme inovador nos quesitos técnicos, afirmativa que pode ser reaproveitada em qualquer texto sobre os filmes dirigido pelo Cameron. Todas as suas obras seguintes revolucionaram o cinemão americano comercial de alguma maneira, seja nos efeitos especiais, no uso do som ou até mesmo na forma como trabalha suas narrativas, transformando seus trabalhos em experiências únicas para o público. Este aqui não foge à regra. É um espetáculo em todos os sentidos.

20 thoughts on “Aliens – O Resgate (Aliens, 1986), James Cameron

  1. A versão do cinema deve ser boa pra ver no cinema, no calor do momento, para diversão… no sofá de casa e com mais tempo sobrando, a versão estendida é genial!

  2. Incrível como as versões estendidas de “Aliens” e “The Abyss” engrandecem ainda mais esses filmes.

  3. Pô e eu atrasando em ver as versões estendidas dos 4 filmes… Vou ver a estendida desse primeiro!
    Os bastidores desse filme são tão legais quanto o próprio. Cameron sem paciência como sempre, a Gale Anne Hurd “tretando” com todos, inclusive com James Newton Howard que ainda disse que a trilha sonora dele acabou não ficando do agrado dele porque não teve tempo… Eu acho fantástica, imagina se tivesse tempo então…

  4. Ótimo texto. só duas coisas que não entendi:
    1) “O primeiro filme da série era um exercício de claustrofobia, atmosférico ao extremo e trabalha muito bem o suspense. Restam dúvidas se esse é um dos filmes contemporâneos mais eficazes nesse sentido? Com certeza, não.” No quinto paragrafo. Você esta falando de Aliens em comparação com o primeiro filme?

    2)no penultimo paragrafo, “todos os aliens aparentam bem mais flexibilidade, agilidade e realismo em relação ao alien solitário do primeiro filme, embora o conceito de Giger ainda permaneça intacto. É a prova de que o talento manual de um verdadeiro gênio dos efeitos especiais nunca vai superar o resultado de um CGI.” não seria: “É a prova de que o talento manual de um verdadeiro gênio dos efeitos especiais SEMPRE vai superar o resultado de um CGI.”??

    • Opa, vamos lá: “Restam dúvidas se esse é um dos filmes contemporâneos mais eficazes nesse sentido? Com certeza não.”

      Estava falando do primeiro filme. E era a resposta da pergunta que eu havia feito: “restam dúvidas?”, “com certeza não”.

      De qualquer forma, ficou bem ruizinha essa parte. Vou retirar…

      Já a segunda questão foi falha minha mesmo… já consertei.

      Valeu.

  5. Muito interessante essa intromissão desses italianos malucos no meio do franchising. É um grande filme, sem dúvida! Penso que todos os 3 primeiros da saga, o são…

  6. Pelo jeito Bill Paxton é o ator-fetiche de Ccameron, o cara esta em quase a totalidade da filmografia dele.

    • De forma alguma. Eu também gosto mais deste aqui do que o original. Só que são filmes totalmente diferentes em suas propostas e que não devem ser comparados.

      Alien – O 8º Passageiro é um filme que eu acho sensacional também…

  7. “Mas Aliens é um nome que se encaixa perfeitamente ao filme de Cameron, pois uma das principais diferenças do original é que desta vez Ripley (Sigourney Weaver) terá de enfrentar um exército de aliens ao invés de um único como no primeiro filme.”

    E tb dá a sensação de ser um filme completamente diferente do primeiro, e que nem se trata de uma seqüencia.

  8. Me amarro neste filme, apesar de preferir o primeiro. Entra em qualquer lista de melhores sequências já produzidas. O final é espetacular e prova realmente que nenhum CGI do mundo conseguiria hoje alcançar um resultado tão impressionante quanto a rainha mãe construída neste filme de 1986.

  9. Vi esse filme na adolescência, sentado em um cinema TRADICIONAL. No centro da cidade, prostitutas oferecendo o “produto” no meio da fila da entrada… Trash!
    Eu que nessa época odiava o centro, o tumulto, a muvuca, nunca pensei que em vinte e poucos anos iria ver o mundo mais limpo esteticamente, sem a centenas de cheira-colas, camelôs… Tudo ficou visualmente mais clean, ao mesmo tempo, que saudade de 20 anos atrás… :D
    Vi duas vezes no cinema, e umas 3 em casa… É o melhor filme do Cameron.

  10. Bem, como já dito no post, Aliens é completamente diferente da primeira parte mesmo. Mas o Cameron, como bom diretor de blockbuster que é, consegue aliar efeitos especiais maravilhosos para a época com um roteiro de fácil compreensão e ao mesmo tempo interessante.
    A equipe de fuzileiros é bem balanceada, há muita ação e a personagem de Sigourney Weaver realmente se destaca. Aliás, ela é a pessoa perfeita para o papel, pois consegue demonstrar aquela seriedade, um jeito meio “bad ass” e maternidade que a personagem exige… e fica muito bem só de calcinha no fim, claro.

  11. Na minha opinião os três filmes são uma obra de arte sem tamanho, so que o quarto da franquia é um vedadeiro lixo e até hoje não engulo este filme, é incrivel que a ganancia acaba com oque bom, mas além de bons têxtos em uns, em outros nem tanto, efeitos visuas incríveis para sua época, há um fato curioso na trilogia em geral, é que suas trilhas sonoras são tão boas, diferentes, mas fantasticas. Adoro o ritimo dos três primeiros filmes.

  12. Na minha opinião os três filmes são uma obra de arte sem tamanho, so que o quarto da franquia é um vedadeiro lixo e até hoje não engulo este filme, é incrivel que a ganância acaba com o que é bom, mas além de bons têxtos em uns, em outros nem tanto, efeitos visuas incríveis para sua época, há um fato curioso na trilogia em geral, é que suas trilhas sonoras são tão boas, diferentes entre si, que da um tom particular entre eles . Adoro o ritimo dos três primeiros filmes.

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