ALVO DUPLO (Bullet in the Head, 2012)

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por Ronald Perrone

ALVO DUPLO foi retorno de Walter Hill ao posto de diretor após um hiato de dez ano sem filmar longas para cinema. Acabou saindo bem próximo do que eu esperava. Se não consegue atingir a plenitude do potencial do diretor, ao menos é uma obra simples, violenta, objetiva e sem frescuras. É, ao mesmo tempo, um retorno aos velhos tempos dos filmes de ação casca-grossa que Hill tanto contribuiu, mas também um belo exemplar inserido no atual ciclo de filmes de ação feito no digital.

Além do retorno de Hill, outro grande atrativo de ALVO DUPLO é a presença de Sylvester Stallone, um dos grandes astros do gênero que dispensa apresentações, fazendo pela primeira vez uma parceria tardia com o diretor.

Sly interpreta Jimmy Bobo, um assassino profissional em busca de vingança e que de “bobo” não tem nada. Jimmy é um anti-herói subversivo para os dias atuais. Passa o filme inteiro nessa jornada pessoal esmurrando, explodindo e atirando na testa de bandido, mesmo os desarmados, na covardia, e sem qualquer remorso.  E nem passa pela cabeça do sujeito o chato clichê da crise de consciência por causa do seu tipo de trabalho e modo de vida. “Buah! preciso sair dessa vida de matança”, como dizem os pseudos action heroes desta geração politicamente correta.

E Stallone está ótimo por aqui. É sempre bom vê-lo à vontade, construindo um personagem carismático, engraçado e badass, para entrar na sua galeria de papéis marcantes, como Rocky, Rambo, Marion Cobretti e outros. O Barney Ross, de OS MERCENÁRIOS, por exemplo, que eu adoro, parece uma compilação de um monte de personalidades que o Stallone já interpretou, inclusive a dele própria. Jimmy Bobo é algo novo na carreira do Sly, que parece ter se divertido bastante ao encarnar um assassino sangue frio e sarcástico ao extremo. Sem contar que na sua idade atual entram alguns conflitos pelo fato de ser um dinossauro anacrônico diante do mundo moderno, da mesma maneira que Schwarzenegger como o xerife em THE LAST STAND, produção que lançada na mesma época…

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Como especialista em buddy cop movies, Hill achou que deveria dar um parceiro à Jimmy Bobo. À princípio, seria Aaron Eckhart, mas acabaram trocando ainda na pré-produção por Sung Kang, da série VELOZES E FURIOSOS. Eckhart tem personalidade e presença, talvez tirasse um pouco o foco de Stallone, enquanto Kang é apenas um bom acompanhamento. Fizeram uma boa escolha na substituição. Um contraponto interessante do protagonista, até pelo fato de Kang ser um policial que faz parceria com um assassino, apesar de não ser daqueles coadjuvantes cools, como Brandon Lee em MASSACRE NO BAIRRO JAPONÊS, ou Steve James em AMERICAN NINJA. O cara dá uns tiros e aplica umas artes marciais em dois ou três meliantes, além de descobrir umas coisas relevantes para o caso que investigam através de celular, algo que desnorteia um pouco o Jimmy, que não é muito ligado à tecnologia… Mas o resto de ALVO DUPLO é Stallone em ação! Apesar disso, a química entre os dois é boa e Kang não se torna nunca pedante. Algumas das melhores sequências de ALVO DUPLO são justamente aquelas em que os dois dialogam, trocam desaforos e piadinhas, lembrando os bons e velhos filmes do subgênero, como INFERNO VERMELHO e 48 HORAS.

No elenco ainda temos Christian Slater, num pequeno papel de advogado dos bandidos. É desses atores que em algum momento deixou a carreira desandar e foi parar em produções direct to video, como o Cuba Gooding Jr. e o Val Kilmer. Temos também Adewale Akinnuoye-Agbaje encarnando um vilão inescrupuloso e Jason Momoa, seu principal capanga responsável pelos serviços sujos.

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Pausa para falar do Momoa. Tomei certa antipatia pelo sujeito depois da refilmagem de CONAN, mas ele está perdoado por este papel em ALVO DUPLO (e também por GAME OF THRONES). Momoa faz aqui o típico vilão old school, que se fosse nos anos 80, seria interpretado por um Vernon Wells ou Brian Thompson. Um mercenário filho da puta que realiza seus serviços pelo prazer de matar e não pelo dinheiro que entra na conta. E ainda contracena com Stallone uma luta de machados que, putz, é de encher os olhos de qualquer fã de “cinema de macho”.

Para finalizar, apresentando Sara Shahi, uma belezinha tatuada que encarna a filha do Stallone.

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Sobre a direção do Hill, que substituiu o Wayne Kramer (desistiu do projeto por diferenças de opiniões com Stallone), é preciso apontar algumas coisas. Definitivamente dá para perceber o estilo do homem impresso no modo de filmar a arquitetura da cidade, as luzes, no excelente domínio na direção de atores, a maneira de trabalhar os elementos do gênero com a essência dos anos 80, etc… Mas de vez em quando parece que estamos diante de um direct to video mais classudo, mais elegante. Há até alguns efeitos moderninhos de pós produção que eu nunca pensei em ver num filme de um sujeito do calibre do Hill. Não chega a incomodar, mas poderia ser evitado.

Em termos de ação, o sujeito ainda manda muito bem. Só não dava para esperar algo tão old school, com o charme de um EXTREME PREJUDICE, INFERNO VERMELHO ou 48 HORAS. Em vários momentos Hill chacoalha a câmera, picota na edição, especialmente em cenas de luta, o que não quer dizer que seja mal feito, pelo contrário, é tudo muito bem orquestrado por alguém que conhece profundamente a gramática do cinema de ação e resolveu fazer um belo exemplar no conceito contemporâneo de ação. E mesmo adotando esses artifícios modernos, o diretor demonstra que é possível fazer ação de qualidade nos nossos dias.

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ALVO DUPLO dividiu bastante as opiniões na época do lançamento e não forma poucas as críticas negativas que recebeu, indicando, por exemplo, que o roteiro faz juz ao segundo nome do protagonista. Ok, o roteiro não é nenhum primor e possui alguns furos. Mas a quantidade de Stallone dando tiro na cabeça de bandidos compensou qualquer equívoco. Comparado ao vasto número de obras primas que o gênero concebeu nos anos 70 e 80, ALVO DUPLO não deixa de ser mesmo apenas um filme genérico, uma gota no oceano de truculência fílmica, que em alguns momentos remete ao cinema de ação daquele período. E dentro do panorama atual, é um frescor, objeto de rara honestidade, um ótimo filme de ação.

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