COMBOIO (Convoy, 1978),de Sam Peckinpah

por Ronald Perrone

Não é novidade alguma para os fãs do diretor Sam Peckinpah que sua visão de mundo seja cínica e amarga. Comboio, um de seus filmes mais subestimados, é daqueles que melhor apresenta essa visão crítica, especialmente ao que concerne ao povo americano.

Ao mesmo tempo em que o diretor exalta o espírito rebelde de sua nação – cuja trama centra num comboio de caminhoneiros revoltados, liderados por Rubber Duck (Kris Kristofferson), infernizando a vida da polícia, principalmente a do xerife carrancudo vivido por Ernest Borgnine – Peckinpah faz um retrato pessimista de seu país, jogando pedra até mesmo nos heróis, personagens alucinados que agem de forma tão irracionais quanto uma torcida de futebol em fúria, além da polícia que é corrupta, as mulheres submissas e os políticos tão oportunistas que fariam um deputado em Brasília ser o homem mais honesto do mundo.

É óbvio que toda essa revolta de Peckinpah é fruto de sua própria relação com o sistema e quando surge a oportunidade de expressar essa visão de mundo com uma câmera, ele o faz como um exímio artista que é.

Final da década de 1970, Peckinpah tinha de ralar muito para conseguir dirigir alguma coisa já há algum tempo. Após Comboio, apenas substituiu Don Siegel em Jinxed, quando este teve um infarto e depois realizou o derradeiro O Casal Osterman. A carreira do cineasta estava chegando ao fim, assim como a sua própria vida, consumido pelas drogas e Álcool. Ainda que reciclando idéias de outros filmes, como Corrida Contra o Destino, de Richard C. Sarafian e Louca Escapada, do Steven Spielberg, Comboio foi um dos seus últimos suspiros artísticos e a cena do balé dos caminhões no deserto empoeirado é uma prova incontestável disso.

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ASSASSINOS DE ELITE (The Killer Elite, 1975), Sam Peckinpah

por Luiz Alexandre

Bloody” Sam Peckinpah é daqueles diretores que colheram uma série de adjetivos em sua carreira. Sua alcunha mais famosa, e possivelmente mais lisonjeira, foi “Poeta da Violência”. Entretanto, também foi tachado de bebum e irresponsável, o que não fez nada bem para sua conturbada relação com os estúdios. Nos anos setenta Peckinpah não parecia ser mais o concorrente ao Oscar de melhor roteiro por Meu Ódio Será Sua Herança, encontrando dificuldades em engatilhar seus projetos ou mesmo participar de novas produções. Assim como os velhos cowboys de seu quase premiado filme, já não parecia, naquele momento, haver um lugar para Sam.

Porém, aquele não era seu fim. Mike Medavoy, na época o grande cabeça da United Artists, estava com um roteiro para ser filmado e acreditava que Peckinpah seria a pessoa mais indicada para assumir a direção do filme, desde que o próprio Medavoy supervisionasse toda a filmagem da película, é claro. Com pouco dinheiro e com sérias chances de nunca mais dirigir, o Poeta se ajoelhou e pediu a benção ao “padrinho”, já que não tinha mesmo muita escolha. Rendeu-se, contudo não se entregou por completo.

tumblr_n50pbnHFS11trfa8po2_1280O filme conta a história de um mercenário, Mike Locken (James Caan), que junto de seu melhor amigo George Hansen (Robert Duvall), presta serviços de assassinato e proteção para a organização privada Com-Teg (uma óbvia referência a CIA), que, um dia se vê traído e a beira da morte por Hansen. Seus dias de matador estariam terminados, caso não estivesse munido de muita determinação e vontade de se vingar. Graças a muita fisioterapia e ao Karate, ele se recupera.

Embora ligeiramente manco, Locken se torna um expert em artes marciais e fica bastante habilidoso com sua bengala. Habilidades essas que se mostrarão bastante bem vindas em sua nova missão: proteger um líder político chinês, Yuen Chung (Mako), que está sendo perseguido por ninjas e por sua nêmesis, George Hansen. Munido de sua bengala, sua fúria e com os velhos amigos Mac (um maravilhoso Burt Young), um ex-mercenário aposentado, e Jerome Miller (Bo Hopkins), um assassino com mira super-humana e, bom, alguns miolos a menos Locken vai mostrar aos seus inimigos “com quantos paus se faz uma canoa”. Eu sei, essa é muito velha.

Aparentemente a inspiração para o filme, sujeito versado em artes marciais enfrentando ninjas chineses, numa provável falta de interesse em ser verossímil a cultura oriental, parece ter vindo do cinema de kung fu. O próprio Peckinpah teria dito em entrevistas que se preparou para o filme assistindo Operação Dragão, de Bruce Lee. E o que se vê é um filme mais “parado” do que um filme de ação contemporâneo, dedicando a maior parte de sua duração em mostrar a luta de Locken contra si mesmo, do que com tiros e pé na cara.

Mas se o roteiro não é o mais caprichado ou mesmo o mais poético como os do próprio Sam, não se pode dizer que o filme deixa a peteca cair. As sutilezas da relação entre Locken e Hansen, dois irmãos em armas que se vêem um contra o outro graças ao sistema corrupto que rege seu ofício, enriquecem o que seria um filme banal nas mãos de algum diretor menos inspirado. A cena da citada traição, em que Duvall acerta a tiros o cotovelo e o joelho de James Caan em vez de seu peito ou sua cabeça parece dizer que o personagem do primeiro está mais interessado em livrar seu “irmão” do mundo sanguinário que eles vivem do que de, efetivamente, acabar com ele. Hansen precisava se ver livre de Locken, mas por preza-lo tanto resolveu “presenteá-lo” incapacitando-o. Só que nem ele nem ninguém contavam com a determinação do assassino. É um mundo sórdido, mas é o mundo que Locken escolheu viver.

tumblr_n50pbnHFS11trfa8po7_1280Fico pensando se o drama de Locken, um Ás do homicídio, não seria, de alguma maneira, o drama do próprio Peckinpah; enquanto Locken é um homem que se vê obrigado a vender seus talentos a indivíduos que parecem ser ainda mais mercenários que ele próprio, Peckinpah sofria com uma Hollywood que sempre preferiu o dinheiro a qualidade do trabalho de seus artistas. Aliás, se importa sim com a qualidade, desde que qualidade seja sinônimo de sucesso de bilheteria.

Uma simples ida ao perfil de Mike Medavoy no IMDB nos mostra que ele, produtor desse e de vários outros clássicos de Hollywood, como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa de Woody Allen e de sucessos mais recentes, como Zodíaco de David Fincher, tem noção que a função da industria é saber se “a pessoa merece o seu salário”. Medavoy é como Weyborne, personagem de Gig Young, que faz o papel do grande diretor da Com Teg, figurão que tem noção de tudo o que está a sua volta, que compreende e contribui para o “bom funcionamento” das engrenagens do sistema, que buscar manter a “ordem” do mundo, doa a quem doer. Peckinpah é o “ronin” manco que não mata por orgulho ou por ideologia, mas por ser basicamente aquilo que faz melhor, o serviço que se presta a fazer sem pestanejar. Se eventualmente ele fizer algum bem, ótimo, se não, resta apenas seguir em frente, ele não pretende salvar o mundo de si mesmo.

Culminando com uma cena de ação digna de seu nome, onde vemos os ultrapassados e esquisitos orientais serem massacrados pelas pistolas dos ocidentais, Peckinpah parece zombar da “nova onda” que vinha do Leste. Os ninjas podem ser habilidosos, mas não têm peito de ferro. Ver James Caan, que na vida real é faixa-preta de Karate, enfrentando os ninjas de bengala e observar Burt Young, que poucos anos depois viria a ficar marcado como o ranzinza Paulie dos filmes do Rocky, dando um coro nos “perigosíssimos” adversários é uma das melhores coisas que o cinema de ação americano já nos ofereceu, pela própria ironia da situação. Assassinos de Elite pode não ser o maior filme de sua década, até porque ele teria de concorrer com outras obras mais celebradas na própria filmografia de Peckinpah, mas é um filme de ação mais sofisticado do que muitos poderiam esperar. É daqueles bons filmes que merecem ser vistos e revistos.

Berlin ’39 – Sexo, Poder e Traição (Berlino ’39, 1994), Sergio Sollima

berlim

por Leandro Caraça

Esta última produção de Sergio Sollima para cinema não esta à altura dos seus grandes trabalhos do passado. Berlin 39 – Sexo, Poder e Traição é marcado por uma certa falta de vitalidade do então septuagenário diretor, e além do mais, o cinema italiano já havia entrado na descendente em que se encontra até hoje. A trama corriqueira de romance, espionagem e nazismo só consegue atenção graças a algumas caras conhecidas como Burt Young e John Savage.
No período pré-guerra da Alemanha de Hitler, o oficial Hans Lossberg (Ken Marshall, o herói de Krull) se casa com a filha de um velho general, ao mesmo tempo em que se envolve com a irmã de uma falecida membro da resistência. O filme segue em ritmo de novela das oito e a maior parte das cenas que trazem nudez ou lesbianismo não chegam a empolgar – a dança das caveiras é o único momento de maior inspiração. Levando em conta tudo aquilo que o cinema italiano já aprontou a respeito, acaba sendo muito pouco.

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