REGRAS DO JOGO (Rules of Engagement, 2000), William Friedkin

11923

por Ronald Perrone

William Friedkin nunca fugiu de uma boa polêmica nos projetos que dirigiu e não faltam exemplos em sua carreira de filmes que dividiram opiniões com temas incomuns, ideologias dúbias, personagens controversos, como CRUISING, RAMPAGE, VIVER E MORRER EM LA, OS RAPAZES DA BANDA, só para citar alguns. Mas se tem um filme em que o diretor realmente procurou “sarna para se coçar” foi REGRAS DO JOGO, um conto que levanta algumas questões morais tendo como base o militarismo americano e a ideia do que significa o uso da violência numa situação militar.

O filme começa na guerra do Vietnã, quando uma unidade americana, liderada pelo tenente Hays Hodgers (Tommy Lee Jones), fica encurralada por soldados inimigos. A situação só melhora quando o tenente Terry Childers (Samuel L. Jackson), em outro local, consegue capturar um comandante vietcong, forçando a retirada da tropa em cima de Hodgers e seus soldados, salvando-lhes a vida.

rules-of-eng1

Trinta anos mais tarde, Childers, agora coronel, comanda uma operação de resgate do embaixador americano no Yemen, interpretado por Ben Kingsley, durante um protesto nos arredores da embaixada. A coisa esquenta quando alguns soldados americanos são mortos por atiradores posicionados nos edifícios próximos à embaixada e Childers ordena que seu pelotão abra fogo contra a multidão nas ruas, supostamente composta por civis, incluindo mulheres e crianças, armadas com paus e pedras.

Mas a dúvida que REGRAS DO JOGO coloca na roda durante o seu desenrolar é se Childers realmente ordenou a execução de inocentes ou se a multidão possuía armas e atirou primeiro, colocando a vida dos americanos em risco. Sem deixar de analisar, também, todas as complicações que envolvem códigos éticos e morais decorrente dessa complexa tomada de decisão. Childers acaba acusado de assassinato, vai à corte marcial e pede para que seu velho amigo Hodgers, agora um advogado militar, lhe defenda no julgamento.

maxresdefault

O povo americano adora esse tipo de história, que de forma superficial eleva o espírito militarista do país, o que me lembra AMERICAN SNIPER, filme recente que vem tendo reações similares. Assim como o filme de Clint Eastwood, REGRAS DO JOGO foi muito bem nas bilheterias. A crítica é que não foi muito receptiva, especialmente na Europa, onde os filmes de Friedkin sempre tiveram uma aceitação melhor do que em seu país.

Na minha opinião, há realmente uma ideologia a ser questionada e pensada com cuidado, mas acho louvável que Friedkin confronte o espectador dessa maneira, forçando-o a refletir sobre questões que, embora sejam polêmicas, até hoje permanecem atuais sobre a política invasora dos Estados Unidos. Não vejo, no entanto, como uma crítica ao governo americano, muito menos um filme racista, como muitos comitês árabes acusaram na época, mas um olhar sobre uma situação que reflete muita coisa complexa a ser discutida.

Rules of Engagement Samuel L Jackson

Além disso, é um filme muito forte cinematograficamente. É impossível não se impressionar com Samuel L. Jackson gritando “Waste the motherfuckers!!!” enquanto mulheres e crianças são executadas à sangue frio. De acordo com o próprio Friedkin, a sequência do tiroteio na embaixada americana no Yemen foi a mais difícil que realizou em toda sua carreira. O resultado é brutal, tenso, realmente espetacular. No mais, as investigações de Hodgers sobre o que realmente aconteceu ao se preparar para o julgamento, e que tomam conta de grande parte da narrativa, transformam REGRAS DO JOGO num thriller bem interessante também.

Jones e Jackson dão um espetáculo à parte. Friedkin conta que o máximo que precisava fazer ao dirigi-los era mostrar suas posições em cena, o resto era o talento dos caras em encarnar seus personagens. Além da dupla e do já citado Ben Kingsley, o restante do elenco é formado por bons nomes, do calibre de Guy Pearce, Anne Archer, Philip Baker Hall e Amidou, que trabalhou com Friedkin em SORCERER.

REGRAS DO JOGO consegue um grande feito equilibrando uma trama que possui boa carga de tensão, entretenimento, com uma dose generosa de elementos para a reflexão. E mesmo aquele espectador que não vai concordar muito com as conclusões que tirar ao final, é impossível ficar indiferente à força do cinema de Friedkin e sua ousadia em confrontar o público com temas controversos e subversivos.

4-cleef

2 thoughts on “REGRAS DO JOGO (Rules of Engagement, 2000), William Friedkin

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s