CRUZ DE FERRO (Cross of Iron, 1977), Sam Peckinpah

por Davi de Oliveira Pinheiro

Uma obra-prima defeituosa ou um filme de guerra como deve ser, cheio de cicatrizes de batalha?

Após o grande momento comercial de Os Implacáveis, Sam Peckinpah encontrava-se à beira da glória, querido pela crítica e pelo público e realizador de pelo menos uma obra-prima reconhecida como tal, Meu Ódio Será Sua Herança. Apesar dos problemas pessoais e do alcoolismo sempre presente, se encontrava no cinema e o seu modo de falar agradava boa parte do público. O distanciamento que se consolidaria pelo resto de sua carreira veio com dois de seus grandes (porém mais incomuns) filmes Pat Garret & Billy The Kid e Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia.

Fracassos comerciais, incompreensão da crítica e o sucesso apenas razoável do subseqüente Assassinos de Elite, tornaram Peckinpah “veneno de bilheteria”, o que, combinado com seu comportamento por traz das câmeras e seus relacionamentos turbulentos com produtores e estúdios cinematográficos, inviabilizaram a conquista de financiamento. Filmes experimentais, aliados a uma personalidade difícil, renderam comentários como os de Charles Bronson, que ao deixar a produção de uma parceria possivelmente icônica, disse “eu não trabalho com bêbados”.

Rejeitando a possibilidade de dirigir Superman e o remake de King Kong, resolveu criar um filme perfeito a suas sensibilidades, Cruz de Ferro. Talvez das suas grandes obras a que mais revela a personalidade de Peckinpah, um homem que lutava pelo prazer da briga, enquanto outros lutavam pela glória. Cruz de Ferro foi produzido por Wolf C. Hartwig – produtor pornô que através de seu trabalho com um cineasta do porte de Peckinpah tentava conquistar legitimidade -, com orçamento limitado, que se mostrou irreal a escala da produção.

Com um terreno pequeno, apenas três tanques e cortes constantes no roteiro, Peckinpah levou seu estilo de ação e montagem a um limite que até então não fora possível, devido à qualidade do material bruto de edição que dispunha anteriormente. Limitado pela produção, o estilo Peckinpah ganha uma visceralidade ainda mais clara. Os cortes no tempo são como cortes na carne, as personagens se tornam ainda mais vivas. As ambigüidades morais e a análise do caráter, sempre presentes na obra extremamente humana de Peckinpah, chegam a novos níveis, sendo que o que importa não são apenas as oposições filosóficas entre os personagens, mas a unificação que se encontra através destas oposições. Covardes ou heróis, as personagens de Cruz de Ferro não são tão opostas como aparentemente são em nível clássico.

Não existe uma definição de certo ou errado, mas sim uma análise formativa. Enquanto o Capitão Stransky de Maximilian Schell é uma personagem estática, aristocrática, na sua personalidade e obsessão pela glória sem realizações, assim como na sua relação de interpretação com a câmera, o Sargento Steiner de James Coburn dança como se cada movimento fosse livre de uma auto-imagem, como se tudo fosse orgânico e necessário e sua luta fosse apenas porque ele é um grande soldado e não consegue se livrar da sina; ele não tem gosto pela glória, que é conseqüência de sua competência.

Um filme mesmo que fruto de centenas de personalidades num set, não passa de um reflexo daquele que direciona o caminho da equipe que o realiza. Por mais que o diretor tente evitar, torná-lo mais “palatável”, o que vemos é o ser humano com todas as cicatrizes e remendos. No caso, Cruz de Ferro é o espelho fragmentado de Sam Peckinpah, um homem que não desejava a glória, mas cujo relacionamento com seu ofício o levava a dar grandes vôos, mesmo que às vezes com uma certa rispidez estilística que é incompreendida.

9 thoughts on “CRUZ DE FERRO (Cross of Iron, 1977), Sam Peckinpah

  1. renderam comentários como os de Charles Bronson, que ao deixar a produção de uma parceria possivelmente icônica, disse “eu não trabalho com bêbados”.

    hahahaa,grande charles bronson,como sempre sincero…

  2. Vou te dizer, chega a ser desagradável escrever entre um texto do Leopoldo e do Davi. Não importa o quanto você se esforce pra acompanhar, esses caras fazem melhor. Muito bom mesmo!

  3. Adoro este filme, é capaz de ser o meu preferido do Peckinpah. E o Tarantino veio roubar aqui para o seu “Basterds”, o Landa e o Stransky são muito parecidos…
    Parabéns a todos pelos textos dedicados ao realizador…

  4. “a que mais revela a personalidade de Peckinpah”
    não concordo mas ok, ele esta lá mas é o que mais revela. o q mais se revela em peck sempre é um oeste.

    cruz de ferro é algo q esta junto com straw dogs!

    “No caso, Cruz de Ferro é o espelho fragmentado de Sam Peckinpah, um homem que não desejava a glória, mas cujo relacionamento com seu ofício o levava a dar grandes vôos, mesmo que às vezes com uma certa rispidez estilística que é incompreendida.”

    será? gostei disso. é necessario rever o filme e os anteriores a esse. se tudo caminhar, estara correto.

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