SÍNDROME DO MAL (Rampage, 1987), William Friedkin

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por Carlos Thomaz Albornoz

Para discutir este filme, ou mais especificamente as duas versões dele em circulação, precisarei discutir seu final, ou melhor ainda, as mudanças feitas no final do filme entre as duas versões disponíveis dele, que o transformaram praticamente em dois filmes diferentes. Caso o prezado leitor não queira ser surpreendido com informações sobre este ‘pequeno detalhe’ do filme, sugiro que evite a leitura do texto… portanto, este texto vem com um belo dum aviso de ‘spoiler’ antes mesmo de seu começo.

Quando o conceito de ‘versão do diretor ‘ se popularizou, em algum momento dos anos oitenta, passamos a conviver com duas (ou mais, vide Blade Runner) versões diferentes do mesmo filme. Já na era do DVD isso se tornou uma espécie de ‘venda casada’, ou seja, era lançada uma versão cortada do filme nos cinemas, com restrições de censura e limite de tempo dos estúdios, e depois em vídeo era lançada uma versão mais próxima da visão do diretor, com alguns minutos a mais, isso quando as espertas produtoras não lançavam as duas versões com extras diferentes, forçando o pobre fã a comprar o mesmo filme duas vezes. Com tudo isso, normalmente se faz a crítica apenas de uma das versões, e o filme é tratado como sendo apenas um (mesmo que seja um O Senhor dos Anéis, cujas versões extendidas tenham mais de uma hora a mais que as versões ‘originais’). Isso não é possível com Rampage. Pior, não há nem o benefício de haverem distinções entre as duas versões que circulam. E, tecnicamente, as duas são ‘versões do diretor’, ambas refletem a visão do diretor, ou pelo menos refletiam no momento que ele as completou. Distorções do mercado de video…

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Tentando explicar o tamanho da bagunça: o filme estreou nos cinemas em 1987, em lançamento limitado nos cinemas americanos (em festivais e num circuito limitado), indo para vídeo (e laserdisc) logo depois (na Europa e no resto do mundo foi lançado normalmente). Acompanhava a perseguição a um serial killer que se banhava no sangue de suas vítimas e seu julgamento. Na época desta versão era apenas um ambíguo filme de tribunal sobre a necessidade da pena de morte e o sistema americano de justiça. O assassino era capturado, ameaçava ser solto pelos seus advogados e voltar a matar e logo após se suicidava na prisão, criando um ‘final feliz’.

Rampage era uma produção da DEG (Delaurentis Entertainment Group), que faliu mais ou menos na época de seu lançamento em vídeo, que foi feito às pressas, sem Rampage ter entrado em circuito. Quando o enrosco se resolveu e o filme voltou a circular (pela Miramax), havendo finalmente um lançamento cinematográfico em larga escala, em 1992, tratava-se de uma obra bem diferente da que havia sido exibida anteriormente. Por algum motivo nunca muito bem explicado (as entrevistas sobre o tema são inconclusivas) William Friedkin sentiu a necessidade de reeditar sua obra. Agora se tornava uma paulada a favor da pena de morte, e contra as imperfeições do sistema judicial americano. No final do filme, logo após o discurso sobre sair da prisão, não há mais o suicídio do personagem central, e sim uma carta mandada à família de um dos mortos, convidando-os a aparecer para uma visita, e um letreiro informando o espectador que o tal serial killer poderá sair da cadeia em seis meses, caso seja liberado pelos psiquiatras.

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Trata-se de um belo dum filme, independente de que versão seja assistida… mas o original é mais sutil, mais inteligente. Por mais que a mensagem da segunda versão seja válida, e já esteja, nas entrelinhas, presente no original, ela é dita de forma pouco discreta, quase aos gritos. Em alguns momentos parece que estamos vendo um panfletão, ao estilo Michael Moore, o roteiro fica horas batendo na mesma tecla.

Caso o caro leitor queira ver essa produção vai ter dificuldade para achá-la. Procurando na (loja virtual) Amazon, encontra-se apenas a velha versão em VHS à venda, provavelmente contemporânea do lançamento brasileiro (Síndrome do Mal, VTI Video, 1987, encontrável nos Mercado Livres da vida com relativa facilidade). Procurando nos sites especializados (como ebay) descobrimos que Rampage só foi lançado em DVD na improvável Polônia, há alguns anos, já estando fora de catálogo, pelo menos oficialmente. E cuidado com outros dois filmes, inspirados por um videogame homônimo, que confundem o interessado. Quem quiser achar uma cópia do filme provavelmente vai ter que achá-lo na selva dos torrents, provavelmente tendo que adivinhar qual versão está baixando, já que não houve nenhuma indicação no relançamento que se tratava de uma versão ‘alternativa’. Boa sorte.

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VIVER E MORRER EM LOS ANGELES (To Live and Die in L.A., 1985), William Friedkin

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“Buddy, you’re in the wrong place at the wrong time.”

Richard Chance (William Petersen) possui algumas habituais características do policial controverso cinematográfico: é daqueles que seguem suas próprias regras, destemidos e não tremem na hora encarar a bandidagem. Aparentemente, é o homem da lei perfeito para os amantes do gênero policial. No entanto, as semelhanças com um “Dirty” Harry Callahan ou Shaft param por aqui. Analisando as atitudes do sujeito ao longo de Viver e Morrer em Los Angeles, percebe-se com alguma sutileza que, no fim das contas, ele não passa de um agente incompetente, impulsivo, arrogante, agindo pelo instinto de vingança, que termina, perdoem meu francês, totalmente fodido!

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Não é a primeira vez que William Friedkin se arrisca dessa maneira. Chance não é o único personagem “Friedkiano” que tem suas limitações e imperfeições colocadas em evidência. Basta lembrar do Popeye Doyle de Gene Hackman e a cagada que faz no desfecho de Operação França. Ou a mudança de comportamento de Al Pacino ao se infiltrar no submundo homossexual em Cruising. Enfim, também não é a toa que estamos falando de um dos diretores mais ousados do cinema americano, um autêntico provocador. Talento o sujeito sempre teve de sobra, mas subverter deve ser uma de suas principais diversões nessa brincadeira de fazer cinema. E parece não dar a mínima para o que o grande público pensa.

Isso fica claro na maneira como arranja soluções questionáveis para os seus filmes: os vários finais abertos, pessimistas e reflexivos; sem contar as preferências por temas polêmicos e personagens ambíguos que nem sempre são bem vistos aos olhos do espectador comum. Deste modo, Viver e Morrer em Los Angeles segue a máxima shakespeariana na qual “concisão é a alma do espírito”, ou, em outras palavras, o filme é um dos grandes definidores do cinema de Friedkin.

“Guess what? Uncle Sam don’t give a shit about your expenses. You want bread, fuck a baker.”

Viver e Morrer em Los Angeles começa com o tal agente, Richard Chance, prestando serviço de segurança ao Presidente dos Estados Unidos em uma conferência em Los Angeles. Durante a ocasião, um homem-bomba islâmico tenta “encontrar” suas setenta e duas virgens lhe esperando no paraíso, levando o presidente americano junto. Não consegue, graças a Chance e seu parceiro. Os dois se sentam no terraço e pensam sobre o que acabou de acontecer. Então dizem algo como, “Vamos beber!” e logo inicia uma elegante montagem, com a música estilosa de Wang Chung , mostrando várias imagens que representam a Los Angeles do filme.

E o que é um clássico dos anos oitenta sem uma trilha sonora oitentista bem datada?!Chung fornece não somente a trilha sonora e a música tema, mas todos os sintetizadores dos efeitos sonoros que compõem o clima do filme. É claro que o fato das músicas serem tão datadas pode proporcionar um obstáculo para o espectador que se incomoda com esse tipo de detalhe. Como sou um amante da música pop brega e datada dos anos 80, acho que não poderiam ter escolhido um som melhor.

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Inspirado em Gerry Petievich, ex-agente secreto que transformou suas experiências em ficção, Chance, a princípio, é mostrado como o policial durão que se espera, pulando de bungee jump, comendo uma loura gostosa. Quando seu parceiro é morto a tiros, prestes a se aposentar, sua truculência de fachada parece ficar mais intensa. Não demora muito para começar a perder a cabeça, infringir leis e fazer o que for preciso para se vingar. No lugar comum dos filmes do gênero, o policial que age dessa maneira é sempre visto como um sujeito cool, o policial casca grossa que queremos ser quando crescer. No caso de Chance, Friedkin lhe foi muito cruel…

A cada passo adiante para resolver o caso, ficamos convencidos de que o protagonista é um idiota cujo distintivo lhe dá direito de se achar acima da lei, de quebrar todos os protocolos, de ser um prepotente chantagista com todo mundo pelas ruas de Los Angeles, apesar das boas intenções… Tenho a impressão de que o próprio Chance nem tenha consciência da espécie de indivíduo que ele se torna. E é exatamente esse tipo de ambiguidade que gera o tour de force que torna o personagem tão singular, tão especial, tão badass! E Petersen imprime tudo isso com uma naturalidade absurda!

Mas o que seria de Chance sem um vilão a sua altura? É aí que entra em cena um jovem Willem Dafoe, encarnando o artista que usa de seu talento para falsificar dinheiro. Além de ser um assassino sangue frio – responsável pela morte do parceiro do protagonista. Não me surpreende a carreira de Dafoe ter decolado após Viver e Morrer em Los Angeles, porque seu desempenho aqui é algo magnífico. Aquele olhar expressivo de psicopata nunca esteve tão assustador.

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No elenco ainda temos John Pakow, que faz o parceiro novo e certinho de Chance, mas que aos poucos começa a se transformar no protagonista; Dean Stockwell, que na época era o nome mais famoso da lista; John Turturro, Robert Downing Sr. e uma pontinha de Steve James.

“- Why are you chasing me?
– I don’t know, why you running?
– Cause you’re chasing me.”

Viver e Morrer em Los Angeles não é exatamente focado na ação. A sua essência segue a estrutura de um thriller policial e, obviamente, não poderiam faltar algumas sequências mais movimentadas e tensas, como tiroteios e perseguições. Mas Friedkin as intensifica com uma boa dose de violência e realismo. As mortes ganham um peso muito grande dessa maneira – como é o caso do assassinato do parceiro de Chance.

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Mas a grande sequência de ação do filme, a cereja do bolo de Viver e Morrer em Los Angeles, como acontece em Operação França, é, sem dúvida alguma, a longa perseguição de carros em alta velocidade no meio do tráfego, das áreas industriais, linhas de trem, e até na contramão de uma freeway! Um verdadeiro espetáculo! Friedkin se especializou nesse tipo de cena, nesse bailado automobilístico exagerado e belo. Chega a ser poético. E aqui a montagem possui uma baita energia acentuada pela carga dramática que a cena carrega. É a maior aula de cinema do professor Bill Friedkin aos aspirantes a cineastas de hoje que não fazem ideia do que seja uma montagem.

Em sua autobiografia, Friedkin diz que “a perseguição é a forma mais pura de cinema, algo impossível de ser feito em qualquer outro meio, seja na literatura, num palco ou numa pintura em tela. Uma perseguição tem que parecer espontânea e fora de controle, mas precisa ser meticulosamente coreografada“. Difícil não concordar.

“I’m getting too old for this shit.”

Ao escrever sobre Viver e Morrer em Los Angeles, entrei numa enrascada. A princípio, achei que seria um prazer tratar de um dos meus filmes favoritos de todos os tempos. Por outro lado, este mesmo motivo me deixa sempre descorfortável. Escrever sobre algo que tanto admiro é um trabalho árduo. Mas acho que saiu algo… E atualmente o número de admiradores de Viver e Morrer em Los Angeles vem aumentando cada vez mais. Mas ainda são poucas as vezes que Friedkin é lembrado por este trabalho. Sempre citam O Exorcista e Operação França. Mas é este aqui que me estimula, que me faz sentir necessidade revê-lo. É a minha droga. Não consigo passar muito tempo sem revisitar o universo criado por Friedkin, a Los Angeles desordenada, violenta e ensolarada, os personagens cínicos e complexos… mesmo tendo consciência dos destinos trágicos e chocantes que o roteiro cuidadosamente prepara. E a edição nacional do DVD, cheio de extras (com direito ao final alternativo ridículo), quebra um bom galho.

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UMA TACADA DA PESADA (Deal of the Century, 1983), William Friedkin

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por Ronald Perrone

Uma comédia sem graça nenhuma ou uma sátira de humor negro pouco compreendida? O próprio William Friedkin evitou falar de Uma Tacada da Pesada em sua autobiografia, lançada neste ano de 2013. Vai ver não lhe veio nada interessante para falar. Ou talvez fosse tão insignificante para o diretor que achou que não valeria a pena. O fato é que senti a mesma coisa em relação a obra: um filme desinteressante, insignificante. Trata-se de um dos trabalhos mais fracos do Friedkin e talvez seja por isso que eu, também, não tenha muito a dizer.

Mas, respondendo a pergunta do início, prefiro colocar a segunda opção. Uma Tacada da Pesada é uma sátira sobre o comércio de armamento no pós-Vietnã e, por fazer graça de um assunto sério e relevante, o humor é mais reflexivo do que apenas feito para gerar risadas. Neste caso, o título nacional e até mesmo a arte dos cartazes tentam passar uma imagem errada do que é visto na tela. O filme não é essa comédia de Sessão da Tarde, estilo Férias Frustradas, que aparenta ser. No entanto, o fato de Friedkin trabalhar um tipo de humor no qual não é preciso dar gargalhadas não retira a ideia de que é necessário, de alguma maneira, ser engraçado. E aqui não é. Por isso a pergunta do início do texto é pertinente, pois dizer que Uma Tacada da Pesada é uma comédia sem graça também é válido.

Friedkin, mestre supremo do cinema corpo, dos temas fortes e polêmicos, das perseguições de carro, parece simplesmente não saber o que fazer o material que tem aqui. Tem tudo nas mãos, mas Uma Tacada da Pesada acaba sendo um grande nada. Desperdiça o talento de Chevy Chase, Gregory Hines e Sigourney Weaver, que não podem fazer muito para tornar o filme ao menos divertido. São poucas as sequências promissoras, como a que Chase faz uma demonstração de uma arma para rebeldes em plena trocação de tiros com a polícia num país da América Central, ou a que Chase é assaltado e, por possuir um trabuco bem maior, acaba ele mesmo roubando a carteira do bandido. No entanto, são cenas que não tem muita importância para a trama. Ficam soltas, perdidas, enquanto a história, cujo tema central poderia render uma ótima análise,  acaba se tornando uma prova de tolerância para o saco do espectador. Ou será que é má compreendida?

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