CAVALGADA DOS PROSCRITOS (The Long Riders, 1980)

por Ronald Perrone

Walter Hill visita o faroeste pela primeira vez. Já o tinha feito antes, ao menos em essência, em THE DRIVER e THE WARRIORS, mas é em THE LONG RIDERS que toda a “imagem” do western entra em cena na filmografia do homem. O filme é bastante conhecido pelo elenco peculiar, no qual irmãos na vida real fazem papéis de irmãos na ficção. Ficção em partes, porque o filme é sobre pessoas que realmente existiram e de certo modo deixaram suas marcas na história americana.

Portanto, temos os irmãos Keach, James e Stacy, fazendo os famosos fora-da-lei, Jesse e Frank James, e o resto do bando segue com a mesma lógica: os Carradine (David, Keith e Robert) como os Youngers; os Quaid (Dennis e Randy) como os Millers, e até os irmãos Christopher Guest e Nicholas Guest aparecem como os Fords, cujo caçula, Robert Ford, ficou notoriamente conhecido por matar Jesse James com um tiro pelas costas, tema que já virou filme algumas vezes, como na estreia de Sam Fuller, EU MATEI JESSE JAMES (1949), e mais recentemente com o belo A MORTE DE JESSE JAMES PELO COVARDE ROBERT FORD (2007).

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Mas não é essa a história que Hill quer contar em THE LONG RIDERS. O filme é estruturado em vários recortes da vida pessoal e criminal do famigerado bando, que causava o terror assaltando bancos de pequenas cidades, trens e assassinando a sangue frio qualquer agente da Pinkerton que estivesse em seus encalços. O foco é na aliança entre essas famílias, irmãos que lutaram por seu país e que durante o pós-Guerra Civil já não conseguiam se encaixar socialmente… Um tema que era até bem pertinente em 1980, quando os Estados Unidos ainda vivia a ressaca de uma guerra.

O jeito era roubar, era viver à margem em seus próprios mundos, apesar de muitos deles tentarem uma vida normal. Um dos momentos mais intimistas acontece justamente quando o grupo se reúne, com outros habitantes locais, para festejar o casamento de Jesse James. A sequência lembra um bocado o tratamento que um Michael Cimino dava às festas e celebrações, mas sem o mesmo cuidado nos detalhes. Sim, o filme possui certa sensibilidade, todos os personagens tem tempo de tela suficientes para não serem meros bonecos, mas Hill é um diretor mais físico e é por isso que certa delicadeza lhe falta, mas que acaba compensada pelo olhar poético em outros tópicos. É impossível, por exemplo, ficar sem falar da ação de THE LONG RIDERS.

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Principalmente pelo fato de tais sequências serem idênticas ao que o velho Sam Peckinpah fazia em suas obras a partir de MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA. Reprodução perfeita e, óbvio, consciente que serve, dentre tantas coisas, homenagear o grande Bloody Sam, que foi uma espécie de mentor para Hill. Um dos primeiros roteiros de Hill inclui, por acaso, OS IMPLACÁVEIS, um dos espetaculares filmes de ação de Peckinpah que já trazia um estilo definido de filmar tiroteios, perseguições, etc… Esse estilo consiste basicamente na estilização da ação, na maneira como as imagens interagem entre si numa decupagem entrecortada e com uso de slow motion, fazendo corpos em quedas e sangue espirrando elementos de alta carga dramática.

Hill o imita à perfeição em THE LONG RIDERS. A sequência do último golpe do bando, o desastroso assalto em Northfield, é um bom estudo de caso: a saraivada de balas, violentas feridas que se abrem em câmera lenta, uma fuga frenética à cavalos com imagens que beiram à poesia, como a dos cavalos atravessando a vidraça em slow motion. Talvez nem o próprio Peckinpah tivesse atingido um resultado tão forte. Vale lembrar que Hill não foi o primeiro a emular o estilo Peckinpah de filmar ação. CAÇADA SÁDICA (71), de Don Medford, e OS ÚLTIMOS MACHÕES (76), de Andrew V. McLaglen, estão aí pra isso. O caso mais interessantem no entanto, é do italiano Enzo G. Castellari, que seguia à risca a maneira como Peckinpah filmava tiroteios.

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O curioso é que em contraste das deflagradoras sequências de ação, em momento algum Hill procura engrandecer as lendas de seus personagens e os desmistifica pela representação de homens de família cheio de princípios morais, sem grandes feitos exagerados. O próprio mito de Jesse James é deixado lado e o sujeito é retratado como um ser caseiro e frágil… Diferente do que o diretor faria posteriormente em WILD BILL (95). Essa desmistificação deve ter muito a ver com o estado de espírito e o contexto da época, a tal ressaca do Vietnã, algo que Hill ainda daria prosseguimento em seu filme seguinte, o alegórico SOUTHERN CONFORT (81), que é assunto para um próximo post

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