REGRAS DO JOGO (Rules of Engagement, 2000), William Friedkin

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por Ronald Perrone

William Friedkin nunca fugiu de uma boa polêmica nos projetos que dirigiu e não faltam exemplos em sua carreira de filmes que dividiram opiniões com temas incomuns, ideologias dúbias, personagens controversos, como CRUISING, RAMPAGE, VIVER E MORRER EM LA, OS RAPAZES DA BANDA, só para citar alguns. Mas se tem um filme em que o diretor realmente procurou “sarna para se coçar” foi REGRAS DO JOGO, um conto que levanta algumas questões morais tendo como base o militarismo americano e a ideia do que significa o uso da violência numa situação militar.

O filme começa na guerra do Vietnã, quando uma unidade americana, liderada pelo tenente Hays Hodgers (Tommy Lee Jones), fica encurralada por soldados inimigos. A situação só melhora quando o tenente Terry Childers (Samuel L. Jackson), em outro local, consegue capturar um comandante vietcong, forçando a retirada da tropa em cima de Hodgers e seus soldados, salvando-lhes a vida.

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Trinta anos mais tarde, Childers, agora coronel, comanda uma operação de resgate do embaixador americano no Yemen, interpretado por Ben Kingsley, durante um protesto nos arredores da embaixada. A coisa esquenta quando alguns soldados americanos são mortos por atiradores posicionados nos edifícios próximos à embaixada e Childers ordena que seu pelotão abra fogo contra a multidão nas ruas, supostamente composta por civis, incluindo mulheres e crianças, armadas com paus e pedras.

Mas a dúvida que REGRAS DO JOGO coloca na roda durante o seu desenrolar é se Childers realmente ordenou a execução de inocentes ou se a multidão possuía armas e atirou primeiro, colocando a vida dos americanos em risco. Sem deixar de analisar, também, todas as complicações que envolvem códigos éticos e morais decorrente dessa complexa tomada de decisão. Childers acaba acusado de assassinato, vai à corte marcial e pede para que seu velho amigo Hodgers, agora um advogado militar, lhe defenda no julgamento.

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O povo americano adora esse tipo de história, que de forma superficial eleva o espírito militarista do país, o que me lembra AMERICAN SNIPER, filme recente que vem tendo reações similares. Assim como o filme de Clint Eastwood, REGRAS DO JOGO foi muito bem nas bilheterias. A crítica é que não foi muito receptiva, especialmente na Europa, onde os filmes de Friedkin sempre tiveram uma aceitação melhor do que em seu país.

Na minha opinião, há realmente uma ideologia a ser questionada e pensada com cuidado, mas acho louvável que Friedkin confronte o espectador dessa maneira, forçando-o a refletir sobre questões que, embora sejam polêmicas, até hoje permanecem atuais sobre a política invasora dos Estados Unidos. Não vejo, no entanto, como uma crítica ao governo americano, muito menos um filme racista, como muitos comitês árabes acusaram na época, mas um olhar sobre uma situação que reflete muita coisa complexa a ser discutida.

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Além disso, é um filme muito forte cinematograficamente. É impossível não se impressionar com Samuel L. Jackson gritando “Waste the motherfuckers!!!” enquanto mulheres e crianças são executadas à sangue frio. De acordo com o próprio Friedkin, a sequência do tiroteio na embaixada americana no Yemen foi a mais difícil que realizou em toda sua carreira. O resultado é brutal, tenso, realmente espetacular. No mais, as investigações de Hodgers sobre o que realmente aconteceu ao se preparar para o julgamento, e que tomam conta de grande parte da narrativa, transformam REGRAS DO JOGO num thriller bem interessante também.

Jones e Jackson dão um espetáculo à parte. Friedkin conta que o máximo que precisava fazer ao dirigi-los era mostrar suas posições em cena, o resto era o talento dos caras em encarnar seus personagens. Além da dupla e do já citado Ben Kingsley, o restante do elenco é formado por bons nomes, do calibre de Guy Pearce, Anne Archer, Philip Baker Hall e Amidou, que trabalhou com Friedkin em SORCERER.

REGRAS DO JOGO consegue um grande feito equilibrando uma trama que possui boa carga de tensão, entretenimento, com uma dose generosa de elementos para a reflexão. E mesmo aquele espectador que não vai concordar muito com as conclusões que tirar ao final, é impossível ficar indiferente à força do cinema de Friedkin e sua ousadia em confrontar o público com temas controversos e subversivos.

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C.A.T. SQUAD (1986) / C.A.T. SQUAD: PYTHON WOLF (1988), William Friedkin

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por Ronald Perrone

Não é difícil se enganar e pensar que logo após uma obra-prima como VIVER E MORRER EM LA, William Friedkin seria capaz de pegar um pequeno projeto feito para a TV e transformar em algo relevante dentro de sua filmografia, especialmente em se tratando de um  thriller policial. Mas não é bem isso que acontece com C.A.T. SQUAD e C.A.T. SQUAD: PYTHON WOLF, duas pequenas obras que, infelizmente, pouco têm a acrescentar no currículo do diretor.

Até que a trama de espionagem/policial permite que Friedkin explore alguns elementos característicos de seus outros trabalhos e evoca, guardando as devidas proporções, instantes de OPERAÇÃO FRANÇA e VIVER E MORRER EM LA, demonstrando idiossincrasias de seu cinema, especialmente ao criar tensão e elaborar sequências de ação (ajuda muito a trilha do grande Ennio Morriconi para criar um clima). São momentos de frescor em trabalhos cujo formato não lhe permite sair de um estilo simplista, com personagens e situações rasas que na maior parte do tempo não remete ao grande diretor que é.

CAT_SQUAD_08No primeiro filme, a trama apresenta a tal equipe C.A.T. (Counter Assault Technical), um grupo de experientes agentes do governo que utiliza métodos nada ortodoxos para resolver alguns problemas ligados a terrorismo que os homens da lei comuns não conseguem. Oficialmente, o esquadrão C.A.T. nem sequer existe e isso permite que entrem em ação sem muitas interferências burocráticas. A missão aqui é parar um assassino profissional contratado para eliminar cientistas ao redor do mundo antes de uma importante conferência.

Grande parte da força de C.A.T. SQUAD se perde por conta da escolha do elenco e por Friedkin não conseguir trabalhar os dilemas e uma pretensa profundidade dos personagens por conta do formato urgente de filme para a televisão. O líder do grupo, John ‘Doc’ Burkholder, vivido por Joe Cortese, por exemplo, não tem carisma algum, da mesma forma que os outros membros da equipe. A única exceção é Bud Raines, encarnado pelo grande Steve James (AMERICAN NINJA), que consegue desempenhar um papel com dignidade. E o jovem Eddie Velez, que faz o assassino, também não convence como um perigoso matador profissional intercontinental, o que incomoda um bocado.

bscap0000Na trama do segundo filme, lançado dois anos depois, C.A.T. SQUAD: PYTHON WOLF, descobre-se que alguns incidentes internacionais aparentemente desconexos fazem parte de atividades de uma organização terrorista na África do Sul, que planeja montar uma arma nuclear poderosíssima. E, claro, apenas o esquadrão C.A.T. poderá detê-los, principalmente quando um de seus membros, John Sommers (Jack Youngblood), é capturado pelos terroristas durante uma missão ultra-secreta na região.

Falar de C.A.T. SQUAD: PYTHON WOLF é basicamente repetir tudo o que disse sobre o primeiro da série. Mas há um pequeno salto qualitativo aqui em termos de diversão, no sentido de que o filme não se leva tão a sério quanto o exemplar anterior e se aceita como um produto menor, cuja intenção é servir de escapismo barato a quem se propõe a assistir zapeando uma TV. Temos uma aventura mais urgente e absurda, mais cenas de tensão, uma leveza narrativa fruto da falta de pretensão e até de um certo desleixo na direção e montagem. Há também uma substituição no elenco que beneficia um bocado a produção. Sai a sem graça Patricia Charbonneau e entra Deborah Van Valkenburgh como membro feminino do grupo, que consegue dar mais dramaticidade à personagem. Há uma pequena participação também do subestimado e meio esquecido Miguel Ferrer.

bscap0008Sequências como a perseguição que ocorre numa estação de metrô, muito bem elaborada visualmente e tensa, ou Steve James aplicando seus métodos para arrancar informação de um suspeito – o fato de termos Steve James mais vezes em ação em comparação ao primeiro – garantem alguns momentos interessantes ao espectador menos exigente. No entanto, nada disso adianta muito. PYTHON WOLF é melhor que o primeiro, mas a parte burocrática do roteiro é conduzida com pressa e mão pesada, o que torna a experiência tão sonolenta quanto o anterior.

Se considerarmos que Friedkin surgiu da televisão, aqui o formato não lhe favorece, apesar de alguns anos mais tarde ter voltado em grande estilo à TV, com a refilmagem de 12 HOMENS E UMA SENTENÇA. As cotações são as seguintes:

C.A.T. SQUAD:  2 cleef

C.A.T. SQUAD: PYTHON WOLF:  2 cleef e meio

LAS BRUJAS DE ZUGARRAMURDI (2013), Álex de la Iglesia

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O gordinho espanhol Álex de la Iglesia estava devendo um grande filme há um bocado de tempo. Qual foi o último trabalho realmente relevante do homem? Pra mim foi CRIME FERPEITO, de 2004, ou seja, o que aconteceu? Não sei explicar, mas embora LAS BRUJAS DE ZUGARRAMURDI não seja ainda o filme que veio para recolocar a carreira do Iglesia de volta nos trilhos, representa um pouco um retorno à boa forma, mesmo estando longe do nível de um EL DIA DE LA BESTIA ou PERDITA DURANGO.

Um dos principais aspectos da queda de qualidade dos últimos filmes de Iglesia me parece ser uma tendencia do sujeito a se prender num padrão pessoal de produção criativa que tem saído de seu controle. Tudo nos seus filmes tem que ser completamente absurdo, cheio de simbolismos, enfim, exagerado de todas as formas possíveis e à sua maneira, esquecendo que existe um recurso básico que poderia ajudá-lo a se conter nessa profusão de ideias onde tudo é aproveitado e inserido à força na tela. Esse recurso é conhecido como sutileza, uma palavrinha que deve ter caído do dicionário do homem.

foto-las-brujas-de-zugarramurdi-4-511No entanto, embora LAS BRUJAS DE ZUGARRAMURDI também sofra de todo esse mal, de alguma maneira os exageros e simbolismos conseguem funcionar melhor e acaba divertindo sem cansar o público, como era o caso de BALADA TRISTE DE LA TROMPETA. Na trama temos José, um pai dedicado, apesar da profissão não ser das mais exemplares para um homem nessa posição. O sujeito é um ladrão de meia-tigela e logo no início do filme decide assaltar uma loja de penhores em Madrid com seu amigo Antonio, justamente no fim de semana em que precisa cuidar do seu filho. Vale destacar que o sujeito está fantasiado dessas estátuas humanas “prateadas”, caracterizado de Jesus. Jesus Prateado…

As coisas não correm muito bem no serviço, os dois ladrões e o menino acabam sequestrando um táxi forçando o motorista a levá-los até à França. Mas acabam presos num vilarejo repleto de bruxas, que estão prestes a realizar um ritual e precisam de uma criança para um sacrifício… Oops!

foto-hugo-silva-y-mario-casas-en-las-brujas-de-zugarramurdi-3-825Pois é, material dos bons o que temos aqui. O ritmo alucinado e alguns momentos genuinamente atmosféricos também garantem que o espectador não tire os olhos da tela – e a belezinha Carolina Bang, que faz uma das bruxas, contribui bastante pra isso – mas, infelizmente, LAS BRUJAS DE ZUGARRAMURDI nunca parece atingir todo o potencial que se espera nas mãos do Iglesia. É o tipo de filme que se revela na sua falta de pretensão e tenta se garantir assim: bobo, divertido, sem qualquer risco, sem algo que realmente instigue o espectador.

É preciso elogiar, entretanto, o tratamento visual do filme, que trabalha bem a atmosfera e as cores como efeito dramático. A influência de Sam Raimi – em seus primeiros tabalhos – é evidente em vários dos elementos visuais de horror, na maneira como mistura o gênero com comédia e, especialmente, no uso de efeitos especiais num CGI meio tosco, mas que dá um charme estético interessante. Os diálogos são ágeis e engraçados e a galeria de personagens é carismática, com alguns rostos bem conhecidos do cinema espanhol, como Carmen Maura. No entanto, no fim das contas, LAS BRUJAS DE ZUGARRAMURDI não consegue passar disso, de um visual bacana com personagens simpáticos e engraçadinhos. Longe de ser ruim (e muito melhor que as comédias atuais de Hollywood), mas sempre espero mais do Iglesias.

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BLUE CHIPS (1994), William Friedkin

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por Daniel Vargas

Embora a sétima arte tenha andado de mãos dadas com o esporte desde sempre, não resta dúvidas que o sucesso (e Oscar) inesperado de Rocky em 1976 tenha sido uma espécie de divisor de águas para filmes esportivos cuja sua ascendência do final dos anos 70 até os 80-90 foi inegável. De Vale Tudo (Slap Shot, 1977), Big Wednesday (1978), Breaking Away (1979), Touro Indomável (1980) e O Campeão (The Champ, 1979), até o segundo Oscar em menos de 10 anos para um filme cuja a temática central era esporte – para Carruagens de Fogo em 81 – tivemos dos mais variados exemplos de filmes desportivos notáveis: A Chance (All the Right Moves, 1983), Karate Kid (1984), Um Homem Fora de Série (1984), Momentos Decisivos (Hoosiers, 1986), Fora da Jogada (Eight Men Out, 1988), Sorte no Amor (Bull Durham, 1988), Homens Brancos Não Sabem Enterrar (1992), Cobb (1994). Esses 3 últimos de um dos nomes mais prolíficos do gênero que obviamente entende sobre o mundo dos esportes por dentro, Ron Shelton, o roteirista de Blue Chips, que, a primeira vista, foi um dos filmes mais atípicos do Friedkin.

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Depois de 2 anos consecutivos vitoriosos, o treinador de basquete universitário Pete Bell (Nick Nolte) se vê em uma sinuca de bico depois de um ano desastroso, onde uma derrota a mais na campanha pode custar seu cargo, mostrando a volubilidade dessa carreira. Ele vai então atrás de novos talentos espalhados pelo vasto EUA, lhes prometendo uma bolsa de estudos integral na universidade em que treina, em Los Angeles. Em troca de defender a mesma no basquete, é claro. É impagável a maneira como o personagem do Nolte vai dizendo ser seguidor de uma religião diferente da outra conforme vai conhecendo as crenças e costumes das famílias de cada atleta almejado que conhece. Mas isso é até onde o treinador Pete vai em termos de malandragem e “privilégios”. Da maneira legal. Incorruptível, o treinador faz questão de salientar porquê não abre mão de jogar limpo: “Primeiro porque eu posso ser pego e perder meu emprego. Segundo porque talvez eu NÃO possa ser pego“, diz, enfático.

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Mas quando ele percebe o quão afundado em corrupção e propinas a sua profissão está, quando até um dos seus promissores atletas parecem estar mais a par disso que ele mesmo, “exigindo” uma quantia exorbitante pelo seu valor de maneira ilegal na cara dura, como se estivesse pedindo dinheiro para a merenda, ele percebe que talvez ele terá que pular sua tão adorada ética para que possa satisfazer seus empregados, usando dinheiro dos “amigos do programa” do associado do time, o inescrupuloso “Happy” (J.T. Walsh) por quem Pete mantem um desprezo notório, a fim de conseguir manter seus novos jogadores, obter melhores resultados e se manter empregado. E aí que o roteiro de Shelton se destaca tanto ao sair da mesmice dos filmes sobre esporte onde o interesse maior foca em quem vai terminar ganhando a competição. Aqui o embate ético é o mais importante. Aliado a diálogos realistas de esquemas táticos e cenas documentais, que às vezes nos fazem pensar que estamos vendo de fato bastidores de jogos (a presença de jogadores reais de basquete como Shaquille O’Neal como um dos novos talentos de Pete e cenas memoráveis de jogos de basquete ajudam demais a sensação de um filme que parece ter propriedade no que fala).

E quando finalmente os podres desse combinado fraudulento começam a sair pelo ventilador, nós vemos a mão do Friedkin que transforma um filme sobre esportes em um thriller psicológico sobre morais e ética. Pete vai descobrindo pouco a pouco o quão seu rabo já estava preso a esses esquemas ilícitos sem ele ao menos saber, o levando a questionar até mesmos suas conquistas passadas e os nomes dos seus jogadores em quem ele mais confiava. Apesar de separados, sua ex-mulher Jenny Bell (Mary McDonnell) parece ser sua aliada mais do que nunca, chegando a ser tutora de vários de seus atletas. Totalmente avessa as maracutaias da profissão, ela se decepciona depois que percebe que Pete se deixou levar em nome da vitória. Agora ele desacreditado pelas pessoas que ama e por si mesmo, precisa chegar a uma conclusão final onde o jogo principal será a reconquista de seu caráter. Onde ele em seu discurso final apoteótico parece mesmo decidido a resgatar. Mesmo que custe sua carreira profissional para sempre.

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Vale destacar sozinha a performance do Nolte, que é coisa de louco. Entregue ao papel de uma maneira assombrosa, ele parece ser seguidor da linha dura Muricy Ramalho da filosofia “aqui é trabalho, meu filho” em volume máximo. Muito se fala de Al Pacino em Any Given Sunday (1999) quando pegam referências de treinadores linha dura no cinema, que esbravejam, xingam, chutam e dão discursos espetaculares e motivadores, mas o trabalho de Nolte nesse quesito me parece superior. E um pouco mais sutil, apesar de igualmente feroz. Seu andar sempre curvado, endurecido, com os largos braços caídos, a confrontação direta com os árbitros, há milésimos de chegar as vias de fato. Em uma cena, ele pega a bola de basquete de um auxiliar e chuta para arquibancada, talvez até mesmo para que impeça de fazer o mesmo com um ser humano. Em outra cena, depois da derrota do seu time, ele entra no vestiário já bufando, jogando a roupa dos jogadores do vestiário no chão enquanto re-afirma o quão desgostoso ele está com eles. Sai do vestiário, apenas para voltar segundos depois e continuar o sermão, finalizando ao tacar um galão de água na parede, deixando todos no vestiário pasmos ao sair pela segunda vez, apenas para voltar uma terceira para uma discussão aparentemente mais “calma e intimista”, onde ele pega uma cadeira e desabafa sentado frente a seus jogadores o quanto o basquete o estava desgastando. A que ao final do terceiro discurso, a mesma cadeira acaba virando alvo da sua fúria também. Uma cena perto de parecer excessiva, mas que é fundamental para entendermos a paixão obsessiva do personagem central por seu trabalho. Um trabalho primoroso de Nolte que para mim equivale a uma das suas 5 melhores atuações. O que em termos do que Nolte já fez, não é pouco.

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KILLER JOE – MATADOR DE ALUGUEL (Killer Joe, 2011), William Friedkin

tumblr_inline_nah122uEW91sk0n7opor Otavio Pereira

Cinco anos se passaram desde o último longa-metragem de William Friedkin, intitulado Possuídos, de 2006. Neste intervalo, o diretor realizou três trabalhos, dois no ano de 2007, são eles: The Painter’s Voice, curta documentário em vídeo, e o episódio nove da oitava temporada de CSI: Investigação Criminal intitulado Cockroaches. Em 2009 voltaria a dirigir um episódio de CSI, desta vez para nona temporada, sendo o episódio dezoito que se chamou Máscara. Retornando a parceria com Tracy Letts, onde trabalharam no subestimado Possuídos, Friedkin adapta de forma magistral o que originalmente seria uma peça de teatro. Possuindo grande força narrativa Killer Joe, seu último trabalho e que chegou aos cinemas do Brasil em 2013, é um suspense policial tenso, com início cativante e final desconcertante.

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Na trama temos Chris Smith (Emile Hirsch), um verdadeiro perdedor que, no desespero de arranjar dinheiro para pagar suas dívidas, convence seu pai, Ansel Smith (Thomas Haden Church), a contratar um assassino profissional para dar um fim em sua mãe e assim abocanhar o dinheiro do seguro. Só que para executar o trabalho, o assassino Killer Joe Cooper (Matthew McConaughey) precisa receber o pagamento adiantando. Como não possui um centavo sequer, acaba dando como garantia sua jovem irmã, Dottie Smith (Juno Temple).

A partir desta premissa já vemos o que o dinheiro é capaz de fazer com o ser humano. Com o decorrer do filme, que mescla boas doses de humor negro e violência, as situações criadas para desenvolver a trama e as personagens, com destaque para Killer Joe Cooper, culminam em uma catarse impactante de violência psicológica e humilhação, com boas doses de sadismo e psicopatia. Tudo sendo mostrado de forma impressionante e, para muitos, indigestas. A cena da coxinha de frango, por exemplo, já se tornou digna de antologia.

Além da excelente direção, temos ótimas atuações de todo o elenco, com destaque para Matthew McConaughey que assusta quando entra em cena. Mas não dá para esquecer da fotografia, que possui detalhes saturados em certos planos e destaques fortes em ambientes fechados.

Em resumo, mais um excelente trabalho de William Friedkin que sempre nos deixa pensativos ao final de seus filmes.

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CAÇADO (The Hunted, 2003), William Friedkin

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Em Caçado, de 2003, Aaron Hallam (Benicio Del Toro) é uma máquina de matar descontrolada, um militar super-treinado que surta durante uma operação na Guerra da Bósnia e desaparece. Semanas depois, na fronteira dos EUA com o Canadá ele mata dois homens que estavam caçando na floresta. Para capturar Aaron, o FBI pede ajuda a L.T. Bonham (Tommy Lee Jones), aposentado instrutor militar que ensinou a Aaron tudo o que ele sabe. O que se seguirá a partir de então, é um vigoroso jogo de caça e presa entre dois homens preparados para matar. Quantos cadáveres ficarão pelo caminho até Aaron ser capturado ou morto?

Após Regras do Jogo (2000), Friedkin volta a trabalhar com Tommy Lee Jones e conduz com precisão e sobriedade um dos mais puros filmes de ação do começo do milênio. Pode-se dizer, erroneamente, que Jones está repetindo o mesmo tipo de papel que se acostumou a fazer depois de O Fugitivo (1993) e que tudo não passa de uma cópia de Rambo – Programado Para Matar (1982). Ainda que tais comparações sejam pertinentes, Caçado tem uma identidade própria, coisa que Friedkin consegue imprimir desde o início.

huntedDel Toro é claramente uma ameaça para todos que se aproximam dele e fica claro que somente sua morte colocará um ponto final nisso. Jones por sua vez, é um homem que se ausentou da sociedade, vivendo isolado numa cabana nas florestas do Canadá. Só aceita a missão porque sabe o quão letal é Aaron. Precisa então matar o melhor aluno que já teve. Em certo momento perto do fim, é revelado que Bonham deixou de manter contato com Aaron, o que pode ter ajudado na descida à loucura deste.

Sem muito traquejo e com capacidades de rastreamento dignas de um animal, Jones é retratado como um cruzamento entre Charles Bronson e Wolverine. Seus embates com Del Toro são o ponto máximo de um filme que não perde tempo com amenidades. Não existe, por exemplo, a obrigatória trama amorosa entre Jones e a agente do FBI interpretada por Connie Nielsen. Sem firulas e repleto de ação, Caçado é o melhor filme de Friedkin desde Viver e Morrer em Los Angeles (1985).

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JADE (1995), William Friedkin

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por Bruno Martino

Jade é, basicamente, um cine privé com alto orçamento. Substitua Linda Fiorentino por Shannon Tweed e David Caruso por Andrew Stevens que teríamos a sessão erótica perfeita pros sábados de madrugada. Isso é ruim? Depende do seu ponto de vista. É decepcionante pelo fato de quem dirige é William Friedkin, talvez não seria se fosse um Jim Winorsky ou Fred Olen Ray. Mesmo assim não deixa de ser um bom filme, claro, aquém de outras obras do diretor.

David Caruso é Corelli, um detetive que se vê numa trama de assassinato onde estão envolvidos o governador (Richard Crenna), uma psicóloga que é um antigo amor do passado (Linda Fiorentino) e o atual marido dela e melhor amigo de Corelli, o advogado Matt (Chazz Palminteri). E aí que traições, chantagem, assassinatos e o pau comem solto (metafórica e biblicamente falando). Lembra tanto o grande sucesso Instinto Selvagem que a história chega a parecer uma reciclagem. Marque aí: Um assassinato sangrento, uma mulher sedutora sendo acusada, tentativas de assassinato ao detetive, etc. Só que no quesito putaria perde feio já que são poucas as cenas quentes do filme. Co-estrelam a bela Angie Everhart (o que dá ainda mais um ar de cine prive à coisa toda), Victor Wong em uma ponta, e o sempre competente Michael Biehn no clássico arquétipo do policial pé-no-saco. David Caruso manda bem como o policial gamado na mulher problema de Linda Fiorentino, chegando a desenvolver certas nuances interessantes do personagem, quem diria que ele acabaria como detetive inexpressivo de CSI:Miami? Aliás foi devido ao fracasso de Jade e de O Beijo da Morte que Caruso voltou pra TV dando um tempo na malfadada incursão no Cinema.

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Escrito por Joe Esterhas o mesmo de Instinto Selvagem, o que explica as várias semelhanças, o roteiro foi tão mudado por Friedkin que o roteirista pensou até em tirar o nome dos créditos. Apesar dos pesares, a história mesmo sendo frouxa consegue prender e o filme conta com vários clichês do cinema de Friedkin. Sim, temos uma boa perseguição de carros que mesmo não sendo tão clássica como a de Operação França ou Viver e Morrer em LA, não faz feio. E é impressionante como Friedkin consegue fazer suspense com uma perseguição de carros em baixa velocidade, quando os mesmos ficam impossibilitados de correr devido a uma parada de Ano Novo no bairro chinês. Vale ressaltar também uma das mais chocantes cenas de atropelamento já filmadas.

Vale a pena dar uma bizoiada em Jade, mesmo não sendo a última bolacha do pacote na filmografia de Friedkin mostra que o homem consegue tirar leite até de pedra.

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A ÁRVORE DA MALDIÇÃO (The Guardian, 1990), William Friedkin

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por Leandro Caraça

William Friedkin confessou ter realizado este filme de terror como um favor para o produtor Joe Wizan. A Árvore da Maldição não tem destaque dentro da rica filmografia do cineasta, e na época no lançamento, conseguiu pouca atenção. Às vezes parece que o diretor está parodiando a si mesmo, pois se em O Exorcista ele fez Linda Blair vomitar uma gosma verde, agora Friedkin mostra uma árvore maligna que esguicha litros e litros de sangue ao ser cortada.

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O drama do casal que, sem desconfiar, acaba contratando uma bruxa druida como babá do seu filho, nunca atinge os patamares dos grandes filmes de Friedkin. Os diálogos são rotineiros e o próprio roteiro parece que foi escrito a toque de caixa, o que vai gerar momentos indignos de alguém do calibre do diretor de Operação França. Se por um lado, a bruxa Camilla – interpretada pela inglesa Jenny Seagrove – se apresenta como uma ótima (e sensual) vilã, por outro temos um Miguel Ferrer desperdiçado como um coadjuvante qualquer. E o comediante Brad Hall, que chegou a fazer parte do programa Saturday Night Live na primeira metade dos anos 80, tem mais tempo em cena do que o recomendável.

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Ainda que Friedkin estivesse em sua fase mais complicada e o filme passe longe de ser uma produção de primeira linha, o diretor consegue manter as coisas nos eixos. Nas cenas de suspense e horror é quando ele se solta mais, dando vazão ao exagero que o filme pedia. Bem dirigidas e montadas, as sequências de maior violência tornam A Árvore da Maldição em um filme acima da média. A criatura título, uma árvore que se alimenta das almas de bebês e que também gosta de destroçar corpos de seres adultos, traz o encanto de uma época em que os monstros animatrônicos estavam em alta. Não deixa de ser um razoável exemplar do gênero, valendo mais pelos momentos em que William Friedkin oferece aquilo que o público mais quer ver. Litros e litros de sangue.

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SÍNDROME DO MAL (Rampage, 1987), William Friedkin

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por Carlos Thomaz Albornoz

Para discutir este filme, ou mais especificamente as duas versões dele em circulação, precisarei discutir seu final, ou melhor ainda, as mudanças feitas no final do filme entre as duas versões disponíveis dele, que o transformaram praticamente em dois filmes diferentes. Caso o prezado leitor não queira ser surpreendido com informações sobre este ‘pequeno detalhe’ do filme, sugiro que evite a leitura do texto… portanto, este texto vem com um belo dum aviso de ‘spoiler’ antes mesmo de seu começo.

Quando o conceito de ‘versão do diretor ‘ se popularizou, em algum momento dos anos oitenta, passamos a conviver com duas (ou mais, vide Blade Runner) versões diferentes do mesmo filme. Já na era do DVD isso se tornou uma espécie de ‘venda casada’, ou seja, era lançada uma versão cortada do filme nos cinemas, com restrições de censura e limite de tempo dos estúdios, e depois em vídeo era lançada uma versão mais próxima da visão do diretor, com alguns minutos a mais, isso quando as espertas produtoras não lançavam as duas versões com extras diferentes, forçando o pobre fã a comprar o mesmo filme duas vezes. Com tudo isso, normalmente se faz a crítica apenas de uma das versões, e o filme é tratado como sendo apenas um (mesmo que seja um O Senhor dos Anéis, cujas versões extendidas tenham mais de uma hora a mais que as versões ‘originais’). Isso não é possível com Rampage. Pior, não há nem o benefício de haverem distinções entre as duas versões que circulam. E, tecnicamente, as duas são ‘versões do diretor’, ambas refletem a visão do diretor, ou pelo menos refletiam no momento que ele as completou. Distorções do mercado de video…

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Tentando explicar o tamanho da bagunça: o filme estreou nos cinemas em 1987, em lançamento limitado nos cinemas americanos (em festivais e num circuito limitado), indo para vídeo (e laserdisc) logo depois (na Europa e no resto do mundo foi lançado normalmente). Acompanhava a perseguição a um serial killer que se banhava no sangue de suas vítimas e seu julgamento. Na época desta versão era apenas um ambíguo filme de tribunal sobre a necessidade da pena de morte e o sistema americano de justiça. O assassino era capturado, ameaçava ser solto pelos seus advogados e voltar a matar e logo após se suicidava na prisão, criando um ‘final feliz’.

Rampage era uma produção da DEG (Delaurentis Entertainment Group), que faliu mais ou menos na época de seu lançamento em vídeo, que foi feito às pressas, sem Rampage ter entrado em circuito. Quando o enrosco se resolveu e o filme voltou a circular (pela Miramax), havendo finalmente um lançamento cinematográfico em larga escala, em 1992, tratava-se de uma obra bem diferente da que havia sido exibida anteriormente. Por algum motivo nunca muito bem explicado (as entrevistas sobre o tema são inconclusivas) William Friedkin sentiu a necessidade de reeditar sua obra. Agora se tornava uma paulada a favor da pena de morte, e contra as imperfeições do sistema judicial americano. No final do filme, logo após o discurso sobre sair da prisão, não há mais o suicídio do personagem central, e sim uma carta mandada à família de um dos mortos, convidando-os a aparecer para uma visita, e um letreiro informando o espectador que o tal serial killer poderá sair da cadeia em seis meses, caso seja liberado pelos psiquiatras.

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Trata-se de um belo dum filme, independente de que versão seja assistida… mas o original é mais sutil, mais inteligente. Por mais que a mensagem da segunda versão seja válida, e já esteja, nas entrelinhas, presente no original, ela é dita de forma pouco discreta, quase aos gritos. Em alguns momentos parece que estamos vendo um panfletão, ao estilo Michael Moore, o roteiro fica horas batendo na mesma tecla.

Caso o caro leitor queira ver essa produção vai ter dificuldade para achá-la. Procurando na (loja virtual) Amazon, encontra-se apenas a velha versão em VHS à venda, provavelmente contemporânea do lançamento brasileiro (Síndrome do Mal, VTI Video, 1987, encontrável nos Mercado Livres da vida com relativa facilidade). Procurando nos sites especializados (como ebay) descobrimos que Rampage só foi lançado em DVD na improvável Polônia, há alguns anos, já estando fora de catálogo, pelo menos oficialmente. E cuidado com outros dois filmes, inspirados por um videogame homônimo, que confundem o interessado. Quem quiser achar uma cópia do filme provavelmente vai ter que achá-lo na selva dos torrents, provavelmente tendo que adivinhar qual versão está baixando, já que não houve nenhuma indicação no relançamento que se tratava de uma versão ‘alternativa’. Boa sorte.

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VIVER E MORRER EM LOS ANGELES (To Live and Die in L.A., 1985), William Friedkin

1985-to-live-and-die-in-L.A.-poster1por Ronald Perrone

“Buddy, you’re in the wrong place at the wrong time.”

Richard Chance (William Petersen) possui algumas habituais características do policial controverso cinematográfico: é daqueles que seguem suas próprias regras, destemidos e não tremem na hora encarar a bandidagem. Aparentemente, é o homem da lei perfeito para os amantes do gênero policial. No entanto, as semelhanças com um “Dirty” Harry Callahan ou Shaft param por aqui. Analisando as atitudes do sujeito ao longo de Viver e Morrer em Los Angeles, percebe-se com alguma sutileza que, no fim das contas, ele não passa de um agente incompetente, impulsivo, arrogante, agindo pelo instinto de vingança, que termina, perdoem meu francês, totalmente fodido!

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Não é a primeira vez que William Friedkin se arrisca dessa maneira. Chance não é o único personagem “Friedkiano” que tem suas limitações e imperfeições colocadas em evidência. Basta lembrar do Popeye Doyle de Gene Hackman e a cagada que faz no desfecho de Operação França. Ou a mudança de comportamento de Al Pacino ao se infiltrar no submundo homossexual em Cruising. Enfim, também não é a toa que estamos falando de um dos diretores mais ousados do cinema americano, um autêntico provocador. Talento o sujeito sempre teve de sobra, mas subverter deve ser uma de suas principais diversões nessa brincadeira de fazer cinema. E parece não dar a mínima para o que o grande público pensa.

Isso fica claro na maneira como arranja soluções questionáveis para os seus filmes: os vários finais abertos, pessimistas e reflexivos; sem contar as preferências por temas polêmicos e personagens ambíguos que nem sempre são bem vistos aos olhos do espectador comum. Deste modo, Viver e Morrer em Los Angeles segue a máxima shakespeariana na qual “concisão é a alma do espírito”, ou, em outras palavras, o filme é um dos grandes definidores do cinema de Friedkin.

“Guess what? Uncle Sam don’t give a shit about your expenses. You want bread, fuck a baker.”

Viver e Morrer em Los Angeles começa com o tal agente, Richard Chance, prestando serviço de segurança ao Presidente dos Estados Unidos em uma conferência em Los Angeles. Durante a ocasião, um homem-bomba islâmico tenta “encontrar” suas setenta e duas virgens lhe esperando no paraíso, levando o presidente americano junto. Não consegue, graças a Chance e seu parceiro. Os dois se sentam no terraço e pensam sobre o que acabou de acontecer. Então dizem algo como, “Vamos beber!” e logo inicia uma elegante montagem, com a música estilosa de Wang Chung , mostrando várias imagens que representam a Los Angeles do filme.

E o que é um clássico dos anos oitenta sem uma trilha sonora oitentista bem datada?!Chung fornece não somente a trilha sonora e a música tema, mas todos os sintetizadores dos efeitos sonoros que compõem o clima do filme. É claro que o fato das músicas serem tão datadas pode proporcionar um obstáculo para o espectador que se incomoda com esse tipo de detalhe. Como sou um amante da música pop brega e datada dos anos 80, acho que não poderiam ter escolhido um som melhor.

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Inspirado em Gerry Petievich, ex-agente secreto que transformou suas experiências em ficção, Chance, a princípio, é mostrado como o policial durão que se espera, pulando de bungee jump, comendo uma loura gostosa. Quando seu parceiro é morto a tiros, prestes a se aposentar, sua truculência de fachada parece ficar mais intensa. Não demora muito para começar a perder a cabeça, infringir leis e fazer o que for preciso para se vingar. No lugar comum dos filmes do gênero, o policial que age dessa maneira é sempre visto como um sujeito cool, o policial casca grossa que queremos ser quando crescer. No caso de Chance, Friedkin lhe foi muito cruel…

A cada passo adiante para resolver o caso, ficamos convencidos de que o protagonista é um idiota cujo distintivo lhe dá direito de se achar acima da lei, de quebrar todos os protocolos, de ser um prepotente chantagista com todo mundo pelas ruas de Los Angeles, apesar das boas intenções… Tenho a impressão de que o próprio Chance nem tenha consciência da espécie de indivíduo que ele se torna. E é exatamente esse tipo de ambiguidade que gera o tour de force que torna o personagem tão singular, tão especial, tão badass! E Petersen imprime tudo isso com uma naturalidade absurda!

Mas o que seria de Chance sem um vilão a sua altura? É aí que entra em cena um jovem Willem Dafoe, encarnando o artista que usa de seu talento para falsificar dinheiro. Além de ser um assassino sangue frio – responsável pela morte do parceiro do protagonista. Não me surpreende a carreira de Dafoe ter decolado após Viver e Morrer em Los Angeles, porque seu desempenho aqui é algo magnífico. Aquele olhar expressivo de psicopata nunca esteve tão assustador.

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No elenco ainda temos John Pakow, que faz o parceiro novo e certinho de Chance, mas que aos poucos começa a se transformar no protagonista; Dean Stockwell, que na época era o nome mais famoso da lista; John Turturro, Robert Downing Sr. e uma pontinha de Steve James.

“- Why are you chasing me?
– I don’t know, why you running?
– Cause you’re chasing me.”

Viver e Morrer em Los Angeles não é exatamente focado na ação. A sua essência segue a estrutura de um thriller policial e, obviamente, não poderiam faltar algumas sequências mais movimentadas e tensas, como tiroteios e perseguições. Mas Friedkin as intensifica com uma boa dose de violência e realismo. As mortes ganham um peso muito grande dessa maneira – como é o caso do assassinato do parceiro de Chance.

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Mas a grande sequência de ação do filme, a cereja do bolo de Viver e Morrer em Los Angeles, como acontece em Operação França, é, sem dúvida alguma, a longa perseguição de carros em alta velocidade no meio do tráfego, das áreas industriais, linhas de trem, e até na contramão de uma freeway! Um verdadeiro espetáculo! Friedkin se especializou nesse tipo de cena, nesse bailado automobilístico exagerado e belo. Chega a ser poético. E aqui a montagem possui uma baita energia acentuada pela carga dramática que a cena carrega. É a maior aula de cinema do professor Bill Friedkin aos aspirantes a cineastas de hoje que não fazem ideia do que seja uma montagem.

Em sua autobiografia, Friedkin diz que “a perseguição é a forma mais pura de cinema, algo impossível de ser feito em qualquer outro meio, seja na literatura, num palco ou numa pintura em tela. Uma perseguição tem que parecer espontânea e fora de controle, mas precisa ser meticulosamente coreografada“. Difícil não concordar.

“I’m getting too old for this shit.”

Ao escrever sobre Viver e Morrer em Los Angeles, entrei numa enrascada. A princípio, achei que seria um prazer tratar de um dos meus filmes favoritos de todos os tempos. Por outro lado, este mesmo motivo me deixa sempre descorfortável. Escrever sobre algo que tanto admiro é um trabalho árduo. Mas acho que saiu algo… E atualmente o número de admiradores de Viver e Morrer em Los Angeles vem aumentando cada vez mais. Mas ainda são poucas as vezes que Friedkin é lembrado por este trabalho. Sempre citam O Exorcista e Operação França. Mas é este aqui que me estimula, que me faz sentir necessidade revê-lo. É a minha droga. Não consigo passar muito tempo sem revisitar o universo criado por Friedkin, a Los Angeles desordenada, violenta e ensolarada, os personagens cínicos e complexos… mesmo tendo consciência dos destinos trágicos e chocantes que o roteiro cuidadosamente prepara. E a edição nacional do DVD, cheio de extras (com direito ao final alternativo ridículo), quebra um bom galho.

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