O COMBOIO DO MEDO (Sorcerer, 1977), William Friedkin

sorcerer-movie-poster-1977-1020204872

por Marcelo Miranda

Não se sai incólume de uma experiência tão forte (tanto dentro quanto fora da tela) como a de O Exorcista (1973). Nem mesmo William Friedkin, seu realizador. Do alto de um pedestal que incluía o imenso sucesso de bilheteria de seu longa de horror e a premiação com vários Oscars por seu trabalho anterior (Operação França, 1971), o cineasta se dispôs a ir para o meio de uma selva sul-americana refilmar um dos trabalhos mais cultuados do cinema europeu – o suspense O Salário do Medo, lançado em 1953 pelo francês Henri Georges-Clouzot. A experiência de Friedkin e equipe se tornou um mergulho no inferno, quase no mesmo nível do que Apocalypse Now representaria pessoalmente para Francis Ford Coppola menos de dois anos depois.

O trabalho extenuante que gerou O Comboio do Medo (tradução brasileira para o título original – e bem mais enigmático – Sorcerer) parece se expandir para o resultado daquilo a que assistimos na tela. O filme consegue o difícil equilíbrio de se distanciar de seus personagens a ponto de praticamente nada sabermos deles além das aparências iniciais – e, consequentemente, nos importamos muito pouco com o que pode lhes acontecer – ao mesmo tempo em que trabalha de maneira brilhante a tensão da situação central do roteiro. Para isso, Friedkin, de forma mais radical do que Clouzot fizera a partir do romance de Georges Arnaud, gasta mais de uma hora de filme antes de enfim chegar ao âmago do enredo: a travessia de dois caminhões lotados de nitroglicerina pelas estradas esburacadas e matas fechadas de um canto qualquer de um país latino-americano apresentado pelo filme como uma espécie de latrina do mundo.

sorcerer-under-the-hood

Friedkin está pouco preocupado com a “história”. Por mais que ele adie o momento em que finalmente os caminhões seguirão rumo a uma expedição desde sempre condenada à tragédia (e com boa parte da trajetória ao som de Tangerine Dream), O Comboio do Medo é todo construído para que, em aproximadamente 50 minutos, os quatro personagens sejam submetidos a uma série de desafios aparentemente intransponíveis. O diretor filma cada passagem com precisão única, tensionando ao máximo o fio narrativo e criando arte a partir dos limites físicos e estruturais aos quais aqueles homens se submetem. No livro Easy Riders, Raging Bulls (lançado no Brasil sob o título Como a Geração Sexo, Drogas e Rock’n’Roll Salvou Hollywood), o jornalista Peter Biskind usa um dos adjetivos mais certeiros a definirem o trabalho de Friedkin: O Comboio do Medo é um filme implacável. De várias formas, implacável é ainda todo o cinema de William Friedkin.

Isolados na tal latrina do mundo pelos motivos mais diversos (atos terroristas, assaltos malfadados, negociações erradas, assassinatos encomendados), os quatro homens querem simplesmente sair daquele lugar. Seduzidos pela proposta financeira de uma grande petrolífera, aceitam transportar a carga explosiva mata adentro. É falsa a ideia corrente em torno do filme de que o quarteto nada tem a perder. Sim, eles têm muito a perder, a começar pela própria liberdade. Nenhum deles embarca na saga suicida por niilismo, capricho, orgulho ou qualquer sentimento que não seja a ambição de escaparem do pesadelo onde foram colocados por ações cometidas no passado. A viagem com a nitroglicerina é, aos olhos deles, o teste de redenção: se sobreviverem, ganham uma segunda chance. Trata-se, porém, de uma ilusão, como o espectador vai descobrir nos segundos finais de filme, novamente com a concisão cruel de Friedkin.

picture-30

A certa altura, o desejo de ir embora se torna obsessão para o personagem vivido por Roy Scheider. Entre visões e delírios, ele vai insistir em completar a viagem menos pelo motivo financeiro inicial do que por simplesmente não considerar qualquer outra alternativa que não seja a de sobreviver e atingir o destino combinado. Neste ponto, O Comboio do Medo é reforçado como um trabalho de assinatura típica de Friedkin, ele próprio um obcecado por personagens limítrofes naquilo a que se dispõem a fazer. A ação é mais do que o objetivo; a consequência será, quase sempre, a ultrapassagem da linha que separa a sanidade da loucura, o risco calculado do risco a todo e qualquer custo. A dança que Scheider pede à mulher acaba por ser a percepção de que, mesmo tendo vivido um martírio sem paralelos, a ele lhe resta bem pouco – e, na verdade, nunca houve, de fato, muito mais do que esse pouco. Então, para que adiar a dança?

Lançado um mês depois do primeiro Star Wars, de George Lucas, O Comboio do Medo, pessimista e sombrio, não teve chances. Fracassou fragorosamente nas bilheterias. Malvisto também pela crítica, tornou-se um dos títulos a sepultarem a chamada Nova Hollywood – outros citados podem ser Apocalypse Now e especialmente O Portal do Paraíso (1980), de Michael Cimino. Considerados malditos por décadas, esses filmes vêm ganhando reconhecimento nos últimos anos, apesar de O Comboio do Medo continuar quase incógnito devido a problemas jurídicos entre Friedkin e os estúdios Paramount e Universal ao longo de mais de três décadas. Aparentemente resolvida, a pendenga judicial vai dar espaço, em breve, ao ressurgimento do longa-metragem em cópia restaurada e recolorizada a partir do negativo original. Será um retorno mais do que bem-vindo.

5-cleef

O EXORCISTA (The Exorcist, 1973) William Friedkin

the-exorcist

por Leopoldo Tauffenbach

Tome qualquer lista – qualquer uma mesmo – de melhores filmes feita depois de 1974. Salvo casos restritivos, como uma lista dos melhores dramas de época ou os melhores romances, é bem provável que você encontre O Exorcista, de William Friedkin, desfilando entre as colocações. Eu mesmo, antes de ter idade ou competência para acompanhar listas, cresci sob os brados de adultos sobre a suposta excelência do filme. Como apreciador de filmes de horror eu teria – assim que tivesse idade para tal – que assistir a esse filme com o máximo de urgência.

E foi no início da minha adolescência que minha casa recebeu seu primeiro videocassete. Dos inúmeros filmes que eu alugaria com frequência religiosa nas locadoras do bairro, O Exorcista seria, sem dúvida, um dos primeiros. E assim foi. Preparei-me física e espiritualmente para finalmente conferir o filme que apavorara tantos adultos ao meu redor. Mas antes de comentar a experiência, devo deixar claro que O Exorcista não seria meu primeiro filme de terror. Ao contrário, eu já tinha passado por muitos outros clássicos, como Poltergeist, A Hora do Pesadelo, Sexta-Feira 13, A Morte do Demônio, sem contar as inúmeras produções da Hammer e aqueles genéricos americanos que hoje são considerados cults. E por isso mesmo que O Exorcista pareceu na época uma grande decepção para quem esperava o filme de terror supremo.

5a

Mesmo decepcionado, nunca desisti do filme, afinal, uma obra tão falada e tão elogiada não poderia ser um fiasco completo como me pareceu então. Seriam necessárias mais algumas revisões para reconhecer que o mundo não estava enganado. Eu era quem estava despreparado para enxergar toda a maestria e excelência do filme de Friedkin. Não convém aqui detalhar cada uma das vezes que assisti ao filme, mas vale dizer que a cada vez o filme ganhava em profundidade e… horror.

Para quem desconhece a trama, tudo começa com um padre realizando uma escavação arqueológica no Iraque. Lá, estranhos eventos parecem cercar o sítio arqueológico e sua própria pessoa. Já nos EUA, uma atriz tem sua vida transtornada pela estranha mudança de comportamento de sua filha, Regan, ao mesmo tempo em que um padre da paróquia local começa a questionar sua fé e a própria existência de Deus. Essas três histórias irão se cruzar diante da possibilidade de Regan ser vítima de uma autêntica possessão demoníaca.

ExorcistMerin

De um filme intitulado O Exorcista, pode ser frustrante para alguns – como foi para mim – descobrir que a cena do exorcismo está somente no final do filme, em seus últimos 30 minutos. Mas, no final, não é disso que o filme trata. Se fosse não seria reconhecido até hoje como um dos maiores filmes de terror da história. O filme trata de aspectos muito mais sinistros, como a perda da esperança e a possibilidade de que talvez não exista um Deus. Em um dos momentos mais tensos do filme, no intervalo da sessão de exorcismo, o padre Karras indaga o padre Merrin (interpretado com a maestria habitual de Max Von Sydow), como Deus permite que uma criança possa ser possuída pelo demônio trazendo sofrimento a ela mesma e aos que a rodeiam. E não há quem não fique pensando nisso depois de lançada a questão. Pior que a possibilidade de Deus não existir, seria um Deus que simplesmente não se importa mais com os homens, deixando-os à mercê de todo mal. De qualquer maneira não estamos em vantagem alguma.

still-of-linda-blair,-max-von-sydow-and-jason-miller-in-exorcistul

Mas o filme não termina de maneira tão trágica. O bem vence o mal, ao menos por enquanto, e nós mortais podemos desfrutar de um pouco de esperança. E para aqueles que esperam um filme à base de sustos e efeitos especiais (o filme possui efeitos especiais excelentes, mas que estão longe de ser a atração principal), fujam de O Exorcista. Este é um filme que fala dos horrores que minam nossas crenças e reduzem nossas esperanças em algo melhor. E não existem monstros de animatronics ou de CG mais terríveis que esses.

Vale lembrar que a versão em circulação em DVD traz cenas adicionais que foram deixadas de fora da versão original. Tendo visto ambas, reconheço que a nova versão pouco acrescenta ao que já existia na versão original. Mas também não chega a atrapalhar, o que já é um ótimo negócio.

5-cleef

O EXORCISTA (The Exorcist, 1973), William Friedkin

the-exorcist-1973-original-movie-poster1

por Davi de Oliveira Pinheiro

Existe pouco risco em afirmar que O Exorcista é o melhor filme de horror de todos os tempos. É algo confortável, que não cria discussões entre fãs do gênero e aqueles que apenas excursionam pelos raros fenômenos de bilheteria. Permitam-me então ser completamente sem graça e concordar com todo mundo.

Por que tanto amor por um filme baixo como este? No filme de William Friedkin e William Peter Blatty (tão ou mais autor que o diretor, nesse caso), não existe uma elevação do gênero. Pelo contrário, se possui alguma filosofia, um questionamento da existência ou da fé, são discussões arrastadas para a lama, encharcadas pelo que há de menos sutil das sensações humanas. E, talvez por isso, o filme é tão eficaz como entretenimento do susto. Ele tem o requinte de um filme de estúdio americano de primeira grandeza, mas nunca o recorte e suposta sofisticação (ou limpeza) destes. É viscoso, é sujo, é violento, é profano… E é aceitável porque é tão bem feito.

1200_exorcist_theatrical_blu-ray_14334

Não reconhecer que o horror é um gênero baixo é paradoxo. Insistir que podem ser filmes sérios, também vai contra a natureza dessas criações. É pedir para o gênero ser algo que pode tirar sua graça e mesmo “elevá-lo” a outra esfera do cinema. Em O Exorcista temos todos os defeitos que se acusam em muito do horror: sob observação criteriosa, a construção das personagens é fraca, a lógica interna é frágil e a trama pode ser facilmente desfeita em qualquer discussão. No entanto, esta obra-prima, uma das poucas e verdadeiras do gênero (e mesmo de toda a arte cinematográfica) dignas de um museu, se sustenta nas emoções. Nos aproximamos das personagens com facilidade, entendemos seus dramas e vivemos seus medos.

As forças sobrenaturais que definem qualquer filme, que vão além da técnica, também regem o jogo dentro de O Exorcista. A batalha entre o bem e o mal, aparentemente insólita e casual, é um jogo que está armado antes do filme ser concebido. Por que a casa da possuída é próxima a morada do Padre Karras, cuja sentido da fé pode ser definido pela vindoura batalha com o Demônio? Por que o Demônio se anuncia a outro padre que está claramente no crepúsculo da vida e que – de forma sublime – é o Adversário do monstro? Parecem furos de roteiro, uma certa tendência à trama esquemática, mas na verdade são usos das fragilidades do cinema de horror para demonstrar a interferência do divino, de forças incompreensíveis e lidar não só com a fé que está a ser discutida dentro de O Exorcista, mas àquela que o espectador precisa ter para assistir a um filme.

shotRemember_E_orcist12 jpg

Não é difícil relacionar o trabalho de Friedkin e Blatty ao que ocorre dentro da obra. Eles não só capturaram quimicamente imagens. Diretor e Produtor/Escritor realizaram um ritual onde as forças do bem e do mal estão em eterno conflito, onde o Padre Damian Karras, uma das melhores personagens de qualquer ficção, está numa eterna repetição onde a perda de sua mãe vai ressoar numa batalha interna contra o Demônio. Serei barato como é o horror: o filme está possuído e, há quarenta anos, os exorcistas somos nós.

5-cleef

OPERAÇÃO FRANÇA (The French Connection, 1971), William Friedkin

the-french-connection-movie-poster-1971-1020414167

por Caio de Freitas Paes

Podemos afirmar sem medo que Operação França, de 1971, é o primeiro grande filme de William Friedkin. Sem menosprezar suas obras anteriores, devidamente destrinchadas nos textos anteriores pelos colegas daqui, do Dia da Fúria, o filme vencedor de 5 Oscars em 1972 (Melhor Filme, Diretor, Ator Principal [Gene Hackman, com seu dúbio e impulsivo Detetive Jimmy “Popeye” Doyle], Edição e Roteiro Adaptado) ainda mostra hoje, mais de 40 anos depois de seu lançamento, um vigor e força incríveis.

vlcsnap-9718583

Para quem não sabe, o longa remonta a maior apreensão de heroína em solo americano à época: a dupla de investigadores da divisão de Narcóticos da polícia de NY formada por Jimmy Doyle [Hackman] e Buddy Russo [Roy Scheider, afiado] entra em um longo e tenso jogo de gato-e-rato para desmantelar uma rede de tráfico de drogas e depara-se com a tal da Operação França – um esquema internacional, pelo qual heroína era contrabandeada da Turquia para a França, e dali para os Estados Unidos. O foco, claro, é a parte americana desta investigação que, na vida real, também foi desenvolvida pelas forças policiais francesas.

Friedkin realiza um vigoroso thriller policial, extremamente metódico e pausado nesta moldagem do complexo esquema de contrabando: o diretor focaliza o ponto de vista das forças da lei diante deste complô internacional, reforçando a cada cena as dificuldades e (inúmeras) tentativas frustradas de Doyle e Russo de conseguir achar os responsáveis pela operação. O elo entre franceses e americanos para este envio de heroína, Alain Charnier [Fernando Rey, também muito bem], se torna o alvo dos detetives e, conforme a exibição se desenrola, o cerco sobre o esquema e seus envolvidos começa a apertar.

vlcsnap-9749906

Um dos principais destaques do longa é a forma como os detetives americanos são retratados: atribuir uma personalidade dúbia, durona e politicamente incorreta; com agressões, abusos de lei e afins “em nome da Justiça” não era necessariamente inédita à época, mas Friedkin enriquece este tipo de abordagem por meio de uma grande atuação de seus principais atores aliada a um jeito enérgico e potente de dispor os acontecimentos que levaram ao desmantelamento do esquema. Neste sentido, Operação França é exemplar, contendo sequências inesquecíveis – dentre as quais, claro, destacamos a perseguição de Popeye a um suspeito do esquema em plena Nova York: o suspeito, que foge primeiro a pé e, em seguida, embrenha-se no metrô, é seguido pelo detetive em um carro, acelerando em meio ao tráfego intenso, causando acidentes, quase atropelando pedestres inocentes e batendo seu carro nas vigas que dão suporte às linhas do metrô. É interessante notar que esta sequência é simbólica para refletirmos sobre a postura dos policiais no caso: o respeito às leis é completamente deixado de lado em favor da próxima pista, do próximo envolvido, da chance de finalmente dar fim à angústia de não conseguir prender os culpados, o abuso de lei é “justificado”. Independentemente disso, Friedkin não parece, a um primeiro olhar, julgar tais práticas, apenas as mostrando, tal como exageros de poder realizados pelos policiais nesta longa investigação.

vlcsnap-9748083

Complementando o ponto acima, também poderíamos pensar no cerco final de Operação França como exemplar da situação: por mais que a mercadoria seja apreendida, o enigma ainda não fora resolvido. Assim, vemos Popeye e Russo visivelmente abalados, tensos e irritadiços – e, por que não, confusos? – diante da fuga de alguns dos suspeitos. A droga foi pega, os culpados fogem: “E o nosso esforço, foi plenamente recompensado? Colocamos nossa sanidade em risco para não colocar nossas mãos no pescoço de cada um dos verdadeiros responsáveis pelo esquema?”. O fato do filme ser, de algum modo, ambíguo, não conclusivo, dá vazão a esta dúvida, não glorifica os policiais e nem se curva aos modos pelos quais eles conseguiram realizar a gigantesca apreensão. Ou seja, Friedkin consegue realizar um impressionante thriller policial que também questiona a si mesmo, de alguma forma, que não exime os envolvidos de uma caracterização complexa e feroz, dúbia e discutível, que não os leva ao que todos esperam em um caso de polícia – que os verdadeiros culpados sejam presos, julgados, punidos, que haja uma verdade por trás de tudo, e que ela possa ser devidamente entendida, explicada. Resumindo: imperdível.

5-cleef

OS RAPAZES DA BANDA (The Boys in the Band, 1970), William Friedkin

the-boys-in-the-band-movie-poster-1970-1020254297

por Ronald Perrone

Baseando-se novamente em uma peça teatral, dessa vez de Mart Crowley, William Friedkin precisou enfrentar dois grandes desafios que o material lhe apresentava neste seu quarto longa: o de ser excessivamente teatral – já que toda a trama transcorre num pequeno apartamento – e a complexidade do tema em alguns aspectos, especialmente quando observado sob o ponto de vista atual.

No primeiro, conseguiu se sair muitíssimo bem. Friedkin já havia demonstrado sinais de talento no trabalho anterior, The Birthday Party (68), e em Os Rapazes da Banda apenas confirma a aptidão de bom diretor.

bscap0012

É no segundo desafio que a coisa complica. Os Rapazes da Banda é protagonizado por um grupo de homossexuais, cujo estilo de vida é retratado de maneira madura, inteligente e bem humorado (sem ser irônico). Até aí tudo bem. No entanto, alguns desdobramentos do enredo colocou a própria comunidade gay a lançar críticas ofensivas ao filme. Na trama, sete amigos que “jogam no mesmo time” se reúnem para comemorar o aniversário de um deles, com direito a um inusitado presente ofertado ao aniversariante, um jovem atlético e parvo, fantasiado de Jon Voight em Perdidos na Noite (1969). O que era para ser um agradável momento de descontração, bebedeira e reencontros, acaba virando um pesadelo, cheio de revelações dolorosas, quando um elemento estranho surge em cena: um heterosexual, que termina sua participação com seu orgulho hétero às alturas, sem se “contaminar”, enquanto a “banda” toca os seus lamentos… Em tempos em que se discute as presepadas homofóbicas de certas figuras no poder no Brasil e no mundo, Os Rapazes da Banda soa um tanto piegas nesse ponto.

bscap0010

No entanto, seria exagero colocar toda a apreciação de Os Rapazes da Banda em risco por causa disso, até porque o retrato do homossexual é aberto, acertado, honesto, até respeitoso. E Friedkin dizia que o tema não era sobre o universo homossexual, era sobre problemas da natureza humana. “Eu espero que haja homossexuais felizes. Eles apenas não estão no meu filme”. Demonstrando o abusado cineasta de língua afiada e o provocador pelo qual ganharia fama em filmes como Parceiros da Noite (80) e Viver e Morrer em Los Angeles (85).

Mas tem razão. Independente de sexualidade, existem pessoas boas e más, tristes e felizes, humildes e arrogantes, e os conflitos teriam o mesmo efeito se trabalhado com casais ou amigos heterossexuais nas mesmas circunstâncias. Conta muito também a maestria de Friedkin na condução deste teatro cinematográfico, com um senso de ritmo primoroso, mise en scène e direção de atores magníficas. E que atores! Sem exceção, todos estão impressionantes. Ajuda o fato de ser o mesmo elenco da peça que deu origem (a única exigência dos produtores). Pode-se não concordar com alguns detalhes, mas quando Friedkin acerta na direção é imbatível.

4-cleef

THE BIRTHDAY PARTY (1968) William Friedkin

the-birthday-party-movie-poster-1968-1020280782

por Marcelo V.

O terceiro longa-metragem de William Friedkin já representou uma guinada radical em sua carreira, mais condizente com sua obra posterior: da estreia com Good Times, uma comédia de esquetes com Cher e Sonny Bono, e de uma malfadada experiência com The Night They Raided Minsky’s, lançado posteriormente, ele passa para uma adaptação da mais famosa “comedy of menace” (trocadilho com “comedy of manners“, comédia de costumes, que batizou a produção de um grupo de dramaturgos do final dos anos 1950 também ligados ao Teatro do Absurdo) do londrino Harold Pinter. Friedkin viu a peça em San Francisco e procurou o dramaturgo para levá-la às telas.

The Birthday Party (CG).avi_snapshot_01.28.05_[2013.05.11_14.39.52]

Se a peça tem um enredo obscuro (resumi-lo seria pueril, mas vale a pena ressaltar que aqui os diálogos contêm falas que haviam sido censuradas na sua estreia britânica, 10 anos antes), Friedkin possui uma importante qualidade para um diretor de cinema: clareza. Com exceção de alguns planos externos, em especial no início do filme, vemos um trabalho de um cineasta
já com alguma maturidade, que não se deixa levar pela tentação de ser meramente um esteta diante de um material a princípio pouco cinematográfico. Objetividade e o fato de ele não demonstrar porcamente a intenção de guiar o espectador são outros pontos fortes.

The Birthday Party (CG).avi_snapshot_00.43.58_[2013.05.11_14.35.43]

Mesmo assim, o filme termina sendo muito mais de Pinter (que esteve no set o tempo todo e deu bastante apoio ao jovem diretor) que de Friedkin, que diz não se orgulhar muito do resultado final. Se ainda não vemos aqui o brilho forte de trabalhos posteriores, pelo menos temos um elenco de primeira linha, com Robert Shaw e Dandy Nichols à frente. E a desafiadora dramaturgia de Pinter é garantia de que você não se esquecerá facilmente desta história.

3-cleef2

QUANDO O STRIP TEASE COMEÇOU (The Night They Raided Minsky’s, 1968), William Friedkin

frazetta_night_they_raided_minskys68

por Luiz Alexandre

Tá aí uma obra curiosa na carreira de Friedkin. Uma comédia musical, inspirada no romance Minsky’s Burlesque, de Rowland Barber, de 1960, que conta de maneira romanceada o surgimento da modalidade de dança erótica que o título em português entrega logo de cara.

Na trama, que se passa na Nova Iorque dos anos 20, uma jovem e inocente garota amish, Rachel Schpitendavel (Britt Ekland), foge de sua comunidade na esperança de se tornar uma dançarina de musicais da Broadway. Tendo apenas seus sonhos como guia, ela vai parar no Teatro Burlesco Minsky, cujo dono, Billy Minsky (Elliot Gould), precisa se desdobrar para lidar com a censura promovida pelo moralista cristão Vance Fowler (Denholm Elliot) que quer acabar com o teatro e seus shows sensuais, além de seu pai Louis (Joseph Wiseman), um judeu ortodoxo que não aprova os negócios do filho.

2britteklandastheamishgug9

Além deles, a trama se centra também em dois astros da casa, os humoristas Raymond Paine (Jason Robards em estado de graça), um crápula carismático e mulherengo, e Chick Williams (Normam Wisdom, esplêndido), um doce e sentimental clown, que na tentativa de salvar o Minsky convencem seu patrão a deixar Rachel apresentar seu único talento artístico, a dança bíblica, publicitando o ato como uma apresentação de Madame Fifi, a dançarina sensual de Paris que se despe ao vivo, na esperança de ridicularizar o hipócrita Fowler ante a polícia e a comunidade. Além disso, o pai da moça, Jacob (Harry Andrews), um austero pastor amish, quer trazer sua menina de volta aos “bons caminhos” de sua cultura. Fora que os atrapalhados Paine e Chick precisam impedir que o mafioso Candy Butcher (Jack Burns), um dos investidores do teatro, ponha suas mãos e algo mais em Rachel, pela qual ambos se apaixonam.

5jasonrobardslookingawfpr3

É preciso dizer que o filme não foi finalizado por William Friedkin. Com um corte inicial considerado pelo executivo da United Artists da época, David Picker, como o pior que ele já viu, a obra foi tirada das mãos do diretor. Depois de produzido o filme foi enviado para o editor Ralph Rosenblum, que vinha de um trabalho intenso no filme The Producers, de Mel Brooks, que, entre outras coisas, refez a introdução do filme, com as belíssimas imagens de arquivo da metrópole americana nos anos vinte fundidas com cenas das apresentações musicais, e, aparentemente, deu o ritmo ágil que vemos na tela.

Hurricane Bill, indivíduo com língua ausente de papas e, como seu apelido entrega, de personalidade pouco afável, não apenas despreza o filme como disse publicamente na época que foi “a maior porcaria que eu já trabalhei”. Não se pode precisar até que ponto Rosenblum é responsável pelo que o filme é, mas é inegável que as apresentações musicais, a edição, o texto e, principalmente, a galeria de personagens e coadjuvantes que povoam a trama são utilizados de maneira primorosa, com exceção apenas de Bert Lahr com o seu adorável Professor Spats, já que o veterano ator infelizmente morreu durante as filmagens.

9puttinontheburlesqueyi9

O filme não é meramente uma homenagem satírica e inspirada ao teatro burlesco, mas uma reflexão anárquica sobre aquele período histórico somada a uma comédia pastelão hilária. Ao mesmo tempo em que o burlesco foi uma forma de entretenimento pensado para o deleite inconsequente dos adultos da época, ele também tratou, a sua maneira despojada e falsamente desinteressada, dos costumes, do sexo, da liberdade de expressão do corpo e de um inconformismo maroto ante a moral. Em tempos em que basta se filmar em preto e branco, tirar o som e colocar um bigodinho fino no protagonista para se fazer um filme “à moda da época”, assistir Quando Começou o Strip Tease (admito, um “título-spoiler”, mas belo como o de uma boa pornochanchada) serve tanto para nos entreter quanto para nos abrir os olhos quanto ao que pode ser o cinema como tributo a uma modalidade estética do passado.

5-cleef

GOOD TIMES (1967) William Friedkin

good-times-movie-poster-1967-1020197136

por Leandro Caraça

A estreia de William Friedkin em longa metragem não poderia ser mais atípica. Seguindo na trilha aberta por Richard Lester e os Beatles em Os Reis do Iê-Iê-Iê (1964) e Help! (1965), o casal de astros Sonny Bono e Cher interpretam a si mesmos na comédia musical Good Times. Após ver um dos documentários que Friedkin havia feito para o canal ABC, Bono decidiu que este jovem, mas experiente rapaz seria o diretor do filme. De fato, William Friedkin passara a década de 1960 trabalhando em documentários e shows para televisão, tendo filmado milhares de programas ao vivo durante oito anos consecutivos.

good-times-4

A dupla Sonny e Cher não deixou um legado importante para a música pop, e William Friedkin em sua recente autobiografia, foi extremamente generoso ao chamar Sonny Bono de gênio musical. Compositor razoável e com uma voz horrível, ele tinha a figura de Cher para balancear as coisas, e o resultado realmente conseguiu atrair o público menos chegado ao rock e a psicodelia regentes. Comparado a viagem lisérgica dos Beatles em Magical Mistery Tour (Bernard Knowles / The Beatles 1967) e dos Monkees em Os Monkees Estão de Volta (Head de Bob Rafelson), realizado um ano mais tarde, o filme de Sonny e Cher não passa de uma diversão ligeira para a família. No elenco, além de George Sanders no papel de Mordicus, um poderoso produtor de cinema, há as pontas de Mickey Dolenz dos Monkees e Edy Williams (futura estrela e esposa de Russ Meyer).

good-times-6

Além de Bob Rafelson e Richard Lester, outros cineastas talentosos em começo de carreira também dirigiram astros pop, como John Boorman com Catch Us If You Can (1965), veículo para o Dave Clark Five. Em Good Times, Friedkin faz bom uso da movimentação da câmera, e deve ter sentido certo alívio longe dos limites da televisão pela primeira vez. Se o humor mostrado no filme não chega a ser muito melhor do que as aventuras da turma da praia da AIP, o diretor tem a chance de parodiar os gêneros do faroeste e do policial noir durante os devaneios de Sonny Bono no decorrer do filme. Por outro lado, somos obrigados a encarar o protagonista vestido de Tarzan também. A simpatia do casal ajuda bastante, assim como os números musicais (embora as canções variem muito de qualidade), com Friedkin vez ou outra brincando com uma linguagem visual que mais tarde daria origem ao estilo MTV.

3-cleef2

O DIA DA FÚRIA ESPECIAL WILLIAM FRIEDKIN

1366232073267

Sim, você leu direito. William Friedkin é o nosso homenageado da vez. E podemos listar cinco motivos para tê-lo por aqui. 1. Recentemente tivemos o lançamento comercial de seu último filme, KILLER JOE (2012), nos cinemas brasileiros; 2. Acabou de lançar uma autobiografia que conta sua trajetória de maneira fascinante; 3. Terá sua carreira homenageada no festival de Veneza de 2013; 4. Ainda neste mesmo festival passará uma versão restaurada de O COMBOIO DO MEDO (77), um de seus trabalhos mais significativos, brilhantes e pouco comentado atualmente.

Friedkin está em voga, portanto nada melhor que colocar a equipe d’O Dia da Fúria a explorar seus filmes. Ah, faltou o quinto motivo, que é tão óbvio… É que se trata de um autêntico GIGANTE do cinema americano e sua “presença” por aqui é mais que obrigatória.

bug-2006-tou-04-g

FILMES:

KILLER JOE (2012)
POSSUÍDOS, aka Bug (2006)
CAÇADO, aka Hunted (2003)
REGRAS DO JOGO, aka Rules of Engagement (2000)
12 HOMENS E UMA SENTENÇA, aka 12 Angry Men (TV Movie, 1997)
JADE (1995)
JAILBRAKERS (TV Movie, 1994)
BLUE CHIPS (1994)
A ÁRVORE DA MALDIÇÃO, aka The Guardian (1990)
C.A.T. SQUAD: PYTHON WOLF (TV Movie, 1988)
SÍNDROME DO MAL, aka Rampage (1987)
C.A.T. SQUAD (TV Movie, 1986)
VIVER E MORRER EM LOS ANGELES, aka To Live and Die in LA (1985)
UMA TACADA DA PESADA, aka Deal of the Century (1983)
PARCEIROS DA NOITE, aka Cruising (1980)
UM GOLPE MUITO LOUCO, aka The Brink’s Job (1978)
O COMBOIO DO MEDO, aka Sorcerer (1977); Texto 2,
O EXORCISTA, aka The Exorcist (1973); Texto 2
OPERAÇÃO FRANÇA, aka The French Connection (1971)
OS RAPAZES DA BANDA, aka The Boys in the Band (1970)
THE BIRTHDAY PARTY (1968)
QUANDO O STRIP TEASE COMEÇOU (1968)
GOOD TIMES (1967)

exorciste-1973-tou-14-g