Monthly Archives: Janeiro 2017

THE WARRIORS – OS SELVAGENS DA NOITE (1979)

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Por Caio de Freitas Paes

Um encontro da maior parte das gangues de Nova York; um líder carismático o suficiente para conseguir uma trégua entre rivais; uma promessa de revolução – a tomada da cidade. Quando tudo parece pronto para que a história seja reescrita, um tiro cala o messiânico Cyrus e a trégua é desfeita. Esse é o início da jornada no terceiro filme de Walter Hill: THE WARRIORS – OS SELVAGENS DA NOITE.

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A trama privilegia um ritmo pegado e ágil justamente por sua crueza: em pouco menos de 15 minutos já se entende que toda a promessa de revolução punk serve como disparador para uma maratona contra a morte, um mergulho na face sombria da cidade. Tudo e todos são rivais, e aos Warriors caberá passar por todo tipo de provação para saírem vivos do sonho que se torna pesadelo.

É importante atentar que a própria introdução também já sintetiza a força do filme. Uma montagem dinâmica e intensa, o uso sagaz da trilha sonora para conduzir nosso olhar por entre a odisseia da gangue de Coney Island – com destaque para a locutora da rádio fictícia, que faz o papel de narradora informal da trama -, os diferentes perfis de cada um dos membros: esses elementos prenunciam o desenrolar da obra.

Tudo isso, claro, ganha ainda mais vigor por meio do olhar esteticamente aguçado da dupla Walter Hill-Andrew Lazlo (o diretor de fotografia), que oferecem uma variedade rica de planos e formas de caracterizar as fugas, diálogos e brigas durante o filme. A alternância entre close-ups, tomadas panorâmicas, planos abertos e cenas gravadas com grua valorizam o filme, borrando as fronteiras cinematográficas para inventar/capturar uma Nova York sombria e ameaçadora. Para tal, a concepção do sem número de gangues rivais foi feita com esmero: os visuais, fisionomias e adereços moldam outra camada de imersão no universo da obra.

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Mas o ritmo envolvente de THE WARRIORS não deriva apenas da roupagem do filme: a própria narrativa é muito certeira ao colocar os guerreiros de Coney à prova incessantemente. Ao longo do filme a trupe vai sentindo o fardo de fugir de toda uma cidade à medida que membros são pegos, ou até mesmo vitimados. A luta pela sobrevivência ganha consistência e cativa – além de ser simbolizada na própria travessia e também nos diferentes obstáculos/inimigos que atravessam o seu caminho. E justamente por essa rica combinação com uma roupagem de filme noturno, misturando ação com densidade, que o filme é um grandes clássicos de Hill.

Não à toa é referenciado em diversas outras películas do gênero – além de ter ramificado até em um (excelente) jogo para videogame, desenvolvido pela Rockstar e lançado na década passada. THE WARRIORS consegue envolver tanto pela estética estilizada concebida, quanto pelo ritmo e pelo carisma dos personagens principais – e por sua trajetória ao longo do filme. Com quase quarenta anos contados desde seu lançamento, a obra exala juventude e inventividade ainda hoje.

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CAÇADOR DE MORTE (The Driver, 1978)

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por Marcelo Miranda

CAÇADOR DE MORTE (The Driver) é um filme de transição na então iniciática trajetória de Walter Hill. Fica entre sua estreia relativamente modesta em LUTADOR DE RUA (Hard Times, 1975) e o impacto de THE WARRIOR (1979) – ainda que mal recebido na época, este é até hoje seu filme de maior referência, mesmo Hill tendo feito 48 HORAS (1982). O suspense policial com Ryan O’Neal, Bruce Dern e Isabelle Adjani deu continuidade à parceria entre Hill e o produtor Larry Gordon num trabalho que assumidamente presta tributo a O SAMURAI (1967), do francês Jean-Pierre Melville na atmosfera seca, na inexpressividade do personagem principal e no enredo simples que, trabalhado com estilo e rigor, ganha contornos intimistas dentro do contexto de um filme de ação.

Parecia algo fora do normal mesmo para a Hollywood do fim dos anos 1970. Já existiam BULLITT (Peter Yates, 1968), OPERAÇÃO FRANÇA (William Friedkin, 1971) e PERSEGUIDOR IMPLACÁVEL (1971), trinca de policiais renovadores do gênero no período, com estilos mais naturalistas e tramas fincadas no noticiário real (assassinos seriais, traficantes, assaltantes). Nenhum deles, porém, continha estilo tão austero como o de Hill em Caçador de Morte. O filme transborda a gelidez ambicionada pelo diretor, como se toda emoção tivesse sido expulsa das cenas. Sem nem sequer dar nome a algum personagem, o enredo encaminha os acontecimentos, instante a instante, até o desfecho que mantém vários elementos em aberto.

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O’Neal, já tendo interpretado outro personagem de baixa expressividade (no grandioso BARRY LYNDON, de Stanley Kubrick, em 1975), circula com desenvoltura num ambiente propositadamente esvaziado de sentimentos. A constante face de desconforto e má vontade, com as sobrancelhas arqueadas e a testa enrugada, dão a impressão de que o personagem está ali apenas mesmo pela obrigação de cumprir o trabalho para o qual está contratado. A francesa Adjani, presença luxuosa, vai e vém como uma femme fatale nunca claramente desvendada. O policial vivido por Dern, com seu jeito algo misantropo e irônico, é o único a se “soltar” um pouco mais nos comentários sarcásticos e na pompa de dono da razão. O embate de olhares entre ele e O’Neal no clímax é tão forte quanto um tiroteio bem encenado.

Ainda que seja apenas sua segunda direção, Hill tem controle absoluto do tempo e da ação em CAÇADOR DE MORTE. Os primeiros 20 minutos são dos mais impressionantes exemplares do cinema de ação norte-americano em décadas, influência tão grande que chegou a ser explicitamente emulada também na sequência inicial de DRIVE (2011), de Nicolas Winding Refn, entre vários outros. Sem usar trilha musical e elevando os sons de motores, derrapadas e respiração dos envolvidos, as perseguições de carro impressionam pela destreza da montagem (assinada por Tina Hirsch e Robert K. Lambert), pelo controle de Hill na mise-en- scène e pela longa duração.

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O enredo desenvolvido entre as cenas de ação, quase sempre algo não muito importante em filmes similares, aqui carrega sentido pessoal: a tentativa do policial de capturar o “cowboy” tem menos o objetivo de fazer justiça do que provar a própria razão de que o motorista está efetivamente envolvido nos assaltos. A disputa clássica entre homens de moral particular (independente dos lados da lei) tem grandes exemplares no cinema, o maior deles ainda sendo FOGO CONTRA FOGO (Michael Mann, 1995). CAÇADOR DE MORTE tem quinhão significativo nessa história.

Hill ainda tateava e arriscava, no começo da carreira, um filme com jeitão de maduro. Para muitos, é seu melhor trabalho. Deixando de lado qualquer hierarquização, o que fica evidente na revisão de CAÇADOR DE MORTE (especialmente pela alta qualidade da versão em Blu-ray que circula atualmente) é o rigor de um cineasta para quem a ação física e as relações entre o corpo e o mundo são elementos essenciais no trato com a imagem. Em LUTADOR DE RUA, era um corpo contra outro. Aqui, são os carros contra os carros e também olhares contra olhares. Hill busca filmar o movimento e o choque e tudo que acontece entre um e outro. Aqui ele experimenta, com os recursos mais básicos de uma linguagem em construção, a potência desse caminho.

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LUTADOR DE RUA (Hard Times, 1975)

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por Ronald Perrone

Durante a grande depressão que assolou os Estados Unidos na década de 30, não estava fácil pra ninguém. Nem para o Charles Bronson.

Em LUTADOR DE RUA, Bronson interpreta Chaney, um sujeito aparentemente pacato que chega a New Orleans num vagão de trem, sem dinheiro, sem passado, em busca de trabalho. Mas todo o semblante sereno do homem confunde sua verdadeira essência, um intrínseco e necessário gosto por violência. Não demora muito Chaney encontra o que quer, o universo das lutas clandestinas. No local, o sujeito se aproxima de Speed (James Coburn), um empresário de lutadores, e lhe oferece para ser seu novo lutador.

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E assim temos LUTADOR DE RUA e o início da carreira de Walter Hill como diretor, o cara que realizou alguns dos filmes de ação mais notáveis em solo americano a partir da década de 70, como 48 HORAS, EXTREME PREJUDICE e INFERNO VERMELHO. Tá certo que aqui neste debut ele ainda não conseguia demonstrar todo seu potencial, mas já dava pra perceber o talento de Hill em certos aspectos. O resultado é bem sólido. Principalmente tendo Bronson e Coburn encabeçando o elenco, com uma química de encher os olhos. Os dois já haviam trabalhados juntos em SETE HOMENS E UM DESTINO e FUGA DO INFERNO, mas aqui a interação entre eles é bem mais forte. É interessante o jogo de contraste entre os dois personagens, um completa o outro nessa parceria, Coburn fazendo o falastrão incansável enquanto Bronson, bem, o Bronson simplesmente nasceu para o papel. Ele faz o seu habitual tipão calado e sisudo, mas que representa todo o estado de espírito de um período em crise. Vale destacar outros atores também como Strother Martin, que rouba a cena com seu viciado em ópio, e o grande Robert Tessier, como o principal oponente nos confrontos contra o Bronson.

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Mas a alma de LUTADOR DE RUA é o confronto físico, é Bronson encarando brutamontes em sequências de trocação de socos. A maioria das cenas de luta são cuidadosamente elaboradas e montadas (pelo futuro diretor Roger Spottiswoode), mas ao mesmo tempo classudas e secas. E é incrível como Hill já tinha seu olhar autoral sobre o físico, sobre os corpos em ação e uma noção magistral de como filmar a encenação da peleja, enquadrar os oponentes, como usar os espaços, armazéns, docas e até uma gaiola de aço e transformar cada luta numa narrativa própria. O único ponto negativo é a facilidade com a qual Bronson vence seus adversários, com exceção da luta final com Tessier. Mas não chega a ser um problema no geral.

O que incomoda mais, na verdade, é o subplot romântico totalmente supérfluo entre Chaney e a prostituta Lucy, que é claramente inserido à trama para dar a esposa de Bronson, Jill Ireland, um papel, como na maioria de seus filmes na década de 1970. De todo modo, LUTADOR DE RUA é uma puta estreia de Hill, com truculência de sobra, grandes atuações de Bronson e Coburn e excelentes sequências de combate corporal e por isso ganha fácil uns quatro cleefs na cotação.

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ESPECIAL WALTER HILL

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O estilo de Walter Hill é tradicionalmente marcado por uma secura, um cinema direto ao ponto, sem adornos espetaculares e uma total falta de romantismo sobre a representação da violência. Mas onde muitos dos cineastas/artesões que se beneficiam de uma descrição similar surgem mais como genéricos repetidores de padrões estéticos da época, Walter Hill se apresenta como um estudioso autoral do cinema físico e de gêneros populares, encontrando nobreza e honra na ação. Um cinema que possui suas próprias pernas ao mesmo tempo em que complementa o trabalho de seus mentores, como Peckinpah, Huston, Yates…

Em 2017 retornamos, após mais um longo hiato, trazendo este mestre da ação como destaque. Espero que gostem.

FILMES:

THE ASSIGMENT (2016)
BULLET TO THE HEAD (2012)
UNDISPUTED (2002)
SUPERNOVA (2000)
O ÚLTIMO MATADOR (1996)
WILD BILL (1995)
GERÔNIMO (1993)
TRESPASS (1992)
48 HORAS – PARTE II (1990)
JOHNNY HANDSOME (1989)
INFERNO VERMELHO (1988)
EXTREME PREJUDICE (1987)
CROSSROADS (1986)
BREWSTER’S MILLIONS (1985)
RUAS DE FOGO (1984)
48 HORAS (1982)
SOUTHERN CONFORT (1981)
THE LONG RIDERS (1980)
THE WARRIORS (1979)
THE DRIVER (1978)
HARD TIMES (1975)

BALADA DO AMOR E DO ÓDIO (2010), Álex De La Iglesia

por Ronald Perrone

A rivalidade entre dois palhaços de circo que disputam o amor da mesma mulher é o típico universo ideal para o retorno do espanhol Álex De La Iglesia ao seu cinema de referências particulares. Diferente do filme anterior, ENIGMAS DE UM CRIME, BALADA DO AMOR E DO ÓDIO tem afinidade pelo grotesco, é extremamente ácido no seu senso de humor, possui uma galeria de figuras bizarras e marginais em situações que parecem retiradas do teatro grand-guignol, além do aspecto visual, um magnífico espetáculo de puro prazer aos olhos.

Por outro lado, toda a extravagância inerente ao estilo de Iglesia acaba desperdiçada num material muito mal elaborado, com uma trama equivocadamente pretensiosa e sem foco, sem contar o desfecho pra lá de piegas e soluções clichês que só não levam a obra para o brejo porque Iglesia ainda não perdeu o jeito. No entanto, não fosse o belo trabalho de direção (que rendeu a Iglesia o prêmio de melhor diretor em Veneza), o ótimo elenco e o visual fantástico, BALADA DO AMOR E DO ÓDIO passaria despercebido…

O filme abre com uma sequência que só poderia ter saído da cabeça de Iglesia. Durante a Guerra Civil Espanhola, o exército invade a apresentação de uns palhaços no circo, recrutando a todos para repelir o ataque dos rebeldes. O resultado é uma onírica e violenta batalha protagonizada por um palhaço empunhando um facão, fazendo picadinho de rebeldes!

Anos mais tarde, acompanhamos a trajetória de Javier, filho do famigerado palhaço, que seguiu a mesma profissão do pai. Desempenhando o papel de palhaço triste, o rapaz consegue trabalho num circo comandado por Sérgio, um sujeito violento, alcoolatra, psicopata e, contrastando tudo isso, atua como palhaço alegre. Entre vários personagens interessantes, encontramos a angelical acrobata Natália, mulher de Sergio, que mexe profundamente com o pobre coração de Javier. Instala-se, então, um perigoso triângulo amoroso de consequências absurdamente trágicas.

O problema é que a trama não para por aí e o roteiro, escrito pelo próprio Iglesia, sai atirando para todo lado. E é quando se perde… O que era para ser simples, com os exageros habituais do diretor, tona-se extremamente enfadonho com a narrativa bagunçada que não sabe exatamente o que quer ser. Não são poucas as sequências que perdem seu sentido e soam forçadas e desnecessárias.

De todo modo, embora seja difícil relevar os pontos negativos, BALADA DO AMOR E DO ÓDIO, felizmente, está bem longe de ser ruim e serve ainda como uma ótima experiência visual para os fãs mais ortodoxos do diretor. E quando se trata de um grande artista como Iglesia, um filme menor significa muita coisa.

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