TERRA DOS MORTOS (Land of the Dead, 2005), George A. Romero

por Caio de Freitas Paes

Tem muita gente que acha que Romero está velho demais, já disse tudo que tinha que dizer. Em 2005, nosso bom velhinho realizou Terra dos Mortos, no qual, mais uma vez, o apocalipse zumbi é o pano de fundo pra se discutir um pouco a respeito sobre o comportamento humano. Desta vez, há uma grande cidade, na qual vivem boa parte dos sobreviventes da praga zumbi. Ali, claro, há empresários e homens poderosos, que se aproveitam destas condições para continuar propagando a ganância humana – alimentando a plebe com violência, vícios, sexo, etc.

O que realmente se destaca no filme é a trajetória do grande zumbi (creditado pelo IMDB como “Big Daddy”), uma espécie de “messias” dos mortos-vivos. Dantes apenas corpos movidos pela fome de seres humanos, Big Daddy se destaca por sua inteligência, e naturalmente se torna o líder dos zumbis. É ele quem comanda a grande invasão à cidade.

De resto, Romero cria, mais uma vez, um bom filme – com boas doses de ação, sangue e tripas. As trajetórias dos protagonistas humanos, como Simon Baker, Asia Argento, John Leguizamo e Dennis Hopper, são bem construídas. Suas relações e motivos que os levam à sobrevivência são bem conduzidos por Romero, com certeza. Agora, bem, você pode ver o filme e se questionar: mas o Romero já não havia feito isso? Já não nos contou esta história? Eu não tenho dúvidas: antes Romero continuar trabalhando suas fábulas pós-apocalípticas de modo satisfatório, do jeito que só ele sabe fazer, do que a maioria dos outros filmes de zumbi que vemos sendo lançados aos montes por aí.

O CASAL OSTERMAN (The Osterman Weekend, 1983), Sam Peckinpah

por Luiz Alexandre

O ano é 1983. Um agente da CIA (John Hurt, ótimo), mancomunado a um político (Burt Lancaster) convence um jornalista idealista (Rutger Hauer) de que são amigos próximos são, na verdade, traidores da pátria que negociam com os comunistas soviéticos. Um fim de semana em sua casa, evento que realizam há anos desde a época em que estudavam juntos, se tornará um pesadelo movido a intrigas e segredos de estado.

Peckinpah, infelizmente, já não era o mesmo de outrora. Tido como ficha suja em Hollywood, tinha que aproveitar as oportunidades que lhe apareciam para poder realizar a sua velha magia. Com o trabalho que fez, sem crédito, no filme  Jinxed!, de seu mentor Don Siegel, ele foi chamado para dirigir essa adaptação de um romance de Robert Ludlum, autor, entre outros, dos livros que inspiraram a trilogia Bourne. Infelizmente veio a ser também o adeus do diretor, que faleceu após as filmagens.

Infelizmente, O Casal Osterman não é o seu momento mais inspirado. A trama é confusa e não possui o mesmo espírito mágico de seus filmes anteriores. Mesmo Elite de Assassinos , uma obra feita sob encomenda por produtores, você ouve melhor a voz embriagada do diretor. Aqui o ritmo é por vezes arrastado, embora não seja um filme lento, e a trama não possui momentos poéticos como em vários de seus outros filmes, a música, embora competete, não é tão envolvente, é até mais datada do que poderia, e embora tenha uma certa sujeira comum aos filmes da época, é uma obra menos refinada do que seus filmes dos anos 60, 70, sua violência não é tão bela. Fora que o velho medo dos “malditos comunas” envelheceu muito mais do que seus pistoleiros.

Mas, ora bolas, estamos falando de Bloody Sam! A cena inicial, que começa com o sexo entre John Hurt e uma linda atriz que interpreta sua esposa e que culmina com o assassinato da mesma, embora deveras similar a exemplares eróticos da época, é violentamente bonita. As poucas cenas de ação do filme ainda são muito boas e o elenco, embora não tenha sido escolhido por ele, está muito bem. O filme ainda permite pequenas sutilezas do diretor, como um possível romance entre Bernie Osterman (Craig T. Nelson) e Betty (Cassie Yates), esposa de seu amigo Joseph (Chris Sarandon). O erotismo do filme, se é que pode se chamar assim, é quase morto, o clima das relações conjugais de alguns dos personagens é de decadência e torpor. Fora que a crescente tensão entre os personagens é muitíssimo bem trabalhada pelo diretor.

O diretor também, de alguma maneira, reflete sobre a influência da TV na vida das pessoas, sobre como depositamos nossa confiança nas instituições como a mídia e a propaganda do governo, crítica que infelizmente ainda tem muita relevância. Todas as intrigas e infortúnios só foram possível pelo jogo de faz de conta armado pela CIA (um filme americano que critica a CIA durante a Guerra Fria, como pode?) e tudo culmina com um final curiosamente belo e pessimista. Um discurso libertário por parte de Tanner aos seus espectadores, onde incentiva os mesmos a desligarem a TV. Mas nós não podemos tocar na tela e apertar o interruptor. Apenas vemos tudo e esperamos as letras começarem a subir, do jeito que nos foi ensinado.

P.S: O título nacional do filme é certamente um dos piores que nossa industria já criou. O citado Osterman é o único dos amigos que é solteiro, o título em inglês faz uma referência há uma velha tradição entre os amigos de sempre se reunirem na casa do personagem quando eram jovens. Ele saiu da casa dos pais, mas a tradição continuou nas casas dos outros, por isso o “Fim de Semana Osterman” .

P.S 2: A interpretação que fiz sobre a cena final do filme eu roubei de um especialista (cujo nome não sei) que deu um depoimento em um péssimo documentário sobre o diretor que assisti no Festival do Rio. Sei que não tenho obrigação de creditar, mas queria dizer que infelizmente não cheguei a ela sozinho.

P.S 3: A versão que assisti foi a que a Flash Star Home Vídeo lançou no Brasil, com dois DVDs, contendo supostamente a versão do diretor. Indo ao IMDB descobri que existe uma outra versão sim, mas é mais longa do que a que a Flash Star vende. Seria Peckinpah um profeta?

À Caminho do Inferno (Straight to Hell, 1987), Alex Cox

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por Leandro Caraça

Alex Cox não foi o criador do faroeste pastiche, mas merece crédito pelo primeiro punk western que se tem notícia. Em seus primeiros anos de carreira, o cineasta britânico era uma espécie de Robert Rodriguez com cérebro, ou seja, não só tem noção do que fala, como sempre teve algo para dizer. À Caminho do Inferno nasceu de uma ideia do produtor Eric Fellner que organizou um show de rock em prol dos revolucionários sandinistas. Com artistas do calibre dos Pogues, de Joe Strummer e de Elvis Costello, Fellner queria organizar uma turnê mundial angariando fundos para os guerrilheiros nicaraguenses, o que acabou não acontecendo. Ao invés disso, os músicos foram convencidos a participar de um faroeste filmado nos desertos de Almería, mais precisamente nos sets de Valdez, o Mestiço, produção estrelada por Charles Bronson e assinada por John Sturges na década de 70.

O roteiro de Alex Cox (escrito com o ator Dick Rude) não passa de uma grande anarquia alegórica, regada a rock n’roll e tiros, funcionando como um preparativo para o mais polido e audacioso Walker, realizado no mesmo ano. O clima de festa geral pode ser detectado só pelas figuras que aparecem no filme : além dos músicos já citados, marcam presença também Dennis Hopper, Grace Jones, Jim Jarmurch, Courtney Love (antes dela dar o golpe em Kurt Cobain) e vários atores habituais de Cox. Fato interessante é que o bandido interpretado por Sy Richardson possuí uma enorme semelhança física e visual com Samuel L. Jackson em Pulp Fiction do Tarantino. À Caminho do Inferno é aquele tipo do filme onde a paródia acaba sobrecarregando todo o resto, e por isso não está entre as melhores obras de Alex Cox. Em seu favor podemos dizer que possuí atitude e energia genuínas, que infelizmente se perderam no tempo, em algum ponto dos anos 80, e que poucos cineastas daquela época, como Alex Cox, ainda hoje são capazes de transmitir.

3 cleef e meio