THERE’S ALWAYS VANILLA (1971), George A. Romero

por Leandro Caraça

O dia seguinte ao sucesso de A Noite dos Mortos Vivos não foi exatamente o que George Romero imaginava. Passados três anos desde que os seus zumbis comedores de carne humana começaram a reclamar o mundo, ele ainda estava trabalhando na televisão, onde tinha a oportunidade de dirigir comerciais de molho de tomate e de picles em conserva. Uma carreira muito promissora para quem havia abalado as estruturas do cinema de horror. Romero só voltaria a assinar um novo longa em 1971, quando ele e sua companhia arrumaram um tempo entre uma peça publicitária e outra. O drama romântico There’s Always Vanilla (também conhecido como The Affair) seria dirigido por Rudolph J. Ricci, o responsável pelo roteiro. Quando este acabou perdendo o interesse no trabalho, sobrou para Romero assumir a bucha. Ele sempre declarou detestar o resultado final, que não à toa, se tornou o elemento mais obscuro de toda sua filmografia. Assistindo a There’s Always Vanilla, é fácil perceber que o coração de Romero não estava no lugar certo. Mas é errado achar que se trata de uma obra sem qualidades : Chris Bradley (Raymond Laine) é o jovem recém-chegado do Vietnam, que se recusa a fazer parte dos negócios da família, no ramo de alimentos para bebês. Mais velha, Lynn (Judith Steiner, a Judy de A Noite dos Mortos Vivos e que nunca mais atuaria de novo) é uma modelo que trabalha em comerciais para TV. Assim que se conhecem, o casal se apaixona. A maneira que o filme progride, ficam claras as diferenças entre os dois. Se Lynn encontra-se frustrada com a carreira nos comerciais (uma referência direta ao próprio Romero), por sua vez Chris mostra não ter grandes projetos na vida – entre os bicos, chegou até mesmo a ser cafetão. Quando Lynn fica grávida, ela percebe que o namorado não tem nenhuma condição de ser pai. É próximo do final que Romero se solta um pouco, ao narrar a visita de Lynn a uma clínica clandestina de aborto. Nessas cenas, There’s Always Vanilla chega a ganhar contornos de filme de horror. Com personagens mais próximos da realidade e interpretados por atores competentes, além de uma montagem ágil do próprio diretor, é um legítimo representante da ressaca da contracultura. Considerado perdido durante muito tempo, acabou sendo lançado – para desespero de Romero – junto de Season of the Witch no DVD importado da Anchor Bay.

2 thoughts on “THERE’S ALWAYS VANILLA (1971), George A. Romero

  1. Sensacional, um drama romântico na filmografia do Romero. Por que o título do filme é esse? Belo texto, Caraça.

  2. Quase no final, há um diálogo entre Chris e seu pai :

    “Quando íamos na sorveteria, havia todos aqueles sabores exóticos. Mas de alguma forma, você sempre acabava escolhendo baunilha. (…) Você se desaponta quando não consegue obter alguma coisa, mas sempre vai haver baunilha, sempre.”

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