DEVANEIOS DE UM MOTORISTA

por Caio de Freitas Paes

“Dá logo a partida. Bota essa chave no contato, sente o motor roncar”, penso. Seguro a maldita chave enquanto olho pra estrada. Essa estrada que parece que não acaba nunca. Talvez não acabe mesmo. Quando parece que vai acabar surge uma bifurcação e eu sempre pego o caminho mais longo. Não me lembro mais quando peguei esse carro. Agora ele é mais meu do que de seu dono. “Enfia logo a porra da chave no contato. Quanto mais pensa, mais demora. E lerdeza é algo que não combina contigo”. Tu sabe correr, sabe bem. É, provavelmente, a única coisa que sabe fazer direito mesmo. Corre desembestado, corre como se valesse a vida. Pisa no acelerador como se fosse a última coisa que pudesse fazer nessa terra que não acaba nunca. Diabos,ficar pensando nessas coisas é pra quem tem tempo. Tempo e algo que dê valor a isso. “De que adianta ficar parado pensando na vida se só sei correr, se só isso ainda me faz sentir alguma coisa?”. Dou um gole no bourbon, pra ver se surge alguma coragem nessa carcaça vazia. Dou outro. Que nem homem! Chega, vou fumar um cigarro.

“Não coloca nem a chave no contato, e ainda sai pra fumar. Sou ridículo”. Nem isso consigo fazer. Fumo faz tanto tempo, o cheiro não incomoda, mas não consigo fumar dentro do carro. Ela não gostava do cheiro, claro. Menina doida, por que ainda me lembro? Ela e aqueles moleques malucos. Corriam feito o diabo, quase tanto quanto eu. Mas e daí que ela não gostava do cheiro, faz tanto tempo, foda-se. Por onde ela anda? Talvez tenha amarrado seus burros em algum lugar. Ou em alguém. “Teve mais culhão que você! E ainda achou que ela ia ficar contigo… falando que ‘iam fugir pra algum lugar, que iam esquecer daquele racha estúpido’”. Patético. Ela nunca fugiria comigo. Ela sabe do que foge, sonha pra onde corre, deseja o que procura. Pode até não achar, mas sabe muito melhor do que eu. “Você só sabe correr. Dá outro gole. Acende seu cigarro”. Só sei correr, não sei sentir. Corro, meu deus, corro. “Sai da porra do lugar.”
*Coloca a chave na ignição, dá a partida*

MARTIN (1977), George A. Romero

Por Leopoldo Tauffenbach

Quatro anos após seu último longa de horror, George Romero retorna com Martin, um dos melhores filmes de vampiros a serem produzidos no planeta desde os clássicos da finada Hammer. A história gira em torno de Martin, um jovem vampiro de 84 anos com aparência adolescente que resolve se mudar para a casa de parentes distantes a fim de começar uma vida nova e aparentemente normal entre reles mortais. Mas mesmo entre parentes, Martin não é bem visto, principalmente porque sua necessidade por sangue ainda deve ser saciada. Mesmo sem compartilhar da mesma maldição que acomete a família de Martin, seu primo é, contra sua própria vontade, obrigado a lhe dar suporte. Uma única condição é imposta: não importam quais sejam as circunstâncias, Martin não deve, jamais, atacar alguém da comunidade.

Martin com a primeira vítima do filme: necessidade e culpa atormentam o pobre vampiro adolescente.

A primeira cena do filme imediatamente me remeteu a Dexter, seriado de sucesso (e não sem motivo) da Showtime, mais pelo modo como apanham suas vítimas que pelas semelhanças psicológicas entre os dois personagens. Martin embarca em um trem e avista sua vítima. De maneira desajeitada, esconde-se em sua cabine e aplica uma injeção com sedativo. Depois de controlar a vítima até que ela ficasse inconsciente, Martin a despe e a si e corta-lhe os pulsos. Saciada sua sede, tenta eliminar todos os vestígios que possa ter deixado, inclusive tentando plantar pistas de que sua presa possa ter cometido suicídio. Como Dexter, Martin parece ter aprendido uma valiosa lição ao longo de sua existência: nunca se deixar ser apanhado.

Conforme o filme evolui, vemos Martin em sua penosa tentativa de se adaptar a uma vida “normal” perante os humanos. Ele vai trabalhar no pequeno mercado do primo. Entre o balcão e algumas entregas, conhece a solitária senhora Santini, uma mulher infeliz no casamento que acaba se interessando pelo estranho e tímido protagonista. Enquanto isso, Romero mostra, por meio de flashbacks, um pouco do passado de Martin. Vê-se um jovem aparentemente normal, apaixonado por uma garota, perseguido por padres e familiares desesperados. Também se vê que, mesmo tendo isso acontecido em um passado distante, a história mais uma vez se repete. O primo de Martin não se conforma com a existência dele e passa o filme todo tentando transformar a vida de Martin em um inferno na esperança de convertê-lo ou derrotá-lo. Sem o apoio do primo, Martin é obrigado a refugiar-se na atração que sente pela senhora Santini e na generosidade dada pela filha de Cuda (interpretada pela esposa de Romero, Christine Forrest).

Cuda, primo de Martin se protege da criatura que ele mais odeia no mundo, mas jurou ajudar por questões familiares.

Tecnicamente, o filme parece ser muito superior ao que seu orçamento permitiria. Isso graças ao excelente roteiro que despreza a necessidade de efeitos especiais mirabolantes, as boas interpretações e a mão segura de Romero na direção. John Amplas, como Martin, e Lincoln Maazel, como o primo Cuda, formam a dupla de ouro do filme, elevando o nível de tensão do espectador cada vez que ambos se encontram na tela (Curiosamente, o ator Lincoln Maazel morreu em 2009 aos 106 anos de idade. Seria ele o verdadeiro vampiro?). Mas não estamos dizendo que as interpretações aqui sejam dignas de menção nos anais do Actors Studio ou algo parecido. É verdade que há momentos que parecem bem amadoras. Mas isso só contribui ao dar um caráter “normal” aos personagens. Não há ninguém que passe a idéia de herói ou referencial moral. Mesmo o padre, interpretado pelo próprio Romero, aparece bebendo e enfrenta uma saia justa com o primo Cuda justamente por tentar omitir uma opinião mais… humana!

Martin se entrega à senhora Santini, uma das poucas pessoas capazes de fazê-lo se sentir "normal".

Em sua essência, Martin trata de conflitos entre gerações, crescimento, adaptação e o grande dilema da adolescência: devo ser eu mesmo – ainda que todos digam que isso não é o melhor – ou devo ser aquilo que os outros esperam que eu seja? O maior conflito de Martin nem é passar-se por uma pessoa normal aos olhos alheios, mas aceitar-se como alguém diferente. E Romero, pouco a pouco, o coloca em situações que fazem com que a sua evolução seja lenta, mas visível para o espectador. Em tempos de politicamente correto, o filme é um tapa na cara dos mais hipócritas.

O passado de Martin, contado como flashbacks em preto e branco: a história se repete enquanto o vampiro busca sua redenção. Quem seriam os verdadeiros monstros nessa história?

Mas o final ainda guarda algumas surpresas, e a redenção de Martin não será uma tarefa simples. Romero constrói sem querer um novo discurso sobre a intolerância e o preconceito, já trabalhados em seus filmes anteriores. Martin é um vampiro como jamais fora apresentado no cinema: uma criatura com menos sede sangue que de humanidade. Por tudo isso, ouso especular que talvez, por trás de todos os monstros – zumbis, psicopatas, bruxas e vampiros –, Romero goste mesmo é de falar do maior e mais temível monstro de todos: aquele que guardamos dentro de nós mesmos.

Duna, Alejandro Jodorowsky

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De alguma maneira difícil de explicar, e isto só poderia ter acontecido mesmo nos anos setenta, o bruxo Alejandro Jodorowsky foi escalado pela 20th Century Fox para adaptar a grandiosa novela de ficção científica de Frank Herbert . Se antes, David Lean havia mostrado interesse no material, com o diretor de El Topo foram quatro anos de preparação e milhões de dólares gastos para uma visão que seria pouco fiel ao livro, de acordo com o próprio cineasta. Para o filme estavam confirmados Orson Welles, David Carradine e o surrealista Salvador Dali como um imperador louco que usaria uma privada de trono. Os cenários seriam de H.G. Giger, os efeitos a cargo de Dan O’Bannon (após Jodo e Douglas Trumbull terem quebrado o pau) e a música teria composições inéditas de Pink Floyd, Tangerine Dream e do Magma. Com o fim dessa sandice cinematográfica, Bannon e Giger foram se juntar a Ridley Scott (que por pouco não aceitou substituir Jodorowsky) em Alien – O 8º Passageiro. Depois, Duna chegaria as telas numa controversa versão produzida por Dino de Laurentis e conduzida por David Lynch. Vale lembrar ainda que diversos cenários e figurinos do abortado projeto foram reutilizados por George Lucas em Star Wars, assim como muitos técnicos que mais tarde viriam a fazer parte da Industrial Light & Magic.

Leandro Caraça,

originalmente escrito para o seu blog, Viver e Morrer no Cinema.

Apresentação

A culpa de tudo foi do Herax, que tirou o sistema de comentários no blog dele e resolveu colocar um chat, onde aconteceram longas conversas sobre cinema. Certo dia, reclamávamos que existem no Brasil, atualmente, pouquíssimos sites que tratam o bom e velho cinema físico e fantástico com dignidade. Aí surgiu a idéia de criar um blog coletivo como forma de iniciar algo que nem nós sabemos direito o que é. Mas assim nasceu O Dia da Fúria.

A decisão foi aprovada por muita gente, recrutamos os furiosos Cesar Almeida, Leandro Caraça (autor da idéia do nome do blog), Leopoldo Tauffenbach, Osvaldo Neto, Otávio Pereira, Rogério Ferraz e Takeo Maruyama; e a partir de hoje, vamos ver o que vai dar…

O Dia da Fúria vai funcionar da seguinte maneira: a cada mês, um diretor será escolhido e, sem firulas e frescuras, vamos apenas centrar a atenção em seus trabalhos, tentando comentar a maior quantidade de filmes possíveis do sujeito. Não vamos vomitar a filmografia de uma só fez. As atualizações serão semanais até que, ao fim do mês, completem todos os textos do diretor escolhido.

É isso. Fiquem a vontade e sejam bem vindos ao blog O Dia da Fúria!

Ronald Perrone