48 HORAS (48 Hrs., 1982)

por Gabriel Lisboa

Acho que é esperado pelo próprio autor de Como a Geração Sexo, Drogas e Rock n’ Roll Salvou Hollywood, Peter Biskind, que o leitor termine seu livro sobre a Nova Hollywood e os grandes diretores do início dos anos 70 bem chateado. Afinal, nunca tanta liberdade, criatividade e qualidade iria se repetir na história do cinema depois que STAR WARS criou a febre dos blockbusters, merchandising e filmes de orçamentos gigantescos. O filme adulto morreu com o Coronel Kurtz. Mas é fácil ser pessimista. O difícil é se reinventar a partir de um novo cenário e muitos diretores sofreram com isso. Não foi o caso de Walter Hill. Ele forma junto com John Carpenter, Joe Dante e Brian De Palma, um grupo de diretores dos anos 80 que conseguiu unir um cinema popular, de gênero, com uma pegada autoral e criativa, passando por vários gêneros.

Mesmo não tão bem-sucedidos em alguns casos ou sem grandes prêmios no currículo, são os filmes desses caras que eu tenho mais vontade de rever num fim de semana, apresentar para meus amigos ou para namorada numa sexta à noite. Lynch deprime e Cronnenberg vira o estômago. Mas não tem quem não se espante com os primeiros 20 minutos de STREETS OF FIRE, achando que descobriu o melhor filme de synth-rockabilly-retrô-badass de todos os tempos (infelizmente isso passa…). Então acho mais que justo que Walter Hill seja redescoberto por uma geração que, como eu, não viveu os anos 80.

O filme que tenho a oportunidade de analisar estreando minha participação aqui no O Dia da Fúria é o buddy-cop movie 48 HORAS, com Nick Nolte e Eddie Murphy estreando no cinema. Ele já era um grande nome do stand-up, era membro do elenco do Saturday Night Live e faria parte de grandes comédias nos 80, principalmente aqueles dirigidos pelo John Landis. Ou seja, houve um tempo em que Eddie Murhpy não era só engraçado mas era o cara mais engraçado no planeta. O que Murphy trouxe dos palcos para a tela e que Richard Pryor, por exemplo, não conseguiu (o melhor papel que ele ganhou na vida foi no amargo BLUE COLLAR…) foi o perfeito equilíbrio entre caricatura e realismo presente na melodia das gírias, tiradas e palavrões disparados as centenas numa personificação do wise-guy dos guetos norte-americanos. É difícil para nós aqui no Brasil, sem a tradição de levar comediantes a sério, entender a importância de uma “escola” de comédia mas a maioria dos comediantes americanos de sucesso no cinema fizeram o mesmo caminho que Murphy, desenvolvendo por anos personagens e uma rotina sólida de material próprio, além da rapidez da improvisação e interação com a plateia.

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É evidente a intenção de Hill em usar esses atributos de Murphy como contraponto para o policial truculento vivido por Nolte, o problema é que em 48 HORAS não há uma punch-line desconstruindo cada ofensa que saí da boca dos dois. Walter Hill não perdoa. Por mais que seja inegável a importância dele para toda uma corrente de filmes de duplas destoantes, 48 HORAS não é um filme agradável. É agridoce, áspero. Eu sei que hoje vivemos nessa dicotomia da polícia do vocabulário e do escárnio preconceituoso, mas eu acho que é possível ver algum filme datado nesse aspecto, entender e se divertir com alguns absurdos, a menos que o filme deixe escapar muitas notas erradas (tentando traduzir o termo wrong notes). Eu consigo me divertir com o personagem de Nolte soltando impropérios dos mais absurdos porque ele está representando uma caricatura de machão, mas quando ele segura o pescoço de Murphy enquanto os dois saem da prisão, você sente um pouco essa nota desafinada, subindo demais o tom. Ou quando é Nolte que dá o último soco em Murphy depois que ele incita uma briga num beco sujo (Carpenter elevaria essa ideia à perfeição em THEY LIVE). Ou ainda quando Murphy fala a toda hora que precisa urgentemente f*der uma b*ceta, inclusive para uma moça que acabou de conhecer. Enfim, não é que eu seja muito sensível (vi recentemente THE BAD NEWS BEAR e amei ver crianças fumando) mas quem está familiarizado com MÁQUINA MORTÍFERA e TANGO & CASH pode estranhar.

Talvez por esse motivo o buddy-cop movie só estouraria mesmo com o filme de Richard Donner em 1987. Foram lançados as pencas no fim dos anos 80. Shane Black, o roteirista de MÁQUINA MORTÍFERA, ainda é o grande mago do estilo sendo que o próprio revisou a fórmula algumas com THE LAST BOYSCOUT, THE LONG KISS GOODNIGHT, KISS, KISS, BANG BANG e mais recentemente com THE NICE GUYS. Grande parte do sucesso de Black vem dos diálogos e da química entre os dois protagonistas, mesmo que a coerência dos filmes não seja lá grande coisa (Bruce Willis faz a dança da chuva na frente de centenas de pessoas que acabaram de presenciar um homem sendo fatiado pelas hélices de um helicóptero). Mas houve exemplares na década anterior, como BUSTING (1974) e FREEBIE AND BEAN (1974) com essa relação mais cômica e heterogênea entre uma dupla de policiais, sendo que o próprio Hill escreveu um dos precursores do estilo, HICKEY & BOGGS, de 1972, com Bill Cosby e Robert Culp. Um contraponto para os lobos solitários como DIRTY HARRY. Falando em Clint Eastwood (sem citar já do lado do crime a dupla THUNDERBOLT & LIGHTFOOT), talvez um dos grandes precursores do estilo seja POR UNS DÓLARES A MAIS (1965) com uma dupla excêntrica caçando bandidos, porém com o detalhe que essa relação já cairia mais para o tipo mestre-aprendiz.

A sinopse de 48 HORAS, que deveria estar analisando, pode ser resumida assim: O tira linha dura, Jack Cates (Nick Nolte ) se une ao trambiqueiro falastrão Reggie Hammond (Eddie Murphy) em liberdade condicional por 48 horas para que este lhe ajude a achar um fugitivo psicopata. Eu gosto dessa simplicidade da trama que dá espaço para que o foco fique na relação dos dois protagonistas e não se perca em reviravoltas mirabolantes. O tempo curto em que a história se desenrola também favorece a dinâmica e o imediatismo dos problemas que os dois têm de resolver. Eu acho que Hill até aperfeiçoou esses elementos em INFERNO VERMELHO para fazer do filme de Schwarzenegger e Belushi algo mais divertido, com mais ação e exageros, desta vez com uma dinâmica entre policiais com pais policiais. Há uma cena em 48 HORAS em que Murphy e Nolte sentam lado a lado e tem um momento de conexão. Mas é mais uma trégua. Hill explora esse laço entre dois homens em INFERNO VERMELHO com mais sentimentalismo com Schwarzenegger e Belushi sentados num café para preencher relatórios. Walter Hill aliás adora esses elementos. Relatórios, metrôs e armários de rodoviárias. E se tem algo que Hill faz como ninguém é deixar incrível o trivial.

5

Há em 48 HORAS um plano sequência seguindo Nolte enquanto ele conversa com seus colegas dentro do departamento de polícia que deve ser a melhor representação da vida em uma delegacia de cidade grande da história do cinema. Tão trabalhosa quanto deve ter sido a confusão dentro da estação de metro lotada. O filme ainda tem três sequências musicais, algo que faz parte do repertório e é uma segunda paixão de Hill. Ver Nolte dirigindo em disparada ao som de The Boys Are Back in Town do The Busboys enquanto Murphy relaxa na pista de dança é um daqueles momentos mais fazem falta no cinema atual em que cada cena tem que levar o filme adiante. É claro que depois de tanto rock n’ roll 48 HORAS apele para algumas soluções pregui… digo, mais práticas no roteiro. Basta que os dois voltem ao apartamento da namorada de um dos bandidos para finalmente cravá-los de balas. O que importa é que o confronto final em ruelas cheias de vapor e neon é sensacional. E as vezes o mais improvável seja mesmo a melhor escolha. Sendo assim, acusar Hill de esteta ao fazer filmes de polícia e bandido, coloca-o junto de Alan Parker, Tony Scott, John Woo, Enzo G. Castellari e Seijun Suzuki. O que é um baita elogio.

PS: Os antagonistas e coadjuvantes são um prato cheio aos fãs de cinema de ação dos anos 80, como Sonny Ladham, Frank Mcrae e os comparsas de Hill, Brion James, David Patrick Kelly e James Remar.

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