O EXORCISTA (The Exorcist, 1973), William Friedkin

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por Davi de Oliveira Pinheiro

Existe pouco risco em afirmar que O Exorcista é o melhor filme de horror de todos os tempos. É algo confortável, que não cria discussões entre fãs do gênero e aqueles que apenas excursionam pelos raros fenômenos de bilheteria. Permitam-me então ser completamente sem graça e concordar com todo mundo.

Por que tanto amor por um filme baixo como este? No filme de William Friedkin e William Peter Blatty (tão ou mais autor que o diretor, nesse caso), não existe uma elevação do gênero. Pelo contrário, se possui alguma filosofia, um questionamento da existência ou da fé, são discussões arrastadas para a lama, encharcadas pelo que há de menos sutil das sensações humanas. E, talvez por isso, o filme é tão eficaz como entretenimento do susto. Ele tem o requinte de um filme de estúdio americano de primeira grandeza, mas nunca o recorte e suposta sofisticação (ou limpeza) destes. É viscoso, é sujo, é violento, é profano… E é aceitável porque é tão bem feito.

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Não reconhecer que o horror é um gênero baixo é paradoxo. Insistir que podem ser filmes sérios, também vai contra a natureza dessas criações. É pedir para o gênero ser algo que pode tirar sua graça e mesmo “elevá-lo” a outra esfera do cinema. Em O Exorcista temos todos os defeitos que se acusam em muito do horror: sob observação criteriosa, a construção das personagens é fraca, a lógica interna é frágil e a trama pode ser facilmente desfeita em qualquer discussão. No entanto, esta obra-prima, uma das poucas e verdadeiras do gênero (e mesmo de toda a arte cinematográfica) dignas de um museu, se sustenta nas emoções. Nos aproximamos das personagens com facilidade, entendemos seus dramas e vivemos seus medos.

As forças sobrenaturais que definem qualquer filme, que vão além da técnica, também regem o jogo dentro de O Exorcista. A batalha entre o bem e o mal, aparentemente insólita e casual, é um jogo que está armado antes do filme ser concebido. Por que a casa da possuída é próxima a morada do Padre Karras, cuja sentido da fé pode ser definido pela vindoura batalha com o Demônio? Por que o Demônio se anuncia a outro padre que está claramente no crepúsculo da vida e que – de forma sublime – é o Adversário do monstro? Parecem furos de roteiro, uma certa tendência à trama esquemática, mas na verdade são usos das fragilidades do cinema de horror para demonstrar a interferência do divino, de forças incompreensíveis e lidar não só com a fé que está a ser discutida dentro de O Exorcista, mas àquela que o espectador precisa ter para assistir a um filme.

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Não é difícil relacionar o trabalho de Friedkin e Blatty ao que ocorre dentro da obra. Eles não só capturaram quimicamente imagens. Diretor e Produtor/Escritor realizaram um ritual onde as forças do bem e do mal estão em eterno conflito, onde o Padre Damian Karras, uma das melhores personagens de qualquer ficção, está numa eterna repetição onde a perda de sua mãe vai ressoar numa batalha interna contra o Demônio. Serei barato como é o horror: o filme está possuído e, há quarenta anos, os exorcistas somos nós.

5-cleef

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