MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA (Wild Bunch, 1969), Sam Peckinpah

por Otávio Pereira

É difícil falar de uma obra-prima unânime sem ser repetitivo, mas Meu Ódio Será sua Herança mudou a história do cinema após seu lançamento em 1969 e mesmo depois de quarenta anos o filme continua forte e único. Esta foi a quarta vez que o assisti, e a cada revisão novos pontos são ressaltados e outros ampliados. A cópia vista foi a comemorativa de 35 anos, totalmente restaurada, trazendo a versão do diretor, com imagem e som de alta qualidade, além de um segundo disco recheado de bônus. O interessante desta versão são as cenas nunca antes vistas, que trazem um lado mais cômico e também um flashback que ajuda a explicar mais sobre o personagem do Robert Ryan e sua motivação. Mesmo achando que algumas dessas cenas cômicas não se encaixam bem, o filme continua um colosso.

Meu Ódio Será sua Herança reinventa o cinema de faroeste americano, possuindo algumas características trabalhadas por John Ford, mescladas com tendências do faroeste italiano. Mas o que prevalece são os ideais e temas discutidos em toda obra de Sam Peckinpah. Temos lealdade, coragem, honra, amizade e principalmente o problema em se adaptar às mudanças de um novo mundo (tema que atingiria sua plenitude em Pat Garret & Billy the Kid). Um dos grandes trunfos do filme é retratar o Velho Oeste da forma mais realista possível, deixando de lado os mitos até então utilizados, os bons costumes e a moralidade. Bloody Sam narra de forma crua e direta o dia a dia de um bando de foras da lei que vê na violência o único modo de vida.

Como toda obra-prima tudo está equilibrado em perfeita harmonia, desde a fotografia, produção, trilha sonora, e especialmente a montagem e atuações. Sam Peckinpah consegue filmar e montar as sequências de ação com maestria, criando um estilo único na decupagem de suas cenas, mesclando uma violência gráfica nunca antes vista com forte carga dramática. Tudo isto é complementado por magníficas atuações de William Holden, Ernest Borgnine, Robert Ryan, Edmond O’Brian, Warren Oates, Ben Johnson, Jamie Sanchez e o também cineasta Emilio Fernandez.

O filme possui muitas cenas fortes que falam por si, mas nesta última revisão uma seqüência que me marcou foi o prelúdio do massacre final. Temos Ernest Borgnine sentado, encostado em um muro cortando um pedaço de madeira com uma faca. Sua face é de desprezo, pois de onde está consegue ouvir os soldados mexicanos se divertindo com o amigo Angel, enquanto Warren Oates e Ben Johnson discutem com uma prostituta. William Holden entra no quarto e diz, “vamos”, depois de um pequeno silêncio temos a resposta “porque não?”. Em seguida o grupo pega suas armas e faz a caminhada final em busca de seu amigo. Depois temos mais uma seqüência excelente com Mapache entregando Angel ao grupo, e os segundos que antecedem a maior cena de ação já filmada, um verdadeiro épico e um final espetacular de uma obra singular no mundo do cinema.

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3 thoughts on “MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA (Wild Bunch, 1969), Sam Peckinpah

  1. Um dos melhores filme de todos os tempos, de qualquer gênero. Tinham que erguer um busto do Peckinpah em Hollywood só por esse filme.

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