DEVANEIOS DE UM MOTORISTA

por Caio de Freitas Paes

“Dá logo a partida. Bota essa chave no contato, sente o motor roncar”, penso. Seguro a maldita chave enquanto olho pra estrada. Essa estrada que parece que não acaba nunca. Talvez não acabe mesmo. Quando parece que vai acabar surge uma bifurcação e eu sempre pego o caminho mais longo. Não me lembro mais quando peguei esse carro. Agora ele é mais meu do que de seu dono. “Enfia logo a porra da chave no contato. Quanto mais pensa, mais demora. E lerdeza é algo que não combina contigo”. Tu sabe correr, sabe bem. É, provavelmente, a única coisa que sabe fazer direito mesmo. Corre desembestado, corre como se valesse a vida. Pisa no acelerador como se fosse a última coisa que pudesse fazer nessa terra que não acaba nunca. Diabos,ficar pensando nessas coisas é pra quem tem tempo. Tempo e algo que dê valor a isso. “De que adianta ficar parado pensando na vida se só sei correr, se só isso ainda me faz sentir alguma coisa?”. Dou um gole no bourbon, pra ver se surge alguma coragem nessa carcaça vazia. Dou outro. Que nem homem! Chega, vou fumar um cigarro.

“Não coloca nem a chave no contato, e ainda sai pra fumar. Sou ridículo”. Nem isso consigo fazer. Fumo faz tanto tempo, o cheiro não incomoda, mas não consigo fumar dentro do carro. Ela não gostava do cheiro, claro. Menina doida, por que ainda me lembro? Ela e aqueles moleques malucos. Corriam feito o diabo, quase tanto quanto eu. Mas e daí que ela não gostava do cheiro, faz tanto tempo, foda-se. Por onde ela anda? Talvez tenha amarrado seus burros em algum lugar. Ou em alguém. “Teve mais culhão que você! E ainda achou que ela ia ficar contigo… falando que ‘iam fugir pra algum lugar, que iam esquecer daquele racha estúpido’”. Patético. Ela nunca fugiria comigo. Ela sabe do que foge, sonha pra onde corre, deseja o que procura. Pode até não achar, mas sabe muito melhor do que eu. “Você só sabe correr. Dá outro gole. Acende seu cigarro”. Só sei correr, não sei sentir. Corro, meu deus, corro. “Sai da porra do lugar.”
*Coloca a chave na ignição, dá a partida*

CORRIDA SEM FIM (Two-Lane Blacktop, 1971), Monte Hellman

por Leopoldo Tauffenbach

Imagine-se vivendo em 1970. O cantor James Taylor lança seu segundo e multipremiado disco, Sweet Baby James, que, em 2003, ficou com o 103º lugar na lista dos 500 maiores álbuns de todos os tempos da revista Rolling Stone. A banda The Beach Boys lança um de seus melhores álbuns, Sunflower, que conta com participação destacada do baterista Dennis Wilson como produtor e compositor, e também foi incluído na lista da Rolling Stone. No cinema, filmes como Bullit (1968), Um Golpe à Italiana (1969) e Sem Destino (1969) tornam-se obras extremamente populares e bem sucedidas, principalmente pela maneira como se utilizam de carros e motos como coadjuvantes. Dito isso, imagine receber a notícia de que 1971 seria o ano de estreia de um filme com carros estrelado por James Taylor e Dennis Wilson nos papeis principais. Adicione o veterano Warren Oates e a gracinha estreante Laurie Bird para compor o elenco de apoio. O mais certeiro seria apostar em uma obra com uma trilha sonora memorável e repleta de cenas de perseguições e ação ininterrupta. Certo?

Dennis Wilson é o mecânico e James Taylor é o motorista.

Errou feio quem concordou com o filme de ação definitivo dos anos 70. A verdade é que Corrida Sem Fim subverteu todos os clichês possíveis do que poderia ser mais um exemplar de car chase movie ao criar uma obra que cai para e reflexão existencial e que abusa do silêncio, colocando os carros para rodar atrás de objetivos que não parecem dignos o suficiente de se alcançarem.

James Taylor é o motorista e Dennnis Wilson o mecânico. Juntos eles andam em um Chevy 55 atrás de rachas para competir. Em uma parada eles conhecem a garota interpretada por Laurie Bird que, por não ter nada melhor a fazer, resolve acompanhá-los. Ao longo do caminho eles vão cruzando com um G.T.O. amarelo, pilotado por Warren Oates. Mais adiante, em um posto de gasolina, os motoristas de ambos os carros se confrontam e resolvem apostar uma corrida até Washington, valendo os documentos de propriedade do carro. Começa então uma corrida pouco comum, onde todos os envolvidos parecem se utilizar dela para atingir objetivos pessoais que habitam secretamente em cada um.

O motorista e o mecânico possuem um relacionamento distante, e os momentos de aproximação obrigatoriamente envolvem o carro ou o próximo racha. A única linguagem que conhecem é a dos carros e corridas. Neste mundo mecanizado por eles, as relações são como peças, com seus encaixes lógicos e perfeitos, mas frios. Não que os personagens sofram de falhas morais. Jovens, eles ainda estão para descobrir a complexidade das relações humanas e da vida. E é justamente a garota, perdida e desiludida, que ensinará as primeiras lições de um alfabeto desconhecido para eles.

A jovem Laurie Bird como a garota que mudará a cabeça do motorista James Taylor.

G.T.O., por outro lado, é um sujeito que implora por relacionamentos, mas demonstra ao longo do filme ser incapaz de sustentar um. Em sua viagem está sempre acompanhado por caronas, que se esforça em pegar não por caridade, mas pela necessidade de ouvintes que deem atenção a suas histórias inventadas e que amenizem as dores de seu complexo de inferioridade. Mas a situação piora para o personagem a partir do momento em que ele se passa a se sentir humilhado pelos jovens que dirigem um carro supostamente menos potente que o dele. Para todos os envolvidos, a corrida até Washington transforma-se em uma bela jornada de aprendizado rumo à superação.

Warren Oates em seu G.T.O., acompanhado de um de seus inúmeros caronas.

A competência de Hellman é duplamente apresentada neste filme: como diretor e montador. Depois de várias revisões, é muito difícil imaginar se outros profissionais conseguiriam se aproximar do mesmo grau de sensibilidade obtido por Hellman a partir do roteiro dos estreantes Floyd Mutrux, Rudy Wurlitzer e Will Corry. Tanto a direção como a montagem são precisas, mas extremamente orgânicas e fluidas. Humanas, como o próprio filme pede. Segundos a mais ou a menos em cada uma das cenas poderia ter alterado substancialmente o filme, ainda que haja quem discorde. Créditos também devem ser dados ao departamento de som, responsáveis por criar os sons que muitas vezes complementam ou substituem os raros diálogos do filme. Mas há de se admitir que Corrida Sem Fim talvez não seja um filme para qualquer um. O espectador médio talvez encontre ali um filme sobre carros e uma corrida sem vencedores. O filme de Hellman requer muita sensibilidade para se constatar, ao final, que não se trata de um filme de carros e que todos os personagens – inclusive o próprio espectador – são, ao mesmo tempo, constantes vencedores e perdedores nessa corrida.

A estrada, sem linha de chegada.

PS.: o título original do filme, Two-Lane Blacktop, refere-se à estrada asfaltada (blacktop) de pista dupla (two lane).