PISTOLEIROS DO ENTARDECER (Ride the High Country, 1962), Sam Peckinpah

por Davi de Oliveira Pinheiro

Como uma estrutura tão incomum de trama tornou-se tão grande sucesso de público? Primeira grande vitória de uma filmografia experimental e pouco ligada ao momento do cinema, os filmes de Sam Peckinpah, Pistoleiros do Entardecer foi realizado numa época em que recém o cinema europeu encontrava a linguagem moderna. O cinema do diretor americano parece ser o primeiro a absorver as características de uma gramática renovada, construída sobre o clássico, mas com uma nova maneira de articular a imagem, o som e a montagem de ambos.

Mesmo que use o ritmo do faroeste americano tradicional, é uma trama de reminiscências e sem o luxo da ação. Trata de dois pistoleiros veteranos que se reencontram para um serviço um tanto quanto ortodoxo, ao invés da tradicional (“a última grande jogada”) e parece que o argumento permite ao realizador e seus atores se deliciarem com os resultados da maturação mental e a decadência física que a idade traz. É um filme sobre a memória, onde o caminho que os pistoleiros seguem é apenas o desenho de um espaço físico ao qual vão retornar, enquanto à frente encontra-se apenas a possibilidade de lembrar o passado e julgar o caráter de um novo pistoleiro, que ao contrário deles, dois homens do velho oeste, inclui em sua personalidade a dureza do oeste selvagem e a modernidade do século XX.

O novo pistoleiro é a personagem que traz o equilíbrio ao filme; é a única que possui um arco narrativo tradicional. O arco dos dois teóricos protagonistas é praticamente estático, inativo; é um diálogo de ações passadas. São personagens cuja moral e inteligência é estabelecida pela história pregressa, enquanto o jovem pistoleiro está em formação e seu caráter questionável é moldado pelo convívio com os veteranos e se demonstra um tanto quanto presente ao final do filme.

Peckinpah cria uma trama popular a partir de elementos pouquíssimos comuns e cria a emoção a partir de uma noção de amizade nunca explicitada de forma clara, sempre através da reminiscência. A amizade profunda e moldada em décadas é o ponto chave da trama. É o que estabelece suas adversidades e as recompensas emocionais.

É talvez, ao lado de Ajuste Final, dos Irmãos Coen, um dos grandes filmes sobre caráter e a construção do mesmo como uma conseqüência de ações, não apenas uma idéia etérea que cada um define por si. Existe o certo, errado e o terreno cinzento entre ambos, e fazer o certo é fácil, porém custoso. Muitas pessoas esquecem disso por algum tempo, às vezes por uma vida, mas sempre existe tempo para se redimir.


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5 thoughts on “PISTOLEIROS DO ENTARDECER (Ride the High Country, 1962), Sam Peckinpah

  1. Tambem revi esses dias. Uma cena que acho marcante é a do casamento, altamente grotesca. E o duelo final voltei umas 3 vezes para ver e rever, muito bom! Peckinpah = God.

  2. O duelo final é uma das maiores aulas da história do cinema, mas isso é coisa pra ser absorver e ir dormir pensando e aprendendo. Muito bom rever 10 vezes ou mais. Parece que o montador se assustou com o material do duelo e deixaram o próprio Peckinpah montar com alguém de sua escolha. Assim como Leone é o rei do pictórico, Peckinpah é o rei da montagem.

    Valeu, Luiz Alexandre, espero poder colaborar com muita humildade e fazer putas textos no processo! : P

  3. E ainda tem gente que diz que o Peckinpah não era sensível… Pistoleiros do Entardecer (e mais tarde Cable Hogue e Junior Bonner) é a grande prova dessa sensibilidade.

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