O COMBOIO DO MEDO (Sorcerer, 1977), William Friedkin

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por Marcelo Miranda

Não se sai incólume de uma experiência tão forte (tanto dentro quanto fora da tela) como a de O Exorcista (1973). Nem mesmo William Friedkin, seu realizador. Do alto de um pedestal que incluía o imenso sucesso de bilheteria de seu longa de horror e a premiação com vários Oscars por seu trabalho anterior (Operação França, 1971), o cineasta se dispôs a ir para o meio de uma selva sul-americana refilmar um dos trabalhos mais cultuados do cinema europeu – o suspense O Salário do Medo, lançado em 1953 pelo francês Henri Georges-Clouzot. A experiência de Friedkin e equipe se tornou um mergulho no inferno, quase no mesmo nível do que Apocalypse Now representaria pessoalmente para Francis Ford Coppola menos de dois anos depois.

O trabalho extenuante que gerou O Comboio do Medo (tradução brasileira para o título original – e bem mais enigmático – Sorcerer) parece se expandir para o resultado daquilo a que assistimos na tela. O filme consegue o difícil equilíbrio de se distanciar de seus personagens a ponto de praticamente nada sabermos deles além das aparências iniciais – e, consequentemente, nos importamos muito pouco com o que pode lhes acontecer – ao mesmo tempo em que trabalha de maneira brilhante a tensão da situação central do roteiro. Para isso, Friedkin, de forma mais radical do que Clouzot fizera a partir do romance de Georges Arnaud, gasta mais de uma hora de filme antes de enfim chegar ao âmago do enredo: a travessia de dois caminhões lotados de nitroglicerina pelas estradas esburacadas e matas fechadas de um canto qualquer de um país latino-americano apresentado pelo filme como uma espécie de latrina do mundo.

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Friedkin está pouco preocupado com a “história”. Por mais que ele adie o momento em que finalmente os caminhões seguirão rumo a uma expedição desde sempre condenada à tragédia (e com boa parte da trajetória ao som de Tangerine Dream), O Comboio do Medo é todo construído para que, em aproximadamente 50 minutos, os quatro personagens sejam submetidos a uma série de desafios aparentemente intransponíveis. O diretor filma cada passagem com precisão única, tensionando ao máximo o fio narrativo e criando arte a partir dos limites físicos e estruturais aos quais aqueles homens se submetem. No livro Easy Riders, Raging Bulls (lançado no Brasil sob o título Como a Geração Sexo, Drogas e Rock’n’Roll Salvou Hollywood), o jornalista Peter Biskind usa um dos adjetivos mais certeiros a definirem o trabalho de Friedkin: O Comboio do Medo é um filme implacável. De várias formas, implacável é ainda todo o cinema de William Friedkin.

Isolados na tal latrina do mundo pelos motivos mais diversos (atos terroristas, assaltos malfadados, negociações erradas, assassinatos encomendados), os quatro homens querem simplesmente sair daquele lugar. Seduzidos pela proposta financeira de uma grande petrolífera, aceitam transportar a carga explosiva mata adentro. É falsa a ideia corrente em torno do filme de que o quarteto nada tem a perder. Sim, eles têm muito a perder, a começar pela própria liberdade. Nenhum deles embarca na saga suicida por niilismo, capricho, orgulho ou qualquer sentimento que não seja a ambição de escaparem do pesadelo onde foram colocados por ações cometidas no passado. A viagem com a nitroglicerina é, aos olhos deles, o teste de redenção: se sobreviverem, ganham uma segunda chance. Trata-se, porém, de uma ilusão, como o espectador vai descobrir nos segundos finais de filme, novamente com a concisão cruel de Friedkin.

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A certa altura, o desejo de ir embora se torna obsessão para o personagem vivido por Roy Scheider. Entre visões e delírios, ele vai insistir em completar a viagem menos pelo motivo financeiro inicial do que por simplesmente não considerar qualquer outra alternativa que não seja a de sobreviver e atingir o destino combinado. Neste ponto, O Comboio do Medo é reforçado como um trabalho de assinatura típica de Friedkin, ele próprio um obcecado por personagens limítrofes naquilo a que se dispõem a fazer. A ação é mais do que o objetivo; a consequência será, quase sempre, a ultrapassagem da linha que separa a sanidade da loucura, o risco calculado do risco a todo e qualquer custo. A dança que Scheider pede à mulher acaba por ser a percepção de que, mesmo tendo vivido um martírio sem paralelos, a ele lhe resta bem pouco – e, na verdade, nunca houve, de fato, muito mais do que esse pouco. Então, para que adiar a dança?

Lançado um mês depois do primeiro Star Wars, de George Lucas, O Comboio do Medo, pessimista e sombrio, não teve chances. Fracassou fragorosamente nas bilheterias. Malvisto também pela crítica, tornou-se um dos títulos a sepultarem a chamada Nova Hollywood – outros citados podem ser Apocalypse Now e especialmente O Portal do Paraíso (1980), de Michael Cimino. Considerados malditos por décadas, esses filmes vêm ganhando reconhecimento nos últimos anos, apesar de O Comboio do Medo continuar quase incógnito devido a problemas jurídicos entre Friedkin e os estúdios Paramount e Universal ao longo de mais de três décadas. Aparentemente resolvida, a pendenga judicial vai dar espaço, em breve, ao ressurgimento do longa-metragem em cópia restaurada e recolorizada a partir do negativo original. Será um retorno mais do que bem-vindo.

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3 thoughts on “O COMBOIO DO MEDO (Sorcerer, 1977), William Friedkin

  1. Muito boa crítica. Descobri esse filme recentemente, e já está na minha lista de espera.

    Tem um episódio daquela antiga série nipônica, Cybercops, em que os caras levam um comboio com nitroglicerina e são atacados por “seres do mal”. Premissa totalmente chupada de Comboio do Medo!

  2. Rich, certamente mais chupada do romance original que foi adaptado pra dois filmes, do Clouzot e do Friedkin. Valeu pela leitura!

  3. Esse filme foi um fracasso comercial. Rendeu apenas 9 milhões de dólares no mundo inteiro. Ainda não vi o filme, mas li no livro Como a Geração Sexo, Drogas e Rock ‘n Roll Salvou Hollywood, de Peter Biskind, que esse foi o trabalho onde William Friedkin mais colocou sua alma.

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