O DESPERTAR DOS MORTOS (Dawn of the Dead, 1978), George A. Romero

por Leopoldo Tauffenbach

Passados dez anos após a realização de A Noite dos Mortos-Vivos o diretor George Romero já acumulava uma experiência cinematográfica bastante significativa, marcada pela extrema competência ao lidar com o gênero do terror. Mas seu novo projeto não poderia se comparar aos anteriores e exigiria outro nível de complexidade técnica e criativa, além retomar o tema dos zumbis que tinha consagrado Romero. O Despertar dos Mortos daria sequência a A Noite dos Mortos-Vivos com uma proposta muito mais ambiciosa. Era simplesmente uma questão de saber se Romero seria bem sucedido nesta nova empreitada ou se iria se afogar no próprio poço que cavou.

Ainda que O Despertar dos Mortos parta da mesma premissa de A Noite dos Mortos-Vivos – onde mortos são reanimados por razões misteriosas e passam a atacar os vivos – as diferenças entre os dois filmes já começam no orçamento. Dos módicos cem mil dólares usados na produção do primeiro filme passamos a um valor cinco vezes maior para a produção do segundo. Romero também conta com a ajuda do cineasta italiano Dario Argento na produção, que fica responsável por ajudar na captação orçamentária e pela montagem e posterior distribuição para o mercado internacional.

Romero e sua esposa Christine Forrest aparecem como funcionários de uma emissora de TV em pânico.

A história começa em uma estação de TV em pânico, realizando uma transmissão de emergência sobre a invasão dos mortos-vivos que assola o planeta. O casal Stephen e Fran, funcionários da emissora, planejam fugir usando um helicóptero. Ao mesmo tempo dois soldados da SWAT entram em confronto com inúmeros zumbis em um conjunto habitacional. O destino – e o roteiro – acabam então por juntar os quatro que partem de helicóptero em busca de algum refúgio seguro. Como no primeiro filme, os personagens só dispõem de vagas informações a respeito de possíveis lugares onde possam manter-se a salvo dos cadáveres ambulantes. Entre o incerto e o duvidoso, mais uma vez o destino – e o roteiro – coloca os personagens em um shopping infestado de zumbis. Diante da possibilidade de se isolarem em uma fortaleza consumista abastecida com todos os confortos que o capitalismo pode oferecer, eles lentamente vão conquistando o local. Entre pelejas e conquistas estratégicas, os quatro sobreviventes vão construindo um pequeno paraíso em meio ao inferno na Terra.

Zumbis vão às compras: não seriam os mortos-vivos a base da sociedade capitalista?

Como em todos os filmes do diretor, os monstros são personagens secundários. Romero prioriza as relações em condições extremas, sempre dando margem para que os personagens possam aflorar o que há de mais nobre e monstruoso na natureza humana. Seja nesta vida ou na anterior (ou posterior, dependendo do ponto de vista). Não é à toa que o shopping surge infestado de cadáveres. Justifica-se que todos tenham ido para lá por carregarem lembranças de suas vidas pré-zumbi. Sarcasticamente Romero sugere uma reflexão sobre a vida esvaziada de sentido diante de uma filosofia consumista. Mesmo vivos, aquelas pessoas que invadem os shopping centers do mundo já não estariam meio mortas? Operam automaticamente, diante de comandos primitivos de “compre aqui”, “mais barato” e “não perca nossas promoções” sem questionar nada. Provavelmente Karl Marx choraria de emoção e pavor se estivesse vivo para assistir a este filme, além de redigir um ensaio infinitamente melhor do que este vos escreve.

Fran (Gaylen Ross) fica indecisa entre tantas opções de consumo. Na utopia criada pelos personagens a sobrevivência deve vir acompanhada de todos os confortos da vida moderna.

E não vamos nos esquecer dos vivos. Estes, por sua vez, tomam cada parte do shopping como crianças em uma loja de doces. Deixam-se maravilhar por tudo aquilo que podem tomar sem pagar. Se em um primeiro momento a sobrevivência é prioritária, assim que a situação parece controlada eles podem dar-se ao luxo de montar seu pequeno refúgio com tudo o que há de bom e de melhor em termos de mobiliário, design e culinária. Abastecidos pela sensação de segurança e fartura material, os personagens sentem-se confortáveis para planejarem e agirem com mais confiança e precisão. Mas logo fica claro que a ilusão de segurança nos moldes pequeno-burgueses não resolve a situação em longo prazo. Fran revela-se grávida e o mesmo o shopping mostra-se insuficiente para comportar essa situação. E é nesse momento que o shopping é invadido por uma gangue de saqueadores, fazendo ruir o castelo das ilusões e obrigando os personagens a se depararem com a cruel realidade que nunca deixou de existir. Mais uma vez é impossível não divagar a respeito das dinâmicas nas grandes metrópoles, desta vez pensando no papel fundamental do muro que poupa a visão das classes mais abastadas da dita “feiúra” daquelas criaturas menos favorecidas. Intencionalmente ou não, Romero obriga o espectador minimamente mais esclarecido a se deparar como fato de que todos nós já lidamos com mortos-vivos em nossas vidas. Trata-se apenas de saber quem afinal de contas são os zumbis: os outros ou nós mesmos.

Os vivos e os mortos: perigosos saqueadores invadem o shopping e lembram aos personagens que a realidade ainda pode ser dura.

Vale lembrar que O Despertar dos Mortos foi refilmado em 2004 pelo “visionário” Zack Snyder, em sua estréia como diretor. Longe de se comparar ao original, sem sutilezas e com foco evidentemente maior nas cenas de ação e gore, Snyder conseguiu realizar a façanha de gerar um filme divertido e que mesmo distante da maestria do original não chega a ofendê-lo. Mas que fique claro que mesmo assim a obra de Snyder está abaixo da refilmagem de A Noite dos Mortos-Vivos realizada em 1990 pelo competente Tom Savini.

5 thoughts on “O DESPERTAR DOS MORTOS (Dawn of the Dead, 1978), George A. Romero

  1. Não assisti a nenhum destes clássicos do Romero.
    Mas isso pode se remediado.
    Sem dúvida ele soube usar das metáforas para passar sua mensagem.
    Valeu.

    • Não! Não sejamos tão duros com o probre Argento. Na verdade a mão criativa dele é mínima e só conseguimos enxergar Romero aí, se compararmos com os outros filmes do Argento do mesmo período. A parceria deles em Dois Olhos Satânicos também resultou boa. Claro que tudo isso sou eu, mas acho que Argento se complicou um bom tempo depois disso. nessa época ainda era o cara.

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