LAS BRUJAS DE ZUGARRAMURDI (2013), Álex de la Iglesia

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O gordinho espanhol Álex de la Iglesia estava devendo um grande filme há um bocado de tempo. Qual foi o último trabalho realmente relevante do homem? Pra mim foi CRIME FERPEITO, de 2004, ou seja, o que aconteceu? Não sei explicar, mas embora LAS BRUJAS DE ZUGARRAMURDI não seja ainda o filme que veio para recolocar a carreira do Iglesia de volta nos trilhos, representa um pouco um retorno à boa forma, mesmo estando longe do nível de um EL DIA DE LA BESTIA ou PERDITA DURANGO.

Um dos principais aspectos da queda de qualidade dos últimos filmes de Iglesia me parece ser uma tendencia do sujeito a se prender num padrão pessoal de produção criativa que tem saído de seu controle. Tudo nos seus filmes tem que ser completamente absurdo, cheio de simbolismos, enfim, exagerado de todas as formas possíveis e à sua maneira, esquecendo que existe um recurso básico que poderia ajudá-lo a se conter nessa profusão de ideias onde tudo é aproveitado e inserido à força na tela. Esse recurso é conhecido como sutileza, uma palavrinha que deve ter caído do dicionário do homem.

foto-las-brujas-de-zugarramurdi-4-511No entanto, embora LAS BRUJAS DE ZUGARRAMURDI também sofra de todo esse mal, de alguma maneira os exageros e simbolismos conseguem funcionar melhor e acaba divertindo sem cansar o público, como era o caso de BALADA TRISTE DE LA TROMPETA. Na trama temos José, um pai dedicado, apesar da profissão não ser das mais exemplares para um homem nessa posição. O sujeito é um ladrão de meia-tigela e logo no início do filme decide assaltar uma loja de penhores em Madrid com seu amigo Antonio, justamente no fim de semana em que precisa cuidar do seu filho. Vale destacar que o sujeito está fantasiado dessas estátuas humanas “prateadas”, caracterizado de Jesus. Jesus Prateado…

As coisas não correm muito bem no serviço, os dois ladrões e o menino acabam sequestrando um táxi forçando o motorista a levá-los até à França. Mas acabam presos num vilarejo repleto de bruxas, que estão prestes a realizar um ritual e precisam de uma criança para um sacrifício… Oops!

foto-hugo-silva-y-mario-casas-en-las-brujas-de-zugarramurdi-3-825Pois é, material dos bons o que temos aqui. O ritmo alucinado e alguns momentos genuinamente atmosféricos também garantem que o espectador não tire os olhos da tela – e a belezinha Carolina Bang, que faz uma das bruxas, contribui bastante pra isso – mas, infelizmente, LAS BRUJAS DE ZUGARRAMURDI nunca parece atingir todo o potencial que se espera nas mãos do Iglesia. É o tipo de filme que se revela na sua falta de pretensão e tenta se garantir assim: bobo, divertido, sem qualquer risco, sem algo que realmente instigue o espectador.

É preciso elogiar, entretanto, o tratamento visual do filme, que trabalha bem a atmosfera e as cores como efeito dramático. A influência de Sam Raimi – em seus primeiros tabalhos – é evidente em vários dos elementos visuais de horror, na maneira como mistura o gênero com comédia e, especialmente, no uso de efeitos especiais num CGI meio tosco, mas que dá um charme estético interessante. Os diálogos são ágeis e engraçados e a galeria de personagens é carismática, com alguns rostos bem conhecidos do cinema espanhol, como Carmen Maura. No entanto, no fim das contas, LAS BRUJAS DE ZUGARRAMURDI não consegue passar disso, de um visual bacana com personagens simpáticos e engraçadinhos. Longe de ser ruim (e muito melhor que as comédias atuais de Hollywood), mas sempre espero mais do Iglesias.

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UMA TACADA DA PESADA (Deal of the Century, 1983), William Friedkin

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por Ronald Perrone

Uma comédia sem graça nenhuma ou uma sátira de humor negro pouco compreendida? O próprio William Friedkin evitou falar de Uma Tacada da Pesada em sua autobiografia, lançada neste ano de 2013. Vai ver não lhe veio nada interessante para falar. Ou talvez fosse tão insignificante para o diretor que achou que não valeria a pena. O fato é que senti a mesma coisa em relação a obra: um filme desinteressante, insignificante. Trata-se de um dos trabalhos mais fracos do Friedkin e talvez seja por isso que eu, também, não tenha muito a dizer.

Mas, respondendo a pergunta do início, prefiro colocar a segunda opção. Uma Tacada da Pesada é uma sátira sobre o comércio de armamento no pós-Vietnã e, por fazer graça de um assunto sério e relevante, o humor é mais reflexivo do que apenas feito para gerar risadas. Neste caso, o título nacional e até mesmo a arte dos cartazes tentam passar uma imagem errada do que é visto na tela. O filme não é essa comédia de Sessão da Tarde, estilo Férias Frustradas, que aparenta ser. No entanto, o fato de Friedkin trabalhar um tipo de humor no qual não é preciso dar gargalhadas não retira a ideia de que é necessário, de alguma maneira, ser engraçado. E aqui não é. Por isso a pergunta do início do texto é pertinente, pois dizer que Uma Tacada da Pesada é uma comédia sem graça também é válido.

Friedkin, mestre supremo do cinema corpo, dos temas fortes e polêmicos, das perseguições de carro, parece simplesmente não saber o que fazer o material que tem aqui. Tem tudo nas mãos, mas Uma Tacada da Pesada acaba sendo um grande nada. Desperdiça o talento de Chevy Chase, Gregory Hines e Sigourney Weaver, que não podem fazer muito para tornar o filme ao menos divertido. São poucas as sequências promissoras, como a que Chase faz uma demonstração de uma arma para rebeldes em plena trocação de tiros com a polícia num país da América Central, ou a que Chase é assaltado e, por possuir um trabuco bem maior, acaba ele mesmo roubando a carteira do bandido. No entanto, são cenas que não tem muita importância para a trama. Ficam soltas, perdidas, enquanto a história, cujo tema central poderia render uma ótima análise,  acaba se tornando uma prova de tolerância para o saco do espectador. Ou será que é má compreendida?

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THE BIRTHDAY PARTY (1968) William Friedkin

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por Marcelo V.

O terceiro longa-metragem de William Friedkin já representou uma guinada radical em sua carreira, mais condizente com sua obra posterior: da estreia com Good Times, uma comédia de esquetes com Cher e Sonny Bono, e de uma malfadada experiência com The Night They Raided Minsky’s, lançado posteriormente, ele passa para uma adaptação da mais famosa “comedy of menace” (trocadilho com “comedy of manners“, comédia de costumes, que batizou a produção de um grupo de dramaturgos do final dos anos 1950 também ligados ao Teatro do Absurdo) do londrino Harold Pinter. Friedkin viu a peça em San Francisco e procurou o dramaturgo para levá-la às telas.

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Se a peça tem um enredo obscuro (resumi-lo seria pueril, mas vale a pena ressaltar que aqui os diálogos contêm falas que haviam sido censuradas na sua estreia britânica, 10 anos antes), Friedkin possui uma importante qualidade para um diretor de cinema: clareza. Com exceção de alguns planos externos, em especial no início do filme, vemos um trabalho de um cineasta
já com alguma maturidade, que não se deixa levar pela tentação de ser meramente um esteta diante de um material a princípio pouco cinematográfico. Objetividade e o fato de ele não demonstrar porcamente a intenção de guiar o espectador são outros pontos fortes.

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Mesmo assim, o filme termina sendo muito mais de Pinter (que esteve no set o tempo todo e deu bastante apoio ao jovem diretor) que de Friedkin, que diz não se orgulhar muito do resultado final. Se ainda não vemos aqui o brilho forte de trabalhos posteriores, pelo menos temos um elenco de primeira linha, com Robert Shaw e Dandy Nichols à frente. E a desafiadora dramaturgia de Pinter é garantia de que você não se esquecerá facilmente desta história.

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QUANDO O STRIP TEASE COMEÇOU (The Night They Raided Minsky’s, 1968), William Friedkin

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por Luiz Alexandre

Tá aí uma obra curiosa na carreira de Friedkin. Uma comédia musical, inspirada no romance Minsky’s Burlesque, de Rowland Barber, de 1960, que conta de maneira romanceada o surgimento da modalidade de dança erótica que o título em português entrega logo de cara.

Na trama, que se passa na Nova Iorque dos anos 20, uma jovem e inocente garota amish, Rachel Schpitendavel (Britt Ekland), foge de sua comunidade na esperança de se tornar uma dançarina de musicais da Broadway. Tendo apenas seus sonhos como guia, ela vai parar no Teatro Burlesco Minsky, cujo dono, Billy Minsky (Elliot Gould), precisa se desdobrar para lidar com a censura promovida pelo moralista cristão Vance Fowler (Denholm Elliot) que quer acabar com o teatro e seus shows sensuais, além de seu pai Louis (Joseph Wiseman), um judeu ortodoxo que não aprova os negócios do filho.

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Além deles, a trama se centra também em dois astros da casa, os humoristas Raymond Paine (Jason Robards em estado de graça), um crápula carismático e mulherengo, e Chick Williams (Normam Wisdom, esplêndido), um doce e sentimental clown, que na tentativa de salvar o Minsky convencem seu patrão a deixar Rachel apresentar seu único talento artístico, a dança bíblica, publicitando o ato como uma apresentação de Madame Fifi, a dançarina sensual de Paris que se despe ao vivo, na esperança de ridicularizar o hipócrita Fowler ante a polícia e a comunidade. Além disso, o pai da moça, Jacob (Harry Andrews), um austero pastor amish, quer trazer sua menina de volta aos “bons caminhos” de sua cultura. Fora que os atrapalhados Paine e Chick precisam impedir que o mafioso Candy Butcher (Jack Burns), um dos investidores do teatro, ponha suas mãos e algo mais em Rachel, pela qual ambos se apaixonam.

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É preciso dizer que o filme não foi finalizado por William Friedkin. Com um corte inicial considerado pelo executivo da United Artists da época, David Picker, como o pior que ele já viu, a obra foi tirada das mãos do diretor. Depois de produzido o filme foi enviado para o editor Ralph Rosenblum, que vinha de um trabalho intenso no filme The Producers, de Mel Brooks, que, entre outras coisas, refez a introdução do filme, com as belíssimas imagens de arquivo da metrópole americana nos anos vinte fundidas com cenas das apresentações musicais, e, aparentemente, deu o ritmo ágil que vemos na tela.

Hurricane Bill, indivíduo com língua ausente de papas e, como seu apelido entrega, de personalidade pouco afável, não apenas despreza o filme como disse publicamente na época que foi “a maior porcaria que eu já trabalhei”. Não se pode precisar até que ponto Rosenblum é responsável pelo que o filme é, mas é inegável que as apresentações musicais, a edição, o texto e, principalmente, a galeria de personagens e coadjuvantes que povoam a trama são utilizados de maneira primorosa, com exceção apenas de Bert Lahr com o seu adorável Professor Spats, já que o veterano ator infelizmente morreu durante as filmagens.

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O filme não é meramente uma homenagem satírica e inspirada ao teatro burlesco, mas uma reflexão anárquica sobre aquele período histórico somada a uma comédia pastelão hilária. Ao mesmo tempo em que o burlesco foi uma forma de entretenimento pensado para o deleite inconsequente dos adultos da época, ele também tratou, a sua maneira despojada e falsamente desinteressada, dos costumes, do sexo, da liberdade de expressão do corpo e de um inconformismo maroto ante a moral. Em tempos em que basta se filmar em preto e branco, tirar o som e colocar um bigodinho fino no protagonista para se fazer um filme “à moda da época”, assistir Quando Começou o Strip Tease (admito, um “título-spoiler”, mas belo como o de uma boa pornochanchada) serve tanto para nos entreter quanto para nos abrir os olhos quanto ao que pode ser o cinema como tributo a uma modalidade estética do passado.

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GOOD TIMES (1967) William Friedkin

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por Leandro Caraça

A estreia de William Friedkin em longa metragem não poderia ser mais atípica. Seguindo na trilha aberta por Richard Lester e os Beatles em Os Reis do Iê-Iê-Iê (1964) e Help! (1965), o casal de astros Sonny Bono e Cher interpretam a si mesmos na comédia musical Good Times. Após ver um dos documentários que Friedkin havia feito para o canal ABC, Bono decidiu que este jovem, mas experiente rapaz seria o diretor do filme. De fato, William Friedkin passara a década de 1960 trabalhando em documentários e shows para televisão, tendo filmado milhares de programas ao vivo durante oito anos consecutivos.

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A dupla Sonny e Cher não deixou um legado importante para a música pop, e William Friedkin em sua recente autobiografia, foi extremamente generoso ao chamar Sonny Bono de gênio musical. Compositor razoável e com uma voz horrível, ele tinha a figura de Cher para balancear as coisas, e o resultado realmente conseguiu atrair o público menos chegado ao rock e a psicodelia regentes. Comparado a viagem lisérgica dos Beatles em Magical Mistery Tour (Bernard Knowles / The Beatles 1967) e dos Monkees em Os Monkees Estão de Volta (Head de Bob Rafelson), realizado um ano mais tarde, o filme de Sonny e Cher não passa de uma diversão ligeira para a família. No elenco, além de George Sanders no papel de Mordicus, um poderoso produtor de cinema, há as pontas de Mickey Dolenz dos Monkees e Edy Williams (futura estrela e esposa de Russ Meyer).

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Além de Bob Rafelson e Richard Lester, outros cineastas talentosos em começo de carreira também dirigiram astros pop, como John Boorman com Catch Us If You Can (1965), veículo para o Dave Clark Five. Em Good Times, Friedkin faz bom uso da movimentação da câmera, e deve ter sentido certo alívio longe dos limites da televisão pela primeira vez. Se o humor mostrado no filme não chega a ser muito melhor do que as aventuras da turma da praia da AIP, o diretor tem a chance de parodiar os gêneros do faroeste e do policial noir durante os devaneios de Sonny Bono no decorrer do filme. Por outro lado, somos obrigados a encarar o protagonista vestido de Tarzan também. A simpatia do casal ajuda bastante, assim como os números musicais (embora as canções variem muito de qualidade), com Friedkin vez ou outra brincando com uma linguagem visual que mais tarde daria origem ao estilo MTV.

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Rajada de Fogo (Once a Thief, 1991), John Woo

por Ronald Perrone

Rajada de Fogo tem uma certa importância especial para a carreira de John Woo, não em relação ao filme em si, mas por proporcionar a continuidade de seu trabalho no cinema. Woo havia acabado a parceria com Tsui Hark; montou sua própria produtora cujo primeiro filme, Bala na Cabeça, embora seja uma grande obra, não foi um sucesso comercial; precisava urgentemente de um filme seguro, que não precisasse correr riscos e que tivesse um bom retorno financeiro. Contratou dois atores com quem já havia trabalhado antes e que possuíam grande apelo popular, Chow Yun-Fat  e Leslie Cheung, desenvolveu um enredo simples sobre roubo de obras de artes, incrementou com cenas de ação eletrizantes, acrescentou toques de melodrama adicionados de um humor pastelão. Acabou acertando em cheio. Rajada de Fogo é um dos filmes mais comerciais de John Woo, um interessante híbrido de ação e comédia que garantiu um público amplo nos cinemas. O filme é, realmente, bastante divertido, embora algumas situações de comédia não funcionem tão bem no meio dessa mistura toda. Os atores estão ótimos, em especial a dupla protagonista, com o falecido Leslie Cheung bastante carismático e Chow Yun Fat totalmente à vontade em seu papel, que carrega boas doses dramáticas e cômicas durante o decorrer da estória. E ainda há a bela Cherie Chung se colocando no meio do triangulo amoroso, embora a força narrativa se concentre na amizade dos dois protagonistas.

Rajada de Fogo, no fim das contas, não chega a ir muito longe dentro da filmografia de Woo, mas é um entretenimento agradável que atende as expectativas do publico menos exigente e não deixa de divertir os fãs do diretor. O filme rendeu quatro vezes mais que seu trabalho anterior, Bala na Cabeça, e permitiu que Woo realizasse sua obra prima, Fervura Máxima, e preparasse para o seu exílio nos Estados Unidos.

O Mendigo Bilionário (Run Tiger, Run, 1985), John Woo

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por Leandro Caraça

Última comédia dirigida por John Woo, pelo menos até o momento, O Mendigo Bilionário é a mais exagerada e frenética de todas as incursões do diretor no gênero. Ray Shit (sim, o nome é esse mesmo) e seu sobrinho Tommy de 4 anos vivem de pequenos golpes nas ruas. Perto dali, o pequeno Bin Bin mora numa rica mansão com o seu excêntrico avô (Tsui Hark, que mais tarde produziria os clássicos Alvo Duplo e The Killer). Rodeado por empregados e brinquedos de todos os tipos, o garoto sofre com a falta dos pais, mortos num acidente, mas isso começa a mudar com a chegada da babá Mary. Após a morte do avô, provocada pelo malvado sobrinho James, a fortuna fica com Bin Bin. Em caso de acidente fatal, ela irá para James. Preocupada com a integridade do menino, Mary o esconde do bandido. Este ordena seus capangas que achem o menino. Logo eles encontram Shit e Tommy, que possuí a mesma aparência de Bin Bin. Os dois são convidados para visitar a mansão sem saber nada sobre a herança e a existência do sósia do garoto. Quando as tentativas de James de dar cabo da dupla (e embolsar a grana, apresentando Tommy como sendo Bin Bin) falham, ele chama a Srta. Lábios Mortais, que é capaz de matar um homem com apenas um beijo. Livremente inspirado no conto O Príncipe e o Mendigo e com tiradas visuais que parecem ter saído de um filme de Buster Keanton ou de um desenho animado, O Mendigo Bilionário não dá um minuto sequer de descanso com sua avalanche de piadas. Destaque para o baixinho Robin Kwan como Shit, Frank Hsu no papel do Tio Frank e Yin Tze Pan como Mary – e quase duas décadas depois de O Espadachim Sem Braço, a atriz ainda mantinha a sua beleza intacta. Aqui termina uma etapa da carreira de John Woo, que no ano seguinte ressurgiria como um dos grandes mestres do cinema policial.

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Resgate Alucinado ( Laughing Times, 1981), John Woo

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por Leandro Caraça

Contrato desfeito com a Golden Harvest, John Woo fez a sua estréia na Cinema City homenageando o maior comediante de todos os tempos. Resgate Alucinado mistura figuras marcantes da filmografia de Charlie Chaplin com elementos do cinema de Hong Kong. Um vagabundo trajado igual ao Carlitos se mete em confusões com a polícia, apaixona-se por uma cantora pobre, adota um trombadinha de rua, fica amigo de um bebum e no final, precisa enfrentar um chefão do crime e os seus capangas, trajados como se tivessem saído de algum filme de gangster francês. Dois dos fundadores da Cinema City marcam presença. Dean Shek interpreta o vagabundo, enquanto que Karl Maka faz a parte do vilão. Nem todas as piadas funcionam como deveriam, mas ninguém pode acusar John Woo de ter feito uma comédia sem graça. Shek copia todos os maneirismos de Chaplin de forma satisfatória e o humor físico, em especial nas lutas, alegra os fãs de Didi Mocó e sua trupe. Um pouco fora de lugar são as mensagens de cunho cristão que aparecem durante o filme, sendo que desta vez, John Woo não faz piada alguma com sua própria religião. Embora não tão importantes quanto suas obras do gênero policial, as comédias do diretor merecem ser mais conhecidas por pessoas livres de preconceitos.

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A Farra do Demônio (To the Hell with the Devil, 1981), John Woo

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por Bruno Martino

Se você, como eu, estava acostumado nos anos 90 com o John Woo mestre do tiroteio e filmes de ação, com certeza se surpreenderia com essa investida do diretor no gênero fantástico, assim como me surpreendi na época em que comprei o VHS num sebo lá no fim dos anos 90 (a fita inclusive trazia o nome gigantesco do diretor na capa pra chamar atenção). Esse “terror-cômico-sobrenatural” é sobre um fracassado que vive de bicos e trambiques e ainda é metido a ser compositor, interpretado pelo hilário e injustiçado Ricky Hui. Curiosamente seu nome é Bruce Lee – “Mas eu não luto kung fu”, diz sempre que se apresenta. Quando se apaixona pela bela Peggy (Jade Hsu ) compõe uma canção que acha que será um estouro, até o dia em que um astro pop new wave chamado Rocky (Pak –Cheung Chan) a rouba e começa a fazer um sucesso tremendo. Decepcionado com a vida, acaba se tornando alvo de uma disputa entre Céu e Inferno quando um padre recém falecido (Paul Chun) sobe aos céus e recebe a missão divina de salvar a alma de Bruce, ao mesmo tempo em que um mal caráter “meio-fantasma e meio-humano” chamado Flit (Fung Shui Fan) recebe a missão de trazer uma alma fresca para Satanás no Inferno.

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A Farra do Demônio é uma espécie de versão pastelão da comédia americana O Diabo é Meu Sócio de 1967 dirigida por Stanley Donen e estrelada por Dudley Moore e Peter Cook, que foi refilmada em 2000 por Harold Ramis. Essa versão chinesa também mostra as desventuras do protagonista ao fazer desejos e como eles acabam se tornando mais uma enrascada do que uma salvação. Como mérito, é cheio de cenas estilo Três Patetas e derivados, além de flertar com o humor “politicamente incorreto” ao fazer graça de doentes mentais e da religião católica em si – “Não quero nada com a Bíblia, ela já matou muita gente”, diz Bruce em certo momento.

O clímax do filme é um show à parte: a mansão de Flit se torna um campo de batalha entre as forças do Bem e do Mal que se dá através de uma partida de videogame live action! Enquanto o personagem do padre passa a soltar raios dos olhos, vários clones de Flit atravessam a sala no melhor estilo “Space Invaders” do Atari com direito a musiquinha de videogame e contador de energia na tela! Além da batalha final, o filme é cheio de efeitos especiais simples e eficientes que com o tempo acabaram se tornando até charmosos. É lendária a história de quando técnicos da Industrial Light & Magic ficaram impressionados como Woo fez os raios que saem dos olhos dos personagem. Nada mais do que néon e espelhos que foram refletidos na lente das câmeras.

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Mas o grande trunfo está na caracterização, sempre a mais caricata possível. O Paraíso é repleto de anjos que ficam cantando, com direito a asinhas e auréolas, e Deus é um grande rosto com bigodes brancos que ao espirrar diz: “Lá vai mais um tufão nas Filipinas”. Já o Inferno é obviamente repleto de fogo, com um Satanás (o eterno vilão Chung Fat) sendo uma espécie de Nosferatu com capa de Drácula que ainda solta raio dos olhos e fala com voz de mulher! E advinhem qual a trilha sonora do Inferno? Nada mais do que a música da banda italiana Goblin para o filme Despertar dos Mortos! Isso mesmo, inserida na cara de pau! Além de tudo isso, Woo ainda arruma tempo para fazer referências a … E o Vento Levou e O Exorcista.

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Interessante também são as histórias dos bastidores. O filme surgiu da vontade de Woo rescindir seu contrato com a Golden Harvest para assinar com a Cinema City, então se aproveitando da trama de O Diabo é Meu Sócio e de Fausto, Woo decidiu tirar sarro da sua própria situação: de um cineasta preso a um contrato de 3 anos com a Golden Harvest. Segundo Woo em entrevistas, a cena em que o personagem de Hui grita: “Eu quero meu contrato de volta! Quero acabar com ele!” foi uma indireta para os chefões da Golden Harvest na época, que sacaram a piada e não ficaram muito contentes.

É uma boa pedida até pra quem não é muito acostumado com a comédia chinesa, pois a maioria das piadas são físicas, e poucas realmente não fazem sentido para nós. Ainda que o ritmo do filme fique prejudicado lá pelo meio (Woo às vezes se demora nas realidades surgidas pelos desejos de Bruce, esticando a piada mais do que deveria), vale a conferida. E mesmo não sendo uma comédia sobrenatural tão engraçada quanto as que surgiriam depois, serve pra confirmar como John Woo era criativo e talentoso seja no uso dos efeitos especiais, quanto nos movimentos de câmera.

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O filme foi lançado em VHS pela Penta Vídeo e passou uma eternidade no limbo aqui e lá fora, sendo remasterizado recentemente pela distribuidora chinesa JoySales para sua coleção de DVDs Legendary Collection, dessa vez em Widescreen que deve dar uma diferença danada na hora da batalha estilo videogame.

Ricky Hui voltaria a enfrentar o sobrenatural em Haunted Cop Shop e Mr. Vampire e Fung Shui Fan faria uma série de comédias de ação durante os anos 80 com uma trupe de comediantes que chamo carinhosamente de “rat pack chinês” (Que incluía John Shum que aparece neste, e Eric Tsang, que nessas comédias fazia uma espécie de Zacarias asiático). Juntos fizeram os filmes da série Lucky Stars dirigidos por Sammo Hung. Todos divertidíssimos.

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Obs: novo texto adicionado – Follow the Star (1978), por Leandro Caraça.