O COMBOIO DO MEDO (Sorcerer, 1977) William Friedkin

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por Osvaldo Neto

É preciso muita coragem e determinação para sair do conforto de sua vida no meio urbano, viajar para a França, México, Israel e se jogar no meio do mato da República Dominicana por meses para fazer um filme. E foi isso que William Friedkin e boa parte de sua equipe fizeram nas filmagens de Sorcerer, de 1977 – sua versão para O Salário do Medo de Georges Annaud, um clássico da literatura francesa que também gerou a obra-prima de mesmo título para os cinemas, dirigida por Henri-Georges Clouzot.

O filme é um verdadeiro espetáculo de cinema que teve o azar de ter sido lançado simultaneamente com o arrasa quarteirões de 1977: Guerra nas Estrelas. Graças a tamanho equívoco por parte da Paramount, o filme de Friedkin – que então vinha do sucesso de Operação França e O Exorcista – arrecadou o montante de 12 dos 22 milhões de dólares de seu orçamento. Como se não bastasse o fracasso de público, a crítica também não foi muito gentil com o filme no período e, por pouco, isso não custou a carreira de Friedkin. Seus dois próximos longas seriam Um Golpe Muito Louco (The Brink’s Job) e Uma Tacada da Pesada (Deal of the Century), comédias de boa reputação, mas que talvez representem uma queda no que o realizador poderia nos oferecer se o fracasso de Sorcerer não tivesse acontecido. Foi com o lançamento de Parceiros da Noite (Cruising) e Viver e Morrer em Los Angeles (To Live and Die in LA) que ele voltaria a impressionar espectadores ao redor do mundo.

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Sorcerer tem o seu foco em quatro personagens. Nilo (Francisco Rabal) é um matador profissional. O terrorista Kassem (Amidou) viu os seus amigos serem presos e mortos pela polícia após explodirem um banco em Jerusalém. Victor Manzon (Bruno Cremer) é um banqueiro francês que deixou o seu país para escapar de uma acusação de fraude. O ladrão Jackie Scanlon (Roy Scheider) foge da máfia depois de um assalto que deu errado. Nilo, Kassem, Victor e Jackie se encontrarão de exílio num vilarejo ferradíssimo de um fictício país da América Latina, um lugar onde eles não possuem a menor chance de sair. Trata-se do verdadeiro Inferno na Terra: a corrupção toma conta do poder público, a miséria é algo rotineiro e os policiais mais se assemelham a bandidos que homens da lei, sem falar dos frequentes ataques de guerrilheiros populares. Com exceção dos revolucionários… até parece que estamos falando de um país que nós conhecemos muito bem. Enfim, é impossível não se perguntar como um ser humano pode viver naquele local, a não ser, claro, que ele tenha a intenção de se esconder do mundo.

A vila inteira depende economicamente de uma petrolífera americana. Um de seus poços explode e o fogo violento que emana dele apenas poderá ser apagado com a explosão de uma carga de dinamites. O porém é que essa carga foi armazenada de forma tão inadequada que está vazando nitroglicerina das bananas de dinamite e elas podem explodir a qualquer choque ou impacto. A empresa promete $10.000 para cada um dos quatro motoristas que irão transportar as dinamites em dois caminhões por um trajeto repleto de obstáculos nas selvas do país. Até mesmo o vento forte pode fazer com que as cargas se explodam. E serão os nossos protagonistas que não perderão essa chance de ir embora daquele lugar, mesmo que ela praticamente seja uma maneira imbecil de cometer suicídio.

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As duas horas de duração do longa são muito bem utilizadas pelo diretor. Em nenhum momento temos um filme desinteressante, apesar de Friedkin contar essa história sem a menor pressa. Parte dos primeiros 30 minutos do longa são dedicados apenas para apresentar os quatro personagens principais. Um detalhe interessante é que Friedkin deixa por último a história que causaria mais identificação com o público americano, a de Jackie. Também é a única onde os personagens falam em inglês e as legendas não surgem em cena. A meia hora seguinte é focada no encontro entre eles e os preparativos para a insólita jornada. Os próximos 60 minutos serão marcados por um nível tão extremo de tensão que não seria surpreendente se o espectador acabasse roendo todas as unhas da mão (e dos pés também). O grupo Tangerine Dream – em sua estreia no cinema – apenas reforça o suspense alcançado por Friedkin com sua inesquecível trilha sonora nas impressionantes cenas que dominam a metade do filme. A cena da travessia da ponte é de deixar neguinho com o c* na mão.

Outro aspecto que complicou bastante o lançamento comercial de Sorcerer é o título: ele simplesmente não deixa claro sobre o que raios o filme deve ser. Como uma história sobre quatro homens que estão fugindo de seu passado em um país ferradíssimo do Terceiro Mundo e aceitam participar de um trabalho que pode custar as suas vidas tem este nome? É apenas no decorrer do longa que o espectador de olhar mais atento pode notar que o título pega emprestado o nome de um dos dois caminhões que levam os explosivos. Mas não deixe que esse título ruim atrapalhe a sua curiosidade em assistir ao melhor filme deste grande contador de histórias chamado William Friedkin. Sim, este seu modesto escriba acredita que o cinema poucas vezes atingiu a excelência de Sorcerer e ele tem certeza que você se juntará a ele no coro dos defensores deste grande filme que ainda não recebeu o devido reconhecimento. Sem falar que ele também apresenta um dos maiores desempenhos do genial Roy Scheider. Não são poucos os momentos em que Jackie parece ser o desespero personificado no corpo de um homem.

O DVD oficial da Warner é apresentado em fullscreen (4:3), não respeitando os enquadramentos da fotografia original. Infelizmente, esta é a única cópia de Sorcerer em circulação.

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O COMBOIO DO MEDO (Sorcerer, 1977), William Friedkin

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por Marcelo Miranda

Não se sai incólume de uma experiência tão forte (tanto dentro quanto fora da tela) como a de O Exorcista (1973). Nem mesmo William Friedkin, seu realizador. Do alto de um pedestal que incluía o imenso sucesso de bilheteria de seu longa de horror e a premiação com vários Oscars por seu trabalho anterior (Operação França, 1971), o cineasta se dispôs a ir para o meio de uma selva sul-americana refilmar um dos trabalhos mais cultuados do cinema europeu – o suspense O Salário do Medo, lançado em 1953 pelo francês Henri Georges-Clouzot. A experiência de Friedkin e equipe se tornou um mergulho no inferno, quase no mesmo nível do que Apocalypse Now representaria pessoalmente para Francis Ford Coppola menos de dois anos depois.

O trabalho extenuante que gerou O Comboio do Medo (tradução brasileira para o título original – e bem mais enigmático – Sorcerer) parece se expandir para o resultado daquilo a que assistimos na tela. O filme consegue o difícil equilíbrio de se distanciar de seus personagens a ponto de praticamente nada sabermos deles além das aparências iniciais – e, consequentemente, nos importamos muito pouco com o que pode lhes acontecer – ao mesmo tempo em que trabalha de maneira brilhante a tensão da situação central do roteiro. Para isso, Friedkin, de forma mais radical do que Clouzot fizera a partir do romance de Georges Arnaud, gasta mais de uma hora de filme antes de enfim chegar ao âmago do enredo: a travessia de dois caminhões lotados de nitroglicerina pelas estradas esburacadas e matas fechadas de um canto qualquer de um país latino-americano apresentado pelo filme como uma espécie de latrina do mundo.

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Friedkin está pouco preocupado com a “história”. Por mais que ele adie o momento em que finalmente os caminhões seguirão rumo a uma expedição desde sempre condenada à tragédia (e com boa parte da trajetória ao som de Tangerine Dream), O Comboio do Medo é todo construído para que, em aproximadamente 50 minutos, os quatro personagens sejam submetidos a uma série de desafios aparentemente intransponíveis. O diretor filma cada passagem com precisão única, tensionando ao máximo o fio narrativo e criando arte a partir dos limites físicos e estruturais aos quais aqueles homens se submetem. No livro Easy Riders, Raging Bulls (lançado no Brasil sob o título Como a Geração Sexo, Drogas e Rock’n’Roll Salvou Hollywood), o jornalista Peter Biskind usa um dos adjetivos mais certeiros a definirem o trabalho de Friedkin: O Comboio do Medo é um filme implacável. De várias formas, implacável é ainda todo o cinema de William Friedkin.

Isolados na tal latrina do mundo pelos motivos mais diversos (atos terroristas, assaltos malfadados, negociações erradas, assassinatos encomendados), os quatro homens querem simplesmente sair daquele lugar. Seduzidos pela proposta financeira de uma grande petrolífera, aceitam transportar a carga explosiva mata adentro. É falsa a ideia corrente em torno do filme de que o quarteto nada tem a perder. Sim, eles têm muito a perder, a começar pela própria liberdade. Nenhum deles embarca na saga suicida por niilismo, capricho, orgulho ou qualquer sentimento que não seja a ambição de escaparem do pesadelo onde foram colocados por ações cometidas no passado. A viagem com a nitroglicerina é, aos olhos deles, o teste de redenção: se sobreviverem, ganham uma segunda chance. Trata-se, porém, de uma ilusão, como o espectador vai descobrir nos segundos finais de filme, novamente com a concisão cruel de Friedkin.

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A certa altura, o desejo de ir embora se torna obsessão para o personagem vivido por Roy Scheider. Entre visões e delírios, ele vai insistir em completar a viagem menos pelo motivo financeiro inicial do que por simplesmente não considerar qualquer outra alternativa que não seja a de sobreviver e atingir o destino combinado. Neste ponto, O Comboio do Medo é reforçado como um trabalho de assinatura típica de Friedkin, ele próprio um obcecado por personagens limítrofes naquilo a que se dispõem a fazer. A ação é mais do que o objetivo; a consequência será, quase sempre, a ultrapassagem da linha que separa a sanidade da loucura, o risco calculado do risco a todo e qualquer custo. A dança que Scheider pede à mulher acaba por ser a percepção de que, mesmo tendo vivido um martírio sem paralelos, a ele lhe resta bem pouco – e, na verdade, nunca houve, de fato, muito mais do que esse pouco. Então, para que adiar a dança?

Lançado um mês depois do primeiro Star Wars, de George Lucas, O Comboio do Medo, pessimista e sombrio, não teve chances. Fracassou fragorosamente nas bilheterias. Malvisto também pela crítica, tornou-se um dos títulos a sepultarem a chamada Nova Hollywood – outros citados podem ser Apocalypse Now e especialmente O Portal do Paraíso (1980), de Michael Cimino. Considerados malditos por décadas, esses filmes vêm ganhando reconhecimento nos últimos anos, apesar de O Comboio do Medo continuar quase incógnito devido a problemas jurídicos entre Friedkin e os estúdios Paramount e Universal ao longo de mais de três décadas. Aparentemente resolvida, a pendenga judicial vai dar espaço, em breve, ao ressurgimento do longa-metragem em cópia restaurada e recolorizada a partir do negativo original. Será um retorno mais do que bem-vindo.

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IGUANA – A FERA DO MAR (1988), Monte Hellman

por Marcelo V.

“I used to joke that some films contain gratuitous sex and violence and that ‘Iguana’ has no gratuitous sex and violence – it’s about sex and violence.” – Monte Hellman

Adaptação de um romance de Alberto Vasquez-Figueroa, que por sua vez foi inspirado por duas histórias reais (mas há quem veja relação com Queequeg, o arpoeiro de “Moby Dick“, além de “O Fantasma da Ópera” e “A Bela e a Fera“), Iguana é a história de um homem marcado pelo sofrimento. Após apenas 50 segundos de filme, já vemos Oberlus (Everett McGill, uma espécie de novo Jack Palance e especialista em papéis que exigem maquiagem pesada, como o homem das cavernas de “A Guerra do Fogo” e o lobisomem de “Bala de Prata” _ é também o Ed de “Twin Peaks“) sendo torturado pelos companheiros de labuta. Desprezado por ter o rosto desfigurado por feridas que lhe conferem uma aparência de réptil, o marinheiro que a certo ponto diz amar o mar, mas odiar os navios, também é alvo de preconceito por ser praticante de vodu. Mas seus deuses logo o abandonam, permitindo que ele seja novamente torturado após fugir e fazer um ritual que não rende os frutos desejados. Isso o leva a renunciar a deuses e demônios, a arrancar com uma faca a tatuagem religiosa que carregava no braço e a declarar “guerra à humanidade”. A partir de então, ele se dirá senhor de uma ilha em Galápagos e escravizará todos os que aportarem por lá.

Paralelamente a isso, somos apresentados à figura feminina principal, Carmen (Maru Valdivielso, de “Os Amantes do Círculo Polar“). Durante os 40 primeiros minutos, Hellman, também montador do filme, faz esse vaivém entre os dois protagonistas por meio de cenas curtas (às vezes, apenas um plano de poucos segundos) e eficientes, avançando o enredo e antecipando o momento em que eles se encontrarão. Carmen nos é apresentada como uma feminista avant la lettre, sempre exigindo liberdade de seus amantes. Liberdade que ela perderá ao se tornar escrava de Oberlus, dando início a uma relação sadomasoquista. Quando Oberlus se oferece para tirar as correntes que a prendem, ela diz que se acostumou com elas: “São como joias“. Ela também ouve de Oberlus que gosta de ser sua “escrava e de ser enrabada. Se você um dia escapar, não encontrará alguém como eu“, ameaça.

Essa relação captor/capturado, com requintes de síndrome de Estocolmo, é reproduzida também entre Oberlus e seu primeiro prisioneiro, o Sebastián de Michael Madsen. A princípio alvo de abusos (é mutilado pelo seu mestre a cada pequena transgressão) e reconhecendo que o senhor da ilha se tornou louco como “todos os reis”, que devem ser mortos “antes que eles nos matem“, será promovido a ajudante de Oberlus. Ao ser acusado por um colega de ter se tornado um escravo obediente, responde que não vê sentido em ficar na linha de fogo. Os dedos cortados por Oberlus, o que o incapacitaria de empunhar uma pistola, se tornarão desculpa para a fidelidade canina. Tanto ele quanto Carmen, em diferentes pontos da história, terão a vida de Oberlus em suas mãos e agirão de maneira distinta.

O mesmo não acontece com Dominique (Joseph Culp), o escravo letrado e sensível que é levado por Oberlus a cometer um ato contra a sua natureza. A pedido de seu captor, ele o ensina a ler e a escrever, para que o monstro possa “contar ao mundo” o que lhe aconteceu. Apesar de sua crueldade (ele diz a Carmen que é cruel porque quer respeito, e mesmo que não o consiga, o medo que causa nos outros lhe é suficiente), Oberlus se mostra interessado por literatura (diz que gosta de todos os livros, menos da Bíblia). Chega a discutir “Dom Quixote” com Sebastián (pergunta a ele se Dulcineia é uma puta ou uma santa) e, ao invadir seu antigo navio e raptar seu antagonista, Gamboa (Fabio Testi), vê um volume de “Odisseia” e pergunta se é fato ou ficção.

As marcas na face de Oberlus, causa e mais óbvio indício de suas agruras, fazem com que ele se diga capaz de matar a própria mãe. Ao ouvir de Carmen que sua aparência não justifica seus atos violentos, Oberlus simplesmente não tem resposta. A evidente chaga física o persegue até em pesadelos, quando a coloca na face de uma bela garota que aportou na ilha e o encantou como a sereia que quase vitimou Ulisses: um ideal de mulher como a Dulcineia de Quixote, que ele se recusa a capturar e cuja versão mundana e carnal ele encontrará em Carmen. Em Carmen, ele também vê um monstro, como em seu reflexo na água, que busca após ouvir a bela e misteriosa jovem cantar. “Ter me matado não seria assassinato“, ele diz à sua mais íntima vítima, dando uma pista de sua atitude mais radical e redentora, que virá no clímax da história.

O sofrimento que sente na pele e impõe aos outros pela escravidão, pela tortura e pelo estupro é o que move Oberlus quase o tempo todo, mas evitar que um outro sinta a mesma dor se torna finalmente um objetivo sublime, que pode ser interpretado como mais um de seus atos monstruosos ou como uma demonstração definitiva de amor e de misericórdia, coisas que ele nunca conheceu (as correlações disso com certas posições que afrontam algumas religiões cristãs não me parecem uma mera coincidência). “Você não terá de sofrer como eu” são as últimas palavras de ouvimos de Oberlus, neste belo e complexo filme dedicado a Warren Oates.

FLIGHT TO FURY (1964), Monte Hellman

por Ronald Perrone

Apesar da bela estréia na direção com o terror classe B O Monstro da Caverna Assombrada, sob a batuta do mestre Roger Corman, o resultado do segundo trabalho oficial de Monte Hellman, Flight to Fury, parece mais um produto de alguém com muita vontade de filmar qualquer coisa que viesse pela frente do que realmente um filme com todo seu planejamento de produção. Não que isso importe para quem obteve ensinamentos do lendário diretor e produtor, rei do baixo orçamento, o já citado Roger Corman. Tanto que Hellman aproveitou a disposição, local, equipe e atores para realizar quase simultaneamente Guerrilheiros do Pacífico.

Filmado nas Filipinas, Flight to Fury é uma pequena aventura cheia de boas intenções sobre um grupo de pessoas que se conhece “ocasionalmente” por causa de uns diamantes que se encontram na posse de um deles. Todos querem botar a mão na fortuna. Mas a situação fica dramática quando o avião onde todos seguiam viagem cai em plena selva filipina. Apesar da sorte grande, ou milagre, de sairem com vida, alguns sem nenhum arranhão, de um acidente desse porte, as coisas pioram quando um bando de guerrilheiros assassinos e estupradores resolve saquear e sequestrar o grupo.

O roteiro escrito em três semanas durante a viagem dentro de um navio pelo então jovem Jack Nicholson – a partir de uma idéia de Hellman e do produtor Fred Ross – inicialmente seria uma paródia/homenagem ao filme de John Huston, Beat the Devil. Mas a mistura filme de tesouro+acidente de avião+sobreviventes na selva com bandidos tentando matá-los é algo que acabou gerando uma certa bagunça. O que se vê, na verdade, é uma narrativa desengonçada, sendo que a primeira metade, um thriller com assassinato, a coisa se arrasta com certa dificuldade para manter o interesse do público, apesar do texto de Nicholson ser muito bom, como na sequência do avião em que o próprio ator/roteirista filosofa sobre a morte.

Flight to Fury melhora consideravelmente na segunda metade, após o acidente do avião, quando finalmente toma forma e se assume como uma aventura classe B e temos alguns bons momentos de ação e um desfecho niilista surpreendente. O elenco contribui bastante, mesmo que o grande destaque fique por conta do promissor talento de Nicholson.

O duelo final em meios às rochas a beira do rio é bem interessante e construido com firmeza. Mas a direção de Hellman, de uma maneira geral, ainda não demonstra por aqui sinais da maestria minimalista e reflexiva que teria em breve, já em A Vingança de um Pistoleiro, talvez pela impulsão feroz e urgente de fazer cinema com as tripas. Mas se precisou passar por isso aqui para chegar ao patamar que chegou, então vale uma conferida.

Titanic (1997), James Cameron

por Leandro Caraça

Ninguém a não ser o próprio James Cameron acreditava na possibilidade de Titanic se tornar um sucesso. Mesmo assim ele colou uma gilete na mesa de montagem com os dizeres “no caso de tudo mais der errado.”. O que se viu no entanto foi o maior fenômeno nas bilheterias desde E.T. – O Extraterrestre, algo que apenas acontece uma vez em cada geração, ou quem sabe, até duas. A trama é conhecida por todos. Os detratores reclamam do romance meloso entre Leonardo Di Caprio e Kate Winslet e da longa duração da película. A verdade é que Titanic funciona muito bem como cinemão pipoca clássico e um dos melhores filmes-catástrofe de todos os tempos. Algo que faria Irwin Allen ficar preso na cadeira e que Rolland Emmerich nunca conseguiria fazer nem em 1000 anos. No aspecto técnico, é um assombro, uma união do melhor CGI disponível na época com um modelo em tamanho quase real do barco. Algo que apenas Cameron é capaz entre os diretores contemporâneos. Avatar pode até ultrapassar Titanic e assumir o posto de maior arrecadação da história, mas repetir aquela febre que avassalou o ano de 1997, é algo difícil mesmo para o atual Rei do Mundo.

Atualização Furiosa:

O Segredo do Abismo, por Ronald Perrone

Uma Vida de Rei (Farewell to the King, 1989), John Milius

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Segunda Guerra Mundial. Dois oficiais Aliados adentram no coração das trevas de uma floresta do Borneo em busca do sargento Learoyd (Nick Nolte), desertor que agora vive no local como uma espécie de rei de uma comunidade tribal. Mas isso tudo não é meio Conradiano demais? Não é coincidência que o diretor John Milius também seja um dos responsáveis pelo roteiro de Apocalypse Now, de Francis F. Coppola, baseado no livro de Joseph Conrad, mesmo que este Uma Vida de Rei também seja uma adaptação de outro romance, L’Adieu au Roi, de Pierre Schoendoerffer. O filme é narrado a partir do ponto de vista do Capitão Fairbourne (Nigel Havers), um dos oficiais que eu citei no início, que se encontra com sua Majestade da selva e o convence a unir forças para lutar contra as tropas japonesas. É um filme que consegue manter um certo interesse durante toda a narrativa, embora apresente alguma irregularidade lá pelas tantas, mas a direção de Milius é excelente, sempre aproveitando ao máximo o cenário natural para construir belas imagens, auxiliado pelos tons da fotografia de Dean Semler, boa dose de cenas de ação e, claro, desenvolver as questões que já fazem parte de seu repertório, como política e guerra. Outro grande destaque é a performance de Nick Nolte, que surge em cena absolutamente impagável com uma cabeleira loura entre os nativos. Sua caracterização é uma espécie de Coronel Kurtz bonzinho e é impressionante como o filme cresce com a sua presença, embora nunca alcance as proporções de um Conan ou Dillinger

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Conan, O Bárbaro (Conan the Barbarian, 1982), John Milius

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A história de Conan gerou uma saga dentro e fora das telas. As origens do projeto datam de 1977, quando o produtor Edward R. Pressman, impressionado pela presença de Arnold Schwarzenneger em Pumping Iron, decidiu materializar o guerreiro cimério criado por Robert E. Howard. Depois de muito tempo, após o projeto ser recusado por diretores como Alan Parker e Ridley Scott, acabou vendido a Dino De Laurentis, que indicou John Milius para reescrever o roteiro e dirigi-lo. Somente cinco anos depois de concebido, o projeto Conan tornaria realidade.

Como aço bruto: Conan aprende a arte da guerra como gladiador

Como aço bruto: Conan aprende a arte da guerra como gladiador

Logo nos primeiros minutos, o narrador anuncia que esta seria uma “história de pesar”. O filme começa com Conan ainda criança assistindo toda sua vila ser exterminada por uma horda de guerreiros. Seu misterioso líder toma a espada de seu pai e decapita sua mãe. Conan é então levado a um lugar ermo, onde se encontra a “roda da aflição”, uma espécie de moinho de trabalhos forçados. Em uma belíssima sequência, vemos o garoto transformar-se em homem, único sobrevivente de uma geração de escravos, até que finalmente é vendido para um homem que o transforma em gladiador. Seu êxito diante de seus oponentes lhe confere benefícios dignos dos maiores guerreiros, como treinamento com grandes mestres orientais e acesso à literatura. Já um grande guerreiro, Conan é libertado por seu senhor, e ele então parte em busca do enigma do aço – o segredo roubado do deus Crom em tempos imemoriais – e dos responsáveis pelo massacre de seu povo. Com a ajuda do arqueiro Subotai (Gerry Lopes) e a bela Valeria (Sandahl Bergman), Conan descobre que o assassino de seus pais é o maligno Tulsa Doom, o sacerdote de um culto de fanáticos que mantém a filha de um rei (Max Von Sidow) em seu poder. Agora Conan deve resgatar a filha do rei Osric e vingar a morte de seu povo.

Da esq. para a dir.: Subotai, Conan e Valeria ouvem uma proposta irrecusável na corte do rei Osric

Da esq. para a dir.: Subotai, Conan e Valeria ouvem uma proposta irrecusável na corte do rei Osric

O roteiro inicial escrito por Oliver Stone talvez fosse mais fiel ao universo fantástico de Howard, repleto de monstros, bruxas e criaturas mutantes. Mas Milius resolveu seguir por outro caminho, ambientando a história em uma época primitiva que poderia muito bem ter existido e, portanto, mais verossímil. Ainda que exista um tom fantástico no filme, ele sempre está sob uma perspectiva mais humana que sobrenatural. Os personagens não convivem de forma natural com a magia, mas reagem à ela com assombro e violência.

O maligno Tulsa Doom realizando lavagem cerebral em seus seguidores

O maligno Tulsa Doom realizando lavagem cerebral em seus seguidores

Extremamente violento, a tragetória do guerreiro cimério é análoga ao enigma do aço que ele tanto almeja descobrir. Como nos vários estágios de confecção de uma espada, Conan é forjado pela brutalidade de um mundo primitivo até se tornar um guerreiro imbatível. É a frase de Nietzche apresentada no início do filme: “o que não nos mata, nos torna mais fortes”. Assim, a resposta ao enigma se dá como no processo de individuação Junguiano: pelo autoconhecimento.

Conan mostra a que veio ao invadir o palácio de Doom

Conan mostra a que veio ao invadir o palácio de Doom

A excelência deste filme se deve à perfeita combinação de todos os seus elementos. Milius dirige com maestria, tirando o máximo dos atores e sempre apontando a câmera para o lugar certo, extraindo o essencial de cada cena para devolvê-las ao espectador com a mesma intensidade de uma obra-prima renascentista. Os magníficos cenários de Ron Cobb dialogam com perfeição com as locações espanholas, que emolduradas pela magistral trilha de Basil Poledouris – uma das mais belas e impressionantes já compostas no cinema – acabam por atuar como personagens essenciais à condução da narrativa.

Conan reza a Crom antes de sua última batalha contra os soldados de Tulsa Doom

Conan reza a Crom antes de sua última batalha contra os soldados de Tulsa Doom

Conan é um épico subestimado; um filme grandioso e memorável, mas colocado em segundo plano na história do cinema, sem nunca ter sido reconhecido por seu verdadeiro valor. Talvez isso seja simplesmente pelo fato de ser um filme à frente de seu tempo. Tal como no final do filme, onde temos a promessa de ver um Conan-Rei, fica a expectativa de que algum dia seja reconhecido como um dos maiores épicos já realizados no cinema.

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Leopoldo Tauffenbach

O Vento e o Leão (The Wind and the Lion, 1975), John Milius

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por Ronald Perrone

A estreia na direção de John Milius já era um tanto ambiciosa. Dillinger (73) era uma bela e classicista obra sobre a vida do lendário assaltante americano dos anos 30, John Dillinger, vivido por Warren Oates. Para seu segundo trabalho, no entanto, o diretor resolveu aumentar o nível de dificuldade, pretensão e grandiosidade na concepção de um novo filme.

Não que O Vento e o Leão consiga ser melhor que o seu trabalho anterior – bem, pelo menos eu prefiro Dillinger – mas Milius escreve aqui uma história de aventura de proporções épicas para a época, que transcorre pelas areias do deserto marroquino, inserindo um tom político que lhe é característico, filmou batalhas espetaculares e dirigiu atores em inspiradas interpretações. O resultado não deixa de ser uma belíssima peça cinematográfica, bem definido pelo compañero Leandro Caraça,como o Lawrence da Arábia de John Milius.

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Eden Pedecaris (Candice Bergen), americana que vive no Marrocos no início do século passado, é sequestrada juntamente com seu casal de filhos por Raisuli (o escocês Sean Connery), líder de um grupo rebelde, cujo desígnio de tal ato é apenas provocar o sultão, que anda fazendo concessões para os estrangeiros que cada vez mais invadem o país.

Já nos Estados Unidos, o presidente Theodore Roosevelt (Brian Keith), tentando a reeleição, toma conhecimento do ocorrido e aproveita o fato como discurso para sua campanha, além de efetivamente agir com a decisão de intervir militarmente até que a americana seja liberta. Embora acabe gerando esse conflito diplomático, a aproximação de Eden e Raisuli é uma descoberta de dois mundos buscando a compreensão mútua. Ela deixa de enxergá-lo como um malfeitor e passa a admirá-lo como um homem de ideais.

windlion3A questão da política americana retratada por Milius é um ponto forte e não deixa de ser bastante atual. Difícil encontrar filmes que sejam tão claros ao apontar os Estados Unidos como o país imperialista e intervencionista que realmente é e sempre foi. Além de tocar na ferida explicitamente, quase todas as seqüências com Brian Keith possuem elementos metafóricos que abrem algumas janelas para a reflexão neste sentido, até porque Milius não faz uma crítica. Apenas trabalha os fatos como ponto de partida para a reflexão. E tendo em vista o posicionamento político do diretor, é bem capaz de que ele fosse a favor das atitudes do governante americano…

Para o elenco, inicialmente, Feye Dunaway era a escolha para viver Éden Pedecaris, mas acabou ficando mesmo com a belíssima Candice Bergen, que já havia interpretado uma personagem similar no excelente Caçada Sádica (71), de Don Medford. Na trama, que se passa no velho oeste americano, Oliver Reed é um bandido que sequestra a mulher de Gene Hackman, interpretada por Bergen. Da mesma maneira, o sequestro serve de ponte para novas descobertas e transformações.

windlion4Sean Connery, sempre muito carismático, convence tranquilamente como líder árabe, desbancando outros grandes atores como Omar Sharif e Anthony Quinn, ambos cotados para papel. Vários interpretes têm seus momentos de brilho. O diretor John Huston, por exemplo, numa modesta participação como conselheiro de Roosevelt deixa sua marca, mas é Brian Keith quem rouba a cena como o presidente americano em uma atuação expressiva e digna de nota.

Milius ainda separa um tempo precioso para impressionantes cenas de ação – especialmente na batalha explosiva que acontece ao final, magistralmente conduzida, editada e reforçada com belíssima trilha de Jerry Goldsmith – e para o humor, bastante sóbrio, com o personagem de Connery. No fim das contas, O Vento e o Leão consegue, ao mesmo tempo, ser uma complexa alegoria e uma grande diversão.

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Il Corsaro Nero (1976), Sergio Sollima

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Durante a fase de ouro do cinema popular italiano, Il corsaro nero pode ser considerado a despedida de Sollima da tela grande. Depois ele realizaria a série Sandokan para a TV e só voltaria a fazer cinema em 1989 (Passi d’amore) e em 1994 (Berlin’ 39). Infelizmente ambos os filmes não foram obtidos pela equipe do blog, assim como o spy Agente 3S3, massacro al sole. Ficamos devendo resenhas dos três para uma próxima oportunidade…

Protagonizado pelo indiano Kabir Bedi (que também estrelou a série Sandokan), Il corsaro nero é um obra de aventura envolvendo piratas italianos em conflito com a nobreza espanhola. Mas por se tratar de um filme de Sergio Sollima, pode-se esperar ação da melhor qualidade (destaque para os combates de esgrima, muito bem feitos) e algumas sequências memoráveis, como o massacre dos índios, que chega a lembrar Cannibal Holocaust, e a sentença de morte de Honorata (a linda Carole André), que interpreta a filha do vilão Van Gould (Mel Ferrer).

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Com as duas cenas acima citadas, além de várias outras, Sollima aproveita para subverter o que poderia ser um simples e ingênuo filme de aventura como qualquer outro, injetando fortes doses de ambigüidade (os heróis são os piratas, capazes de atos bem malvados) e de crítica política ao expansionismo europeu. Pode não ser uma obra-prima, mas sem dúvida é um filme que se assiste com grande prazer.

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Heráclito Maia