Searchers 2.0 (2007), Alex Cox

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por Leandro Caraça

Filmado com uma câmera digital Sony e quase nenhum dinheiro, Searchers 2.0 é um road movie bem humorado e sentimental que presta homenagem ao gênero cinematográfico favorito do diretor. Ed Fletcher e Mel Torres são dois ex-atores mirins que, por acaso, se reencontram após várias décadas. Quando crianças foram aterrorizados e torturados no set de Buffalo Bill vs. Doc Holliday pelo roteirista Fritz Frobisher (Sy Richardson), cujo objetivo era conseguir atuações realistas dos pequenos atores. Agora Ed e Mel (Ed Pansullo e Del Zamora, também habituais colaboradores de Alex Cox) pretendem viajar até Monument Valley onde vai acontecer a exibição daquele fatídico filme com presença confirmada de Frobisher. Tendo a vingança em mente, a dupla começa uma jornada ao lado da filha de Torres (a estreante Jaclyn Jonet), que se junta a eles meio que a contragosto. Ao longo de todo o caminho, esses velhos e melancólicos fãs de western discutirão seus filmes e atores favoritos, o estado da indústria de cinema e a política americana. Chegando ao seu destino, não sem algumas surpresas, o confronto dos dois com Fritz Frobisher se dará ao estilo Sergio Leone. Com produção de Roger Corman – que faz uma aparição quase imperceptível – e muita disposição de todos os envolvidos, Searchers 2.0 é quase uma produção caseira, com ótimas atuações e diálogos certeiros que mostra um diretor veterano com muito ainda para dizer.

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Revenger’s Tragedy (2002), Alex Cox

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por Luiz Alexandre

Amigos, gostaria de começar este texto contando-lhes uma pequena história. Até hoje, no momento em que escrevo meu primeiro texto para o Dia da Fúria, jamais vi um filme de Alex Cox. Até hoje a tarde, não vi nem ao mesmo Repo Man. Sendo mais sincero ainda, até o dia em que fui convidado a participar e Leandro Caraça me deu as opções que restavam na filmografia do diretor só escolhi este por adorar o título. Corri atrás do filme no Cinemaggedon, arrumei umas legendas em inglês e, finalmente, assisti a essa película. Eis que me “desvirgino” no cinema de Alex Cox e, confesso, estou confuso e com uma sensação estranha, como que um tanto impressionado e decepcionado com o que acabei de ver. Mais ou menos como no coito. Enfim, vou prosseguir.

Revenger’s Tragedy, de 2002, é a adaptação de uma tragédia inglesa publicada em 1607 por um autor ainda não confirmado, mas possivelmente de Thomas Middleton. Mas em vez da corte italiana do século XV o que temos é a Liverpool de um futuro caótico onde um cruel duque (Derek Jacobi) e seus filhos inescrupulosos (Eddie Izzard, Justin Salinger, Paul Reynolds, Marc Warren e Fraser Ayres) é quem dominam. Em uma cidade repleta de violência e miséria surge Vindice (Christopher Eccleston), um homem que busca vingança pelo cruel assassinato de sua mulher anos antes pelo próprio Duque. Para tal ele conta com a ajuda de seus irmãos Carlo (Andrew Scofield) e Castiza (Carla Henry), objeto de desejo de um dos filhos do Duque.

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O filme, apesar do clima urbano apocalíptico e futurista, é todo falado em inglês elizabetano, como se feito num teatro da época em que o livro foi escrito, o que tornou as citadas legendas quase inúteis em certos momentos, mas que confere um charme especial à trama. Apesar do clima exagerado das roupas e dos diálogos, como se fosse o resultado de uma noite de amor entre Franco Zefirelli e John Carpenter durante um show do David Bowie, o filme possui as famosas pancadas do diretor nas figuras de poder. Todos os “nobres” mostrados no filme têm uma moral que está abaixo da de um pedófilo, esfaqueando-se pelas costas eternamente. O personagem central volta toda a sua ira contra os excessos da “corte”, tanto de status quanto sexuais, utilizando os despudores dos tiranos contra si mesmos para alcançar sua vendeta.

Longe de ser um grande filme, achei que o diretor poderia ter dado um olhar ainda mais grave na relação dos irmãos, a “nobreza” do filme é por demais caricata e imbecil. Contudo, vale pela maneira como ele desmonta a figura dos ídolos políticos, satiriza as convenções entre aqueles que dominam e denuncia até mesmo a cobiça do pobre, na figura da mãe cega de Vindice, além da trilha sonora do Chumbawamba, banda irlandesa declaradamente anarquista. Três cabeças do Lee Van Cleef!

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Three Businessmen (1998), Alex Cox

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por Ronald Perrone

Não é mera coincidência que o nome da produtora de Three Businessmen seja o título de um filme de Luis Buñuel (O Anjo Exterminador, no caso). É na esteira deste grande diretor espanhol que Alex Cox realiza este que talvez seja o seu trabalho mais experimental. E isso, vindo de quem realizou obras como Repo Man, Straight to Hell e já adaptou Borges para o cinema, significa muita coisa.

Three Businessmen é um ensaio sobre dois comerciantes de arte, um americano (Miguel Sandoval) e um inglês (o próprio Cox), que se conhecem no restaurante do hotel onde estão hospedados em Liverpool. Até este ponto, a narrativa é constituída por situações estranhas sutilmente inseridas. Os dois personagens se apresentam e conversam enquanto esperam o garçom trazer seus pedidos, mas a demora incomum faz com que eles cheguem a cozinha do hotel e descubram que o local está completamente deserto. O hotel inteiro está vazio.

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Famintos, resolvem sair para comer em outro lugar e é a partir deste ponto que se inicia uma peregrinação na qual Cox dá vazão aos seus experimentos, às suas ideias surrealistas e questões filosóficas, mas sem querer soar incompreensível ou complexo demais.  Não propõe ao espectador nenhuma exigência intelectual, apenas coloca diante de suas câmeras dois grandes personagens dialogando banalidades pós-modernas e filosofia de boteco. Embora soe mais preciso e interessante que muito filme intelectualmente engajado por aí…

Vagando noite adentro, seja em longas caminhadas ou meios de transportes público, as duas figuras se perdem e não percebem que acabaram saindo de Liverpool, aliás, saíram da Inglaterra, e percorreram vários lugares ao redor do mundo, em várias grandes metrópoles espalhadas pelo globo, como Tóquio, Rotterdam, algures na Espanha, China, sem que haja uma percepção consciente desse fato. Os personagens se mantém indiferentes, preocupados apenas em manter suas posições filosóficas e na busca por um bom restaurante, e não se dão conta de que não há limites geográficos no universo de Three Businessmen.

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De todo modo, mesmo percorrendo várias cidades, os personagens nunca conseguem fazer a refeição que tanto desejam. São sempre atrapalhados por impasses e situações estranhas, como se uma força sobrenatural os impedissem, assim como os burgueses de, novamente, Buñuel em O Discreto Charme da Burguesia.

Ainda há a chegada de um terceiro personagem já quase ao final da projeção, quando Cox realiza a sua própria, e belíssima, representação da história bíblica dos três reis magos.

Embora o diretor não seja um extremo erudito, Three Businessmen é inteligente, Cox tem pleno conhecimento de mise en scène trabalhando com apenas dois atores, na maior parte do tempo, e suas relações quase orgânicas com os espaços visitados,  por mais absurdo que seja, além de ser uma obra aberta a várias possibilidades interpretativas. Uma pequena jóia dos anos 90 e curiosamente pouco comentada, até mesmo pelos apreciadores do diretor.

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O Herói Corrompido (El patrullero,1991), Alex Cox

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por Otávio Pereira

Já sabemos que Alex Cox é um grande fã e adorador do gênero western. Depois de trabalhar nos ótimos Straight to HellWalker, ambos de 1987, o diretor britânico volta ao deserto e, no meio de muita poeira, nos apresenta o que em minha opinião seria seu filme mais convencional e direto.

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El patrullero conta a história do policial Pedro Rojas, vivido de forma sensacional pelo ator Roberto Sosa. Acompanhamos desde sua formação na academia, os primeiros dias de trabalho, casamento, problemas conjugais e tudo que acontece em sua vida. As passagens de tempo utilizadas por Cox podem ser vistas como saltos de meses e às vezes até anos.

Além de possuir uma boa fotografia e edição, o forte do filme encontra-se em seu roteiro. Ao desenvolver o crescimento de Rojas dentro da sociedade mexicana, nosso jovem e idealista policial tem que lutar com sua consciência e próprio caráter. O roteiro é muito crítico, mostrando uma sociedade corrupta e a realidade nua e crua de um povo pobre e sem futuro.

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Então, nosso protagonista fica preso dentro de um dilema, que com suas decisões e situações envolvidas não torna nada fácil à escolha. Ficar ajudando os pobres cidadãos e continuar um policial correto, ou andar conforme a musica e se tornar parte do ambiente que vive? Além de muito bem dirigido e polido, El patrullero traz ótimas locações e lindos cenários. Passando por belas estradas no deserto a vilas mexicanas. O filme também traz boas cenas de ação, criticas sociais, humor e drama.

4 cleef

O Vencedor (The Winner, 1996), Alex Cox

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por Leandro Caraça

Para poder completar The Death and the Compass, Alex Cox aceitou filmar o roteiro de Wendy Riss, baseado em sua própria peça A Darker Purpose. Se o dinheiro veio numa ótima hora, o resultado final de O Vencedor acabou sendo renegado pelo seu diretor, após o filme ser remontado pelos produtores. O que ficou não é de se jogar fora. Vincent D’Onofrio é o sujeito que viaja até Las Vegas pensando em cometer suicídio, mas acaba tirando a sorte grande na roleta e recebe uma grande bolada. Daí para a frente ele vai se envolver com diversos tipos, incluindo uma dupla de vigaristas (Rebecca de Mornay e Billy Bob Thorton) e até mesmo o seu irmão foragido interpretado por Michael Madsen. Trabalhando como um diretor por encomenda, Alex Cox não teve muito controle sobre as filmagens, ainda mais quando a atriz principal também era produtora executiva. A maior crítica de Cox é que a trilha original foi trocada por uma mais genérica, e que o filme perdeu sua energia na edição. A verdade é que se a energia vista nas outras obras do cineasta não se repete totalmente aqui, ainda assim O Vencedor se mostra no final das contas muito melhor do que um filme de Alan Smithee poderia sugerir. Alex Cox chegou a remontar o filme e exibí-lo no Japão, mas devido a impossibilidade de usar a trilha sonora pretendida, acabou não lançando nenhum diretor’s cut comercialmente.

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The Death and the Compass (1992), Alex Cox

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por Leandro Caraça

A BBC inglesa propôs para Alex Cox uma adaptação do romance La Muerte y la Brújula do escritor argentino Jorge Luis Borges. A obra, com fortes doses de romance policial e Kafka na composição, foi de início rodada como um filme de 55 minutos apenas que chegou a ser exibido na televisão inglesa e espanhola. Falta de fundos e problemas legais conspiraram contra a idéia de Alex Cox transformar o material existente num longa metragem. Somente quatro anos mais tarde, graças ao dinheiro ganho com o renegado The Winner, o filme teve os negativos recuperados e com cenas adicionais, chegou à duração de 96 minutos no total. The Death and the Compass é o mais rebuscado trabalho de Cox, com uma fotografia caprichada e cenografia elaborada. Ambientado num futuro governado por forças opressoras e com as ruas repletas de criminosos, a história é narrada por Treviranus (Miguel Sandoval, presença comum nos filmes de Alex Cox), chefe de polícia que se junta ao detetive Erik Lonnrot (Peter Boyle) para capturar Red Scharlach, uma misteriosa figura que pode estar por trás de uma série de assassinatos ligados a um culto cabalístico. O diretor costura bem cenas antigas com novas de maneira imperceptível, e mostra firmeza ao fazer uso da tática de cinema guerrilha em algumas tomadas. É uma pena que seja um trabalho pouco conhecido, assim como quase tudo que Cox fez a partir dos anos 90, quando deixou de interessar a críticos e formadores de opinião.

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À Caminho do Inferno (Straight to Hell, 1987), Alex Cox

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por Leandro Caraça

Alex Cox não foi o criador do faroeste pastiche, mas merece crédito pelo primeiro punk western que se tem notícia. Em seus primeiros anos de carreira, o cineasta britânico era uma espécie de Robert Rodriguez com cérebro, ou seja, não só tem noção do que fala, como sempre teve algo para dizer. À Caminho do Inferno nasceu de uma ideia do produtor Eric Fellner que organizou um show de rock em prol dos revolucionários sandinistas. Com artistas do calibre dos Pogues, de Joe Strummer e de Elvis Costello, Fellner queria organizar uma turnê mundial angariando fundos para os guerrilheiros nicaraguenses, o que acabou não acontecendo. Ao invés disso, os músicos foram convencidos a participar de um faroeste filmado nos desertos de Almería, mais precisamente nos sets de Valdez, o Mestiço, produção estrelada por Charles Bronson e assinada por John Sturges na década de 70.

O roteiro de Alex Cox (escrito com o ator Dick Rude) não passa de uma grande anarquia alegórica, regada a rock n’roll e tiros, funcionando como um preparativo para o mais polido e audacioso Walker, realizado no mesmo ano. O clima de festa geral pode ser detectado só pelas figuras que aparecem no filme : além dos músicos já citados, marcam presença também Dennis Hopper, Grace Jones, Jim Jarmurch, Courtney Love (antes dela dar o golpe em Kurt Cobain) e vários atores habituais de Cox. Fato interessante é que o bandido interpretado por Sy Richardson possuí uma enorme semelhança física e visual com Samuel L. Jackson em Pulp Fiction do Tarantino. À Caminho do Inferno é aquele tipo do filme onde a paródia acaba sobrecarregando todo o resto, e por isso não está entre as melhores obras de Alex Cox. Em seu favor podemos dizer que possuí atitude e energia genuínas, que infelizmente se perderam no tempo, em algum ponto dos anos 80, e que poucos cineastas daquela época, como Alex Cox, ainda hoje são capazes de transmitir.

3 cleef e meio

Walker (1987), Alex Cox

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Sinopse: Em meados do século XIX, William Walker, americano bastante popular por ter tentado anexar o México aos Estados Unidos, alia-se a uma das facções da guerra civil que assolava a Nicarágua. Aos poucos, as intenções e objetivos de Walker vão ficando mais claros, quando ele mesmo promove um golpe de estado e se declara presidente.

Comentários: A partir dos anos 60, não foram poucos os filmes que tentaram apresentar um outro olhar sobre a conquista do oeste americano. O Pequeno Grande Homem e Um Homem Chamado Cavalo tentavam dar voz aos índios e até mesmo John Ford iria relativizar a bravura indômita do cowboy em Cheyenne Autumn. A mitologia do western era questionada dentro do próprio país, enquanto era revisada e reescrita na Itália.

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Mas foi preciso esperar mais tempo para que a imagem do cowboy fosse aplicada explicitamente à política intervencionista americana. Alex Cox, diretor de Walker, sabia que o cowboy americano não se limitou a matar índios dentro de seu próprio território. Para além do oeste, queria conquistar outras lugares, principalmente ao sul.

Cox, diretor inglês que foi estudar cinema nos Estados Unidos, tornou-se cult nos anos 80 após cruzar ladrões de carro e alienígenas em Repo Man (1984), colocar Sid Vicious e Nancy Spungen como protagonistas de uma bela e estranha história de amor em Sid e Nancy (1986) e fazer a mistura de faroeste e policial mais estranha, pop e fuleira de todos os tempos, com Elvis Costello, Dennis Hopper, Jim Jarmuch e até Courtney Love no mesmo cul-de-sac em A Caminho do Inferno (1987). Mas ele viria mesmo acertar o alvo, em vários sentidos, com Walker.

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Estávamos no auge da era Reagan nos Estados Unidos e Thatcher na Inglaterra. Eram os anos seguintes à new wave, uma época normalmente acusada de alienada. Ao mesmo tempo, havia a revolução Sandinista na Nicarágua, louvada e apoiada por artistas vindos do punk como The Pogues e The Clash (que deu a um álbum triplo o nome do movimento). Mesmo nos Estados Unidos, Cox era ligado intimamente a essa cena – A Caminho do Inferno foi feito com as “sobras” de um projeto em prol dos Sandinistas que acabou não saindo. Estando na Nicarágua para acompanhar as eleições de 1984, Cox foi inquerido por um sandinista: se ele era um cineasta tão interessado no país, por que não fazer um filme sobre ele? Cox respondeu que cinema custava caro, mas nem ele, nem seus amigos sandinistas acharam satisfatória a resposta.

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Anos depois, graças à entrada em cena do produtor peruano Lorenzo O’Brien, Cox achou o formato ideal para um filme sobre a Nicarágua na história de William Walker, um médico e advogado de Nashville que fez fama como mercenário. A invasão da Nicarágua por Walker é um paralelo evidente com o envolvimento americano com os “contras” nos anos 80.

Produto da sua época, o cinema de Cox não é sutil, embora extremamente inteligente e com um humor bem particular. Walker começa sério, mas, à medida que o caráter demente do personagem vai se tornando mais claro, o filme também vai mostrando sua narrativa anti-naturalista, que inclui distanciamentos brechtianos (há um plano genial no filme, com um nicaraguense enterrado até o pescoço na areia, uma garrafa de coca-cola ao lado, e, ao fundo, Walker e um jornalista conversando sobre as questionáveis mudanças de posição do nosso “herói”), planos-sequências absurdos, humor negro nos momentos mais inesperados e até mesmo uma série de anacronismos que vão ficando cada vez mais fortes – a presença de televisores, de coca-cola e até de um helicóptero retira o espectador do naturalismo, à força. Punk is not dead!!!

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Ed Harris encarna Walker de forma absoluta, passando toda a demência do personagem, principalmente no final do filme, quando o clima psicodélico low-fi explicita de forma genial a maluquice americana. Se Apocalipse Now é The End de The Doors, Walker é I’m So Bored With USA do The Clash. Não por acaso, Joe Strummer, que já tinha participado de A Caminho do Inferno e Sid e Nancy, foi chamado para compor a trilha sonora do filme, fazendo um trabalho primoroso de mistura de timbres latinos e batidas rock. Com certeza, um dos melhores trabalhos do saudoso militante.

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Alex Cox não deixa de ser um equivalente cinematográfico do The Clash (com toda a imprecisão que esse tipo de comparação carrega). Político e irreverente, direto, mas nada paternalista. Em um determinado momento de Walker, um nicaragüense agradece aos céus pela presença dos americanos na sua terra. Cox sabia como poucos bater forte contra o imperialismo americano e, ao mesmo tempo, expor o facínio daquela cultura. Chegou a ser quase tão popular quanto um Jarmush, para cair no esquecimento nos anos 90, embora tenha trabalhado ativamente. Walker foi malhado pela crítica americana e desprezado pela própria distribuidora, Universal, que fez questão de lançá-lo em pouquíssimos cinemas quase sem divulgação. Em tempos de Iraque ocupado, pode dizer mais sobre o jeito cowboy de ser do que muito documentário-denúncia que existe por aí.

Milton do Prado
Participação especial

Sid & Nancy (1986), Alex Cox

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A primeira vez que assisti Sid & Nancy foi no início dos anos 90, já quase 10 anos depois do lançamento do filme e mais ou menos 15 anos depois da morte de Sid Vicious. Na época, estava fascinado por Sex Pistols, The Clash, Ramones e Dead Kennedys, e assistir ao filme vinha como um movimento natural na minha incessante busca pelas referências do legado cultural do punk. Mas alguma coisa não caiu muito bem. O filme não parecia combinar com as histórias que eu lia, os documentários que eu assistia e a música que eu ouvia.

Agora em 2009, ou seja, 30 anos após a morte de Vicious e quase 25 anos depois do seu lançamento, fui rever Sid & Nancy para escrever esta humilde resenha. Para minha surpresa, consegui identificar qual a origem daquele sentimento de estranheza que se abateu sobre este pobre pesquisador há mais de 15 anos: Sid & Nancy é um típico produto dos anos 80; logo é um filme datado.

O punk dos anos 70 sob a ótica dos anos 80: datado.

O punk dos anos 70 sob a ótica dos anos 80: datado.

Antes que os leitores mais emotivos comecem a espumar de ódio , amaldiçoando a pobre família deste que vos fala, vamos deixar algumas coisas mais claras. É fato que o filme não foi feito nos anos 70, e se assim fosse, seria completamente diferente. Para mim, os anos 80 sempre soaram como uma época extremamente indefinida (a ponto de ter virado cult nos anos 2000 por pura falta de compreensão até agora). Tinha Guerra Fria, Reagan, Tatcher e Gorbachev; tinha yuppies completamente à vontade e hippies que ainda não tinham se tocado que o sonho tinha acabado; tinha discoteca metamorfoseada em algo medonho e entupido de gel com glitter. Mas tudo isso parecia muito frágil e transitório (ou seria melhor dizer efêmero?), e não definia nada. Era, de fato, uma época desesperadora. E isso aparece no filme. O desespero na qual Sid e Nancy vivem imersos é extremamente condizente com os anos 80. Se analisarmos por essa perspectiva, o trágico fim do casal representa também o trágico fim de uma era de grande produção cultural, que só iria dar sinais de recuperação parcial na década seguinte.

Sid e Nancy se acabando pelas drogas: a metáfora da destruição do legado cultural dos anos 70.

Sid e Nancy se acabando pelas drogas: a metáfora da destruição do legado cultural dos anos 70.

A clássica cena do beijo, uma das muitas imagens memoráveis registradas por Cox.

A clássica cena do beijo, uma das muitas imagens memoráveis registradas por Cox.

Nada disso quer dizer que o filme de Alex Cox seja ruim. É uma das melhores coisas produzidas no período em matéria de cinema. E volto a dizer, um representante legítimo do seu período. Mesmo focado no cenário punk, Cox produz imagens belíssimas, como a famosa cena do beijo de Sid e Nancy em um beco com uma chuva de lixo, que nada têm a ver com aquela estética do fuck it, pichações sujas e alfinetes para todos os lados. A história é conduzida de maneira regular, sem grandes inovações narrativas, mas com muita eficiência. E claro, Gary Oldman está magnífico, como sempre. Se até agora os mais céticos não se convenceram a assistir o filme diante de nenhum dos argumentos apresentados aqui, então que o façam por Gary Oldman. Satisfação garantida.

Na filmografia de Cox, Sid & Nancy casa muito bem com Repo Man, mas está bem distante de Walker e O Patrulheiro em termos de cinema. Assista ao filme e depois vá ouvir os Sex Pistols originais. Em vinil, de preferência.

3Leopoldo Tauffenbach

Repo Man – A Onda Punk (1984), Alex Cox

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O primeiro longa escrito e dirigido por Alex Cox é o que podemos chamar de um legítimo cult instantâneo. Dos créditos de abertura embalados pela contagiante música-tema de Iggy Pop à sua inacreditável conclusão, esse filme abraça a porralouquice dos anos 80 com gosto. Isso o deixa um pouco datado, é claro, mas não no mau sentido. Repo Man funciona demais, principalmente nos dias de hoje. Emilio Estevez interpreta Otto, um punk que por meio de Bud (Harry Dean Stanton) vira um “Repo Man” (repossessor). Junto com os outros colegas de trabalho, os dois seguem recuperando carros que não foram inteiramente pagos pelos seus donos. Mas Otto, Bud e amigos e todos os outros “Repo Mans” da cidade acabam indo atrás de um velho Chevy Malibu, sem saber que este é dirigido por um cientista maluco que fugiu de uma base militar com algo nada comum em sua mala. Quem a abre, acaba desintegrado.

É através deste conto com diálogos afiadíssimos e situações absurdas que Alex Cox satiriza a constante degradação da sociedade ocidental e capitalista como a conhecemos, particularmente a americana. A produção situa-se num futuro próximo, onde a polícia é incompetente, as ruas estão infestadas de sem-tetos, alimentos e bebidas são monopolizados e falsos religiosos tomam conta da televisão. É… a previsão de Cox está cada vez mais perto de virar realidade.

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Um destaque também deve ser dado ao ótimo elenco que o filme conseguiu reunir. O punk Otto consagrou Emilio Estevez e o fez ser escalado para outro clássico daquela década, nada mais nada menos que Clube dos Cinco (The Breakfast Club), de John Hughes. Fã de bom cinema dos anos 60 e 70 que é, Cox escalou o lendário Harry Dean Stanton para Bud, uma espécie de mentor para o protagonista e Vonetta McGee – inesquecível em O Vingador Silencioso de Sergio Corbucci – no papel de Marlene, a única mulher na firma dos “Repo Mans”. O Miller de Tracey Walter tem alguns dos melhores diálogos da produção, o inacreditável “John Wayne é uma bicha” só poderia vir de um personagem como o dele.

Repo Man é conduzido com inteligência pelo seu autor e consegue a façanha de ser não-convencional, divertido e hilariante ao mesmo tempo. Um filme essencial a qualquer interessado no cinema de Alex Cox, que dois anos depois faria outro filme marcante para os anos 80, Sid & Nancy.

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