DEZ SEGUNDOS DE PERIGO (Junior Bonner, 1972), Sam Peckinpah

por Leandro Caraça

Sam Peckinpah reclamava da perseguição que recebia por parte dos censores e moralistas quando realizava filmes violentos. Mas quando apresentava obras as quais não havia tiros e gente morrendo, o público geralmente virava a cara. Foi o que aconteceu com Dez Segundos de Perigo, lançado nos cinemas com grande pompa em 1972, em vez de uma distribuição menor e mais seletiva como queriam Sam Peckinpah e o astro Steve McQueen. É compreensível o espanto que o filme possa ter causado no público, ainda aturdido pelo espetáculo visceral que foi Sob o Domínio do Medo. Talvez por causa disso, o diretor tenha resolvido trilhar outro caminho. E se o resultado por um lado foi frustrante para muitos, por outro mostrou (a quem conseguisse perceber) que ninguém retratava a morte do velho oeste americano como Sam Peckinpah.

Dez Segundos de Perigo apresenta J.R. ‘Junior’ Bonner (McQueen), um veterano astro do rodeio que já teve dias melhores. Após um tempo afastado, está agora retornando para sua cidade natal, a fim de participar de uma nova competição e conseguir uma revanche com o touro que o derrubou uma semana antes. Assim que chega, descobre que a velha casa de seu pai, Ace Bonner (Robert Preston), está sendo demolida – Peckinpah intercala a destruição da propriedade pelos tratores com retratos da memória de Junior Bonner. Mais tarde descobrirá que seu irmão Curley (Joe Don Baker) comprou todas as terras da família e pretende construir um loteamento com casas móveis. A pragmática mãe (Ida Lupina) está conformada com a situação, mas Ace Bonner planeja viajar para a Austrália e começar prospecção de ouro. Após fracassar como minerador de prata e torrar o dinheiro ganho com a venda das terras (com mulheres e bebida), ele só precisa de um pequeno investimento. É nessa situação que Junior Bonner vai encontrar a família, e através de um último rodeio em parceria com seu pai, tentará resgatar o que restou dos bons tempos.

Peckinpah traça um tocante paralelo entre o fim dos cowboys como Junior Bonner e a ruptura de um núcleo familiar. O filme não comete o erro de apontar vilões. Mesmo Curley é visto como alguém que não quer repetir os erros do pai e não vê um futuro para o irmão. “Estou trabalhando para conseguir meu primeiro milhão e você ainda está trabalhando nos seus oito segundos”, diz ele em certo momento para Junior Bonner, se referindo aos oito segundos mínimos que um cowboy precisa aguentar em cima da montaria. Para o personagem de McQueen só existe o rodeio, e como se fosse uma espécie de samurai americano, e ele continuará puro a este ideal até o fim. Chega até mesmo a pedir que Buck Roan (Ben Johnson), fornecedor dos animais da competição, o coloque para enfrentar o mesmo touro que o derrubou, ainda que para isso, tenha que abrir mão de metade do prêmio. Mesmo com o fracasso do filme nas bilheterias, Steve McQueen chamou Peckinpah para trabalhar com ele novamente. Não foi à toa, pois o astro tem em Dez Segundos de Perigo, aquela que deve ser a melhor performance de sua carreira.

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