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THE WARRIORS – OS SELVAGENS DA NOITE (1979)

por Ronald Perrone, a partir de um post escrito originalmente no blog Dementia 13 em abril de 2012.

Nem sempre foi tão fácil assistir a THE WARRIORS. Nunca chegou a ser uma raridade, ou nada disso, especialmente aqui no Brasil foi bastante reprisado na TV e o acesso a ele nunca gerou algum tipo de complicação. Mas na época do lançamento, o filme conseguiu fama de polêmico após confusões e quebra-quebra em alguns cinemas onde o era projetado. Em alguns países, como a Suécia, por exemplo, chegou a ser proibido. Mas, vejam bem, THE WARRIORS faz um retrato perfeito sobre a onda devastadora das gangues nos anos 70, baseado no livro de Sol Yurick, lançado ainda na década de 60, tem um cartaz fodão mostrando uma multidão de delinquentes com caras de poucos amigos, armados com bastões e dizeres insinuantes. Então imaginem vocês assistindo a projeção na época do lançamento, dividindo o local com uma horda de membros de gangues animados com um filme que fala sobre… eles!

Em THE WARRIORS, Walter Hill constrói sua fábula a partir de uma ideia bem simples: Os Warriors são uma gangue do sul de Manhattan que comparecem ao Bronx para participar de uma reunião com quase todas as gangues de Nova York cujo objetivo é enjambrar uma união entre as tribos e dominar a cidade. “You’re standing right now with nine delegates from 100 gangs. And there’s over a hundred more. That’s 20,000 hardcore members. Forty-thousand, counting affiliates, and twenty-thousand more, not organized, but ready to fight: 60,000 soldiers! Now, there ain’t but 20,000 police in the whole town. Can you dig it?” São as palavras de Cyrus, o líder da mais poderosa gangue da cidade e o cabeça da “rebelião”.

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No entanto, Cyrus é assassinado à tiros enquanto ainda fazia o seu discurso no palanque. A culpa cai, injustamente, sobre os pobres Warriors. O resto do filme é a odisseia do grupo de volta ao seu território, tentando cruzar uma Nova York sombria e cheia de contratempos, esgueirando-se pelos becos e metrôs, correndo pelas ruas driblando policiais e trocando sopapos com os mais diversos membros de gangues. E Hill não gasta muito tempo com discursos morais, mensagens políticas ou temas complexos. É claro que o filme é um reflexo do seu tempo, com todas as questões morais que esse retrato evoca, mas THE WARRIORS também se conforma por ser apenas uma aventurazinha superficial, o que é mais que suficiente para que um diretor do calibre de Walter Hill transforme isso aqui num pequeno clássico!

Não é, exatamente, um filme de ação. Na verdade, é até bem anticlimax… A sequência final, na praia, por exemplo, pode ser frustrante para o espectador mais urgente. O fato é que, apesar de Walter Hill ter um gosto especial por sequências de ação, ter se especializado nesse tipo de cena, ele não faz cinema para “brincar esmagar de esmagar bonequinhos”. A violência e a morte tem um peso nos filmes de Hill e a ação nunca é vulgar. Em THE WARRIORS isso fica ainda mais evidente, toda a narrativa possui uma carga de tensão muito forte que já compensa a ação, que acaba se concentrando no olhar dos personagens, nos seus atos, no mais simples diálogo… tudo se torna “ação” no contexto dramático construído em THE WARRIORS. É evidente que temos algumas belas sequências de pancadaria, não poderia faltar… A cena no banheiro é uma delas, além de ser uma prova da maestria de Walter Hill, uma aula de montagem e cinema físico.

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Também é curiosa a caracterização das mais variadas gangues. Cada uma possui seu estilo próprio, seu vestuário, sua essência. É tudo tão bem definido nesse universo que algumas tribos urbanas poderiam ganhar filmes próprios! Eu seria o primeiro da fila para conferir um exemplar estrelado pelos The Baseball Furies, por exemplo…

Obviamente, Na vida real seriam ridicularizados. Ser atormentado numa ruela escura à noite por umas figuras de carinha pintada? Certamente eu iria perder a carteira, mas não ia conseguir ficar sem tirar um sarro. Se bem que eu correria sério risco de levar uma paulada na nuca. Mas aqui é apenas um filme… Mesmo assim, é engraçado ver estampado uma seriedade absurda na cara dos persoangens enquanto vestem modelitos esquisitos.

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Os Warriors inicialmente seriam formado apenas por negros, mas os produtores não aceitaram. Daí colocaram algumas figuras, como Michael Beck e James Remar… Em termos visuais, até que os Warriors são bem discretos, o uniforme é apenas um colete básico. E vale comentar que na sequêcia da reunião logo no início, várias gangues reais estavam presentes, vestidos à carater com seus uniformes, o que gerou até uma certa tensão a mais nas filmagens.

Aliás, não vou nem entrar nos méritos das filmagens, que mereceria um post à parte. É notória a série de problemas que Hill e sua equipe tiveram para realizar THE WARRIORS. Mas é assim que nascem os clássicos, não? O filme deu início a uma série de exemplares sobre grupos de delinquentes, cheios de mensagens sociais e morai, mas também influenciou outras obras que se assumiram como boa diversão de aventura/ação, como os clássicos italianos GUERREIROS DO BRONX e FUGA DO BRONX, ambos de Enzo G. Castellari.

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THE WARRIORS – OS SELVAGENS DA NOITE (1979)

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Por Caio de Freitas Paes

Um encontro da maior parte das gangues de Nova York; um líder carismático o suficiente para conseguir uma trégua entre rivais; uma promessa de revolução – a tomada da cidade. Quando tudo parece pronto para que a história seja reescrita, um tiro cala o messiânico Cyrus e a trégua é desfeita. Esse é o início da jornada no terceiro filme de Walter Hill: THE WARRIORS – OS SELVAGENS DA NOITE.

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A trama privilegia um ritmo pegado e ágil justamente por sua crueza: em pouco menos de 15 minutos já se entende que toda a promessa de revolução punk serve como disparador para uma maratona contra a morte, um mergulho na face sombria da cidade. Tudo e todos são rivais, e aos Warriors caberá passar por todo tipo de provação para saírem vivos do sonho que se torna pesadelo.

É importante atentar que a própria introdução também já sintetiza a força do filme. Uma montagem dinâmica e intensa, o uso sagaz da trilha sonora para conduzir nosso olhar por entre a odisseia da gangue de Coney Island – com destaque para a locutora da rádio fictícia, que faz o papel de narradora informal da trama -, os diferentes perfis de cada um dos membros: esses elementos prenunciam o desenrolar da obra.

Tudo isso, claro, ganha ainda mais vigor por meio do olhar esteticamente aguçado da dupla Walter Hill-Andrew Lazlo (o diretor de fotografia), que oferecem uma variedade rica de planos e formas de caracterizar as fugas, diálogos e brigas durante o filme. A alternância entre close-ups, tomadas panorâmicas, planos abertos e cenas gravadas com grua valorizam o filme, borrando as fronteiras cinematográficas para inventar/capturar uma Nova York sombria e ameaçadora. Para tal, a concepção do sem número de gangues rivais foi feita com esmero: os visuais, fisionomias e adereços moldam outra camada de imersão no universo da obra.

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Mas o ritmo envolvente de THE WARRIORS não deriva apenas da roupagem do filme: a própria narrativa é muito certeira ao colocar os guerreiros de Coney à prova incessantemente. Ao longo do filme a trupe vai sentindo o fardo de fugir de toda uma cidade à medida que membros são pegos, ou até mesmo vitimados. A luta pela sobrevivência ganha consistência e cativa – além de ser simbolizada na própria travessia e também nos diferentes obstáculos/inimigos que atravessam o seu caminho. E justamente por essa rica combinação com uma roupagem de filme noturno, misturando ação com densidade, que o filme é um grandes clássicos de Hill.

Não à toa é referenciado em diversas outras películas do gênero – além de ter ramificado até em um (excelente) jogo para videogame, desenvolvido pela Rockstar e lançado na década passada. THE WARRIORS consegue envolver tanto pela estética estilizada concebida, quanto pelo ritmo e pelo carisma dos personagens principais – e por sua trajetória ao longo do filme. Com quase quarenta anos contados desde seu lançamento, a obra exala juventude e inventividade ainda hoje.

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LUTADOR DE RUA (Hard Times, 1975)

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por Ronald Perrone

Durante a grande depressão que assolou os Estados Unidos na década de 30, não estava fácil pra ninguém. Nem para o Charles Bronson.

Em LUTADOR DE RUA, Bronson interpreta Chaney, um sujeito aparentemente pacato que chega a New Orleans num vagão de trem, sem dinheiro, sem passado, em busca de trabalho. Mas todo o semblante sereno do homem confunde sua verdadeira essência, um intrínseco e necessário gosto por violência. Não demora muito Chaney encontra o que quer, o universo das lutas clandestinas. No local, o sujeito se aproxima de Speed (James Coburn), um empresário de lutadores, e lhe oferece para ser seu novo lutador.

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E assim temos LUTADOR DE RUA e o início da carreira de Walter Hill como diretor, o cara que realizou alguns dos filmes de ação mais notáveis em solo americano a partir da década de 70, como 48 HORAS, EXTREME PREJUDICE e INFERNO VERMELHO. Tá certo que aqui neste debut ele ainda não conseguia demonstrar todo seu potencial, mas já dava pra perceber o talento de Hill em certos aspectos. O resultado é bem sólido. Principalmente tendo Bronson e Coburn encabeçando o elenco, com uma química de encher os olhos. Os dois já haviam trabalhados juntos em SETE HOMENS E UM DESTINO e FUGA DO INFERNO, mas aqui a interação entre eles é bem mais forte. É interessante o jogo de contraste entre os dois personagens, um completa o outro nessa parceria, Coburn fazendo o falastrão incansável enquanto Bronson, bem, o Bronson simplesmente nasceu para o papel. Ele faz o seu habitual tipão calado e sisudo, mas que representa todo o estado de espírito de um período em crise. Vale destacar outros atores também como Strother Martin, que rouba a cena com seu viciado em ópio, e o grande Robert Tessier, como o principal oponente nos confrontos contra o Bronson.

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Mas a alma de LUTADOR DE RUA é o confronto físico, é Bronson encarando brutamontes em sequências de trocação de socos. A maioria das cenas de luta são cuidadosamente elaboradas e montadas (pelo futuro diretor Roger Spottiswoode), mas ao mesmo tempo classudas e secas. E é incrível como Hill já tinha seu olhar autoral sobre o físico, sobre os corpos em ação e uma noção magistral de como filmar a encenação da peleja, enquadrar os oponentes, como usar os espaços, armazéns, docas e até uma gaiola de aço e transformar cada luta numa narrativa própria. O único ponto negativo é a facilidade com a qual Bronson vence seus adversários, com exceção da luta final com Tessier. Mas não chega a ser um problema no geral.

O que incomoda mais, na verdade, é o subplot romântico totalmente supérfluo entre Chaney e a prostituta Lucy, que é claramente inserido à trama para dar a esposa de Bronson, Jill Ireland, um papel, como na maioria de seus filmes na década de 1970. De todo modo, LUTADOR DE RUA é uma puta estreia de Hill, com truculência de sobra, grandes atuações de Bronson e Coburn e excelentes sequências de combate corporal e por isso ganha fácil uns quatro cleefs na cotação.

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JAILBREAKERS(1994), William Friedkin

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por Ronald Perrone

Por volta de 1994, os produtores Lou Arkoff e Debra Hill resolveram investir numa série de telefilmes nos quais vários b-movies clássicos dos anos 50 e 60, especialmente da AIP (American International Pictures), uma das maiores empresas de filmes de baixo orçamento, seriam refilmados por diretores da atualidade. REBEL HIGHWAY era o título da série e nomes como John Milius, Joe Dante, John McNoughton e Robert Rodriguez faziam parte da relação que comandaria algumas dessas pequenas produções de curto orçamento e pouca duração (a projeção não chegava a 80 minutos).

William Friedkin ficou responsável por JAILBREAKERS, que apesar de inspirado em THE JAILBREAKERS (1960), de Alexander Grasshoff, não chega a ser uma refilmagem. A trama se passa numa pequena cidade americana nos anos 1950, quando Angel, uma cheerleader do ginásio, conhece Tony Falcon, o líder de uma gangue de motoqueiros. O romance esquenta ao ponto do rapaz cometer uma série de furtos noite adentro e a moça consentir com esse novo tipo de vida. O sujeito acaba preso, ela conhece outro rapaz mais “certinho”. Tony foge da cadeia e, mesmo prestes a ficar noiva, Angel decide fugir com seu verdadeiro amor para o México, onde mais uma série de crimes coloca em risco a relação dos pombinhos, ao mesmo tempo que em que a polícia aperta o cerco pra cima de Tony.

Apesar de não ser lá um filme muito expressivo na filmografia de Friedkin, JAILBREAKERS mantém a ideia básica do projeto em questão, que é ser apenas um exemplar divertido, revivendo o ciclo de filmes drive inn. No elenco, destacam-se Shannen Doherty, como a ninfetinha Angel, Antonio Sabato Jr, fazendo pose de motoqueiro badass como Tony Falcon, e um jovem Adrien Brody em início de carreira como membro da gangue de motoqueiros.

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C.A.T. SQUAD (1986) / C.A.T. SQUAD: PYTHON WOLF (1988), William Friedkin

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por Ronald Perrone

Não é difícil se enganar e pensar que logo após uma obra-prima como VIVER E MORRER EM LA, William Friedkin seria capaz de pegar um pequeno projeto feito para a TV e transformar em algo relevante dentro de sua filmografia, especialmente em se tratando de um  thriller policial. Mas não é bem isso que acontece com C.A.T. SQUAD e C.A.T. SQUAD: PYTHON WOLF, duas pequenas obras que, infelizmente, pouco têm a acrescentar no currículo do diretor.

Até que a trama de espionagem/policial permite que Friedkin explore alguns elementos característicos de seus outros trabalhos e evoca, guardando as devidas proporções, instantes de OPERAÇÃO FRANÇA e VIVER E MORRER EM LA, demonstrando idiossincrasias de seu cinema, especialmente ao criar tensão e elaborar sequências de ação (ajuda muito a trilha do grande Ennio Morriconi para criar um clima). São momentos de frescor em trabalhos cujo formato não lhe permite sair de um estilo simplista, com personagens e situações rasas que na maior parte do tempo não remete ao grande diretor que é.

CAT_SQUAD_08No primeiro filme, a trama apresenta a tal equipe C.A.T. (Counter Assault Technical), um grupo de experientes agentes do governo que utiliza métodos nada ortodoxos para resolver alguns problemas ligados a terrorismo que os homens da lei comuns não conseguem. Oficialmente, o esquadrão C.A.T. nem sequer existe e isso permite que entrem em ação sem muitas interferências burocráticas. A missão aqui é parar um assassino profissional contratado para eliminar cientistas ao redor do mundo antes de uma importante conferência.

Grande parte da força de C.A.T. SQUAD se perde por conta da escolha do elenco e por Friedkin não conseguir trabalhar os dilemas e uma pretensa profundidade dos personagens por conta do formato urgente de filme para a televisão. O líder do grupo, John ‘Doc’ Burkholder, vivido por Joe Cortese, por exemplo, não tem carisma algum, da mesma forma que os outros membros da equipe. A única exceção é Bud Raines, encarnado pelo grande Steve James (AMERICAN NINJA), que consegue desempenhar um papel com dignidade. E o jovem Eddie Velez, que faz o assassino, também não convence como um perigoso matador profissional intercontinental, o que incomoda um bocado.

bscap0000Na trama do segundo filme, lançado dois anos depois, C.A.T. SQUAD: PYTHON WOLF, descobre-se que alguns incidentes internacionais aparentemente desconexos fazem parte de atividades de uma organização terrorista na África do Sul, que planeja montar uma arma nuclear poderosíssima. E, claro, apenas o esquadrão C.A.T. poderá detê-los, principalmente quando um de seus membros, John Sommers (Jack Youngblood), é capturado pelos terroristas durante uma missão ultra-secreta na região.

Falar de C.A.T. SQUAD: PYTHON WOLF é basicamente repetir tudo o que disse sobre o primeiro da série. Mas há um pequeno salto qualitativo aqui em termos de diversão, no sentido de que o filme não se leva tão a sério quanto o exemplar anterior e se aceita como um produto menor, cuja intenção é servir de escapismo barato a quem se propõe a assistir zapeando uma TV. Temos uma aventura mais urgente e absurda, mais cenas de tensão, uma leveza narrativa fruto da falta de pretensão e até de um certo desleixo na direção e montagem. Há também uma substituição no elenco que beneficia um bocado a produção. Sai a sem graça Patricia Charbonneau e entra Deborah Van Valkenburgh como membro feminino do grupo, que consegue dar mais dramaticidade à personagem. Há uma pequena participação também do subestimado e meio esquecido Miguel Ferrer.

bscap0008Sequências como a perseguição que ocorre numa estação de metrô, muito bem elaborada visualmente e tensa, ou Steve James aplicando seus métodos para arrancar informação de um suspeito – o fato de termos Steve James mais vezes em ação em comparação ao primeiro – garantem alguns momentos interessantes ao espectador menos exigente. No entanto, nada disso adianta muito. PYTHON WOLF é melhor que o primeiro, mas a parte burocrática do roteiro é conduzida com pressa e mão pesada, o que torna a experiência tão sonolenta quanto o anterior.

Se considerarmos que Friedkin surgiu da televisão, aqui o formato não lhe favorece, apesar de alguns anos mais tarde ter voltado em grande estilo à TV, com a refilmagem de 12 HOMENS E UMA SENTENÇA. As cotações são as seguintes:

C.A.T. SQUAD:  2 cleef

C.A.T. SQUAD: PYTHON WOLF:  2 cleef e meio

CAÇADO (The Hunted, 2003), William Friedkin

tumblr_inline_n91weq5xMf1sk0n7opor Leandro Caraça

Em Caçado, de 2003, Aaron Hallam (Benicio Del Toro) é uma máquina de matar descontrolada, um militar super-treinado que surta durante uma operação na Guerra da Bósnia e desaparece. Semanas depois, na fronteira dos EUA com o Canadá ele mata dois homens que estavam caçando na floresta. Para capturar Aaron, o FBI pede ajuda a L.T. Bonham (Tommy Lee Jones), aposentado instrutor militar que ensinou a Aaron tudo o que ele sabe. O que se seguirá a partir de então, é um vigoroso jogo de caça e presa entre dois homens preparados para matar. Quantos cadáveres ficarão pelo caminho até Aaron ser capturado ou morto?

Após Regras do Jogo (2000), Friedkin volta a trabalhar com Tommy Lee Jones e conduz com precisão e sobriedade um dos mais puros filmes de ação do começo do milênio. Pode-se dizer, erroneamente, que Jones está repetindo o mesmo tipo de papel que se acostumou a fazer depois de O Fugitivo (1993) e que tudo não passa de uma cópia de Rambo – Programado Para Matar (1982). Ainda que tais comparações sejam pertinentes, Caçado tem uma identidade própria, coisa que Friedkin consegue imprimir desde o início.

huntedDel Toro é claramente uma ameaça para todos que se aproximam dele e fica claro que somente sua morte colocará um ponto final nisso. Jones por sua vez, é um homem que se ausentou da sociedade, vivendo isolado numa cabana nas florestas do Canadá. Só aceita a missão porque sabe o quão letal é Aaron. Precisa então matar o melhor aluno que já teve. Em certo momento perto do fim, é revelado que Bonham deixou de manter contato com Aaron, o que pode ter ajudado na descida à loucura deste.

Sem muito traquejo e com capacidades de rastreamento dignas de um animal, Jones é retratado como um cruzamento entre Charles Bronson e Wolverine. Seus embates com Del Toro são o ponto máximo de um filme que não perde tempo com amenidades. Não existe, por exemplo, a obrigatória trama amorosa entre Jones e a agente do FBI interpretada por Connie Nielsen. Sem firulas e repleto de ação, Caçado é o melhor filme de Friedkin desde Viver e Morrer em Los Angeles (1985).

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ME CHAMAM O DESTRUIDOR (Shatter, 1975), Monte Hellman

por Leandro Caraça

Uma das últimas produções para cinema da Hammer Films, acumulou diversos problemas durante suas filmagens e que apenas ajudaram a justificar o fim melancólico que a empresa teria logo mais. Com o declínio do horror à maneira clássica nas bilheterias, a Hammer partiu para novos rumos, tentando chamar a atenção do público dos anos 1970. Um acordo feito com a companhia chinesa Shaw Brothers para a realização de três filmes foi um ato de desespero, visto que essas duas empresas possuiam uma maneira de trabalhar completamente diferente. Se Roy Ward Baker já havia reportado problemas nessa parceria em A Lenda dos Sete Vampiros (1974) – que fora uma tentativa de levar a figura do Conde Drácula para o Oriente – as coisas apenas iriam piorar em Me Chamam o Destruidor. Para assumir o posto de diretor, Monte Hellman pode parecer uma escolha meio inusitada a primeira vista, mas na sua trajetória, a Hammer Films contratou diretores norte-americanos marginalizados ou descontentes com o sistema dos estúdios, como Robert Aldrich em A Dez Segundos do Inferno (1959) e Joseph Losey em Os Malditos (1963).

Stuart Whitman interpreta Shatter, um veterano assassino de aluguel que acaba de liquidar um ditador de um país africano fictício. Viajando a Hong Kong para coletar o pagamento, descobre que não fora contratado pelo governo britânico mas sim pela máfia. Sem receber o dinheiro e perseguido por diferentes grupos que o desejam morto (e os documentos do finado ditador que estão em seu poder), Shatter se alia a Tai Pah (Ti Lung), um barman que por conveniência também é um mestre em artes marciais, e a bela Mai-Mee (Lily Li, ou Li Li Li se preferirem), massagista profissional. O trio decide ir em busca de respostas e também arma um plano para chantagear Leber (Anton Diffring), o banqueiro que serviu de contato para Shatter em seu último trabalho. A trilha sonora de David Lindup (no melhor estilo do Blaxploitation, com uma batida funk acentuada) e as cenas de lutas não deixam dúvidas de que estamos assistindo a um filme de ação dos anos setenta. A presença de Stuart Whitman com sua fisionomia cansada, num papel másculo, também é típica do período. Mais tarde, ele seguiria o mesmo caminho de outros velhos atores americanos e faria policiais italianos. No elenco, também temos Peter Cushing no papel do agente do MI6, Paul Rattwood. Sempre uma presença carismática, esta foi sua última aparição num filme da Hammer.

Após três semanas, Monte Hellman acabou demitido por Michael Carreras, o chefão da Hammer Films por estar muito atrasado em relação ao cronograma de filmagens. De acordo com Hellman, a equipe dos Shaw Bros estava trabalhando 24 horas por dia em três filmes ao mesmo tempo, e justamente em Me Chamam o Destruidor eles aproveitavam para se revezar e dormir um pouco. Whitman por sua vez, ao término de um dia de trabalho sempre rumava em direção a algum bar para tomar umas e outras. Carreras assumiu o comando, como havia feito em Sangue no Sarcófago da Múmia (1971) por decorrência do falecimento do diretor Seth Holt. Terminada a rodagem, Carreras levou seis meses para finalizar a edição e lançar o filme. Shatter fora realizado entre Corrida Sem Fim e Galo de Briga, mas acabou lançado nos EUA somente depois, em 1975, com o título They Call Hill Mr. Shatter. Monte Hellman garante que 80 por cento do que está presente foi rodado por ele, em especial todas as cenas envolvendo atores caucasianos. Todas a peripécias enfrentadas deram ao filme um ritmo um tanto quanto travado às vezes. Temos um filme de ação, rotineiro e passável, mas que em certos momentos parece querer ser algo mais. Em meio a cenas de pancadaria com Ti Lung e mísseis lançados em quartos de hotel, veremos a jornada existencial de Shatter, de maneira não muito diferente do que Hellman costuma apresentar.

O CASAL OSTERMAN (The Osterman Weekend, 1983), Sam Peckinpah

por Luiz Alexandre

O ano é 1983. Um agente da CIA (John Hurt, ótimo), mancomunado a um político (Burt Lancaster) convence um jornalista idealista (Rutger Hauer) de que são amigos próximos são, na verdade, traidores da pátria que negociam com os comunistas soviéticos. Um fim de semana em sua casa, evento que realizam há anos desde a época em que estudavam juntos, se tornará um pesadelo movido a intrigas e segredos de estado.

Peckinpah, infelizmente, já não era o mesmo de outrora. Tido como ficha suja em Hollywood, tinha que aproveitar as oportunidades que lhe apareciam para poder realizar a sua velha magia. Com o trabalho que fez, sem crédito, no filme  Jinxed!, de seu mentor Don Siegel, ele foi chamado para dirigir essa adaptação de um romance de Robert Ludlum, autor, entre outros, dos livros que inspiraram a trilogia Bourne. Infelizmente veio a ser também o adeus do diretor, que faleceu após as filmagens.

Infelizmente, O Casal Osterman não é o seu momento mais inspirado. A trama é confusa e não possui o mesmo espírito mágico de seus filmes anteriores. Mesmo Elite de Assassinos , uma obra feita sob encomenda por produtores, você ouve melhor a voz embriagada do diretor. Aqui o ritmo é por vezes arrastado, embora não seja um filme lento, e a trama não possui momentos poéticos como em vários de seus outros filmes, a música, embora competete, não é tão envolvente, é até mais datada do que poderia, e embora tenha uma certa sujeira comum aos filmes da época, é uma obra menos refinada do que seus filmes dos anos 60, 70, sua violência não é tão bela. Fora que o velho medo dos “malditos comunas” envelheceu muito mais do que seus pistoleiros.

Mas, ora bolas, estamos falando de Bloody Sam! A cena inicial, que começa com o sexo entre John Hurt e uma linda atriz que interpreta sua esposa e que culmina com o assassinato da mesma, embora deveras similar a exemplares eróticos da época, é violentamente bonita. As poucas cenas de ação do filme ainda são muito boas e o elenco, embora não tenha sido escolhido por ele, está muito bem. O filme ainda permite pequenas sutilezas do diretor, como um possível romance entre Bernie Osterman (Craig T. Nelson) e Betty (Cassie Yates), esposa de seu amigo Joseph (Chris Sarandon). O erotismo do filme, se é que pode se chamar assim, é quase morto, o clima das relações conjugais de alguns dos personagens é de decadência e torpor. Fora que a crescente tensão entre os personagens é muitíssimo bem trabalhada pelo diretor.

O diretor também, de alguma maneira, reflete sobre a influência da TV na vida das pessoas, sobre como depositamos nossa confiança nas instituições como a mídia e a propaganda do governo, crítica que infelizmente ainda tem muita relevância. Todas as intrigas e infortúnios só foram possível pelo jogo de faz de conta armado pela CIA (um filme americano que critica a CIA durante a Guerra Fria, como pode?) e tudo culmina com um final curiosamente belo e pessimista. Um discurso libertário por parte de Tanner aos seus espectadores, onde incentiva os mesmos a desligarem a TV. Mas nós não podemos tocar na tela e apertar o interruptor. Apenas vemos tudo e esperamos as letras começarem a subir, do jeito que nos foi ensinado.

P.S: O título nacional do filme é certamente um dos piores que nossa industria já criou. O citado Osterman é o único dos amigos que é solteiro, o título em inglês faz uma referência há uma velha tradição entre os amigos de sempre se reunirem na casa do personagem quando eram jovens. Ele saiu da casa dos pais, mas a tradição continuou nas casas dos outros, por isso o “Fim de Semana Osterman” .

P.S 2: A interpretação que fiz sobre a cena final do filme eu roubei de um especialista (cujo nome não sei) que deu um depoimento em um péssimo documentário sobre o diretor que assisti no Festival do Rio. Sei que não tenho obrigação de creditar, mas queria dizer que infelizmente não cheguei a ela sozinho.

P.S 3: A versão que assisti foi a que a Flash Star Home Vídeo lançou no Brasil, com dois DVDs, contendo supostamente a versão do diretor. Indo ao IMDB descobri que existe uma outra versão sim, mas é mais longa do que a que a Flash Star vende. Seria Peckinpah um profeta?

ASSASSINOS DE ELITE (The Killer Elite, 1975), Sam Peckinpah

por Luiz Alexandre

Bloody” Sam Peckinpah é daqueles diretores que colheram uma série de adjetivos em sua carreira. Sua alcunha mais famosa, e possivelmente mais lisonjeira, foi “Poeta da Violência”. Entretanto, também foi tachado de bebum e irresponsável, o que não fez nada bem para sua conturbada relação com os estúdios. Nos anos setenta Peckinpah não parecia ser mais o concorrente ao Oscar de melhor roteiro por Meu Ódio Será Sua Herança, encontrando dificuldades em engatilhar seus projetos ou mesmo participar de novas produções. Assim como os velhos cowboys de seu quase premiado filme, já não parecia, naquele momento, haver um lugar para Sam.

Porém, aquele não era seu fim. Mike Medavoy, na época o grande cabeça da United Artists, estava com um roteiro para ser filmado e acreditava que Peckinpah seria a pessoa mais indicada para assumir a direção do filme, desde que o próprio Medavoy supervisionasse toda a filmagem da película, é claro. Com pouco dinheiro e com sérias chances de nunca mais dirigir, o Poeta se ajoelhou e pediu a benção ao “padrinho”, já que não tinha mesmo muita escolha. Rendeu-se, contudo não se entregou por completo.

tumblr_n50pbnHFS11trfa8po2_1280O filme conta a história de um mercenário, Mike Locken (James Caan), que junto de seu melhor amigo George Hansen (Robert Duvall), presta serviços de assassinato e proteção para a organização privada Com-Teg (uma óbvia referência a CIA), que, um dia se vê traído e a beira da morte por Hansen. Seus dias de matador estariam terminados, caso não estivesse munido de muita determinação e vontade de se vingar. Graças a muita fisioterapia e ao Karate, ele se recupera.

Embora ligeiramente manco, Locken se torna um expert em artes marciais e fica bastante habilidoso com sua bengala. Habilidades essas que se mostrarão bastante bem vindas em sua nova missão: proteger um líder político chinês, Yuen Chung (Mako), que está sendo perseguido por ninjas e por sua nêmesis, George Hansen. Munido de sua bengala, sua fúria e com os velhos amigos Mac (um maravilhoso Burt Young), um ex-mercenário aposentado, e Jerome Miller (Bo Hopkins), um assassino com mira super-humana e, bom, alguns miolos a menos Locken vai mostrar aos seus inimigos “com quantos paus se faz uma canoa”. Eu sei, essa é muito velha.

Aparentemente a inspiração para o filme, sujeito versado em artes marciais enfrentando ninjas chineses, numa provável falta de interesse em ser verossímil a cultura oriental, parece ter vindo do cinema de kung fu. O próprio Peckinpah teria dito em entrevistas que se preparou para o filme assistindo Operação Dragão, de Bruce Lee. E o que se vê é um filme mais “parado” do que um filme de ação contemporâneo, dedicando a maior parte de sua duração em mostrar a luta de Locken contra si mesmo, do que com tiros e pé na cara.

Mas se o roteiro não é o mais caprichado ou mesmo o mais poético como os do próprio Sam, não se pode dizer que o filme deixa a peteca cair. As sutilezas da relação entre Locken e Hansen, dois irmãos em armas que se vêem um contra o outro graças ao sistema corrupto que rege seu ofício, enriquecem o que seria um filme banal nas mãos de algum diretor menos inspirado. A cena da citada traição, em que Duvall acerta a tiros o cotovelo e o joelho de James Caan em vez de seu peito ou sua cabeça parece dizer que o personagem do primeiro está mais interessado em livrar seu “irmão” do mundo sanguinário que eles vivem do que de, efetivamente, acabar com ele. Hansen precisava se ver livre de Locken, mas por preza-lo tanto resolveu “presenteá-lo” incapacitando-o. Só que nem ele nem ninguém contavam com a determinação do assassino. É um mundo sórdido, mas é o mundo que Locken escolheu viver.

tumblr_n50pbnHFS11trfa8po7_1280Fico pensando se o drama de Locken, um Ás do homicídio, não seria, de alguma maneira, o drama do próprio Peckinpah; enquanto Locken é um homem que se vê obrigado a vender seus talentos a indivíduos que parecem ser ainda mais mercenários que ele próprio, Peckinpah sofria com uma Hollywood que sempre preferiu o dinheiro a qualidade do trabalho de seus artistas. Aliás, se importa sim com a qualidade, desde que qualidade seja sinônimo de sucesso de bilheteria.

Uma simples ida ao perfil de Mike Medavoy no IMDB nos mostra que ele, produtor desse e de vários outros clássicos de Hollywood, como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa de Woody Allen e de sucessos mais recentes, como Zodíaco de David Fincher, tem noção que a função da industria é saber se “a pessoa merece o seu salário”. Medavoy é como Weyborne, personagem de Gig Young, que faz o papel do grande diretor da Com Teg, figurão que tem noção de tudo o que está a sua volta, que compreende e contribui para o “bom funcionamento” das engrenagens do sistema, que buscar manter a “ordem” do mundo, doa a quem doer. Peckinpah é o “ronin” manco que não mata por orgulho ou por ideologia, mas por ser basicamente aquilo que faz melhor, o serviço que se presta a fazer sem pestanejar. Se eventualmente ele fizer algum bem, ótimo, se não, resta apenas seguir em frente, ele não pretende salvar o mundo de si mesmo.

Culminando com uma cena de ação digna de seu nome, onde vemos os ultrapassados e esquisitos orientais serem massacrados pelas pistolas dos ocidentais, Peckinpah parece zombar da “nova onda” que vinha do Leste. Os ninjas podem ser habilidosos, mas não têm peito de ferro. Ver James Caan, que na vida real é faixa-preta de Karate, enfrentando os ninjas de bengala e observar Burt Young, que poucos anos depois viria a ficar marcado como o ranzinza Paulie dos filmes do Rocky, dando um coro nos “perigosíssimos” adversários é uma das melhores coisas que o cinema de ação americano já nos ofereceu, pela própria ironia da situação. Assassinos de Elite pode não ser o maior filme de sua década, até porque ele teria de concorrer com outras obras mais celebradas na própria filmografia de Peckinpah, mas é um filme de ação mais sofisticado do que muitos poderiam esperar. É daqueles bons filmes que merecem ser vistos e revistos.

TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA (Bring Me the Head of Alfredo Garcia, 1974), Sam Peckinpah

por Leopoldo Tauffenbach

Se fosse possível definir Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia em apenas uma palavra, talvez a mais apropriada fosse “imundo”. Poucas vezes na história do cinema se chegou tão perto de criar um filme tão sujo quanto esta obra-prima do mestre Peckinpah.

Tudo começa com um abastado proprietário de terras mexicano descobrindo a gravidez da filha. Em um cenário absurdamente opressor, ele tortura a filha diante de várias testemunhas até que ela entrega o nome do pai da criança: o notório galanteador Alfredo Garcia. Indignado, o senhor feudal pede a cabeça do pai do pequeno bastardo, com a promessa de uma recompensa milionária a quem fizer o serviço. Alguns dos capangas que estão atrás de Garcia acabam parando em um boteco ordinário onde trabalha o músico Bennie, interpretado com a competência habitual por Warren Oates. Tendo ouvido falar de Alfredo Garcia e diante da possibilidade de faturar alguns trocados, Bennie começa sua própria investigação sobre o paradeiro de Garcia com a ajuda de sua companheira Elita. Elita informa Bennie que Garcia já está morto, e eles decidem ir até seu túmulo para arrancar-lhe a cabeça e entregá-la aos bandidos. Considerando que este é um filme de Sam Peckinpah, realizado após Meu Ódio Será Sua Herança, Sob o Domínio do Medo e Os Implacáveis, podemos prever que a jornada de Bennie não será nada como um passeio no parque. Ao contrário, Peckinpah promove ao protagonista e ao espectador uma verdadeira descida ao inferno.

Diante da família, clero e elite local, pai tortura a filha até ela entregar quem a engravidou: o famigerado Alfredo Garcia.

Bennie é um indivíduo que não vê muito futuro pela frente. Ele não agüenta mais tocar em um bar por gorjetas nem viver em um quartinho imundo com Elita. Como qualquer outro mortal em sua condição, a ambição é sua força motriz, deixando-o atento a qualquer oportunidade que surja para promover todo o tipo de conforto material que lhe falta. No início do filme fica evidente que, embora ele e Elita estejam juntos, o casal já conheceu dias mais apaixonados. Aqueles mais familiarizados com a obra do diretor seguramente enxergarão semelhanças com o casal McQueen/McGraw em Os Implacáveis.

Bennie e Elita fazem planos para o futuro depois de enxergarem uma oportunidade de uma vida melhor às custas da morte de Garcia. Como o casal de Os Implacáveis, o amor sofre com as interferências dos egos.

Quando finalmente conseguem a cabeça de Garcia e seus problemas parecem resolvidos, o casal sofre um atentado. Bennie sobrevive, mas a cabeça de Garcia desaparece e Elita acaba morta. E é aí que o filme realmente começa.

Bennie passa a rever sua vida e questionar suas aspirações e seus desejos, e chega à dura conclusão que a única coisa que realmente importava era a companhia de Elita. Sem ela, Bennie se agarra à única motivação justa para continuar vivendo: recuperar a cabeça de Garcia e vingar a morte da amada. A cabeça de Garcia se mostra como uma metáfora da obsessão cega, válida para todos os personagens do filme, e isso é evidenciado quando o personagem de Oates pergunta qual seria o verdadeiro motivo para tanto desejarem-na. Se antes Bennie era movido pela ambição, esta agora se tornara obsessão, e ele se coloca em pé de igualdade a todos os outros personagens. A única diferença é que Peckinpah parece colocar as motivações de Bennie em um patamar mais elevado. Independentemente da obsessão, por trás de tudo está o amor de Bennie por Elita.

Bennie transforma-se naquilo que ele mais despreza após encarar a morte de sua amada e questionar sua própria vida e seus valores.

Depois de um espetáculo macabro de mortes violentíssimas, coisa que Peckinpah sabe fazer de melhor, Bennie finalmente recupera a cabeça e volta para casa. Após uma longa conversa com a cabeça inerte de Garcia, ele segue para a fazenda do coronel mexicano. Lá, com a ajuda da filha do coronel ele o assassina e logo em seguida é morto. Com Bennie vingado e redimido, a morte se apresenta como única possibilidade para quem desceu até as profundezas do inferno e conseguiu matar o diabo. Diante de tantas mortes vãs, a de Bennie é a única que parece fazer sentido. Depois de uma jornada pelo que há de mais imundo na condição humana, tanto física como moralmente, o espectador mais atento concluirá que este filme trata na verdade de um conto de amor e redenção como oposição às forças menos nobres da natureza humana. Realizado à maneira de Sam Peckinpah, claro.

A violenta, mas redentora morte de Bennie é também a morte da carreira de Peckinpah

A partir de agora, diante do reduzido espaço para publicar este texto, qualquer coisa que seja dita soará incompleta ou redundante. Por sua complexidade, Alfredo Garcia merece muito mais do que estas poucas linhas para criticá-lo e analisá-lo. Ainda que Meu Ódio Será Sua Herança seja considerado por muitos como o melhor trabalho da carreira de Peckinpah, sou obrigado a defender Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia como obra máxima do diretor. Todos os temas trabalhados anteriormente parecem ter alcançado sua maturidade com este filme. Não somente, Peckinpah consegue equilibrar ação, romance, conflitos morais e existenciais de tal forma que faz parecer que o filme é até mais curto do que é na verdade. Curiosamente é após este filme que Peckinpah passa a dirigir obras menores, nunca mais igualadas à força de seus predecessores. Mais uma vez a vida imita a arte, e como Benny, Peckinpah parece ter vivido para realizar este trabalho, a verdadeira obra de sua vida, para então gloriosamente esperar pelo fim.