CAMINHO PARA O NADA (Road to Nowhere, 2010), Monte Hellman

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por Marcelo Miranda

“Abaixa a arma!”, grita o policial diante da janela onde o cineasta Mitchell Heaven aponta uma câmera para o lado de fora. No clímax de Caminho para o Nada, a câmera é a grande arma, com seu poder de registrar o momento, de imortalizar o tempo, de permitir a reprodução (artificial, sempre) de determinado acontecimento. Ali estamos na derrocada de Heaven tanto quanto em seu ápice criador, em que vida e arte se misturaram definitivamente e o que lhe resta é usar o equipamento como forma de olhar e ser olhado pelo mundo que se despedaça ao redor.

Caminho para o Nada é a volta de Monte Hellman à direção depois de 20 anos afastado do ofício. Trata-se de seu filme mais autorreferencial (as iniciais dos nomes do realizador e do personagem não são iguais por acaso), aquele no qual ele cria um alter ego que parece refletir seu próprio estar no mundo da arte. Hellman, criador mítico, autêntica lenda do cinema americano inventivo e sem concessão, incorpora em Heaven a moral que lhe move, a impetuosidade que o tornou tão reverenciado quanto amaldiçoado, a verve crítica e política de quem chega aos 80 anos e decide questionar o ofício que exerce e seu próprio papel dentro da engrenagem.

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Mitchell Heaven é o cineasta que abre mão de ter Scarlett Johansson no elenco do filme que prepara em benefício de uma atriz completamente desconhecida (por não ser atriz, afinal) que lhe será, também, uma musa pessoal. Quando a relação amorosa atingir o ápice (embalado por sessões de clássicos do cinema de Preston Sturges, Victor Erice e Ingmar Bergman), o universo de Heaven já estará completamente mesclado entre o que ele filma e o que ele vive. Muito significativo que Monte Hellman tenha escolhido um elenco igualmente “anônimo” para seu filme – basta pensar que a figura mais famosa em cena é a gracinha Dominique Swain, cuja aparição notória nas telas ainda é na versão de Lolita feita pelo picareta Adrian Lyne no já longínquo ano de 1997.

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Sob certo aspecto, Caminho para o Nada se assemelha a Cidade dos Sonhos (2001), de David Lynch. Mas se, neste, a ironia com Hollywood está na chave do pesadelo e do delírio, em Hellman a questão é mais próxima de uma ideia de crônica – ou do relato objetivo (ainda que não linear ou necessariamente realista) proporcionado pelo choque entre diversos personagens circulando num meio marcado pela ambiguidade. Talvez, ao seu modo, Caminho para o Nada se aproxime mais de O Desprezo (1963), de Jean-Luc Godard, na maneira ácida (e áspera) com que trata de seu universo central. Curioso que os três filmes relacionados aqui sejam essencialmente devastadoras histórias de amor, enquadradas pela lente alegórica das ilusões proporcionadas pelo selvagem mundo do cinema.

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Como em toda sua obra pregressa, Hellman faz em Caminho para o Nada o mergulho no íntimo daqueles que retrata, sem por isso nos permitir ver essas figuras por completo. Em narrativas rarefeitas como as de Disparo para Matar (1966) ou Corrida sem Fim (1971), a figura humana sempre ganhou status mítico, de algo intocável e inquebrantável, cósmico e reflexivo. Para transmitir tais sensações, Hellman estica o tempo das cenas e das situações, provocando estranhamento na forma como encadeia o enredo, muitas vezes eliminando a progressão dramática, de forma a fazer os filmes chegarem ao fim sem nos permitir acessar completamente o conteúdo daquilo a que assistimos.

O procedimento está em Caminho para o Nada de maneira especialmente notável, pois surge imperceptivelmente aos nossos olhos. Se inicialmente o filme se constitui de duas narrativas (a do “filme dentro do filme” e daquilo que acontece do lado de fora), logo as certezas desaparecem, quando se misturam não apenas o tempo, mas o espaço e mesmo a instância narradora. Nunca há segurança plena naquilo a que se assiste em Caminho para o Nada. Essa porosidade é um dos elementos mais instigantes a tornar o trabalho de Monte Hellman algo de muito especial.

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É sempre um privilégio ver um cineasta da envergadura de Hellman se ater tão cuidadosa e inventivamente ao que está fazendo – e mais ainda ao colocar em xeque as próprias certezas. Mais forte ainda o fato de que Caminho para o Nada termina por ser a tragédia de um homem cuja grande ambição é estar à margem, assumir uma postura sem respeito a padrões e enxergar a arte como o estímulo a algo bem maior do que a obra em si. Tudo isso num filme de sabor agridoce, em que os caminhos – como o título adianta – vão, de fato, a lugar algum.

Numa das várias críticas escritas sobre o longa na época do lançamento em cinemas, uma destacava que a tradução brasileira do título original do filme criou uma eventual e oportuna ponte poética: a possibilidade de a expressão ser lida como uma declaração em primeira pessoa (“caminho para o nada”). A coerência é que este “lugar algum”, este “nada” para onde o filme nos carrega, é o lugar para o qual Monte Hellman prefere se direcionar e por lá permanecer.

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