TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA (Bring Me the Head of Alfredo Garcia, 1974), Sam Peckinpah

por Leopoldo Tauffenbach

Se fosse possível definir Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia em apenas uma palavra, talvez a mais apropriada fosse “imundo”. Poucas vezes na história do cinema se chegou tão perto de criar um filme tão sujo quanto esta obra-prima do mestre Peckinpah.

Tudo começa com um abastado proprietário de terras mexicano descobrindo a gravidez da filha. Em um cenário absurdamente opressor, ele tortura a filha diante de várias testemunhas até que ela entrega o nome do pai da criança: o notório galanteador Alfredo Garcia. Indignado, o senhor feudal pede a cabeça do pai do pequeno bastardo, com a promessa de uma recompensa milionária a quem fizer o serviço. Alguns dos capangas que estão atrás de Garcia acabam parando em um boteco ordinário onde trabalha o músico Bennie, interpretado com a competência habitual por Warren Oates. Tendo ouvido falar de Alfredo Garcia e diante da possibilidade de faturar alguns trocados, Bennie começa sua própria investigação sobre o paradeiro de Garcia com a ajuda de sua companheira Elita. Elita informa Bennie que Garcia já está morto, e eles decidem ir até seu túmulo para arrancar-lhe a cabeça e entregá-la aos bandidos. Considerando que este é um filme de Sam Peckinpah, realizado após Meu Ódio Será Sua Herança, Sob o Domínio do Medo e Os Implacáveis, podemos prever que a jornada de Bennie não será nada como um passeio no parque. Ao contrário, Peckinpah promove ao protagonista e ao espectador uma verdadeira descida ao inferno.

Diante da família, clero e elite local, pai tortura a filha até ela entregar quem a engravidou: o famigerado Alfredo Garcia.

Bennie é um indivíduo que não vê muito futuro pela frente. Ele não agüenta mais tocar em um bar por gorjetas nem viver em um quartinho imundo com Elita. Como qualquer outro mortal em sua condição, a ambição é sua força motriz, deixando-o atento a qualquer oportunidade que surja para promover todo o tipo de conforto material que lhe falta. No início do filme fica evidente que, embora ele e Elita estejam juntos, o casal já conheceu dias mais apaixonados. Aqueles mais familiarizados com a obra do diretor seguramente enxergarão semelhanças com o casal McQueen/McGraw em Os Implacáveis.

Bennie e Elita fazem planos para o futuro depois de enxergarem uma oportunidade de uma vida melhor às custas da morte de Garcia. Como o casal de Os Implacáveis, o amor sofre com as interferências dos egos.

Quando finalmente conseguem a cabeça de Garcia e seus problemas parecem resolvidos, o casal sofre um atentado. Bennie sobrevive, mas a cabeça de Garcia desaparece e Elita acaba morta. E é aí que o filme realmente começa.

Bennie passa a rever sua vida e questionar suas aspirações e seus desejos, e chega à dura conclusão que a única coisa que realmente importava era a companhia de Elita. Sem ela, Bennie se agarra à única motivação justa para continuar vivendo: recuperar a cabeça de Garcia e vingar a morte da amada. A cabeça de Garcia se mostra como uma metáfora da obsessão cega, válida para todos os personagens do filme, e isso é evidenciado quando o personagem de Oates pergunta qual seria o verdadeiro motivo para tanto desejarem-na. Se antes Bennie era movido pela ambição, esta agora se tornara obsessão, e ele se coloca em pé de igualdade a todos os outros personagens. A única diferença é que Peckinpah parece colocar as motivações de Bennie em um patamar mais elevado. Independentemente da obsessão, por trás de tudo está o amor de Bennie por Elita.

Bennie transforma-se naquilo que ele mais despreza após encarar a morte de sua amada e questionar sua própria vida e seus valores.

Depois de um espetáculo macabro de mortes violentíssimas, coisa que Peckinpah sabe fazer de melhor, Bennie finalmente recupera a cabeça e volta para casa. Após uma longa conversa com a cabeça inerte de Garcia, ele segue para a fazenda do coronel mexicano. Lá, com a ajuda da filha do coronel ele o assassina e logo em seguida é morto. Com Bennie vingado e redimido, a morte se apresenta como única possibilidade para quem desceu até as profundezas do inferno e conseguiu matar o diabo. Diante de tantas mortes vãs, a de Bennie é a única que parece fazer sentido. Depois de uma jornada pelo que há de mais imundo na condição humana, tanto física como moralmente, o espectador mais atento concluirá que este filme trata na verdade de um conto de amor e redenção como oposição às forças menos nobres da natureza humana. Realizado à maneira de Sam Peckinpah, claro.

A violenta, mas redentora morte de Bennie é também a morte da carreira de Peckinpah

A partir de agora, diante do reduzido espaço para publicar este texto, qualquer coisa que seja dita soará incompleta ou redundante. Por sua complexidade, Alfredo Garcia merece muito mais do que estas poucas linhas para criticá-lo e analisá-lo. Ainda que Meu Ódio Será Sua Herança seja considerado por muitos como o melhor trabalho da carreira de Peckinpah, sou obrigado a defender Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia como obra máxima do diretor. Todos os temas trabalhados anteriormente parecem ter alcançado sua maturidade com este filme. Não somente, Peckinpah consegue equilibrar ação, romance, conflitos morais e existenciais de tal forma que faz parecer que o filme é até mais curto do que é na verdade. Curiosamente é após este filme que Peckinpah passa a dirigir obras menores, nunca mais igualadas à força de seus predecessores. Mais uma vez a vida imita a arte, e como Benny, Peckinpah parece ter vivido para realizar este trabalho, a verdadeira obra de sua vida, para então gloriosamente esperar pelo fim.

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PAT GARRET E BILLY THE KID (1973), Sam Peckinpah

por Otávio Pereira

Sam Peckinpah foi um dos melhores diretores americanos de western. Verdadeiro autor, dono de um estilo próprio, procurava retratar o Velho Oeste da forma mais realista possível. Seus filmes possuem características fortes, não só visualmente, mas também pela maneira como conduz seus personagens, colocando-os em conflitos internos gerados pela mudança do ambiente em que vivem.

Pat Garrett e Billy the Kid é um filme triste e de atmosfera quase mística, composto por belas imagens que são complementadas por uma interessante trilha sonora, composta por Bob Dylan. Em minha opinião a trilha dá bastante força ao filme, reforçando os sentimentos expostos. O clássico “Knockin’ On Heaven’s Door” se encaixa como uma luva após uma sequência de matança. Chega a emocionar!

Quem espera que o filme seja um duelo entre Pat Garret e Billy the Kid pode se decepcionar, na verdade o filme é sobre Pat Garret, de como o mesmo está lidando com as mudanças ao seu redor, sua adaptação ao novo mundo, suas escolhas que batem de frente com seu passado. É magnífico ver o trabalho de Peckinpah desenvolvendo o personagem de Garret, de marginal a homem da lei, convocando antigos parceiros de crime para auxiliá-lo e levando-os a morte, com isso enterrando parte de seu passado. E toda a luta de não ter que confrontar seu amigo Billy, criando coragem para isso dando um mergulho a um mundo de álcool, prostitutas e violência.

Pat Garrett e Billy the Kid é repleto de cenas de forte impacto e significado. Como Billy the Kid vendo um de seus parceiros sendo morto por bandidos de forma covarde, forma que talvez o mesmo já tivesse praticado. Mas a cena que mais gostei envolve um antigo bandido que também vira xerife e está construindo um barco para sair daquela região. Pat Garret o chama para auxiliá-lo em uma missão e o mesmo é baleado. Antes de morrer consegue chegar a um córrego para dar seu ultimo suspiro. Esta cena é complementada quando Pat Garret está descansando e vê um homem descendo um rio em uma balsa dando tiros em uma garrafa que é jogada na água, ambos acabam trocando tiros, mas depois trocam apenas olhares.

Além da excelente atuação de James Coburn, Kris Kristofferson não decepciona. O filme é recheado de rostos conhecidos, com destaque para Jason Robards, Jack Elam, Slim Pickens, Harry Dean Stanton, Emilio Fernández, entre outros.

Sem dúvida uma das últimas grandes obras realizadas no gênero western.

OS IMPLACÁVEIS (The Getaway, 1972), Sam Peckinpah

por Caio de Freitas

Depois de ousar e perturbar as platéias com Sob o Domínio do Medo, de 1971, Sam Peckinpah fez seus dois próximos filmes de modo mais comedido. Os Implacáveis, de 1972, é um bom e simples exemplo de filme de “assalto-e-fuga” bem feito, sem grandes invenções, calcado no “feijão-com-arroz” do gênero. Claro que há os toques de Bloody Sam na obra, como violência estilizada e tiroteios em câmera lenta, o que dá aquele algo mais ao filme.

Na trama, “Doc” McCoy [o nosso eterno Steve McQueen] é um ladrão de bancos que estava preso por quatro anos e meio até que se cansa e decide sair da cadeia. Pra isso, ele entra em contato com sua mulher, Carol [a belezinha Ali MacGraw], para que ela lhe arranje um meio de sair da prisão. Então, McCoy ganha sua liberdade para trabalhar para Beynon [Ben Johnson], e assaltar o cofre de um banco. A partir daí começa um jogo de trapaças e perseguições, onde ninguém confia em ninguém, que segue até El Paso, local onde acontece o clímax do filme.

Os Implacáveis não tem grande ousadia em seu roteiro, que mostra de maneira bem linear este jogo de trapaças. O filme segue em um ritmo agradável, crescente a partir do assalto do banco. Depois que as coisas começam a dar errado, Peckinpah mostra o casal McCoy tendo que lidar com as diversas situações que surgem após o malfadado roubo. Não há grande complexidade dos personagens, como em outros filmes do diretor, mas a evolução da trama é muito competente.

Há alguns pontos do filme a se destacar, como a participação de Al Lettieri [o Solozzo de O Poderoso Chefão] como Rudy, assaltante que tenta dar o golpe em Doc e acaba perseguindo-o durante o filme. Nesta perseguição, ele faz refém um casal, donos de uma clínica veterinária. A trajetória do casal beira o tragicômico: obrigados a levar Rudy até o México, a esposa flerta com o bandido, e o marido tem que observar a situação toda calado. Além disso, Steve McQueen é muito eficiente no papel de Doc McCoy, mostrando aquela postura que o espectador espera de um ladrão de bancos fodão.

No geral, Os Implacáveis é um filme eficiente. Não revoluciona o gênero (e nem pretende), mas traz elementos que funcionam bem neste estilo de filme, como várias perseguições de carro, acidentes, tiros e fugas. Há os toques de Peckinpah, esteticamente falando, como as cenas em câmera lenta e sequências com cortes rápidos, afim de criar um clímax. Se pensarmos em Peckinpah, é óbvio que o filme não é das melhores obras; mas se pensarmos em filmes de “assalto-e-fuga”, Os Implacáveis é uma boa diversão.

DEZ SEGUNDOS DE PERIGO (Junior Bonner, 1972), Sam Peckinpah

por Leandro Caraça

Sam Peckinpah reclamava da perseguição que recebia por parte dos censores e moralistas quando realizava filmes violentos. Mas quando apresentava obras as quais não havia tiros e gente morrendo, o público geralmente virava a cara. Foi o que aconteceu com Dez Segundos de Perigo, lançado nos cinemas com grande pompa em 1972, em vez de uma distribuição menor e mais seletiva como queriam Sam Peckinpah e o astro Steve McQueen. É compreensível o espanto que o filme possa ter causado no público, ainda aturdido pelo espetáculo visceral que foi Sob o Domínio do Medo. Talvez por causa disso, o diretor tenha resolvido trilhar outro caminho. E se o resultado por um lado foi frustrante para muitos, por outro mostrou (a quem conseguisse perceber) que ninguém retratava a morte do velho oeste americano como Sam Peckinpah.

Dez Segundos de Perigo apresenta J.R. ‘Junior’ Bonner (McQueen), um veterano astro do rodeio que já teve dias melhores. Após um tempo afastado, está agora retornando para sua cidade natal, a fim de participar de uma nova competição e conseguir uma revanche com o touro que o derrubou uma semana antes. Assim que chega, descobre que a velha casa de seu pai, Ace Bonner (Robert Preston), está sendo demolida – Peckinpah intercala a destruição da propriedade pelos tratores com retratos da memória de Junior Bonner. Mais tarde descobrirá que seu irmão Curley (Joe Don Baker) comprou todas as terras da família e pretende construir um loteamento com casas móveis. A pragmática mãe (Ida Lupina) está conformada com a situação, mas Ace Bonner planeja viajar para a Austrália e começar prospecção de ouro. Após fracassar como minerador de prata e torrar o dinheiro ganho com a venda das terras (com mulheres e bebida), ele só precisa de um pequeno investimento. É nessa situação que Junior Bonner vai encontrar a família, e através de um último rodeio em parceria com seu pai, tentará resgatar o que restou dos bons tempos.

Peckinpah traça um tocante paralelo entre o fim dos cowboys como Junior Bonner e a ruptura de um núcleo familiar. O filme não comete o erro de apontar vilões. Mesmo Curley é visto como alguém que não quer repetir os erros do pai e não vê um futuro para o irmão. “Estou trabalhando para conseguir meu primeiro milhão e você ainda está trabalhando nos seus oito segundos”, diz ele em certo momento para Junior Bonner, se referindo aos oito segundos mínimos que um cowboy precisa aguentar em cima da montaria. Para o personagem de McQueen só existe o rodeio, e como se fosse uma espécie de samurai americano, e ele continuará puro a este ideal até o fim. Chega até mesmo a pedir que Buck Roan (Ben Johnson), fornecedor dos animais da competição, o coloque para enfrentar o mesmo touro que o derrubou, ainda que para isso, tenha que abrir mão de metade do prêmio. Mesmo com o fracasso do filme nas bilheterias, Steve McQueen chamou Peckinpah para trabalhar com ele novamente. Não foi à toa, pois o astro tem em Dez Segundos de Perigo, aquela que deve ser a melhor performance de sua carreira.

SOB O DOMÍNIO DO MEDO (Straw Dogs, 1971), Sam Peckinpah

por Caio de Freitas

Sam Peckinpah trilhou um longo caminho até realizar aquela que seria considerada sua obra-prima: Meu Ódio Será Tua Herança, de 1969. Peckinpah mostrava ali as características mais marcantes de seu cinema: cenas com violência altamente estilizada, câmera lenta em tiroteios e cenas clímax e histórias que mostravam escolhas e atos eticamente discutíveis – e seus personagens sempre devem lidar com as consequências por tais escolhas. E dois anos depois Peckinpah consolida seu nome com um perturbador suspense, estrelado por Dustin Hoffman: Sob o Domínio do Medo, de 1971.

Bloody Sam” – alcunha pela qual Peckinpah ficou famoso – conta a história de um jovem casal que se muda para um pequeno vilarejo inglês em busca de paz e sossego. David e Amy Sumner [os excelentes Dustin Hoffman e Susan George] se mudam para a pequena Wakely, na costa da Inglaterra, para que David possa escrever um livro. Ele é um matemático norte-americano que faz pesquisas sobre navegação celestial, e o lugar parece perfeito para que seu trabalho renda mais. Porém as coisas mudam de panorama, e um grupo de maus elementos começa a perturbar o casal. Os marginais estão trabalhando na reforma da casa dos Sumner, então acabam tendo maior poder e facilidade para ameaçá-los.

Não se engane pela premissa relativamente simples: Peckinpah conta uma história complexa e sufocante, colocando personagens pacifistas em um vilarejo violento. Trabalhando com as consequências da escolha do casal de se mudar para este vilarejo, Peckinpah enfoca na transformação destes personagens, que em determinado ponto da trama percebem que lutam por suas vidas. Há muitos personagens icônicos nesta empreitada de Bloody Sam: o matemático pacifista David Sumner, que precisa se afirmar como homem e busca o respeito dos maus elementos de Wakely; Henry Niles [David Warner], um pedófilo em recuperação, sempre alvo de olhares atravessados dos moradores; a mulher de David, Amy Sumner, que não sabe se cede às suas origens de Wakely ou se aceita seu marido como ele realmente é.

Além disso, Amy se encontra em uma grave crise conjugal com David, que não hesita em questionar sua maturidade. Por isso, se cria outro perigoso cenário: Amy flerta com os marginais, sem nem imaginar as conseqüências deste perigoso jogo de sedução.

Peckinpah sempre foi conhecido por sua intensidade, e em Sob o Domínio do Medo as situações nas quais o casal se envolve são um bom espelho disso. Ao se utilizar de suas marcas técnicas, como cenas construídas ao redor de um clímax para muitos personagens, violência estilizada e em sequências em câmera lenta, Peckinpah cria sequências marcantes, como o estupro, o encontro na igreja e o confronto na casa dos Sumner. Mesmo que o ritmo do filme demore a engrenar, a escolha de Peckinpah para construir a narrativa se mostra adequada: com um começo um pouco mais lento, com situações e tensões mais implícitas, Bloody Sam consegue deixar a parte final do filme altamente sufocante.

Assim, Bloody Sam se aprofunda nos lados mais sombrios da psiquê humana, e mostra a que ponto chegamos quando somos exigidos além de nossos limites. O casal Sumner precisa deixar sua faceta pacifista de lado para sobreviver a esta passagem por Wakely, e durante este processo a platéia se perturba, e questiona a existência humana. Os personagens passam por provações e experiências traumáticas horríveis, que Peckinpah arquiteta de maneira brilhante.

Não vou ser hipócrita: Sob o Domínio do Medo é um filme denso, perturbador e pesado. Peckinpah realiza uma película tensa, daquelas que te deixam pra baixo o resto do dia, pensando e refletindo sobre o filme. Se você estiver disposto, o filme é muito competente, mostrando o lado horrendo do ser humano. A intenção de Peckinpah é chocar, polemizar e principalmente questionar. Tal qual Lars Von Trier em Dogville, Sam consegue trazer este questionamento na forma de uma obra-prima do cinema.

A MORTE NÃO MANDA RECADO (The Ballad of Cable Hogue, 1970), Sam Peckinpah

por Ronald Perrone

Muita gente subestima o poder de A Morte Não Manda Recado. Mas é preciso levar em consideração que a grande maioria daqueles que iniciam sua peregrinação ao cinema de Peckinpah costumam assistir primeiro aos viscerais Meu Ódio Será sua Herança, Alfredo Garcia, Sob o Domínio do Medo, etc, e acha que o sujeito vai expressar a brutalidade do ser humano em todos os seus filmes. Quando chega a hora de acompanhar a aventura do personagem Cable Hogue, vivido magnificamente por Jason Robards, depara-se com algo inesperado, um western de sensibilidade espantosa que deixa o espectador completamente sem chão, desacreditado que aquilo havia saído da mesma mente que injetou a violência sanguinolenta no cinema mainstream americano.

A princípio, a trama parece caminhar para o costumeiro do gênero, inclusive o mote principal é a vingança, quando o personagem do título original é abandonado em pleno deserto por dois ex-companheiros e vaga sem água, comida, transporte, armas,  jurando vingança. Mas a jornada de Cable Hogue encerra quando ele encontra uma fonte de água e faz dali o seu lar. É neste ponto também que o filme toma direções completamente opostas às espectativas do público, que aguarda ansiosamente por situações de ação, com aquelas decupagens geniais que só o Peckinpah sabia fazer. No entanto, o filme se transforma num drama cômico com uma dose de romance, até bem bobinho, o qual oferece, ao mesmo tempo, um dos mais belos estudos humanos do cinema americano! Até mesmo o desejo de vingança, que motiva o personagem durante toda a projeção, é solucionada de maneira frustrante para quem ainda esperava o Bloody Sam de Os Implacáveis entrar em ação. Acontece que até mesmo um poeta da violência tem seus dias sentimentais. Calhou de ser na concepção deste aqui. Não é a toa que o próprio diretor considerava A Morte não Manda Recado o seu trabalho favorito.

MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA (Wild Bunch, 1969), Sam Peckinpah

por Otávio Pereira

É difícil falar de uma obra-prima unânime sem ser repetitivo, mas Meu Ódio Será sua Herança mudou a história do cinema após seu lançamento em 1969 e mesmo depois de quarenta anos o filme continua forte e único. Esta foi a quarta vez que o assisti, e a cada revisão novos pontos são ressaltados e outros ampliados. A cópia vista foi a comemorativa de 35 anos, totalmente restaurada, trazendo a versão do diretor, com imagem e som de alta qualidade, além de um segundo disco recheado de bônus. O interessante desta versão são as cenas nunca antes vistas, que trazem um lado mais cômico e também um flashback que ajuda a explicar mais sobre o personagem do Robert Ryan e sua motivação. Mesmo achando que algumas dessas cenas cômicas não se encaixam bem, o filme continua um colosso.

Meu Ódio Será sua Herança reinventa o cinema de faroeste americano, possuindo algumas características trabalhadas por John Ford, mescladas com tendências do faroeste italiano. Mas o que prevalece são os ideais e temas discutidos em toda obra de Sam Peckinpah. Temos lealdade, coragem, honra, amizade e principalmente o problema em se adaptar às mudanças de um novo mundo (tema que atingiria sua plenitude em Pat Garret & Billy the Kid). Um dos grandes trunfos do filme é retratar o Velho Oeste da forma mais realista possível, deixando de lado os mitos até então utilizados, os bons costumes e a moralidade. Bloody Sam narra de forma crua e direta o dia a dia de um bando de foras da lei que vê na violência o único modo de vida.

Como toda obra-prima tudo está equilibrado em perfeita harmonia, desde a fotografia, produção, trilha sonora, e especialmente a montagem e atuações. Sam Peckinpah consegue filmar e montar as sequências de ação com maestria, criando um estilo único na decupagem de suas cenas, mesclando uma violência gráfica nunca antes vista com forte carga dramática. Tudo isto é complementado por magníficas atuações de William Holden, Ernest Borgnine, Robert Ryan, Edmond O’Brian, Warren Oates, Ben Johnson, Jamie Sanchez e o também cineasta Emilio Fernandez.

O filme possui muitas cenas fortes que falam por si, mas nesta última revisão uma seqüência que me marcou foi o prelúdio do massacre final. Temos Ernest Borgnine sentado, encostado em um muro cortando um pedaço de madeira com uma faca. Sua face é de desprezo, pois de onde está consegue ouvir os soldados mexicanos se divertindo com o amigo Angel, enquanto Warren Oates e Ben Johnson discutem com uma prostituta. William Holden entra no quarto e diz, “vamos”, depois de um pequeno silêncio temos a resposta “porque não?”. Em seguida o grupo pega suas armas e faz a caminhada final em busca de seu amigo. Depois temos mais uma seqüência excelente com Mapache entregando Angel ao grupo, e os segundos que antecedem a maior cena de ação já filmada, um verdadeiro épico e um final espetacular de uma obra singular no mundo do cinema.

JURAMENTO DE VINGANÇA (Major Dundee, 1965), Sam Peckinpah

por Ronald Perrone

Em meados dos anos 60, o western americano passava por um momento de transgressão. O modelo clássico “pedia arrego” enquanto os exemplares do gênero made in Europe viravam moda e influenciavam as produções do gênero que ainda eram feitas. Monte Hellman, por exemplo, foi um dos primeiros a começar a brincadeira, mas foi Sam Peckinpah quem fincou a cruz e praticamente enterrou o modelo clássico de fazer faroeste com o seu revolucionário Meu Ódio Será sua Herança (1969).

Mas antes disso, Peckinpah dirigiu Juramento de Vingança, que pode muito bem ser considerado um rascunho de Meu Ódio… em caráter de estilo e visual, embora ainda seja narrado nos moldes clássico. É um faroeste épico, sobre o major Amos Dundee (desempenho impecável de Heston), inspirado no famoso general Custer, que resolve declarar uma guerra pessoal e insana pra cima de um chefe indígena que havia sequestrado crianças, após realizar um massacre. Agindo de forma independente, Dundee forma um exército marginal composto por bêbados, negros, soldados prisioneiros, etc, e parte numa longa jornada com o pelotão, o que não deixa de ser uma missão suicida e sem sentido. No entanto, para Dundee vai servir como uma jornada de descobertas, especialmente  ao encarar de frente uma série de conflitos políticos e pessoais, o que inclui as contas do passado em aberto com um velho conhecido, vivido por Richard Harris.

E Peckinpah conduz tudo isso de forma magnífica, trabalhando as riquezas dos detalhes, revelando belos cenários, personagens complexos e contando com excelentes atuações (Warren Oates, James Coburn, Mario Ardof, Ben Johnson, etc).

Infelizmente, já naquela época, o perfil problemático de Bloody Sam começava a dar sinal. Peckinpah teve problemas com o produtor, corte final, diretor de fotografia, vários atores, etc. Dizem as lendas que Heston ameaçou fisicamente o diretor com um sabre, de tão desagradável que o diretor estava nas filmagens. Problemas à parte, o que se vê na tela é uma obra eficiente, Peckinpah trabalhando vários temas, personagens e soluções visuais que seriam definitivos em seu cinema pessoal. Juramento de Vingança pode não ser o trabalho mais marcante, violento e poético da carreira do diretor, mas não deixa de ser fundamental para este período do cinema americano.

PISTOLEIROS DO ENTARDECER (Ride the High Country, 1962), Sam Peckinpah

por Davi de Oliveira Pinheiro

Como uma estrutura tão incomum de trama tornou-se tão grande sucesso de público? Primeira grande vitória de uma filmografia experimental e pouco ligada ao momento do cinema, os filmes de Sam Peckinpah, Pistoleiros do Entardecer foi realizado numa época em que recém o cinema europeu encontrava a linguagem moderna. O cinema do diretor americano parece ser o primeiro a absorver as características de uma gramática renovada, construída sobre o clássico, mas com uma nova maneira de articular a imagem, o som e a montagem de ambos.

Mesmo que use o ritmo do faroeste americano tradicional, é uma trama de reminiscências e sem o luxo da ação. Trata de dois pistoleiros veteranos que se reencontram para um serviço um tanto quanto ortodoxo, ao invés da tradicional (“a última grande jogada”) e parece que o argumento permite ao realizador e seus atores se deliciarem com os resultados da maturação mental e a decadência física que a idade traz. É um filme sobre a memória, onde o caminho que os pistoleiros seguem é apenas o desenho de um espaço físico ao qual vão retornar, enquanto à frente encontra-se apenas a possibilidade de lembrar o passado e julgar o caráter de um novo pistoleiro, que ao contrário deles, dois homens do velho oeste, inclui em sua personalidade a dureza do oeste selvagem e a modernidade do século XX.

O novo pistoleiro é a personagem que traz o equilíbrio ao filme; é a única que possui um arco narrativo tradicional. O arco dos dois teóricos protagonistas é praticamente estático, inativo; é um diálogo de ações passadas. São personagens cuja moral e inteligência é estabelecida pela história pregressa, enquanto o jovem pistoleiro está em formação e seu caráter questionável é moldado pelo convívio com os veteranos e se demonstra um tanto quanto presente ao final do filme.

Peckinpah cria uma trama popular a partir de elementos pouquíssimos comuns e cria a emoção a partir de uma noção de amizade nunca explicitada de forma clara, sempre através da reminiscência. A amizade profunda e moldada em décadas é o ponto chave da trama. É o que estabelece suas adversidades e as recompensas emocionais.

É talvez, ao lado de Ajuste Final, dos Irmãos Coen, um dos grandes filmes sobre caráter e a construção do mesmo como uma conseqüência de ações, não apenas uma idéia etérea que cada um define por si. Existe o certo, errado e o terreno cinzento entre ambos, e fazer o certo é fácil, porém custoso. Muitas pessoas esquecem disso por algum tempo, às vezes por uma vida, mas sempre existe tempo para se redimir.


O PAGAMENTO (Paycheck, 2003), John Woo

por Leandro Caraça

Uma década inteira em Hollywood fez estragos em John Woo. O Pagamento só não representa o ponto mais baixo de toda sua carreira por causa das suas experiências na televisão americana (Missão Secreta, The Robinsons: Lost in Space). Baseado num curto conto de Philip K. Dick, o filme mostra Ben Aflleck como um especialista em engenharia reversa, que acaba contratado para um serviço de três anos. Após isso, ele terá a memória deste período apagada. Terminado o serviço, ele vai coletar a grana, mas para seu infortúnio ao invés do dinheiro recebe apenas alguns objetos… que foram deixados por ele mesmo. Enquanto tenta resolver o enigma, precisará escapar das pessoas que estão tentando matá-lo por alguma razão. A partir de uma premissa bastante interessante, Woo comanda o filme no piloto automático. Resulta numa obra desprovida de emoção, com cenas de ação genéricas e o aspecto de ficção científica totalmente mal aproveitado.

Se a opção de Ben Aflleck como protagonista é um erro completo, o resto do elenco não é de se jogar fora (Aaron Eckhart, Paul Giamatti, Uma Thurman, recém-saída de Kill Bill). Mas nem mesmo eles são capazes de injetar alguma vida, e no final, O Pagamento se tornou uma das três bombas que Aflleck estrelou em 2003. As outras foram Demolidor – O Homem Sem Medo e Contrato de Risco – sendo que neste mesmo ano tomou um pé na bunda da sua então noiva Jennifer Lopez. Chega a ser constrangedor ver um cineasta como John Woo reduzido a um reles diretor de aluguel como acontece aqui, enquanto diretores como Walter Hill (em O Último Matador) e Alain Corneau (em Os Profissionais do Crime) conseguiram a proeza de montar espetáculos baseados no cineasta chinês, mas sem perder as suas identidades.