True Lies (1994), de James Cameron

tumblr_inline_n9eos4XgUI1rl4qkzpor Ronald Perrone

Não é de agora a fama de James Cameron como comandante de produções caríssimas, como vem sendo apontado atualmente, após o lançamento de Avatar. Quase todos os seus trabalhos são verdadeiras transgressões orçamentárias, inclusive True Lies, aparentemente um filme de ação simples. Reforço o “aparentemente”, porque basta conferir a obra para perceber que os 120 milhões de dólares utilizados aqui foram muito bem gastos. E isso era muita grana em 1994, tornando-se um dos filmes mais caros da época. Para o espectador que se propõe a embarcar nesta brincadeira de gênero até que sai barato, pois trata-se de um dos filmes de ação mais criativos e divertidos não só dos anos 90, mas de qualquer período após a invenção dessa arte chamada cinema.

O início é um espetáculo ao estilo James Bond e o final é ação grosseira e exagerada que remete aos filmes que marcaram a carreira do astro Arnold Schwarzenegger. Mas no meio disso tudo, há um segundo filme sobre um pai de família não muito presente, que deixa o bolo de aniversário esperando enquanto mata terroristas à caminho de casa. Até que um dia, ele passa a suspeitar que sua mulher, Jamie Lee Curtis, está tendo um caso extraconjugal. O sujeito em questão, vivido por Bill Paxton, é um vendedor de carros que mente à ela, gabando por ser um agente secreto.

true-liesEntram aí algumas questões referentes ao título do filme, que brinca com as palavras verdade e mentira. Arnoldão é um agente secreto, mas em casa todos pensam que é um vendedor de computadores, enquanto sua senhora se relaciona com um indivíduo que diz ser um espião. De um casamento sem graça surge para a esposa a oportunidade de expressar suas fantasias sexuais, sem saber que em casa possui o Rambo que ela sonha. A brincadeira vai longe quando Arnoldão, aproveitando do poder que tem, bota sua mulher numa situação apenas para dar um susto, mas coloca também a vida de toda sua família em perigo.

Os filmes de ação funcionam, em sua grande maioria, quando faz o público vivenciar a cada cinco ou dez minutos situações e elementos inerentes ao gênero. Caso contrário, ou o roteiro precisa ser muito bom ou vai espantar a clientela. Não há nada mais chato do que filme de ação sem ação. Não é o caso de True Lies, que praticamente suspende uma trama de espionagem e aventura e se concentra numa comédia familiar sem perder o pique,  deixando tudo amarrado de forma orgânica, além de ser tão emocionante e intenso quanto o mais eficaz filme de ação.

tumblr_na65jxcLwb1sly474o1_1280Schwarzenegger, fiel colaborador de Cameron, talvez tenha aqui sua melhor atuação, mas o diretor, que já havia extraído ótima performance do governador da Califórina em Exterminador do Futuro, sabe das limitações do sujeito e tenta ao máximo colocá-lo em “movimento”.  Mas é Jamie Lee Curtis quem rouba as atenções. A cena da dança sensual para um “estranho” é ao mesmo tempo cômica e excitante, uma bela demonstração de performance corporal dessa eterna scream queen. Aliás, seus gritos aqui chegam a ser um elemento dos mais expressivos de sua atuação. Outros destaques no elenco é a presença de Charlton Heston, o mala Tom Arnold e a bela Tia Carrere. Bill Paxton, já citado, também está ótimo!

Após True Lies, o diretor realizou apenas mais dois filmes até o momento, Titanic e Avatar, sem nunca conseguir atingir novamente a genialidade de trabalhos anteriores, embora sejam os filmes mais caros do universo. True Lies foi sua última obra-prima. Mas com Avatar ele demonstra ainda firmeza na direção de aventuras visualmente interessantes. Só precisa melhorar um pouco os roteiros e não esperar mais de dez anos para dirigir novamente.


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O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final (Terminator 2: Judgment Day, 1991), James Cameron

por Leopoldo Tauffenbach

Este é um filme que eu perdi a conta de quantas vezes assisti, tanto no cinema quanto em vídeo e posteriormente em DVD. Sem dúvida, O Exterminador do Futuro 2 foi um daqueles filmes que fizeram parte do meu repertório adolescente e tornou-se referência. E acredito que, como eu, muita gente aguardou ansiosamente a estréia da continuação do clássico de 84 que prometia uma revolução em termos de ação e efeitos especiais.

A comparação com o primeiro Exterminador chega a ser injusta em diversos aspectos. Arnold Schwarzenegger, por exemplo, embolsou sozinho 15 milhões de dólares, mais que o dobro do orçamento do filme anterior. O orçamento histórico de mais de 100 milhões de dólares permitiu a Cameron incluir uma equipe técnica de peso. Para cuidar dos efeitos especiais, entra em cena a Industrial Light and Magic de George Lucas, e a maquiagem ficou novamente sob a responsabilidade do imbatível veterano Stan Winston. Diferente de seu antecessor, O Exterminador do Futuro 2 teve uma campanha de marketing muito mais agressiva, que incluía a o hit You Could Be Mine, da banda Guns ‘n’ Roses, o que o colocou entre os filmes mais aguardados da década (o clip da música trazia várias cenas da produção, mas no filme mesmo ela aparece de fundo ilustrando um passeio de moto de John Connor).

O exterminadores se encontram pela primeira vez e não perdem tempo em tentar exterminar um ao outro.

A história se passa 10 anos após o primeiro filme. Mais uma vez Schwarzenegger surge como um exterminador, mas reprogramado no futuro para proteger John Connor de outro exterminador, o modelo T-1000. Sarah Connor segue internada em um hospital psiquiátrico e não pode ajudar o filho, enquanto Skynet, o computador que iniciará a guerra aos humanos, está prestes a ser construído com os pedaços do exterminador destruído no filme anterior! Uma vez reunidos, Sarah, John e o exterminador não só devem fugir dos ataques implacáveis do T-1000 como devem tentar destruir Skynet, a fonte de todo o mal, salvando a humanidade de seu futuro sinistro.

Uma das cenas mais surpreendentes com o exterminador T-1000, onde ele entra em um helicóptero por um vão para depois reconstituir-se à sua forma anterior.

Cameron conseguiu a proeza de superar as expectativas com um roteiro inovador, que mesmo trazendo de volta a mesma dinâmica da história anterior, amplia a mitologia do filme e aprofunda os personagens. Mas a alma do filme é mesmo o exterminador T1000, interpretado pelo ator das orelhas biônicas, Robert Patrick. Constituído de “ligas de metal miméticas” ou algo semelhante a metal líquido, ele tem a habilidade de moldar seu corpo à sua vontade, adquirindo a aparência de outras pessoas, objetos e transformando seus membros em armas pontiagudas. Essa habilidade também o torna virtualmente invencível, uma vez que lhe garante a capacidade de regenerar possíveis ferimentos. Cada vez que T-1000 surge na tela é uma explosão de adrenalina. Cada uma das cenas protagonizadas por ele faz o espectador roer o toco da unha de tanta tensão. Cameron realmente conseguiu apresentar ao público um vilão nunca antes visto, algo para encher os olhos e provocar emoções, e a verdade é que ninguém estava preparado para um espetáculo tão grandioso. Ainda que Patrick não tenha o mesmo carisma de Schwarzenegger, seu personagem supera em sofisticação, frieza e maldade o velho T-800 de 1984. Realmente, a revolução prometida em ação e efeitos especiais efetivou-se.

Nosso futuro em boas mãos: A mãe terrorista, o filho delinquente e o robô que deve salvar os dois.

Mas existe um fato curioso nesta história toda. Enquanto revia os dois primeiros filmes da saga para escrever estas pobres linhas, tive a impressão de que O Exterminador do Futuro 2 ficou datado, ao contrário do primeiro, mesmo com aquele visual oitentista fadado ao ridículo (principalmente no quesito penteados). Parte disso deve-se à inserção de humor no roteiro, algo completamente ausente no primeiro filme, e à atuação de Robert Furlong. Seu trabalho funcionou para a época, mas vendo hoje, John Connor parece mais um garoto bobo do que o delinquente órfão destinado a liderar uma revolução como previa a história. Já Linda Hamilton funciona muito bem no seu papel, apesar de alguns excessos. E Schwarzenegger melhorou muito em termos de atuação desde 1984 – agora ele realmente sabe atuar –, e seu exterminador tornou-se um dos heróis de ação mais empolgantes de todos os tempos.

James Cameron mostra neste filme que sabe o que quer. Para esta cena resolveu explodir um edifício de verdade ao invés de um cenário.

Mesmo sem o clima claustrofóbico do primeiro filme, o retorno de Cameron e Schwarzenegger ao universo de O Exterminador do Futuro é histórico, e os problemas explicitados aqui não impedem que o filme seja revisto inúmeras vezes sem deixar um sorriso de satisfação no rosto do espectador.

O Exterminador do Futuro (The Terminator, 1984), James Cameron

por Leopoldo Tauffenbach

A História do cinema prova que nem sempre a análise dos fatos gera um resultado previsível. Se assim fosse, o único resultado possível da combinação de baixo orçamento, ficção científica, diretor inexperiente e ator inexpressivo seria o fracasso total. Apesar de possuir todos esses requisitos, O Exterminador do Futuro conseguiu o seu lugar nos anais do cinema de ficção.

A clássica cena do "I'll be back": a não-interpretação é a alma do negócio.

A idéia é tão simples que chega a ser irritante. Em um futuro dominado por máquinas, os humanos formam uma resistência para acabar de vez com a tirania metálica. Sentindo a derrota se aproximar, as máquinas mandam um robô exterminador ao passado para assassinar a mãe do futuro líder da resistência, John Connor, e assim alterar as vantagens futuras. Mas a resistência descobre o plano das máquinas e envia um soldado ao passado para proteger a mãe de Connor antes que o exterminador a alcance.

Até então James Cameron era um diretor sem muita experiência. Antes de Exterminador, dirigira somente dois filmes. Mas um fator determinante para o seu sucesso é a sua sagacidade. Cameron é uma daquelas pessoas extremamente inteligentes e criativas, a quem meia palavra basta. Sua participação nos filmes Galáxia do Terror e Mercenários das Galáxias ensinou tudo o que ele queria saber sobre o cinema de ficção científica e o milagre da multiplicação orçamentária – afinal, estamos falando de duas produções de Roger Corman –, enquanto Xenogenesis e Piranhas II o ensaiaram para a difícil arte da direção.

Michael Biehn e Linda Hamilton como Reese, o homem protetor do futuro, e Sarah Connor, a mãe daquele que salvará o futuro. Adivinhe quem é o pai?

Já Arnold Schwarzenegger não era o que poderíamos bem chamar de “ator” até aquele momento. Suas incursões anteriores eram imitações do próprio personagem “Mister Universo”. E quando Arnold inventava de interpretar, o resultado não era lá essas coisas, como em Cactus Jack, o Vilão. A sabedoria de Cameron, e consequentemente o êxito de Schwarzenegger, residiu em explorar aquilo que ele não era: um ator. Seu trabalho era não interpretar, ser uma criatura dura movida por seu impressionante físico. Era disso que se tratava um exterminador. Aliás, John Millius já tinha entendido isso quando fez Conan, o Bárbaro, e Richard Fleischer resolveu ignorar o mesmo fato com Conan, o Destruidor, tentando dar ao musculoso austríaco mais responsabilidade cênica do que ele poderia aguentar. Como resultado, temos uma obra de arte em Conan, o Bárbaro e um filmeco esquecível em Conan, o Destruidor.

O exterminador mostra sua verdadeira face e a excelencia das equipes de maquiagem e efeitos especiais. Enquanto isso a platéia vai ao delírio.

Não à toa, é possível enxergar alguns traços estilísticos da escola de Corman em Exterminador. Mas James Cameron foi além, e imprimiu um ar sujo e fatalista ao filme. A direção de arte de George Costello – que não fez nada muito notável antes e depois de Exterminador – e a neurótica trilha sonora de Brad Fiedel foram essenciais na construção do clima do filme. E nem vamos falar dos efeitos especiais e de maquiagem do filme, esta deixada a cargo do mestre Stan Winston. O que temos em O Exterminador do Futuro é cinema de ficção da mais alta qualidade, e o mais importante aqui é a história magistralmente contada por Cameron. Prova disso é que passados 25 anos desde seu lançamento, continua impávido em sua posição, enquanto outros filmes são lançados com alarde para logo depois serem condenados a camadas de poeira em uma prateleira baixa nas locadoras.