IGUANA – A FERA DO MAR (1988), Monte Hellman

por Marcelo V.

“I used to joke that some films contain gratuitous sex and violence and that ‘Iguana’ has no gratuitous sex and violence – it’s about sex and violence.” – Monte Hellman

Adaptação de um romance de Alberto Vasquez-Figueroa, que por sua vez foi inspirado por duas histórias reais (mas há quem veja relação com Queequeg, o arpoeiro de “Moby Dick“, além de “O Fantasma da Ópera” e “A Bela e a Fera“), Iguana é a história de um homem marcado pelo sofrimento. Após apenas 50 segundos de filme, já vemos Oberlus (Everett McGill, uma espécie de novo Jack Palance e especialista em papéis que exigem maquiagem pesada, como o homem das cavernas de “A Guerra do Fogo” e o lobisomem de “Bala de Prata” _ é também o Ed de “Twin Peaks“) sendo torturado pelos companheiros de labuta. Desprezado por ter o rosto desfigurado por feridas que lhe conferem uma aparência de réptil, o marinheiro que a certo ponto diz amar o mar, mas odiar os navios, também é alvo de preconceito por ser praticante de vodu. Mas seus deuses logo o abandonam, permitindo que ele seja novamente torturado após fugir e fazer um ritual que não rende os frutos desejados. Isso o leva a renunciar a deuses e demônios, a arrancar com uma faca a tatuagem religiosa que carregava no braço e a declarar “guerra à humanidade”. A partir de então, ele se dirá senhor de uma ilha em Galápagos e escravizará todos os que aportarem por lá.

Paralelamente a isso, somos apresentados à figura feminina principal, Carmen (Maru Valdivielso, de “Os Amantes do Círculo Polar“). Durante os 40 primeiros minutos, Hellman, também montador do filme, faz esse vaivém entre os dois protagonistas por meio de cenas curtas (às vezes, apenas um plano de poucos segundos) e eficientes, avançando o enredo e antecipando o momento em que eles se encontrarão. Carmen nos é apresentada como uma feminista avant la lettre, sempre exigindo liberdade de seus amantes. Liberdade que ela perderá ao se tornar escrava de Oberlus, dando início a uma relação sadomasoquista. Quando Oberlus se oferece para tirar as correntes que a prendem, ela diz que se acostumou com elas: “São como joias“. Ela também ouve de Oberlus que gosta de ser sua “escrava e de ser enrabada. Se você um dia escapar, não encontrará alguém como eu“, ameaça.

Essa relação captor/capturado, com requintes de síndrome de Estocolmo, é reproduzida também entre Oberlus e seu primeiro prisioneiro, o Sebastián de Michael Madsen. A princípio alvo de abusos (é mutilado pelo seu mestre a cada pequena transgressão) e reconhecendo que o senhor da ilha se tornou louco como “todos os reis”, que devem ser mortos “antes que eles nos matem“, será promovido a ajudante de Oberlus. Ao ser acusado por um colega de ter se tornado um escravo obediente, responde que não vê sentido em ficar na linha de fogo. Os dedos cortados por Oberlus, o que o incapacitaria de empunhar uma pistola, se tornarão desculpa para a fidelidade canina. Tanto ele quanto Carmen, em diferentes pontos da história, terão a vida de Oberlus em suas mãos e agirão de maneira distinta.

O mesmo não acontece com Dominique (Joseph Culp), o escravo letrado e sensível que é levado por Oberlus a cometer um ato contra a sua natureza. A pedido de seu captor, ele o ensina a ler e a escrever, para que o monstro possa “contar ao mundo” o que lhe aconteceu. Apesar de sua crueldade (ele diz a Carmen que é cruel porque quer respeito, e mesmo que não o consiga, o medo que causa nos outros lhe é suficiente), Oberlus se mostra interessado por literatura (diz que gosta de todos os livros, menos da Bíblia). Chega a discutir “Dom Quixote” com Sebastián (pergunta a ele se Dulcineia é uma puta ou uma santa) e, ao invadir seu antigo navio e raptar seu antagonista, Gamboa (Fabio Testi), vê um volume de “Odisseia” e pergunta se é fato ou ficção.

As marcas na face de Oberlus, causa e mais óbvio indício de suas agruras, fazem com que ele se diga capaz de matar a própria mãe. Ao ouvir de Carmen que sua aparência não justifica seus atos violentos, Oberlus simplesmente não tem resposta. A evidente chaga física o persegue até em pesadelos, quando a coloca na face de uma bela garota que aportou na ilha e o encantou como a sereia que quase vitimou Ulisses: um ideal de mulher como a Dulcineia de Quixote, que ele se recusa a capturar e cuja versão mundana e carnal ele encontrará em Carmen. Em Carmen, ele também vê um monstro, como em seu reflexo na água, que busca após ouvir a bela e misteriosa jovem cantar. “Ter me matado não seria assassinato“, ele diz à sua mais íntima vítima, dando uma pista de sua atitude mais radical e redentora, que virá no clímax da história.

O sofrimento que sente na pele e impõe aos outros pela escravidão, pela tortura e pelo estupro é o que move Oberlus quase o tempo todo, mas evitar que um outro sinta a mesma dor se torna finalmente um objetivo sublime, que pode ser interpretado como mais um de seus atos monstruosos ou como uma demonstração definitiva de amor e de misericórdia, coisas que ele nunca conheceu (as correlações disso com certas posições que afrontam algumas religiões cristãs não me parecem uma mera coincidência). “Você não terá de sofrer como eu” são as últimas palavras de ouvimos de Oberlus, neste belo e complexo filme dedicado a Warren Oates.

A VOLTA DO PISTOLEIRO (China 9, Liberty 37, 1978), Monte Hellman

por Cesar Alcázar

Entre a realização de duas obras-primas do western concebidas por Monte Hellman no fim dos anos 1960, The Shooting e Ride the whirlwind, e a produção do western crepuscular China 9, Lyberty 37, mais de uma década se passou. Nesse período, Hellman dirigiu seus títulos mais famosos, que embora sejam hoje objeto de culto, nunca lhe trouxeram o reconhecimento merecido, sobretudo em seu país de origem.

A recepção mais calorosa da obra de Hellman pelo público europeu fez com que o cineasta buscasse projetos no Velho Mundo. Depois de uma fracassada parceria com a Hammer Films (acabou demitido durante a filmagem de Shatter), veio a oportunidade de voltar ao western em uma produção italiana. Esta visita ao então agonizante Spaghetti Western resultou em China 9, Liberty 37.

A trama, de aparente simplicidade, começa com o pistoleiro Clayton Drumm (Testi) esperando pela própria execução em uma cela de cadeia. Para sorte do matador, antes da sentença ser cumprida, ele recebe uma proposta irrecusável de alguns barões ferroviários: a liberdade (e a sua vida) em troca do assassinato do fazendeiro Matthew Sebanek (Oates), que está atrapalhando a construção da estrada de ferro devido à sua recusa de vender a terra onde vive. Até aí, tudo muito corriqueiro. A história se complica com a amizade que surge entre Drumm e Matthew, e piora ainda mais com a atração irresistível da esposa de Matthew, Catherine (Agutter), pelo matador de aluguel.

Como em todos os seus filmes, Monte Hellman dá grande atenção à construção de personagens, proporcionando aos atores um ótimo material. Até Fabio Testi, astro pouco expressivo, tem excelente desempenho em um papel cheio de nuances. Longe dos pistoleiros estóicos costumeiros do SW, seu Clayton Drumm é um homem cheio de dúvidas, perdido entre suas definições de certo e errado, e até mesmo covarde (como na cena em que usa uma prostituta como escudo). Warren Oates interpreta com sua habitual maestria o fazendeiro (e ex-pistoleiro) Matthew, um personagem que poderia muito bem ser vilanesco, mas que acaba por conquistar a simpatia do espectador. Por fim, a bela Jenny Agutter tem uma atuação convincente como a jovem esposa descobrindo sua sexualidade.

China 9, Lyberty 37 nunca atingiu o patamar de cult dos outros westerns de Hellman. Ainda assim, as qualidades e peculiaridades (como a grande quantidade de cenas de sexo e nudez, algo pouco comum no gênero) do filme foram suficientes para evitar sua queda no esquecimento, mantendo o interesse do público sempre renovado. Sem dúvida, um desses atrativos peculiares é a rara aparição do cineasta Sam Peckinpah como ator. O velho Bloody Sam (com a aparência já bastante desgastada pelos excessos) está muito bem no papel de um escritor de dime novels interessado em comprar a história do pistoleiro Drumm.

ME CHAMAM O DESTRUIDOR (Shatter, 1975), Monte Hellman

por Leandro Caraça

Uma das últimas produções para cinema da Hammer Films, acumulou diversos problemas durante suas filmagens e que apenas ajudaram a justificar o fim melancólico que a empresa teria logo mais. Com o declínio do horror à maneira clássica nas bilheterias, a Hammer partiu para novos rumos, tentando chamar a atenção do público dos anos 1970. Um acordo feito com a companhia chinesa Shaw Brothers para a realização de três filmes foi um ato de desespero, visto que essas duas empresas possuiam uma maneira de trabalhar completamente diferente. Se Roy Ward Baker já havia reportado problemas nessa parceria em A Lenda dos Sete Vampiros (1974) – que fora uma tentativa de levar a figura do Conde Drácula para o Oriente – as coisas apenas iriam piorar em Me Chamam o Destruidor. Para assumir o posto de diretor, Monte Hellman pode parecer uma escolha meio inusitada a primeira vista, mas na sua trajetória, a Hammer Films contratou diretores norte-americanos marginalizados ou descontentes com o sistema dos estúdios, como Robert Aldrich em A Dez Segundos do Inferno (1959) e Joseph Losey em Os Malditos (1963).

Stuart Whitman interpreta Shatter, um veterano assassino de aluguel que acaba de liquidar um ditador de um país africano fictício. Viajando a Hong Kong para coletar o pagamento, descobre que não fora contratado pelo governo britânico mas sim pela máfia. Sem receber o dinheiro e perseguido por diferentes grupos que o desejam morto (e os documentos do finado ditador que estão em seu poder), Shatter se alia a Tai Pah (Ti Lung), um barman que por conveniência também é um mestre em artes marciais, e a bela Mai-Mee (Lily Li, ou Li Li Li se preferirem), massagista profissional. O trio decide ir em busca de respostas e também arma um plano para chantagear Leber (Anton Diffring), o banqueiro que serviu de contato para Shatter em seu último trabalho. A trilha sonora de David Lindup (no melhor estilo do Blaxploitation, com uma batida funk acentuada) e as cenas de lutas não deixam dúvidas de que estamos assistindo a um filme de ação dos anos setenta. A presença de Stuart Whitman com sua fisionomia cansada, num papel másculo, também é típica do período. Mais tarde, ele seguiria o mesmo caminho de outros velhos atores americanos e faria policiais italianos. No elenco, também temos Peter Cushing no papel do agente do MI6, Paul Rattwood. Sempre uma presença carismática, esta foi sua última aparição num filme da Hammer.

Após três semanas, Monte Hellman acabou demitido por Michael Carreras, o chefão da Hammer Films por estar muito atrasado em relação ao cronograma de filmagens. De acordo com Hellman, a equipe dos Shaw Bros estava trabalhando 24 horas por dia em três filmes ao mesmo tempo, e justamente em Me Chamam o Destruidor eles aproveitavam para se revezar e dormir um pouco. Whitman por sua vez, ao término de um dia de trabalho sempre rumava em direção a algum bar para tomar umas e outras. Carreras assumiu o comando, como havia feito em Sangue no Sarcófago da Múmia (1971) por decorrência do falecimento do diretor Seth Holt. Terminada a rodagem, Carreras levou seis meses para finalizar a edição e lançar o filme. Shatter fora realizado entre Corrida Sem Fim e Galo de Briga, mas acabou lançado nos EUA somente depois, em 1975, com o título They Call Hill Mr. Shatter. Monte Hellman garante que 80 por cento do que está presente foi rodado por ele, em especial todas as cenas envolvendo atores caucasianos. Todas a peripécias enfrentadas deram ao filme um ritmo um tanto quanto travado às vezes. Temos um filme de ação, rotineiro e passável, mas que em certos momentos parece querer ser algo mais. Em meio a cenas de pancadaria com Ti Lung e mísseis lançados em quartos de hotel, veremos a jornada existencial de Shatter, de maneira não muito diferente do que Hellman costuma apresentar.

GALO DE BRIGA (Cockfighter, 1974), Monte Hellman

por Cesar Alcázar

O genial diretor Monte Hellman e o não menos fantástico ator Warren Oates realizaram quatro filmes juntos. Embora pouco assistidos em seu tempo (The Shooting – 1967 – sequer foi exibido no circuito comercial americano), hoje eles possuem uma legião de admiradores que se encarregaram de imortalizar a obra desta dupla lendária. Hellman foi um dos poucos diretores a enxergar Oates como um herói, oferecendo a ele grandes papéis. Cockfighter, de 1974, é provavelmente o seu trabalho mais conhecido, ao lado de Corrida sem fim (Two-Lane Blacktop – 1971).

Em Cockfighter, Oates interpreta Frank Mansfield, um treinador de galos de briga. Ele é tão explosivo e violento quanto os animais que treina. Mas esta sua impulsividade o faz entrar em uma aposta contra Jack Burke (Stanton). Resultado: seu melhor galo é morto na noite anterior a disputa de “Galo de Briga do Ano”. Burke adverte Mansfield: “Você tem dois grandes problemas: você bebe demais e FALA demais!”. Devido ao seu comportamento obsessivo, Frank faz um voto de silêncio e mergulha em uma nova jornada rumo ao seu objetivo: ser o treinador de galos do ano. Mesmo que isto lhe custe todas as suas posses, sua família e a mulher que o ama (Patricia Pearcy).

Com produção de Roger Corman (que relançou o filme com o título mais “comercial”, Born to kill!) e belo trabalho de edição e trilha sonora, Cockfighter é um filme belíssimo. Warren Oates, mais uma vez, tem atuação inspirada, mesmo que seu personagem só tenha diálogos em duas cenas (sem contar algumas narrações em off)! A expressividade do ator é tão envolvente que fica impossível para o espectador não se identificar com o personagem.

As brigas de galo são apenas o pano de fundo para a jornada de Frank Mansfield, mas Hellman não deixa de explorar (e denunciar) a brutalidade do esporte. Algumas cenas são bastante sangrentas e revoltantes. O diretor inclusive, recusou-se a filmar algumas delas, deixando o serviço sujo para o editor Lewis Teague. Entretanto, o mais impressionante é a parte humana do “espetáculo”. Monte Hellman captura o frenesi homicida dos espectadores das lutas em toda sua selvageria, uma sede de sangue que contrasta com a frieza dos treinadores.

O DVD americano, lançado pela empresa Anchor Bay, contém um ótimo documentário sobre Warren Oates, um dos melhores atores de sua geração que infelizmente é pouco lembrado pela mídia. Cockfighter foi lançado em DVD no Brasil pela Platina Filmes com o título Galo de Briga, em uma edição simples, sem extras.