Monthly Archives: Março 2017

SOUTHERN COMFORT (1981)

por Ronald Perrone

SOUTHERN COMFORT é sobre um grupo da Guarda Nacional americana que realiza uns treinamentos de localização e navegação pelos pântanos da Louisiana, tentando encontrar um local específico, exercitando a utilização de mapas, etc. A maioria deles está levando o trabalho bem à sério, muito preocupados com as putas que vão comer quando terminar o exercício. Quero dizer, até mesmo as armas que levam em punho estão carregadas com festim. Em quem vão atirar? Estão em solo americano, não existe inimigo nesse treinamento…

Os problemas começam quando se dão conta de que estão completamente perdidos. Onde deveria haver tal objetivo, só tem água e mais água… Decidem então pegar “emprestado” algumas canoas que encontram num acampamento aparentemente abandonado à beira do rio, com alguns animais esfolados no local e tal… Mas deixam um bilhete pra quem quer que fosse. Depois de alguns minutos navegando, o pelotão descobre que está sendo observado à distância por um grupo de cajuns*, os possíveis donos das canoas. Eles gritam para que leiam o bilhete, mas os caipiras não se mexem. Um dos soldados então, decide ser o engraçadinho da turma e começa a atirar na direção dos sujeitos com uma metralhadora cheia de festim. Rá! Muito engraçado mesmo.

* Os Cajuns são os decendentes dos Acadianos, expulsos do Canadá, que se instalaram na Louisiana. [/Wikipédia mode off]

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Só que os cajuns respondem ao fogo, e a munição deles é bem real, para azar dos pobres militares. A primeira bala já acerta a testa do lider do pelotão (Peter Coyote) e, bom, vocês já podem começar a imaginar o que teremos aqui.

Walter Hill é um dos canônes em orquestrar sequências de ação, colocou Charles Bronson pra brigar em gaiolas em seu primeiro filme, realizou uma das obras mais representativas dos anos 70 com THE WARRIORS, fez algumas das perseguições de carros mais impressionantes que eu já vi em THE DRIVER, imitou Sam Peckinpah num western, enfim é um dos grandes mestres do cinema de ação americano e… agora é o diretor de um dos melhores filmes de caipiras psicopatas que existe!

Na época, era clara a intenção de Hill em fazer referência à guerra do Vietnam, mas o filme se manteve atual e até há poucos anos era difícil ver SOUTHERN COMFORT sem pensar no Iraque e outros países do Oriente Médio. Mantém sua análise, só muda o local. Quero dizer, temos aqui um pelotão americano, alguns deles agindo como autênticos imbecis, numa região na qual não entendem porcaria nenhuma de seus habitantes, sua cultura, não falam nem sua língua. Chega sem permissão, se achando os fodões, mas descobre rapidinho que a coisa não é bem assim. O adversário conhece o território, monta armadilhas, sabe onde se esconder e como monitorá-los…

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É o simbolo perfeito para o fracasso inevitável nesse tipo de negócio que o governo americano insiste em fazer de vez em quando ao longo de sua história.  E não importa se estão apenas “pegando emprestado uma canoa”… Com toda essa substância, fica difícil não preferir SOUTHERN COMFORT em relação a outros filmes do gênero “caipiras assassinos“, como DELIVERANCE, de John Boorman, por exemplo, que é mais aclamado (e não tiro os méritos).

Mesmo suprimindo a análise política, sobra ainda um puta thriller de caçada humana (o final, na vila dos cajuns, é de ficar com o coração na boca, a contrução da tensão é absurda), o qual destaca-se desde o roteiro, escrito à seis mãos pelo próprio Walter Hill, Michael Kane e David Giler, a utilização dos cenários naturais dos pântanos da Louisiana, passando pela direção habitualmente magistral de Hill e, principalmente, o elenco com feras do calibre de Powers Boothe, Keith Carradine, Fred Ward, Peter Coyote e especialmente um Brion James tão assustador quanto os piores monstros e psicopatas dos slashers oitentistas.

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CAVALGADA DOS PROSCRITOS (The Long Riders, 1980)

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por Ronald Perrone

Walter Hill visita o faroeste pela primeira vez. Já o tinha feito antes, ao menos em essência, em THE DRIVER e THE WARRIORS, mas é em THE LONG RIDERS que toda a “imagem” do western entra em cena na filmografia do homem. O filme é bastante conhecido pelo elenco peculiar, no qual irmãos na vida real fazem papéis de irmãos na ficção. Ficção em partes, porque o filme é sobre pessoas que realmente existiram e de certo modo deixaram suas marcas na história americana.

Portanto, temos os irmãos Keach, James e Stacy, fazendo os famosos fora-da-lei, Jesse e Frank James, e o resto do bando segue com a mesma lógica: os Carradine (David, Keith e Robert) como os Youngers; os Quaid (Dennis e Randy) como os Millers, e até os irmãos Christopher Guest e Nicholas Guest aparecem como os Fords, cujo caçula, Robert Ford, ficou notoriamente conhecido por matar Jesse James com um tiro pelas costas, tema que já virou filme algumas vezes, como na estreia de Sam Fuller, EU MATEI JESSE JAMES (1949), e mais recentemente com o belo A MORTE DE JESSE JAMES PELO COVARDE ROBERT FORD (2007).

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Mas não é essa a história que Hill quer contar em THE LONG RIDERS. O filme é estruturado em vários recortes da vida pessoal e criminal do famigerado bando, que causava o terror assaltando bancos de pequenas cidades, trens e assassinando a sangue frio qualquer agente da Pinkerton que estivesse em seus encalços. O foco é na aliança entre essas famílias, irmãos que lutaram por seu país e que durante o pós-Guerra Civil já não conseguiam se encaixar socialmente… Um tema que era até bem pertinente em 1980, quando os Estados Unidos ainda vivia a ressaca de uma guerra.

O jeito era roubar, era viver à margem em seus próprios mundos, apesar de muitos deles tentarem uma vida normal. Um dos momentos mais intimistas acontece justamente quando o grupo se reúne, com outros habitantes locais, para festejar o casamento de Jesse James. A sequência lembra um bocado o tratamento que um Michael Cimino dava às festas e celebrações, mas sem o mesmo cuidado nos detalhes. Sim, o filme possui certa sensibilidade, todos os personagens tem tempo de tela suficientes para não serem meros bonecos, mas Hill é um diretor mais físico e é por isso que certa delicadeza lhe falta, mas que acaba compensada pelo olhar poético em outros tópicos. É impossível, por exemplo, ficar sem falar da ação de THE LONG RIDERS.

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Principalmente pelo fato de tais sequências serem idênticas ao que o velho Sam Peckinpah fazia em suas obras a partir de MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA. Reprodução perfeita e, óbvio, consciente que serve, dentre tantas coisas, homenagear o grande Bloody Sam, que foi uma espécie de mentor para Hill. Um dos primeiros roteiros de Hill inclui, por acaso, OS IMPLACÁVEIS, um dos espetaculares filmes de ação de Peckinpah que já trazia um estilo definido de filmar tiroteios, perseguições, etc… Esse estilo consiste basicamente na estilização da ação, na maneira como as imagens interagem entre si numa decupagem entrecortada e com uso de slow motion, fazendo corpos em quedas e sangue espirrando elementos de alta carga dramática.

Hill o imita à perfeição em THE LONG RIDERS. A sequência do último golpe do bando, o desastroso assalto em Northfield, é um bom estudo de caso: a saraivada de balas, violentas feridas que se abrem em câmera lenta, uma fuga frenética à cavalos com imagens que beiram à poesia, como a dos cavalos atravessando a vidraça em slow motion. Talvez nem o próprio Peckinpah tivesse atingido um resultado tão forte. Vale lembrar que Hill não foi o primeiro a emular o estilo Peckinpah de filmar ação. CAÇADA SÁDICA (71), de Don Medford, e OS ÚLTIMOS MACHÕES (76), de Andrew V. McLaglen, estão aí pra isso. O caso mais interessantem no entanto, é do italiano Enzo G. Castellari, que seguia à risca a maneira como Peckinpah filmava tiroteios.

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O curioso é que em contraste das deflagradoras sequências de ação, em momento algum Hill procura engrandecer as lendas de seus personagens e os desmistifica pela representação de homens de família cheio de princípios morais, sem grandes feitos exagerados. O próprio mito de Jesse James é deixado lado e o sujeito é retratado como um ser caseiro e frágil… Diferente do que o diretor faria posteriormente em WILD BILL (95). Essa desmistificação deve ter muito a ver com o estado de espírito e o contexto da época, a tal ressaca do Vietnã, algo que Hill ainda daria prosseguimento em seu filme seguinte, o alegórico SOUTHERN CONFORT (81), que é assunto para um próximo post

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