SOB O DOMÍNIO DO MEDO (Straw Dogs, 1971), Sam Peckinpah

por Caio de Freitas

Sam Peckinpah trilhou um longo caminho até realizar aquela que seria considerada sua obra-prima: Meu Ódio Será Tua Herança, de 1969. Peckinpah mostrava ali as características mais marcantes de seu cinema: cenas com violência altamente estilizada, câmera lenta em tiroteios e cenas clímax e histórias que mostravam escolhas e atos eticamente discutíveis – e seus personagens sempre devem lidar com as consequências por tais escolhas. E dois anos depois Peckinpah consolida seu nome com um perturbador suspense, estrelado por Dustin Hoffman: Sob o Domínio do Medo, de 1971.

Bloody Sam” – alcunha pela qual Peckinpah ficou famoso – conta a história de um jovem casal que se muda para um pequeno vilarejo inglês em busca de paz e sossego. David e Amy Sumner [os excelentes Dustin Hoffman e Susan George] se mudam para a pequena Wakely, na costa da Inglaterra, para que David possa escrever um livro. Ele é um matemático norte-americano que faz pesquisas sobre navegação celestial, e o lugar parece perfeito para que seu trabalho renda mais. Porém as coisas mudam de panorama, e um grupo de maus elementos começa a perturbar o casal. Os marginais estão trabalhando na reforma da casa dos Sumner, então acabam tendo maior poder e facilidade para ameaçá-los.

Não se engane pela premissa relativamente simples: Peckinpah conta uma história complexa e sufocante, colocando personagens pacifistas em um vilarejo violento. Trabalhando com as consequências da escolha do casal de se mudar para este vilarejo, Peckinpah enfoca na transformação destes personagens, que em determinado ponto da trama percebem que lutam por suas vidas. Há muitos personagens icônicos nesta empreitada de Bloody Sam: o matemático pacifista David Sumner, que precisa se afirmar como homem e busca o respeito dos maus elementos de Wakely; Henry Niles [David Warner], um pedófilo em recuperação, sempre alvo de olhares atravessados dos moradores; a mulher de David, Amy Sumner, que não sabe se cede às suas origens de Wakely ou se aceita seu marido como ele realmente é.

Além disso, Amy se encontra em uma grave crise conjugal com David, que não hesita em questionar sua maturidade. Por isso, se cria outro perigoso cenário: Amy flerta com os marginais, sem nem imaginar as conseqüências deste perigoso jogo de sedução.

Peckinpah sempre foi conhecido por sua intensidade, e em Sob o Domínio do Medo as situações nas quais o casal se envolve são um bom espelho disso. Ao se utilizar de suas marcas técnicas, como cenas construídas ao redor de um clímax para muitos personagens, violência estilizada e em sequências em câmera lenta, Peckinpah cria sequências marcantes, como o estupro, o encontro na igreja e o confronto na casa dos Sumner. Mesmo que o ritmo do filme demore a engrenar, a escolha de Peckinpah para construir a narrativa se mostra adequada: com um começo um pouco mais lento, com situações e tensões mais implícitas, Bloody Sam consegue deixar a parte final do filme altamente sufocante.

Assim, Bloody Sam se aprofunda nos lados mais sombrios da psiquê humana, e mostra a que ponto chegamos quando somos exigidos além de nossos limites. O casal Sumner precisa deixar sua faceta pacifista de lado para sobreviver a esta passagem por Wakely, e durante este processo a platéia se perturba, e questiona a existência humana. Os personagens passam por provações e experiências traumáticas horríveis, que Peckinpah arquiteta de maneira brilhante.

Não vou ser hipócrita: Sob o Domínio do Medo é um filme denso, perturbador e pesado. Peckinpah realiza uma película tensa, daquelas que te deixam pra baixo o resto do dia, pensando e refletindo sobre o filme. Se você estiver disposto, o filme é muito competente, mostrando o lado horrendo do ser humano. A intenção de Peckinpah é chocar, polemizar e principalmente questionar. Tal qual Lars Von Trier em Dogville, Sam consegue trazer este questionamento na forma de uma obra-prima do cinema.

Anúncios

5 thoughts on “SOB O DOMÍNIO DO MEDO (Straw Dogs, 1971), Sam Peckinpah

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s