A NOITE DOS MORTOS VIVOS (Night of the Living Dead, 1968), George A. Romero

por Cesar Almeida

Se a história do cinema de Horror for dividida em duas eras, Horror Clássico e Horror Moderno, não há dúvidas quanto ao marco desta divisão. Em 1968, ano emblemático tanto culturalmente quanto socialmente, um jovem diretor de comerciais chamado George A. Romero capitaneou a produção independente de um pequeno filme que modificou o gênero Horror para sempre, além de promover uma revolução no modo de se fazer Cinema. Esta importante obra se chama A noite dos mortos vivos (Night of the living dead) e mostra uma assustadora visão do comportamento humano frente a uma catástrofe de proporções inimagináveis: a volta dos mortos ao mundo.

George A. Romero começou a dirigir comerciais para TV durante a faculdade e em pouco tempo fundava a produtora Image Ten ao lado dos amigos Russel Streiner e John A. Russo. Cansados da rotina dos comerciais, o trio teve a idéia de realizar um longa metragem de horror para tentar lucrar com o que eles chamaram de “sede pelo bizarro” da indústria cinematográfica. O grupo planejou uma história satírica de terror, que aos poucos foi tomando contornos mais sérios e apocalípticos. Com o roteiro finalizado, eles buscaram ajuda dos produtores Karl Hardman e Marilyn Eastman, com os quais começaram a levantar fundos para o projeto. O orçamento foi adquirido através da doação de dezenas de pequenos investidores, que ofereceram trezentos Dólares cada. Filmado ao redor de Pittsburg entre Junho e Dezembro de 1967, A noite dos mortos vivos contou com um elenco quase todo amador enquanto vários membros da equipe dividiam-se em diversas funções.

O roteiro pode parecer simples, porém há muito mais para se ver além do que aparece na tela. Um casal de irmãos, Johnny (Russel Streiner) e Barbra (Judith O’Dea), está visitando o cemitério onde seu pai está enterrado. Na hora de partir eles são atacados por um cadáver reanimado. Johnny é ferido gravemente na luta com a criatura e Barbra foge. Ela encontra abrigo em uma casa abandonada. Em seguida, Ben (Duane Jones) chega à mesma casa à procura de proteção. Após bloquear portas e janelas, eles encontram mais cinco pessoas escondidas no porão. Entre eles o paranóico e covarde Cooper (Karl Hardman), sua esposa Helen (Marilyn Eastman) e sua filha (Kyra Schon), que fora mordida pelos monstros. Com a casa cercada pelos mortos vivos canibais, eles testemunham o avanço da epidemia pelo país através da televisão. Ben e Cooper entram em atrito pela liderança do grupo e as tensões crescem ao ponto de colocar as vidas de todos em grave risco.

O tema “mortos vivos” não era novidade no fim dos anos 1960. Ele já freqüentava as telas do cinema desde os anos 1930, vide White Zombie (1933), com Bela Lugosi. O livro Eu sou a lenda (I am legend), escrito por Richard Matheson em 1957, modernizou bastante o assunto e influenciou muitos cineastas como Romero. A violência explícita com farta exibição de sangue e vísceras também era habitual na obra de cineastas como Herschell Gordon Lewis. Qual foi então a novidade apresentada por Romero? O ousado diretor injetou em seu trabalho uma farta dose de crítica social, algo sem precedentes neste gênero e até hoje pouco comum no cinema americano. A habilidade com que tratou de temas polêmicos como o racismo e o individualismo da sociedade garantiram à Romero a perenidade de sua obra. Em A noite dos mortos vivos a ameaça não tem origem, identidade, afeta a tudo e a todos. A sociedade é virada de cabeça para baixo e, atônita, torna-se uma ameaça a si mesma.

O elenco contém apenas dois atores profissionais: Duane Jones e Judith O’Dea. Um filme protagonizado por um negro e uma mulher era algo extremamente incomum no cinema americano da época. Suas atuações são naturais e cheias de força dramática. Alguns dos outros atores demonstram seu amadorismo, mas não chegam a comprometer o resultado final. Karl Hardman e Marilyn Eastman, casados na vida real, também tem ótimo desempenho em papéis marcantes.

Pedra fundamental do Horror Moderno, A noite dos mortos vivos teve um orçamento de $114 mil Dólares e rendeu internacionalmente uma bilheteria de cerca de $40 milhões. Por muito tempo ele foi o filme independente mais lucrativo já feito. Um erro grave cometido pela empresa encarregada da distribuição levou A noite dos mortos vivos a cair em domínio público. Portanto, a maior parte dos lucros obtidos não foi parar nas mãos de seus verdadeiros autores. Hoje, o mitológico trabalho de George A. Romero é campeão em versões para DVD além de ser o filme mais popular (com cerca de 450 mil downloads até Abril de 2008) no Archive.org, um site do governo americano que oferece downloads gratuitos de materiais em domínio público. Ao longo das décadas seguintes, Romero dirigiu quatro continuações de sua obra prima: Despertar dos mortos (Dawn of the dead – 1978), Dia dos mortos (Day of the dead – 1985), Terra dos mortos (Land of the dead – 2005) e Diário dos mortos (Diary of the dead – 2007), formando a série de Horror mais influente de todos os tempos. Os cinco capítulos desta lendária saga estão disponíveis em DVD e VHS no Brasil.

OBS: Texto originalmente escrito para o livro Cemitério Perdido dos filmes B, escrito pelo Cesar pela editora Multifoco, antes da realização de um sexto filme da saga dos zumbis de Romero, Survival of the Dead (2009).


4 thoughts on “A NOITE DOS MORTOS VIVOS (Night of the Living Dead, 1968), George A. Romero

  1. eu pensava que Romero já tinha feito alguns film es an tes desse, que sorte fazer seu primeiro filme e ele se tornar um grande sucesso .

  2. Não sabia que o filme estava em domínio público. Quando um filme cai em domínio público você pode utilizar imagens, argumentos, o que quiser sem pagar nada?
    Fico pensando na bolada que o Romero não ganharia se recebesse uma porcentagem das vendas do filme.

  3. Por que você acha que existem tantas cópias e remakes do filme do Romero ? Os produtores burros registraram “A Noite dos Mortos-Vivos” com o nome ERRADO em 1968, e dessa forma, ele acabou caindo em domínio público. O próprio Romero disse que ele e o John Russo fizeram o remake dirigido pelo Tom Savini para, FINALMENTE, conseguirem lucrar alguma coisa.

    O texto do Cesar é formidável. Só vou discordar de uma coisa. Para mim, o cinema moderno de horror começou um pouco antes, em 1960, com a trinca “Psicose”, “Os Olhos sem Rosto” e “A Tortura do Medo”.

  4. “Quando um filme cai em domínio público você pode utilizar imagens, argumentos, o que quiser sem pagar nada?”

    À vontade. Inclusive o “Noite” junto com vários outros filmes de domínio público foi tema de um programa chamado ATTACK OF THE KILLER B´s onde pegavam o filme, colorizavam e condensavam num especial de 30 minutos. Era divertido, passou no Multishow no fim dos anos 90.

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