O MATADOR (The Killer, 1989), John Woo

por Ronald Perrone

Sei que estamos retornando agora com o blog, fazendo um especial SAM PECKINPAH, mas ainda dá tempo para algumas pequenas anotações sobre filmes de diretores que ficaram faltando. O Matador, de John Woo, foi um deles e não dá pra ignorar uma obra prima como esta. Apesar de Woo ter começado a solidificar a sua reputação como diretor de ação em filmes como Alvo Duplo (1986), foi o sucesso internacional de O Matador, lançado três anos depois, que consolidou de uma vez por todas o nome do diretor no mercado internacional como um autêntico mestre do gênero.

O filme é um drama pra lá de meloso recheado com bastante sequências de ação exageradas. É sobre um assassino profissional sentimental, interpretado por Chow Yun Fat, que tenta juntar dinheiro, realizando uma série de assassinatos, com a intenção de pagar o transplante de córnea de uma cantora que ele cegou acidentalmente durante um de seus trabalhos. Qualquer semelhança com o clássico Luzes da Cidade não dever ser coincidência, já que Woo é fã confesso de Chaplin. Além do assassino, a trama divide seu tempo com um policial, vivido por Danny Lee, cuja missão é justamene capturar o matador do título, embora o sujeito passe a ter um profundo respeito por seu oponente.

As muitas cenas de ação alucinantes seguem à risca o estilo que Woo ajudou a criar, o Heroic Bloodshed, onde os personagens empunhavam uma pistola em cada mão e não economizam balas para enfrentar seus inimigos, mesmo que para isso tivessem de realizar as mais diversas acrobacias, como saltos, cambalhotas ou derrapar deitado de costas ao chão, sempre atirando, sem recarregar, uma quantidade de munição que seria o suficiente para um soldado americano enviado ao dia D na segunda guerra mundial. O tiroteio final é um dos mais representativos da carreira de Woo, com a ação se passando dentro de uma igreja e vários elementos característicos de seu cinema – balas, corpos e pombos – voando freneticamente pelos enquadramentos.

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Fervura Máxima (Hard Boiled, 1992), John Woo

por Luiz Alexandre

John Woo já tinha se reinventado em Hong Kong e seus filmes já haviam virado referência e contribuíram para a criação do gênero conhecido como “Heroic Bloodshed” (algo como “Sangria Heróica”), envolvendo um homem ou mais empunhando pistolas e enfrentando os inimigos mais desonrados da China. O tipo de cinema que o Chang Che fazia na década de 70, seus honrados espadachins que iam até o limite pelo que acreditavam, muitas vezes perdendo suas vidas, ganhou uma nova abordagem: eles passaram a usar pistolas, roupas elegantes, eram homens das ruas, solitários, anacrônicos, capazes de derrubar cem homens armadas até os dentes com muita desenvoltura, caso isso fosse necessário.

Depois de tantos trabalhos envolvendo membros da tríade, Woo começava a ser criticado por, veja só, glorificar essas organizações. Foi então que decidiu fazer um filme novo com uma pequena mudança: em vez do pistoleiro ser um homem ligado a uma organização criminosa, dessa vez o protagonista seria um policial. Contando novamente com o astro que ajudou a criar, Chow Yun Fat, dessa vez o homem de ação é o Inspetor “Tequila” Yuen, um sujeito durão e corajoso que quando não está trocando tiros e caçando criminosos toca saxofone em um bar de Jazz. Ele investiga as ações de um chefe criminoso chamado Johnny Wong (interpretado pelo xará Anthony Wong) que está contrabandeando armas. Em sua busca por justiça conhecerá o enigmático Tony, feito pelo também xará Tony Leung Chiu Wai, que já havia trabalhado com Woo em Bala na Cabeça. Tony na verdade é um policial infiltrado na gangue de Wong, cujo único contato na polícia é o Superintendente Pang (Philip Chan, que na vida real também é um oficial de polícia), que também é chefe de Tequila. Depois de uns estranhamentos iniciais, envolvendo até mesmo a namorada de Tequila, os dois decicem unir suas forças contra o cruel Wong, investindo todo o seu poder de fogo e, porque não, “cavalice” contra os tríades.

Não vou enrolar muito, o filme é simplesmente fantástico. As cenas de ação, com “lutas de pistola” tão bem coreografadas quanto um filme dos Venoms, que se fazem representados pelo magnífico personagem de Philip Kwok, o pistoleiro de um olho só, Mad Dog, que trabalha para Wong e uma curta participação de Lo Meng.

Aliás, Kwok, um velho conhecido dos fãs de Kung Fu Old School, exala carisma e virilidade com seu personagem. Assim como Tequila e Tony, Mad Dog é um homem com habilidades muito acima da de um homem comum, que apesar de trabalhar com um dos indivíduos mais perversos de Hong Kong, não suja suas mãos com sangue inocente. È o velho “bandido com senso moral” que mesmo velhos cineastas como Howard Hawks gostavam de trabalhar, e aqui Woo não fez feio.

Mas o destaque vai pra parceria entre o esquentado Tequila e o sofrido Tony, O primeiro ganha nossa simpatia pelo seu jeito “fuck you” todo especial de ser, pela maneira desajeitada com que tenta voltar com sua namorada, os ciúmes que sente com as flores que recebe (na verdade um artifício de Tony para mandar pistas para a polícia nos cartões que acompanham as flores), sem contar sua incrível habilidade de encarar milhões de inimigos sozinho. Além do nome fantástico, o personagem deve ter sido feito do mesmo material que indivíduos como Paul Kersey, John Matrix e Dirty Harry Calahan, ou seja, um sujeito durão até o osso como os bons da velha escola.

Já Tony, também um exímio guerreiro, sofre com o fato de ser obrigado a se passar por um bandido, tendo que trair a confiança daqueles que ama, como o Sr. Hoi (o falecido Hoi Shan Kwan) que sempre o acolheu como um filho. A cena em que ele mata o velho tríade para conquistar a confiança de Wong. Aliás, se Chow Yun Fat rouba o show com sua marra e malandragem, Leung, que provavelmente está para o drama como Jackie Chan está para as artes marciais, consegue ser cool, durão e sensível, criando uma persona ainda mais rica que Chow.

As grandiosas cenas de ação estão presentes por toda a película, com três destaques: a cena de abertura, no restaurante, com Tequila e seus colegas trocando chumbo pesado contra os tríades, a cena de invasão de um galpão pela gangue de Johnny Mo, acompanhada pelo enfrentamento de Tequila e a antológica e longuíssima batalha no hospital que serve de fachada para os bandidos, em especial o duelo de armas entre Mad Dog contra os dois policiais e uma cena de vários minutos, sem cortes, mostrando Tequila e Tony derrubando vários criminosos a bala. Inacreditável que algumas das belas cenas de violência estilizada deste filme, como a cena de Tequila descendo as escadas se apoiando no corrimão, tenham sido elaboradas de improviso. John Woo nem precisava de tanto após a feitura de Bala na Cabeça e The Killer, mas outra vez mais ele mostrou que sua fama não era apenas hype. Do início ao fim, o que vemos aqui não são apenas chineses violentos trocando “gentilezas”, mas homens de honra indo em direção ao inferno para enfrentar o mau. Contando apenas com um ao outro e nada mais. Howard Hawks, Sam Peckinpah e Chang Che devem estar orgulhosos!

Rajada de Fogo (Once a Thief, 1991), John Woo

por Ronald Perrone

Rajada de Fogo tem uma certa importância especial para a carreira de John Woo, não em relação ao filme em si, mas por proporcionar a continuidade de seu trabalho no cinema. Woo havia acabado a parceria com Tsui Hark; montou sua própria produtora cujo primeiro filme, Bala na Cabeça, embora seja uma grande obra, não foi um sucesso comercial; precisava urgentemente de um filme seguro, que não precisasse correr riscos e que tivesse um bom retorno financeiro. Contratou dois atores com quem já havia trabalhado antes e que possuíam grande apelo popular, Chow Yun-Fat  e Leslie Cheung, desenvolveu um enredo simples sobre roubo de obras de artes, incrementou com cenas de ação eletrizantes, acrescentou toques de melodrama adicionados de um humor pastelão. Acabou acertando em cheio. Rajada de Fogo é um dos filmes mais comerciais de John Woo, um interessante híbrido de ação e comédia que garantiu um público amplo nos cinemas. O filme é, realmente, bastante divertido, embora algumas situações de comédia não funcionem tão bem no meio dessa mistura toda. Os atores estão ótimos, em especial a dupla protagonista, com o falecido Leslie Cheung bastante carismático e Chow Yun Fat totalmente à vontade em seu papel, que carrega boas doses dramáticas e cômicas durante o decorrer da estória. E ainda há a bela Cherie Chung se colocando no meio do triangulo amoroso, embora a força narrativa se concentre na amizade dos dois protagonistas.

Rajada de Fogo, no fim das contas, não chega a ir muito longe dentro da filmografia de Woo, mas é um entretenimento agradável que atende as expectativas do publico menos exigente e não deixa de divertir os fãs do diretor. O filme rendeu quatro vezes mais que seu trabalho anterior, Bala na Cabeça, e permitiu que Woo realizasse sua obra prima, Fervura Máxima, e preparasse para o seu exílio nos Estados Unidos.

Alvo Duplo 2 (A Better Tomorrow 2, 1987), John Woo

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por Bruno C. Martino

Contrariando uma regra implícita de vários filmes de sucesso chineses, Alvo Duplo 2 continua a contar a saga dos três personagens ao invés de só pegar o título e contar uma outra história. Ainda bem! Aqui, Ho (Ti Lung) está cumprindo pena na cadeia e é recrutado pela polícia para investigar um antigo patrão, Leung (Dean Shek) ao mesmo tempo em que seu irmão Kit (Leslie Cheung) se aproxima da filha de Leung para investigar o homem. Só que a única conclusão a que chegam é que Leung largou a vida de pilantragem e decidiu ser um homem e empresário honesto. O problema é que seus sócios não pensam assim, e após um atentado contra sua vida, Leung é acusado de assassinado e resolve fugir para Nova Iorque. Quando seu sócio Ko (Shan Kwan)- o verdadeiro pilantra do esquema – descobre seu paradeiro, manda matar a filha de Leung e envia mercenários para Nova Iorque pra dar cabo do sujeito. Leung acaba se safando de novo só que desiludido com a vida e ao ver seu amigo padre ser assassinado, entra em choque se transformando numa espécie de autista, que passa a ser cuidado por Ken (Chow Yun Fat). Depois de mais um atentado onde escapa, Leung milagrosamente sai do estado vegetativo que estava e pega em armas ao lado de Ken e Ho contra Ko.

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Escrito por John Woo e Tsui Hark, o segundo capítulo da série soa um pouco desleixado em relação ao anterior (repararam nesse meu resumo como o filme é basicamente um bando de capangas tentando pegar Leung em diferentes momentos?). O roteiro não sabe onde focar, se é no personagem de Shek ou no trio de amigos. Curioso é que o carisma de Chow Yun Fat na série foi tão grande que Hark e Woo conseguiram até arrumar um lugar pro ator na seqüência do filme (já que no primeiro seu personagem original havia morrido). Só que arrumaram uma desculpa das mais esdrúxulas, tipo de novela mexicana: Ken é o irmão gêmeo de Mark (o personagem interpretado por Chow Yun Fat no original)! Não que isso faça muita diferença, já que o que importa é ter Yun Fat distribuindo tiros durante o filme. Curiosamente Ken ainda serve como alívio cômico, diferente do amargurado e trágico Mark. Mas assim como o outro é cool até a medula, como quando usa o sobretudo furado de balas do irmão falecido.

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Alvo Duplo II sofreu diversas remontagens e foi alvo de diferenças criativas entre seus roteiristas, talvez daí se expliquem algumas seqüências desnecessárias ou que se estendem demais, o maior foco no personagem de Dean Shek e o trio principal praticamente apagado. Mas mesmo apagado, os outros atores ainda têm tempo de mostrar serviço como Ti Lung, sempre carismático, e Leslie Cheung aqui dividido entre o amor da esposa que teve um filho e o ofício de policial. A cena em que Kit batiza a filha por telefone, já vale para o personagem deixar sua marca na série. E Ken Tsang reprisa seu papel (o de dono da oficina mecânica) com a competência de sempre (deixem eu ser um pouco tiete: eu adoro esse ator!!)

Mas é no quesito ação que todos os problemas de roteiro, montagem e diferenças criativas são esquecidos. A seqüência de ação no hotel, onde Ken deve proteger Lung de mais uma leva de assassinos é emocionante, e a seqüência final na mansão de Ko é uma das mais antológicas que já vi, com direito a três personagens contra um exército de capangas, onde Chow Yun Fat joga granadas a torto e a direito e Ti Lung acaba com malfeitores a golpes de espada! Sem contar que o rol de vilões ainda conta com um fortão empunhando um machado medieval (!!!) e um pistoleiro que sempre anda de óculos escuros. Este rivaliza com o matador caolho de Fervura Máxima como um dos vilões mais legais de um filme de John Woo. As seqüências de ação são tão boas, que o coreógrafo Ching Siu Tung (de Chinese Ghost Story) foi indicado ao Hong Kong Film Awards.

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Dizem que Woo nunca gostou de fazer seqüências de seus filmes e só fez esse porque Dean Shek estava numa situação financeira não muito boa, e como ele foi co-fundador da Cinema City que produziu este e o primeiro Alvo Duplo (e acolheu Woo após sua saída da Golden Harvest), talvez o diretor achou que devesse prestar essa ajuda ao seu produtor e conhecido desde os tempos da Shaw Bros.

A série ainda tem uma parte 3, dessa vez capitaneada por Tsui Hark sendo esta um prelúdio do primeiro filme. E em 1994, o diretor Wong Jing daria um revival na série com Return to a Better Tomorrow (lançado aqui como A Fúria do Crime), uma lástima que além de não ter nenhum personagem dos originais ainda é estrelado por Ekin Cheng, um ator por quem nunca simpatizei. Estou dando 4 “Van Cleefs”, mais pelas cenas de ação do que pelo resto! Valem a pena!

4 cleef

Alvo Duplo (A Better Tomorrow, 1986), John Woo

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por Ronald Perrone

Alvo Duplo é um dos filmes mais importantes da carreira de John Woo e demonstra que No Coração do Perigo não foi um acidente de percurso em termos de liberdade criativa. Em 1986, Woo se juntou ao produtor Tsui Hark e  os dois realizaram este clássico instantâneo. O filme ganhou a maior atenção internacional do que qualquer outro trabalho do diretor até aquele período, reinventou o cinema de ação de Hong Kong redefinindo o subgênero Heroic Bloodshed e serviu de trampolim para que o ator Chow Yun Fat se tornasse um astro.

O roteiro é inspirado no filme The Story of a Discharged Prisoner, de 1967, dirigido por Patrick Lung Kong, e conta uma história repleta de cargas emotivas sobre dois integrantes do sindicato do crime de Hong Kong: Ho ( Ti Lung, um dos grandes nomes do cinema de kung fu), e Mark (Chow Yun Fat). Ambos trabalham na divisão de falsificação de dinheiro da organização. Ainda há outro personagem importante na trama, Kit (Leslie Cheung), irmão caçula de Ho que acabou de se graduar na polícia e nem imagina o primogênito de seu pai trabalhando no crime organizado.

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Após uma tragédia que afeta profundamente a vida desses três personagens, John Woo mapeia a narrativa com fortes doses de conflitos psicológicos, transformando Alvo Duplo num autêntico melodrama – característica sempre constante na carreira do diretor. Woo procura trabalhar o sentimentalismo ao extremo, utilizando-se sempre dos mesmos mecanismos: amizade, confiança, perdão, redenção, fraternidade, que é onde o diretor encontra base para extrair a força da sua dramaturgia.

A construção de personagens profundos e o elenco contribuem bastante no resultado, especialmente Chow Yun Fat e Ti Lung, que estão notáveis em seus papéis. Fat, inclusive, foi um dos mais beneficiados pela sua participação em Alvo Duplo. Saiu apontado como autêntico homem de ação dos filmes de HK, seus óculos escuros e o sobretudo ao estilo  Alain Delon em O Samurai, de Jean Pierre Melville, viraram moda entre os jovens da época. Só faltou saírem queimando dinheiro para acender o cigarro, como na emblemática cena em que o personagem também o faz.

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Se Chow Yun Fat está impecável e esbanja carisma em cena, é Ti Lung quem, na verdade, carrega o filme nas costas como o protagonista, com seus conflitos pessoais densos e uma atuação digna de maior reconhecimento. E tudo isso engrandece o filme de John Woo, mas o que realmente chama a atenção são as aguardadas sequências de tiroteios. Woo ainda não havia atingido o seu paroxismo para tais cenas, como já aconteceria em The Killer e Fervura Máxima, mas são muito elegantes em Alvo Duplo, com boas coreografias, uso da câmera lenta e a consagração da imagem do homem com duas pistolas nas mãos distribuindo chumbo nos bandidos.

Alvo Duplo é obrigatório para conhecer as raízes da reputação de John Woo como mestre do cinema de ação. Certamente não é o melhor filme do diretor, que ao longo dos anos fez algumas obras primas do gênero Heroic Bloodshed, mas não deixa de ser indispensável e dá pra ter uma noção do que o sujeito é capaz de fazer.

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