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JURAMENTO DE VINGANÇA (Major Dundee, 1965), Sam Peckinpah

por Ronald Perrone

Em meados dos anos 60, o western americano passava por um momento de transgressão. O modelo clássico “pedia arrego” enquanto os exemplares do gênero made in Europe viravam moda e influenciavam as produções do gênero que ainda eram feitas. Monte Hellman, por exemplo, foi um dos primeiros a começar a brincadeira, mas foi Sam Peckinpah quem fincou a cruz e praticamente enterrou o modelo clássico de fazer faroeste com o seu revolucionário Meu Ódio Será sua Herança (1969).

Mas antes disso, Peckinpah dirigiu Juramento de Vingança, que pode muito bem ser considerado um rascunho de Meu Ódio… em caráter de estilo e visual, embora ainda seja narrado nos moldes clássico. É um faroeste épico, sobre o major Amos Dundee (desempenho impecável de Heston), inspirado no famoso general Custer, que resolve declarar uma guerra pessoal e insana pra cima de um chefe indígena que havia sequestrado crianças, após realizar um massacre. Agindo de forma independente, Dundee forma um exército marginal composto por bêbados, negros, soldados prisioneiros, etc, e parte numa longa jornada com o pelotão, o que não deixa de ser uma missão suicida e sem sentido. No entanto, para Dundee vai servir como uma jornada de descobertas, especialmente  ao encarar de frente uma série de conflitos políticos e pessoais, o que inclui as contas do passado em aberto com um velho conhecido, vivido por Richard Harris.

E Peckinpah conduz tudo isso de forma magnífica, trabalhando as riquezas dos detalhes, revelando belos cenários, personagens complexos e contando com excelentes atuações (Warren Oates, James Coburn, Mario Ardof, Ben Johnson, etc).

Infelizmente, já naquela época, o perfil problemático de Bloody Sam começava a dar sinal. Peckinpah teve problemas com o produtor, corte final, diretor de fotografia, vários atores, etc. Dizem as lendas que Heston ameaçou fisicamente o diretor com um sabre, de tão desagradável que o diretor estava nas filmagens. Problemas à parte, o que se vê na tela é uma obra eficiente, Peckinpah trabalhando vários temas, personagens e soluções visuais que seriam definitivos em seu cinema pessoal. Juramento de Vingança pode não ser o trabalho mais marcante, violento e poético da carreira do diretor, mas não deixa de ser fundamental para este período do cinema americano.

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True Lies (1994), de James Cameron

tumblr_inline_n9eos4XgUI1rl4qkzpor Ronald Perrone

Não é de agora a fama de James Cameron como comandante de produções caríssimas, como vem sendo apontado atualmente, após o lançamento de Avatar. Quase todos os seus trabalhos são verdadeiras transgressões orçamentárias, inclusive True Lies, aparentemente um filme de ação simples. Reforço o “aparentemente”, porque basta conferir a obra para perceber que os 120 milhões de dólares utilizados aqui foram muito bem gastos. E isso era muita grana em 1994, tornando-se um dos filmes mais caros da época. Para o espectador que se propõe a embarcar nesta brincadeira de gênero até que sai barato, pois trata-se de um dos filmes de ação mais criativos e divertidos não só dos anos 90, mas de qualquer período após a invenção dessa arte chamada cinema.

O início é um espetáculo ao estilo James Bond e o final é ação grosseira e exagerada que remete aos filmes que marcaram a carreira do astro Arnold Schwarzenegger. Mas no meio disso tudo, há um segundo filme sobre um pai de família não muito presente, que deixa o bolo de aniversário esperando enquanto mata terroristas à caminho de casa. Até que um dia, ele passa a suspeitar que sua mulher, Jamie Lee Curtis, está tendo um caso extraconjugal. O sujeito em questão, vivido por Bill Paxton, é um vendedor de carros que mente à ela, gabando por ser um agente secreto.

true-liesEntram aí algumas questões referentes ao título do filme, que brinca com as palavras verdade e mentira. Arnoldão é um agente secreto, mas em casa todos pensam que é um vendedor de computadores, enquanto sua senhora se relaciona com um indivíduo que diz ser um espião. De um casamento sem graça surge para a esposa a oportunidade de expressar suas fantasias sexuais, sem saber que em casa possui o Rambo que ela sonha. A brincadeira vai longe quando Arnoldão, aproveitando do poder que tem, bota sua mulher numa situação apenas para dar um susto, mas coloca também a vida de toda sua família em perigo.

Os filmes de ação funcionam, em sua grande maioria, quando faz o público vivenciar a cada cinco ou dez minutos situações e elementos inerentes ao gênero. Caso contrário, ou o roteiro precisa ser muito bom ou vai espantar a clientela. Não há nada mais chato do que filme de ação sem ação. Não é o caso de True Lies, que praticamente suspende uma trama de espionagem e aventura e se concentra numa comédia familiar sem perder o pique,  deixando tudo amarrado de forma orgânica, além de ser tão emocionante e intenso quanto o mais eficaz filme de ação.

tumblr_na65jxcLwb1sly474o1_1280Schwarzenegger, fiel colaborador de Cameron, talvez tenha aqui sua melhor atuação, mas o diretor, que já havia extraído ótima performance do governador da Califórina em Exterminador do Futuro, sabe das limitações do sujeito e tenta ao máximo colocá-lo em “movimento”.  Mas é Jamie Lee Curtis quem rouba as atenções. A cena da dança sensual para um “estranho” é ao mesmo tempo cômica e excitante, uma bela demonstração de performance corporal dessa eterna scream queen. Aliás, seus gritos aqui chegam a ser um elemento dos mais expressivos de sua atuação. Outros destaques no elenco é a presença de Charlton Heston, o mala Tom Arnold e a bela Tia Carrere. Bill Paxton, já citado, também está ótimo!

Após True Lies, o diretor realizou apenas mais dois filmes até o momento, Titanic e Avatar, sem nunca conseguir atingir novamente a genialidade de trabalhos anteriores, embora sejam os filmes mais caros do universo. True Lies foi sua última obra-prima. Mas com Avatar ele demonstra ainda firmeza na direção de aventuras visualmente interessantes. Só precisa melhorar um pouco os roteiros e não esperar mais de dez anos para dirigir novamente.