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A Última Ameaça (Broken Arrow, 1996), de John Woo

por Ronald Perrone

Quem reclama do cinema ocidental de John Woo ou é preconceituoso ou não sabe se divertir com filmes que se assumem como uma grande brincadeira inverossímil em forma de ação. Em A Última Ameaça, temos explosões nas mais diversas escalas, tiroteios infinitos, trens se chocando, lutas em cenários impróprios, é ação do começo ao fim num espetáculo de coreografias estilísticas que John Woo inventou e reinventou a cada filme.

Claro que se formos analisar a carreira de Woo, A Última Ameaça se encontra numa fase que precede o seu declínio. Em comparação com seus trabalhos orientais, é inferior; mas com os filmes realizados após A Outra Face, é um ótimo exemplar de ação exagerado, descerebrado, que não ofende aquele espectador cujo desejo é apenas relaxar em companhia de um ótimo passatempo fílmico.

tumblr_n7q0wlPq2o1tecqmdo1_1280A Última Ameaça foi o primeiro grande sucesso do diretor em solo americano, após estrear em O Alvo, com Jean Claude Van Damme, o qual teve uma bilheteria mais discreta. Acostumado a orçamentos pequenos quando trabalhava em Hong Kong, Woo aproveitou muito bem o dinheiro, o bom elenco encabeçado por John Travolta e Christian Slater e contratou um roteirista que sabe desenvolver entrechos intensos de ação, Grahan Yost, o mesmo de Velocidade Máxima, que é fraco e limitado, na minha opinião, apesar do mote prender o público até o fim.

Travolta interpreta um major do exército americano que resolve roubar uma bomba atômica para chantagear o governo, conseguir uma grana e se aposentar com um trocado no bolso. Que trabalheira! Será que não havia uma forma mais fácil de conseguir isso? Mas tudo bem… Após conseguir a bomba, ele e seus capangas fogem pelo deserto do estado de Utah.

118_13_screenshotNo seu encalço está o oficial mais jovem e inexperiente vivido por Slater, quando ainda dava algum valor pela sua imagem, antes de estrelar filmes como Alone in the Dark, de Uwe Boll. O filme é basicamente essa trama de gato e rato pelo deserto, com Slater comprometido a impedir Travolta a qualquer custo. Uma baboseira, eu sei, mas um picadeiro perfeito para John Woo delirar em sequências de ação de encher os olhos.

A última Ameaça faz um inventário de todos os elementos que funcionam num filme de ação e joga na tela a cada 5 minutos. Quase não dá tempo de respirar e é isso que constitui o que há de mais saboroso no filme. A maioria daqueles que consideram John Woo um dos maiores gênios do cinema de ação (como eu, até), fica com o pé atrás num filme como este aqui, alegando que o diretor se ocidentalizou e etc. Claro que Woo teve de fazer concessões, mas estão lá todos os subsídios que formam o seu estilo. Até mesmo em seu piores trabalhos ele permanece fiel a suas peculiaridades deixando bem claro que ainda tenta fazer o melhor, embora não tenha funcionado todas as vezes nos últimos anos.

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Códigos de Guerra (Windtakers, 2002), John Woo

por Leandro Caraça

Deveria ter sido o filme que restauraria o nome de John Woo para seus antigos fãs e a sua definitica consagração nos EUA. Uma aventura de guerra à moda antiga, os costumeiros temas de honra e lealdade e a volta de Nicolas Cage e Christian Slater. Tudo mudou durante a pré-produção com os ataques terroristas de 11 de setembro. De repente, filmes de guerra perderam a predileção do público e Códigos de Guerra foi tratado como um elefante branco pelo próprio estúdio que o produzia. Mais tarde quando a opinião pública americana pedia sedenta por uma intervenção militar no Iraque, o filme de Woo havia naufragado nas bilheterias. É uma pena, pois se trata do melhor roteiro que o chinês pegou nas mãos desde que aportou nos EUA. Cage e Slater são dois oficiais americanos durante a Segunda Guerra que precisam, de qualquer forma, proteger dois soldados de origem navajo que transmitem códigos militares em sua língua nativa. Proteger também siginifica matar aos dois subalternos antes que eles sejam capturados pelos inimigos japoneses, que desta foram teriam a chave para decodificar as mensagens. Muitos reclamaram do tom racista (I’m here to kill japs !) e das imagens de arquivo em P&B enxertadas na narrativa, coisa muito comum nos velhos filmes do gênero. Não foram capazes de enxergar o tom humanitário que John Woo vai ao pouco acrescentando aos personagens mais detestáveis, como o protagonista interpretado por Cage em um dos seus melhores papéis na década. As situações chegam a lembrar clássicos do calibre de O Inferno é Para os Heróis de Don Siegel e A Cruz de Ferro de Sam Peckinpah, mas sem alcançar a nível deles. O filme pode não ter ajudado a mudar a triste situação de John Woo em Hollywood, mas serviu para nos lembrar do grande diretor que pode ser quando tem a oportunidade. As ótimas cenas de ação e o belo final, citando John Ford, apenas comprovam isso.