MARTIN (1977), George A. Romero

Por Leopoldo Tauffenbach

Quatro anos após seu último longa de horror, George Romero retorna com Martin, um dos melhores filmes de vampiros a serem produzidos no planeta desde os clássicos da finada Hammer. A história gira em torno de Martin, um jovem vampiro de 84 anos com aparência adolescente que resolve se mudar para a casa de parentes distantes a fim de começar uma vida nova e aparentemente normal entre reles mortais. Mas mesmo entre parentes, Martin não é bem visto, principalmente porque sua necessidade por sangue ainda deve ser saciada. Mesmo sem compartilhar da mesma maldição que acomete a família de Martin, seu primo é, contra sua própria vontade, obrigado a lhe dar suporte. Uma única condição é imposta: não importam quais sejam as circunstâncias, Martin não deve, jamais, atacar alguém da comunidade.

Martin com a primeira vítima do filme: necessidade e culpa atormentam o pobre vampiro adolescente.

A primeira cena do filme imediatamente me remeteu a Dexter, seriado de sucesso (e não sem motivo) da Showtime, mais pelo modo como apanham suas vítimas que pelas semelhanças psicológicas entre os dois personagens. Martin embarca em um trem e avista sua vítima. De maneira desajeitada, esconde-se em sua cabine e aplica uma injeção com sedativo. Depois de controlar a vítima até que ela ficasse inconsciente, Martin a despe e a si e corta-lhe os pulsos. Saciada sua sede, tenta eliminar todos os vestígios que possa ter deixado, inclusive tentando plantar pistas de que sua presa possa ter cometido suicídio. Como Dexter, Martin parece ter aprendido uma valiosa lição ao longo de sua existência: nunca se deixar ser apanhado.

Conforme o filme evolui, vemos Martin em sua penosa tentativa de se adaptar a uma vida “normal” perante os humanos. Ele vai trabalhar no pequeno mercado do primo. Entre o balcão e algumas entregas, conhece a solitária senhora Santini, uma mulher infeliz no casamento que acaba se interessando pelo estranho e tímido protagonista. Enquanto isso, Romero mostra, por meio de flashbacks, um pouco do passado de Martin. Vê-se um jovem aparentemente normal, apaixonado por uma garota, perseguido por padres e familiares desesperados. Também se vê que, mesmo tendo isso acontecido em um passado distante, a história mais uma vez se repete. O primo de Martin não se conforma com a existência dele e passa o filme todo tentando transformar a vida de Martin em um inferno na esperança de convertê-lo ou derrotá-lo. Sem o apoio do primo, Martin é obrigado a refugiar-se na atração que sente pela senhora Santini e na generosidade dada pela filha de Cuda (interpretada pela esposa de Romero, Christine Forrest).

Cuda, primo de Martin se protege da criatura que ele mais odeia no mundo, mas jurou ajudar por questões familiares.

Tecnicamente, o filme parece ser muito superior ao que seu orçamento permitiria. Isso graças ao excelente roteiro que despreza a necessidade de efeitos especiais mirabolantes, as boas interpretações e a mão segura de Romero na direção. John Amplas, como Martin, e Lincoln Maazel, como o primo Cuda, formam a dupla de ouro do filme, elevando o nível de tensão do espectador cada vez que ambos se encontram na tela (Curiosamente, o ator Lincoln Maazel morreu em 2009 aos 106 anos de idade. Seria ele o verdadeiro vampiro?). Mas não estamos dizendo que as interpretações aqui sejam dignas de menção nos anais do Actors Studio ou algo parecido. É verdade que há momentos que parecem bem amadoras. Mas isso só contribui ao dar um caráter “normal” aos personagens. Não há ninguém que passe a idéia de herói ou referencial moral. Mesmo o padre, interpretado pelo próprio Romero, aparece bebendo e enfrenta uma saia justa com o primo Cuda justamente por tentar omitir uma opinião mais… humana!

Martin se entrega à senhora Santini, uma das poucas pessoas capazes de fazê-lo se sentir "normal".

Em sua essência, Martin trata de conflitos entre gerações, crescimento, adaptação e o grande dilema da adolescência: devo ser eu mesmo – ainda que todos digam que isso não é o melhor – ou devo ser aquilo que os outros esperam que eu seja? O maior conflito de Martin nem é passar-se por uma pessoa normal aos olhos alheios, mas aceitar-se como alguém diferente. E Romero, pouco a pouco, o coloca em situações que fazem com que a sua evolução seja lenta, mas visível para o espectador. Em tempos de politicamente correto, o filme é um tapa na cara dos mais hipócritas.

O passado de Martin, contado como flashbacks em preto e branco: a história se repete enquanto o vampiro busca sua redenção. Quem seriam os verdadeiros monstros nessa história?

Mas o final ainda guarda algumas surpresas, e a redenção de Martin não será uma tarefa simples. Romero constrói sem querer um novo discurso sobre a intolerância e o preconceito, já trabalhados em seus filmes anteriores. Martin é um vampiro como jamais fora apresentado no cinema: uma criatura com menos sede sangue que de humanidade. Por tudo isso, ouso especular que talvez, por trás de todos os monstros – zumbis, psicopatas, bruxas e vampiros –, Romero goste mesmo é de falar do maior e mais temível monstro de todos: aquele que guardamos dentro de nós mesmos.

4 thoughts on “MARTIN (1977), George A. Romero

  1. Não conhecia esse filme, mas logo que começei a ler tal texto, senti-me atraído por essa obra. Assim que vê-la tratarei de escrever uma crítica da mesma em meu blog sobre cinema (jackodiario.blogspot.com).

  2. Uma curiosidade: Lincoln Maazel, que interpretou o primo Tata Cuda, é pai do renomado maestro Lorin Maazel.
    Outra curiosidade: o padre velho que tenta exorcizar Martin é interpretado por J. Clifford Forrest Jr., sogro de George A. Romero na vida real.
    Um desabafo: se não fosse meu parco conhecimento de inglês, jamais perceberia um erro crasso da distribuidora de “Martin” em VHS no Brasil, a empresa LMP.
    Em todas as legendas, Tata Cuda é tratado como se fosse tio de Martin!
    E um comentário: “Martin” é, para mim, o melhor filme de Romero, com todo o respeito à série de filmes com zumbis, que já foi mais do meu gosto.
    Eis.

  3. Engraçado ler na crítica que diz: que o filme é um tapa na cara dos mais hipócritas… Posso estar errado mas soa como aqueles críticos que dizem que “Laranja Mecânica” é obra de arte pois o Alex é o que tem dentro de cada um de nós. Muitos filmes gostam de colocar aqueles que seriam os “mocinhos”, tentando prender os “monstros”, como os verdadeiros vilões… Quem discrimina os “vilões”, quem quer a sua punição, sempre é taxado de hipócrita… Se sou hipócrita quero dizer que tenho um monstro dentro de mim. É verdade, todo ser humano tem seus podres, mas dizer isto já é demais! Eu não tenho um Martin dentro de mim e tão pouco tenho um Alex dentro de mim. Acho ridículo quem tem e quer dizer que todo mundo tem. Sinto muito se entendi errado sua crítica, mas foi o que soou para mim…

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