O CASAL OSTERMAN (The Osterman Weekend, 1983), Sam Peckinpah

por Luiz Alexandre

O ano é 1983. Um agente da CIA (John Hurt, ótimo), mancomunado a um político (Burt Lancaster) convence um jornalista idealista (Rutger Hauer) de que são amigos próximos são, na verdade, traidores da pátria que negociam com os comunistas soviéticos. Um fim de semana em sua casa, evento que realizam há anos desde a época em que estudavam juntos, se tornará um pesadelo movido a intrigas e segredos de estado.

Peckinpah, infelizmente, já não era o mesmo de outrora. Tido como ficha suja em Hollywood, tinha que aproveitar as oportunidades que lhe apareciam para poder realizar a sua velha magia. Com o trabalho que fez, sem crédito, no filme  Jinxed!, de seu mentor Don Siegel, ele foi chamado para dirigir essa adaptação de um romance de Robert Ludlum, autor, entre outros, dos livros que inspiraram a trilogia Bourne. Infelizmente veio a ser também o adeus do diretor, que faleceu após as filmagens.

Infelizmente, O Casal Osterman não é o seu momento mais inspirado. A trama é confusa e não possui o mesmo espírito mágico de seus filmes anteriores. Mesmo Elite de Assassinos , uma obra feita sob encomenda por produtores, você ouve melhor a voz embriagada do diretor. Aqui o ritmo é por vezes arrastado, embora não seja um filme lento, e a trama não possui momentos poéticos como em vários de seus outros filmes, a música, embora competete, não é tão envolvente, é até mais datada do que poderia, e embora tenha uma certa sujeira comum aos filmes da época, é uma obra menos refinada do que seus filmes dos anos 60, 70, sua violência não é tão bela. Fora que o velho medo dos “malditos comunas” envelheceu muito mais do que seus pistoleiros.

Mas, ora bolas, estamos falando de Bloody Sam! A cena inicial, que começa com o sexo entre John Hurt e uma linda atriz que interpreta sua esposa e que culmina com o assassinato da mesma, embora deveras similar a exemplares eróticos da época, é violentamente bonita. As poucas cenas de ação do filme ainda são muito boas e o elenco, embora não tenha sido escolhido por ele, está muito bem. O filme ainda permite pequenas sutilezas do diretor, como um possível romance entre Bernie Osterman (Craig T. Nelson) e Betty (Cassie Yates), esposa de seu amigo Joseph (Chris Sarandon). O erotismo do filme, se é que pode se chamar assim, é quase morto, o clima das relações conjugais de alguns dos personagens é de decadência e torpor. Fora que a crescente tensão entre os personagens é muitíssimo bem trabalhada pelo diretor.

O diretor também, de alguma maneira, reflete sobre a influência da TV na vida das pessoas, sobre como depositamos nossa confiança nas instituições como a mídia e a propaganda do governo, crítica que infelizmente ainda tem muita relevância. Todas as intrigas e infortúnios só foram possível pelo jogo de faz de conta armado pela CIA (um filme americano que critica a CIA durante a Guerra Fria, como pode?) e tudo culmina com um final curiosamente belo e pessimista. Um discurso libertário por parte de Tanner aos seus espectadores, onde incentiva os mesmos a desligarem a TV. Mas nós não podemos tocar na tela e apertar o interruptor. Apenas vemos tudo e esperamos as letras começarem a subir, do jeito que nos foi ensinado.

P.S: O título nacional do filme é certamente um dos piores que nossa industria já criou. O citado Osterman é o único dos amigos que é solteiro, o título em inglês faz uma referência há uma velha tradição entre os amigos de sempre se reunirem na casa do personagem quando eram jovens. Ele saiu da casa dos pais, mas a tradição continuou nas casas dos outros, por isso o “Fim de Semana Osterman” .

P.S 2: A interpretação que fiz sobre a cena final do filme eu roubei de um especialista (cujo nome não sei) que deu um depoimento em um péssimo documentário sobre o diretor que assisti no Festival do Rio. Sei que não tenho obrigação de creditar, mas queria dizer que infelizmente não cheguei a ela sozinho.

P.S 3: A versão que assisti foi a que a Flash Star Home Vídeo lançou no Brasil, com dois DVDs, contendo supostamente a versão do diretor. Indo ao IMDB descobri que existe uma outra versão sim, mas é mais longa do que a que a Flash Star vende. Seria Peckinpah um profeta?

COMBOIO (Convoy, 1978),de Sam Peckinpah

por Ronald Perrone

Não é novidade alguma para os fãs do diretor Sam Peckinpah que sua visão de mundo seja cínica e amarga. Comboio, um de seus filmes mais subestimados, é daqueles que melhor apresenta essa visão crítica, especialmente ao que concerne ao povo americano.

Ao mesmo tempo em que o diretor exalta o espírito rebelde de sua nação – cuja trama centra num comboio de caminhoneiros revoltados, liderados por Rubber Duck (Kris Kristofferson), infernizando a vida da polícia, principalmente a do xerife carrancudo vivido por Ernest Borgnine – Peckinpah faz um retrato pessimista de seu país, jogando pedra até mesmo nos heróis, personagens alucinados que agem de forma tão irracionais quanto uma torcida de futebol em fúria, além da polícia que é corrupta, as mulheres submissas e os políticos tão oportunistas que fariam um deputado em Brasília ser o homem mais honesto do mundo.

É óbvio que toda essa revolta de Peckinpah é fruto de sua própria relação com o sistema e quando surge a oportunidade de expressar essa visão de mundo com uma câmera, ele o faz como um exímio artista que é.

Final da década de 1970, Peckinpah tinha de ralar muito para conseguir dirigir alguma coisa já há algum tempo. Após Comboio, apenas substituiu Don Siegel em Jinxed, quando este teve um infarto e depois realizou o derradeiro O Casal Osterman. A carreira do cineasta estava chegando ao fim, assim como a sua própria vida, consumido pelas drogas e Álcool. Ainda que reciclando idéias de outros filmes, como Corrida Contra o Destino, de Richard C. Sarafian e Louca Escapada, do Steven Spielberg, Comboio foi um dos seus últimos suspiros artísticos e a cena do balé dos caminhões no deserto empoeirado é uma prova incontestável disso.

CRUZ DE FERRO (Cross of Iron, 1977), Sam Peckinpah

por Davi de Oliveira Pinheiro

Uma obra-prima defeituosa ou um filme de guerra como deve ser, cheio de cicatrizes de batalha?

Após o grande momento comercial de Os Implacáveis, Sam Peckinpah encontrava-se à beira da glória, querido pela crítica e pelo público e realizador de pelo menos uma obra-prima reconhecida como tal, Meu Ódio Será Sua Herança. Apesar dos problemas pessoais e do alcoolismo sempre presente, se encontrava no cinema e o seu modo de falar agradava boa parte do público. O distanciamento que se consolidaria pelo resto de sua carreira veio com dois de seus grandes (porém mais incomuns) filmes Pat Garret & Billy The Kid e Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia.

Fracassos comerciais, incompreensão da crítica e o sucesso apenas razoável do subseqüente Assassinos de Elite, tornaram Peckinpah “veneno de bilheteria”, o que, combinado com seu comportamento por traz das câmeras e seus relacionamentos turbulentos com produtores e estúdios cinematográficos, inviabilizaram a conquista de financiamento. Filmes experimentais, aliados a uma personalidade difícil, renderam comentários como os de Charles Bronson, que ao deixar a produção de uma parceria possivelmente icônica, disse “eu não trabalho com bêbados”.

Rejeitando a possibilidade de dirigir Superman e o remake de King Kong, resolveu criar um filme perfeito a suas sensibilidades, Cruz de Ferro. Talvez das suas grandes obras a que mais revela a personalidade de Peckinpah, um homem que lutava pelo prazer da briga, enquanto outros lutavam pela glória. Cruz de Ferro foi produzido por Wolf C. Hartwig – produtor pornô que através de seu trabalho com um cineasta do porte de Peckinpah tentava conquistar legitimidade -, com orçamento limitado, que se mostrou irreal a escala da produção.

Com um terreno pequeno, apenas três tanques e cortes constantes no roteiro, Peckinpah levou seu estilo de ação e montagem a um limite que até então não fora possível, devido à qualidade do material bruto de edição que dispunha anteriormente. Limitado pela produção, o estilo Peckinpah ganha uma visceralidade ainda mais clara. Os cortes no tempo são como cortes na carne, as personagens se tornam ainda mais vivas. As ambigüidades morais e a análise do caráter, sempre presentes na obra extremamente humana de Peckinpah, chegam a novos níveis, sendo que o que importa não são apenas as oposições filosóficas entre os personagens, mas a unificação que se encontra através destas oposições. Covardes ou heróis, as personagens de Cruz de Ferro não são tão opostas como aparentemente são em nível clássico.

Não existe uma definição de certo ou errado, mas sim uma análise formativa. Enquanto o Capitão Stransky de Maximilian Schell é uma personagem estática, aristocrática, na sua personalidade e obsessão pela glória sem realizações, assim como na sua relação de interpretação com a câmera, o Sargento Steiner de James Coburn dança como se cada movimento fosse livre de uma auto-imagem, como se tudo fosse orgânico e necessário e sua luta fosse apenas porque ele é um grande soldado e não consegue se livrar da sina; ele não tem gosto pela glória, que é conseqüência de sua competência.

Um filme mesmo que fruto de centenas de personalidades num set, não passa de um reflexo daquele que direciona o caminho da equipe que o realiza. Por mais que o diretor tente evitar, torná-lo mais “palatável”, o que vemos é o ser humano com todas as cicatrizes e remendos. No caso, Cruz de Ferro é o espelho fragmentado de Sam Peckinpah, um homem que não desejava a glória, mas cujo relacionamento com seu ofício o levava a dar grandes vôos, mesmo que às vezes com uma certa rispidez estilística que é incompreendida.

ASSASSINOS DE ELITE (The Killer Elite, 1975), Sam Peckinpah

por Luiz Alexandre

Bloody” Sam Peckinpah é daqueles diretores que colheram uma série de adjetivos em sua carreira. Sua alcunha mais famosa, e possivelmente mais lisonjeira, foi “Poeta da Violência”. Entretanto, também foi tachado de bebum e irresponsável, o que não fez nada bem para sua conturbada relação com os estúdios. Nos anos setenta Peckinpah não parecia ser mais o concorrente ao Oscar de melhor roteiro por Meu Ódio Será Sua Herança, encontrando dificuldades em engatilhar seus projetos ou mesmo participar de novas produções. Assim como os velhos cowboys de seu quase premiado filme, já não parecia, naquele momento, haver um lugar para Sam.

Porém, aquele não era seu fim. Mike Medavoy, na época o grande cabeça da United Artists, estava com um roteiro para ser filmado e acreditava que Peckinpah seria a pessoa mais indicada para assumir a direção do filme, desde que o próprio Medavoy supervisionasse toda a filmagem da película, é claro. Com pouco dinheiro e com sérias chances de nunca mais dirigir, o Poeta se ajoelhou e pediu a benção ao “padrinho”, já que não tinha mesmo muita escolha. Rendeu-se, contudo não se entregou por completo.

tumblr_n50pbnHFS11trfa8po2_1280O filme conta a história de um mercenário, Mike Locken (James Caan), que junto de seu melhor amigo George Hansen (Robert Duvall), presta serviços de assassinato e proteção para a organização privada Com-Teg (uma óbvia referência a CIA), que, um dia se vê traído e a beira da morte por Hansen. Seus dias de matador estariam terminados, caso não estivesse munido de muita determinação e vontade de se vingar. Graças a muita fisioterapia e ao Karate, ele se recupera.

Embora ligeiramente manco, Locken se torna um expert em artes marciais e fica bastante habilidoso com sua bengala. Habilidades essas que se mostrarão bastante bem vindas em sua nova missão: proteger um líder político chinês, Yuen Chung (Mako), que está sendo perseguido por ninjas e por sua nêmesis, George Hansen. Munido de sua bengala, sua fúria e com os velhos amigos Mac (um maravilhoso Burt Young), um ex-mercenário aposentado, e Jerome Miller (Bo Hopkins), um assassino com mira super-humana e, bom, alguns miolos a menos Locken vai mostrar aos seus inimigos “com quantos paus se faz uma canoa”. Eu sei, essa é muito velha.

Aparentemente a inspiração para o filme, sujeito versado em artes marciais enfrentando ninjas chineses, numa provável falta de interesse em ser verossímil a cultura oriental, parece ter vindo do cinema de kung fu. O próprio Peckinpah teria dito em entrevistas que se preparou para o filme assistindo Operação Dragão, de Bruce Lee. E o que se vê é um filme mais “parado” do que um filme de ação contemporâneo, dedicando a maior parte de sua duração em mostrar a luta de Locken contra si mesmo, do que com tiros e pé na cara.

Mas se o roteiro não é o mais caprichado ou mesmo o mais poético como os do próprio Sam, não se pode dizer que o filme deixa a peteca cair. As sutilezas da relação entre Locken e Hansen, dois irmãos em armas que se vêem um contra o outro graças ao sistema corrupto que rege seu ofício, enriquecem o que seria um filme banal nas mãos de algum diretor menos inspirado. A cena da citada traição, em que Duvall acerta a tiros o cotovelo e o joelho de James Caan em vez de seu peito ou sua cabeça parece dizer que o personagem do primeiro está mais interessado em livrar seu “irmão” do mundo sanguinário que eles vivem do que de, efetivamente, acabar com ele. Hansen precisava se ver livre de Locken, mas por preza-lo tanto resolveu “presenteá-lo” incapacitando-o. Só que nem ele nem ninguém contavam com a determinação do assassino. É um mundo sórdido, mas é o mundo que Locken escolheu viver.

tumblr_n50pbnHFS11trfa8po7_1280Fico pensando se o drama de Locken, um Ás do homicídio, não seria, de alguma maneira, o drama do próprio Peckinpah; enquanto Locken é um homem que se vê obrigado a vender seus talentos a indivíduos que parecem ser ainda mais mercenários que ele próprio, Peckinpah sofria com uma Hollywood que sempre preferiu o dinheiro a qualidade do trabalho de seus artistas. Aliás, se importa sim com a qualidade, desde que qualidade seja sinônimo de sucesso de bilheteria.

Uma simples ida ao perfil de Mike Medavoy no IMDB nos mostra que ele, produtor desse e de vários outros clássicos de Hollywood, como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa de Woody Allen e de sucessos mais recentes, como Zodíaco de David Fincher, tem noção que a função da industria é saber se “a pessoa merece o seu salário”. Medavoy é como Weyborne, personagem de Gig Young, que faz o papel do grande diretor da Com Teg, figurão que tem noção de tudo o que está a sua volta, que compreende e contribui para o “bom funcionamento” das engrenagens do sistema, que buscar manter a “ordem” do mundo, doa a quem doer. Peckinpah é o “ronin” manco que não mata por orgulho ou por ideologia, mas por ser basicamente aquilo que faz melhor, o serviço que se presta a fazer sem pestanejar. Se eventualmente ele fizer algum bem, ótimo, se não, resta apenas seguir em frente, ele não pretende salvar o mundo de si mesmo.

Culminando com uma cena de ação digna de seu nome, onde vemos os ultrapassados e esquisitos orientais serem massacrados pelas pistolas dos ocidentais, Peckinpah parece zombar da “nova onda” que vinha do Leste. Os ninjas podem ser habilidosos, mas não têm peito de ferro. Ver James Caan, que na vida real é faixa-preta de Karate, enfrentando os ninjas de bengala e observar Burt Young, que poucos anos depois viria a ficar marcado como o ranzinza Paulie dos filmes do Rocky, dando um coro nos “perigosíssimos” adversários é uma das melhores coisas que o cinema de ação americano já nos ofereceu, pela própria ironia da situação. Assassinos de Elite pode não ser o maior filme de sua década, até porque ele teria de concorrer com outras obras mais celebradas na própria filmografia de Peckinpah, mas é um filme de ação mais sofisticado do que muitos poderiam esperar. É daqueles bons filmes que merecem ser vistos e revistos.