PARCEIROS DA MORTE (The Deadly Companions, 1961), Sam Peckinpah

Por Eduardo Aguilar, em participação especial

Parceiros da Morte (The Deadly Companions) é considerado a estréia oficial de Peckinpah na tela grande, pois até então ele havia dirigido apenas algumas séries televisivas. O filme foi produzido pelo irmão de Maureen O’Hara com o intuito de recuperar a carreira da irmã.

Dizem que Sam e Maureen não se entenderam muito durante as filmagens. Do meu lado, este filme me interessa justamente por permitir outro olhar sobre a famigerada misoginia peckinpanhiana. É a história de uma dançarina de salão que em meio a um tiroteio entre homens da lei e ladrões de banco, vê seu filho, um garoto, ser baleado por ‘fogo amigo’, morrendo em seguida. Desolada, esta mãe sobrevive à dor, alimentando o desejo de enterrar o filho no mesmo túmulo do marido e, atravessará o inóspito território apache até a cidade destino com a ajuda de Brian Keith, homem da lei, justamente responsável pela bala perdida que atingiu o menino.

O filme é essa travessia de dois seres opostos, um homem no exercício da lei, ao lado das regras e uma mulher que entende o certo e o errado através do direito de enterrar seu filho no local em que almeja, o mundo em que ela vive não é tão preso a julgamentos. No entanto, é bom que se diga, Brian Keith sofre a culpa pela morte do garoto em conflito com a estranheza de conduzir esta mãe, uma “vulgar” dançarina de salão ao seu destino, um dilema entre ter que respeitar o que “não merece respeito”. O filme nada mais é do que a trajetória desses dois personagens errrantes, seus momentos de amargura e a possibilidade do entendimento como forma de redenção em uma jornada na qual se fará necessário a união para superar as dificuldades da travessia.

Não sei dizer se o imaginário que criei sobre o filme corresponde, de fato, ao que ele é, mas percebo, antes de tudo, que por mais que Peckinpah enxergasse a mulher como um ser ardilosamente dissimulado, havia ainda a intenção em compreender seus motivos, por exemplo, ao reconhecer a abdicação/dedicação materna, perceptível mais uma vez no filme Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia. Esta disposição em expor a complexidade feminina, também aparece em filmes como Os Implacáveis e o clássico misógino Sob o Domínio do Medo, não fosse assim, como explicar a lágrima de Susan George em meio a cena do afamado estupro consentido?

Estas são minhas impressões sobre esse belo filme de estréia, talvez, se o revisse, o olhar fosse outro, mas prefiro permanecer com o encantamento da memória, que me diz que muito além de misógino, Peckinpah era um poeta não só da violência, mas capaz de entender as contradições humanas.

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Bravos Guerreiros (Rough Riders, 1997), John Milius

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por Leandro Caraça

John Milius tentou, sem sucesso, que seu roteiro para King Conan ganhasse sinal verde para ser realizado. Entretanto, a reeleição de Arnold Schwarzenneger para o posto de governador da Califórnia colocou um ponto final em suas pretensões. Sem dirigir um filme há 12 anos, é bem provável que Bravos Guerreiros, uma produção do canal TNT, seja mesmo o testamento fílmico desse polêmico e sempre interessante cineasta.

Desta vez ele volta a atenção para um conflito que encerrou o século XIX e definiu a conduta americana até hoje. A guerra entre EUA e Espanha marcou o início das intervenções militares por parte dos ianques. Serviu ainda para unir o país, ainda sentindo as marcas da Guerra Civil, e erguer a moral de toda a nação. Tom Berenger, naquele que possa ser o grande papel de sua carreira, é o Coronel Theodore Roosevelt que antes mesmo de se tornar um dos mais famosos presidentes americanos da história, já era conhecido pela sua personalidade forte. Brian Keith que havia interpretado Roosevelt em O Vento e o Leão, faz aqui a parte do presidente William McKinley. Outros nomes presentes são de Brad Johnson, Sam Elliott, Geoffrey Lewis, Gary Busey, R. Lee Ermey e George Hamilton como o magnata da imprensa William Randolph Hearst – “Você arranja as imagens e eu arranjo a guerra.”.

John Milius não tem medo de ser feliz e constrói o cenário perfeito para mostrar a glória dos Rough Riders, o regimento de recrutas voluntários (brancos, negros, índios, mexicanos) que foi essencial na campanha em território cubano. Com o fim do conflito, o Império Espanhol entrou em declínio irreversível e os Estados Unidos anexaram os antigos territórios, sendo que Porto Rico e Guantánamo continuam em seu poder até os os dias atuais. Passado mais de uma década após Bravos Guerreiros, Milius ainda se mantém ativo em Hollywood (foi produtor e consultor do seriado Roma) e esperemos que o restante de sua história ainda seja contada no futuro.

O Vento e o Leão (The Wind and the Lion, 1975), John Milius

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por Ronald Perrone

A estreia na direção de John Milius já era um tanto ambiciosa. Dillinger (73) era uma bela e classicista obra sobre a vida do lendário assaltante americano dos anos 30, John Dillinger, vivido por Warren Oates. Para seu segundo trabalho, no entanto, o diretor resolveu aumentar o nível de dificuldade, pretensão e grandiosidade na concepção de um novo filme.

Não que O Vento e o Leão consiga ser melhor que o seu trabalho anterior – bem, pelo menos eu prefiro Dillinger – mas Milius escreve aqui uma história de aventura de proporções épicas para a época, que transcorre pelas areias do deserto marroquino, inserindo um tom político que lhe é característico, filmou batalhas espetaculares e dirigiu atores em inspiradas interpretações. O resultado não deixa de ser uma belíssima peça cinematográfica, bem definido pelo compañero Leandro Caraça,como o Lawrence da Arábia de John Milius.

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Eden Pedecaris (Candice Bergen), americana que vive no Marrocos no início do século passado, é sequestrada juntamente com seu casal de filhos por Raisuli (o escocês Sean Connery), líder de um grupo rebelde, cujo desígnio de tal ato é apenas provocar o sultão, que anda fazendo concessões para os estrangeiros que cada vez mais invadem o país.

Já nos Estados Unidos, o presidente Theodore Roosevelt (Brian Keith), tentando a reeleição, toma conhecimento do ocorrido e aproveita o fato como discurso para sua campanha, além de efetivamente agir com a decisão de intervir militarmente até que a americana seja liberta. Embora acabe gerando esse conflito diplomático, a aproximação de Eden e Raisuli é uma descoberta de dois mundos buscando a compreensão mútua. Ela deixa de enxergá-lo como um malfeitor e passa a admirá-lo como um homem de ideais.

windlion3A questão da política americana retratada por Milius é um ponto forte e não deixa de ser bastante atual. Difícil encontrar filmes que sejam tão claros ao apontar os Estados Unidos como o país imperialista e intervencionista que realmente é e sempre foi. Além de tocar na ferida explicitamente, quase todas as seqüências com Brian Keith possuem elementos metafóricos que abrem algumas janelas para a reflexão neste sentido, até porque Milius não faz uma crítica. Apenas trabalha os fatos como ponto de partida para a reflexão. E tendo em vista o posicionamento político do diretor, é bem capaz de que ele fosse a favor das atitudes do governante americano…

Para o elenco, inicialmente, Feye Dunaway era a escolha para viver Éden Pedecaris, mas acabou ficando mesmo com a belíssima Candice Bergen, que já havia interpretado uma personagem similar no excelente Caçada Sádica (71), de Don Medford. Na trama, que se passa no velho oeste americano, Oliver Reed é um bandido que sequestra a mulher de Gene Hackman, interpretada por Bergen. Da mesma maneira, o sequestro serve de ponte para novas descobertas e transformações.

windlion4Sean Connery, sempre muito carismático, convence tranquilamente como líder árabe, desbancando outros grandes atores como Omar Sharif e Anthony Quinn, ambos cotados para papel. Vários interpretes têm seus momentos de brilho. O diretor John Huston, por exemplo, numa modesta participação como conselheiro de Roosevelt deixa sua marca, mas é Brian Keith quem rouba a cena como o presidente americano em uma atuação expressiva e digna de nota.

Milius ainda separa um tempo precioso para impressionantes cenas de ação – especialmente na batalha explosiva que acontece ao final, magistralmente conduzida, editada e reforçada com belíssima trilha de Jerry Goldsmith – e para o humor, bastante sóbrio, com o personagem de Connery. No fim das contas, O Vento e o Leão consegue, ao mesmo tempo, ser uma complexa alegoria e uma grande diversão.

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