OPERAÇÃO FRANÇA (The French Connection, 1971), William Friedkin

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por Caio de Freitas Paes

Podemos afirmar sem medo que Operação França, de 1971, é o primeiro grande filme de William Friedkin. Sem menosprezar suas obras anteriores, devidamente destrinchadas nos textos anteriores pelos colegas daqui, do Dia da Fúria, o filme vencedor de 5 Oscars em 1972 (Melhor Filme, Diretor, Ator Principal [Gene Hackman, com seu dúbio e impulsivo Detetive Jimmy “Popeye” Doyle], Edição e Roteiro Adaptado) ainda mostra hoje, mais de 40 anos depois de seu lançamento, um vigor e força incríveis.

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Para quem não sabe, o longa remonta a maior apreensão de heroína em solo americano à época: a dupla de investigadores da divisão de Narcóticos da polícia de NY formada por Jimmy Doyle [Hackman] e Buddy Russo [Roy Scheider, afiado] entra em um longo e tenso jogo de gato-e-rato para desmantelar uma rede de tráfico de drogas e depara-se com a tal da Operação França – um esquema internacional, pelo qual heroína era contrabandeada da Turquia para a França, e dali para os Estados Unidos. O foco, claro, é a parte americana desta investigação que, na vida real, também foi desenvolvida pelas forças policiais francesas.

Friedkin realiza um vigoroso thriller policial, extremamente metódico e pausado nesta moldagem do complexo esquema de contrabando: o diretor focaliza o ponto de vista das forças da lei diante deste complô internacional, reforçando a cada cena as dificuldades e (inúmeras) tentativas frustradas de Doyle e Russo de conseguir achar os responsáveis pela operação. O elo entre franceses e americanos para este envio de heroína, Alain Charnier [Fernando Rey, também muito bem], se torna o alvo dos detetives e, conforme a exibição se desenrola, o cerco sobre o esquema e seus envolvidos começa a apertar.

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Um dos principais destaques do longa é a forma como os detetives americanos são retratados: atribuir uma personalidade dúbia, durona e politicamente incorreta; com agressões, abusos de lei e afins “em nome da Justiça” não era necessariamente inédita à época, mas Friedkin enriquece este tipo de abordagem por meio de uma grande atuação de seus principais atores aliada a um jeito enérgico e potente de dispor os acontecimentos que levaram ao desmantelamento do esquema. Neste sentido, Operação França é exemplar, contendo sequências inesquecíveis – dentre as quais, claro, destacamos a perseguição de Popeye a um suspeito do esquema em plena Nova York: o suspeito, que foge primeiro a pé e, em seguida, embrenha-se no metrô, é seguido pelo detetive em um carro, acelerando em meio ao tráfego intenso, causando acidentes, quase atropelando pedestres inocentes e batendo seu carro nas vigas que dão suporte às linhas do metrô. É interessante notar que esta sequência é simbólica para refletirmos sobre a postura dos policiais no caso: o respeito às leis é completamente deixado de lado em favor da próxima pista, do próximo envolvido, da chance de finalmente dar fim à angústia de não conseguir prender os culpados, o abuso de lei é “justificado”. Independentemente disso, Friedkin não parece, a um primeiro olhar, julgar tais práticas, apenas as mostrando, tal como exageros de poder realizados pelos policiais nesta longa investigação.

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Complementando o ponto acima, também poderíamos pensar no cerco final de Operação França como exemplar da situação: por mais que a mercadoria seja apreendida, o enigma ainda não fora resolvido. Assim, vemos Popeye e Russo visivelmente abalados, tensos e irritadiços – e, por que não, confusos? – diante da fuga de alguns dos suspeitos. A droga foi pega, os culpados fogem: “E o nosso esforço, foi plenamente recompensado? Colocamos nossa sanidade em risco para não colocar nossas mãos no pescoço de cada um dos verdadeiros responsáveis pelo esquema?”. O fato do filme ser, de algum modo, ambíguo, não conclusivo, dá vazão a esta dúvida, não glorifica os policiais e nem se curva aos modos pelos quais eles conseguiram realizar a gigantesca apreensão. Ou seja, Friedkin consegue realizar um impressionante thriller policial que também questiona a si mesmo, de alguma forma, que não exime os envolvidos de uma caracterização complexa e feroz, dúbia e discutível, que não os leva ao que todos esperam em um caso de polícia – que os verdadeiros culpados sejam presos, julgados, punidos, que haja uma verdade por trás de tudo, e que ela possa ser devidamente entendida, explicada. Resumindo: imperdível.

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