O EXÉRCITO DO EXTERMÍNIO (The Crazies), George A. Romero

por Luiz Alexandre

Em uma pequena cidade do interior dos EUA um casal de crianças testemunham seu pai destruindo sua casa e encontram o corpo de sua mãe com a garganta cortada. O exército aparece com tudo nessa mesma cidade para conter uma doença que começa a afetar cidadãos da cidade devido a testes mau sucedidos de uma arma biológica que poluíram as águas da região. Pessoas entram em um insano estado de fúria e histeria e o exército é chamado para contê-las. Ninguém sabe se o mundo está por um triz, mas todos sabem que nada será como antes naquela região.

O Exército do Extermínio é possivelmente um ensaio sobre a paranóia americana pós-vietnã, sobre a Guerra Fria. É também uma obra que reflete o comportamento do homem quando este se encontra envolto ao caos completo. A maneira como o exército e os políticos, completamente despreparados para o problema que precisam resolver, problema esse causado única e exclusivamente pela eterna necessidade de serem os donos do mundo, mostram que quando a coisa realmente aperta eles não salvam ninguém. O cidadão comum, segundo Romero, não passa de um boi de piranha para o progresso. Mesmo os seus soldados não terão sua volta para a casa garantida. Jesus não tem dentes no país dos banguelas, já dizia o disco dos Titãs.

O mais interessante é que enquanto existe uma pessoa realmente tentando reverter o processo a favor dos moradores da cidade, existe toda uma estrutura que vai contra sua luta vã pela salvação. A ciência não progride porque precisa se sobrepor a toda uma irracionalidade que é maior do que ela. O homem comum, mesmo que dedicado, mesmo que lutando com todas as armas que possui, nada pode contra o sistema. Sua única vingança é saber que as contradições do mesmo são demais até pra ela mesma. Resta apenas aos donos de tudo decidirem que cabeça cortar de sua própria quimera. O problema é que a cabeça que cortam é a mesma acima de nossos pescoços. Como canta a canção ao fim da obra, que os céus nos ajudem. Lindo.

A ESTAÇÃO DA BRUXA (Hungry Wives, 1972), George A. Romero

por Leandro Caraça

Joan Mitchell é uma dona-de-casa suburbana desiludida com sua atual situação, incapaz de criar um elo de comunicação com a filha, e frequentemente maltratada e abusada pelo marido. Sem falar dos pesadelos cada vez mais constantes com um homem misterioso invadindo sua casa que a estão deixando ainda pior. Os seus únicos momentos de relaxamento são as reuniões com as vizinhas de vida igualmente nada interessante. Pois é numa dessas sessões de fofocas acaba sabendo de uma moradora das redondezas que é praticamente de wicca (bruxaria). George Romero foge de qualquer clichê possível neste filme, apresentando um filme de bruxa quase que sem a presença de nenhuma bruxa. Igual ao que faria com O Exército do Extermínio (um filme de zumbi sem o sinal de um zumbi sequer) e Martin (um filme de vampiro sem nenhum vampiro verdadeiro). A nova forma de encarar o mundo que Joan vai aos poucos absorvendo, lhe trará a força necessária para recuperar a confiança que havia perdido em si mesma, incluindo nisso um caso com o amigo de sua filha (Raymond Laine de There’s Always Vanilla).

Longe de ser um filme de horror, Hungry Wives mostra o cuidado de Romero em trabalhar com diálogos e situações cotidianas perfeitamente verossímeis. A sua narrativa adulta até sugere um paralelo com autores do porte de Robert Altman e John Cassavetes. Por outro lado, o diretor não abre mão de criar alguns momentos aterrorizantes que são apresentados nos sonhos cada vez mais sinistros da protagonista. É uma pena que o próprio Romero considere esta daqui uma das obra menos querida de sua filmografia, só perdendo para There’s Always Vanilla. Com toda a humildade que lhe é sempre atribuída, ele acredita que o filme é deficiente tecnicamente. Confessa que teve alguns problemas de produção (uma constante em sua carreira) e acredita que seus primeiros filmes se valiam de uma montagem bem empregada para compensar qualquer eventual falha na sua narrativa. A verdade é que Hungry Wives pode até sofrer de um final meio abrupto mas nunca deixa de ser fascinante. Ainda mais levando em conta que a versão original tinha 130 minutos, e que depois ganhou dois novos cortes, um de 104 minutos e outro de 89 minutos que foi lançado comercialmente nos EUA. No Reino Unido o filme recebeu o sugestivo título de Jack’s Wife. Na década de 80, ao chegar nas videolocadoras foi rebatizado como Season of the Witch – para tentar capitalizar em cima da canção de Donovan que toca no filme). No Brasil chegou a sair em raríssimas cópias piratas legendadas com o nome de A Estação da Bruxa.

THERE’S ALWAYS VANILLA (1971), George A. Romero

por Leandro Caraça

O dia seguinte ao sucesso de A Noite dos Mortos Vivos não foi exatamente o que George Romero imaginava. Passados três anos desde que os seus zumbis comedores de carne humana começaram a reclamar o mundo, ele ainda estava trabalhando na televisão, onde tinha a oportunidade de dirigir comerciais de molho de tomate e de picles em conserva. Uma carreira muito promissora para quem havia abalado as estruturas do cinema de horror. Romero só voltaria a assinar um novo longa em 1971, quando ele e sua companhia arrumaram um tempo entre uma peça publicitária e outra. O drama romântico There’s Always Vanilla (também conhecido como The Affair) seria dirigido por Rudolph J. Ricci, o responsável pelo roteiro. Quando este acabou perdendo o interesse no trabalho, sobrou para Romero assumir a bucha. Ele sempre declarou detestar o resultado final, que não à toa, se tornou o elemento mais obscuro de toda sua filmografia. Assistindo a There’s Always Vanilla, é fácil perceber que o coração de Romero não estava no lugar certo. Mas é errado achar que se trata de uma obra sem qualidades : Chris Bradley (Raymond Laine) é o jovem recém-chegado do Vietnam, que se recusa a fazer parte dos negócios da família, no ramo de alimentos para bebês. Mais velha, Lynn (Judith Steiner, a Judy de A Noite dos Mortos Vivos e que nunca mais atuaria de novo) é uma modelo que trabalha em comerciais para TV. Assim que se conhecem, o casal se apaixona. A maneira que o filme progride, ficam claras as diferenças entre os dois. Se Lynn encontra-se frustrada com a carreira nos comerciais (uma referência direta ao próprio Romero), por sua vez Chris mostra não ter grandes projetos na vida – entre os bicos, chegou até mesmo a ser cafetão. Quando Lynn fica grávida, ela percebe que o namorado não tem nenhuma condição de ser pai. É próximo do final que Romero se solta um pouco, ao narrar a visita de Lynn a uma clínica clandestina de aborto. Nessas cenas, There’s Always Vanilla chega a ganhar contornos de filme de horror. Com personagens mais próximos da realidade e interpretados por atores competentes, além de uma montagem ágil do próprio diretor, é um legítimo representante da ressaca da contracultura. Considerado perdido durante muito tempo, acabou sendo lançado – para desespero de Romero – junto de Season of the Witch no DVD importado da Anchor Bay.

A NOITE DOS MORTOS VIVOS (Night of the Living Dead, 1968), George A. Romero

por Cesar Almeida

Se a história do cinema de Horror for dividida em duas eras, Horror Clássico e Horror Moderno, não há dúvidas quanto ao marco desta divisão. Em 1968, ano emblemático tanto culturalmente quanto socialmente, um jovem diretor de comerciais chamado George A. Romero capitaneou a produção independente de um pequeno filme que modificou o gênero Horror para sempre, além de promover uma revolução no modo de se fazer Cinema. Esta importante obra se chama A noite dos mortos vivos (Night of the living dead) e mostra uma assustadora visão do comportamento humano frente a uma catástrofe de proporções inimagináveis: a volta dos mortos ao mundo.

George A. Romero começou a dirigir comerciais para TV durante a faculdade e em pouco tempo fundava a produtora Image Ten ao lado dos amigos Russel Streiner e John A. Russo. Cansados da rotina dos comerciais, o trio teve a idéia de realizar um longa metragem de horror para tentar lucrar com o que eles chamaram de “sede pelo bizarro” da indústria cinematográfica. O grupo planejou uma história satírica de terror, que aos poucos foi tomando contornos mais sérios e apocalípticos. Com o roteiro finalizado, eles buscaram ajuda dos produtores Karl Hardman e Marilyn Eastman, com os quais começaram a levantar fundos para o projeto. O orçamento foi adquirido através da doação de dezenas de pequenos investidores, que ofereceram trezentos Dólares cada. Filmado ao redor de Pittsburg entre Junho e Dezembro de 1967, A noite dos mortos vivos contou com um elenco quase todo amador enquanto vários membros da equipe dividiam-se em diversas funções.

O roteiro pode parecer simples, porém há muito mais para se ver além do que aparece na tela. Um casal de irmãos, Johnny (Russel Streiner) e Barbra (Judith O’Dea), está visitando o cemitério onde seu pai está enterrado. Na hora de partir eles são atacados por um cadáver reanimado. Johnny é ferido gravemente na luta com a criatura e Barbra foge. Ela encontra abrigo em uma casa abandonada. Em seguida, Ben (Duane Jones) chega à mesma casa à procura de proteção. Após bloquear portas e janelas, eles encontram mais cinco pessoas escondidas no porão. Entre eles o paranóico e covarde Cooper (Karl Hardman), sua esposa Helen (Marilyn Eastman) e sua filha (Kyra Schon), que fora mordida pelos monstros. Com a casa cercada pelos mortos vivos canibais, eles testemunham o avanço da epidemia pelo país através da televisão. Ben e Cooper entram em atrito pela liderança do grupo e as tensões crescem ao ponto de colocar as vidas de todos em grave risco.

O tema “mortos vivos” não era novidade no fim dos anos 1960. Ele já freqüentava as telas do cinema desde os anos 1930, vide White Zombie (1933), com Bela Lugosi. O livro Eu sou a lenda (I am legend), escrito por Richard Matheson em 1957, modernizou bastante o assunto e influenciou muitos cineastas como Romero. A violência explícita com farta exibição de sangue e vísceras também era habitual na obra de cineastas como Herschell Gordon Lewis. Qual foi então a novidade apresentada por Romero? O ousado diretor injetou em seu trabalho uma farta dose de crítica social, algo sem precedentes neste gênero e até hoje pouco comum no cinema americano. A habilidade com que tratou de temas polêmicos como o racismo e o individualismo da sociedade garantiram à Romero a perenidade de sua obra. Em A noite dos mortos vivos a ameaça não tem origem, identidade, afeta a tudo e a todos. A sociedade é virada de cabeça para baixo e, atônita, torna-se uma ameaça a si mesma.

O elenco contém apenas dois atores profissionais: Duane Jones e Judith O’Dea. Um filme protagonizado por um negro e uma mulher era algo extremamente incomum no cinema americano da época. Suas atuações são naturais e cheias de força dramática. Alguns dos outros atores demonstram seu amadorismo, mas não chegam a comprometer o resultado final. Karl Hardman e Marilyn Eastman, casados na vida real, também tem ótimo desempenho em papéis marcantes.

Pedra fundamental do Horror Moderno, A noite dos mortos vivos teve um orçamento de $114 mil Dólares e rendeu internacionalmente uma bilheteria de cerca de $40 milhões. Por muito tempo ele foi o filme independente mais lucrativo já feito. Um erro grave cometido pela empresa encarregada da distribuição levou A noite dos mortos vivos a cair em domínio público. Portanto, a maior parte dos lucros obtidos não foi parar nas mãos de seus verdadeiros autores. Hoje, o mitológico trabalho de George A. Romero é campeão em versões para DVD além de ser o filme mais popular (com cerca de 450 mil downloads até Abril de 2008) no Archive.org, um site do governo americano que oferece downloads gratuitos de materiais em domínio público. Ao longo das décadas seguintes, Romero dirigiu quatro continuações de sua obra prima: Despertar dos mortos (Dawn of the dead – 1978), Dia dos mortos (Day of the dead – 1985), Terra dos mortos (Land of the dead – 2005) e Diário dos mortos (Diary of the dead – 2007), formando a série de Horror mais influente de todos os tempos. Os cinco capítulos desta lendária saga estão disponíveis em DVD e VHS no Brasil.

OBS: Texto originalmente escrito para o livro Cemitério Perdido dos filmes B, escrito pelo Cesar pela editora Multifoco, antes da realização de um sexto filme da saga dos zumbis de Romero, Survival of the Dead (2009).


O DIA DA FÚRIA ESPECIAL GEORGE A. ROMERO

FILMOGRAFIA

A NOITE DOS MORTOS VIVOS, aka Night of the Living Dead (1968)
THERE’S ALWAYS VANILLA (1971)
A ESTAÇÃO DA BRUXA, aka Hungry Wives (1972)
O EXÉRCITO DO EXTERMÍNIO, aka The Crazies (1973)
MARTIN (1977)
O DESPERTAR DOS MORTOS, aka Dawn of the Dead (1978)
CAVALEIROS DE AÇO, aka Knightriders (1981)
CREEPSHOW (1982)
DIA DOS MORTOS, aka Day of the Dead (1985)
INSTINTO FATAL, aka Monkey Shines (1988)
DOIS OLHOS SATÂNICOS (1990), episódio O Caso do Sr. Valdemar
A METADE NEGRA, aka The Dark Half (1993)
A MÁSCARA DO TERROR, aka Bruiser (2000)
TERRA DOS MORTOS, aka Land of the Dead (2005)
DIÁRIO DOS MORTOS, aka Diary of the Dead (2007)
A ILHA DOS MORTOS, aka Survival of the Dead (2009)