CREEPSHOW (1982), George A. Romero

por Osvaldo Neto

Um pai (Tom Atkins) recrimina o filho por ele viver lendo uma revista de quadrinhos com histórias de terror. Ele a toma das mãos do garoto e a joga no lixo. Enquanto o pai e a mãe dele estão na sala, a criança sorri com a aparição de uma sombria figura esquelética na janela do seu quarto. Assim começa Creepshow, que se inspira nos quadrinhos da EC Comics. O filme é dirigido por George A. Romero e roteirizado pelo escritor Stephen King, que também atua nele.

Com nada menos que 6 histórias (se contarmos o prólogo e o epílogo), este inesquecível programa de 2 horas de duração marcou demais a geração de cinéfilos dos anos 80 e a minha também pelas suas reprises no extinto Cine Trash. O elenco tem atores como os veteranos Hal Holbrook, Fritz Weaver, Leslie Nielsen, E. G. Marshall e Adrienne Barbeau. Ed Harris e Ted Danson podem ser vistos aqui mais jovens do que de costume. O mestre Tom Savini cuida dos excelentes efeitos especiais.

Acredito que este filme deve fazer parte da memória afetiva de muitas pessoas. É impossível ele não ser mencionado em qualquer papo cinéfilo de mesa de bar onde todo mundo inventa de lembrar de alguns filmes de terror que marcaram a nossa infância e adolescência. Não demora minutos para vir aqueles “Pô, tu se lembra daquele onde um matuto toca num meteoro e se ferra bonitinho?” ou “Sabe aquele do monstro que vive numa caixa e que depois sai dela pra comer gente?“. Aí logo depois vem alguém dizendo: “Porra, vocês tão falando de um filme só… do CREEPSHOW!“.

Segue abaixo uma rápida sinopse das histórias com pequenos comentários:

1 – DIA DOS PAIS: Uma família se vê às voltas com as memórias do seu odiado patriarca.

Acho essa a mais fraca, apesar de divertir mesmo assim. Quem aparece aqui é o jovem Ed Harris, já um pouco calvo.

2 – A MORTE SOLITÁRIA DE JORDY VERRILL: Um autêntico caipira (Stephen King, perfeito) tem uma surpresa ao ver que um meteoro caiu na frente da sua casa. Ele inventa de tocar nele e realmente acaba se ferrando bonitinho.

Atraente pela sua comicidade, pela atuação de King e pelo inevitável trágico desfecho, esta história é uma das mais lembradas. A maquiagem de Savini é um de seus pontos altos.

3 – INDO COM A MARÉ: Amantes tornam-se vítimas de sádica vingança do marido traído.

Previsível, mas de imagens marcantes. Duelo de atuações entre Leslie Nielsen (inesperadamente odioso) e Ted Danson não desaponta.

4 – A CAIXA: Um professor universitário está cheio do seu casamento patético. O amigo de trabalho dele encontra uma criatura sanguinária dentro de caixa escondida no campus da universidade.

A história principal do filme e minha favorita. Com cerca de 30 minutos de duração, ela certamente é responsável por grande parte da fama de Creepshow. Atuações irrepreensíveis de Hal Holbrook, Adrienne Barbeau e Fritz Weaver dão credibilidade ao material. Ela é muito lembrada pelos fãs também por causa do design do monstro e diálogos memoráveis.

5 – VINGANÇA BARATA: Homem poderoso que tem medo de baratas sofre com o repentino aparecimento destes insetos no seu apartamento.

Passada em um futuro indefinido, o conto é um show particular do veterano E. G. Marshall. A segunda melhor história do filme se passa basicamente só com esse ator em um único cenário com pequenas participações de outros atores. De todas, essa tem mais a cara do diretor por criticar a questão da desigualdade social e olhar o futuro da humanidade de maneira negativa.

Romero estava inspirado quando colocou as mãos neste projeto. Em todas as histórias, ele faz questão que o seu expectador tenha a sensação de estar lendo o filme ao invés de apenas o assistindo. Vários elementos como aquelas pequenas observações acima dos quadrinhos são inseridos com regularidade. Ao início e final de cada história, a “revista” começa a ser folheada para chegar onde deve ser “lida”. E uma imagem desenhada dos quadrinhos com balões ou não passa a se transformar aos poucos em sua recriação com os atores do filme e vice-versa. Iniciativas sutis como essa fazem extrema falta nas recentes adaptações de quadrinhos para o cinema. Elas primam tanto pelo exagero e estupidez que até parece que o espectador não tem a menor capacidade de saber que aquilo é uma produção do estilo. Haja paciência….

Sendo assim, Creepshow é muito mais do que um simples filme dos anos 80 com pequenas, ingênuas e nostálgicas histórias de terror. É uma experiência cinematográfica inovadora que não tem medo de usar a beleza de sua despretensão para conquistar o espectador, seja ele fã de terror ou de cinema mesmo.

CAVALEIROS DE AÇO (Knightriders, 1981), George A. Romero

por Davi de Oliveira Pinheiro

É impossível não me identificar com o Billy (Ed Harris), protagonista de Cavaleiros de Aço. Ele é um homem que usa códigos de honra como maior critério de vida, no lugar da conquista social ou financeira. Billy não apenas tem o desejo de ser rei, tem o desejo de estar fora do século XX e do ainda mais desvirtuado século XXI. Billy é um homem fora do tempo.

O que me chama atenção, principalmente, é como um homem fora do tempo é deslocado, incômodo, um problema social. Por mais que tente ressuscitar e relembrar o que há de grandioso em si e nos outros, ele está em processo de defasagem e é necessário o esquecimento do mesmo, para que o mundo não tenha que parar e fazer julgamentos sobre seu processo de mediocrização.

David Cronenberg, em entrevista, no livro “Cronenberg on Cronenberg”, fala da impossibilidade de realizar um filme de época “realista”, pois nossos conceitos de vida são tão diferentes através dos séculos. É impossível realizar um filme genuinamente em outro tempo histórico sem alienar o público. As pessoas desejam o conforto do agora, a possibilidade de pertencer ao grupo, de não se aquietarem na solidão. Billy, talvez, seja o mais próximo que o cinema já viu da personalidade de outra época.

Billy é outro mundo, que não só desapareceu, mas talvez seja apenas um ideal. George A. Romero foi básico e encontrou o homem que precisava que fosse a personagem. Então, jogou Billy em meio a pessoas que querem a idéia de viver no passado, a superfície, sem precisar arcar com a conseqüência, com o mergulho que é necessário para fazer a fantasia histórica ser uma verdade. O homem fora do tempo, de Romero, é o mais profundo exemplo de sua visão quase infantil, pura, do ser humano, do que a humanidade é capaz numa escala mesmo ínfima. É o filme mais positivo sobre a raça humana que Romero fez e o seu mais próximo de uma consciência natural do homem.

O Segredo do Abismo (The Abyss, 1989), James Cameron

por Ronald Perrone

O quarto filme de James Cameron foi esta grandiosa ficção científica de orçamento estrondoso sobre um grupo de garimpeiros de petróleo subaquáticos contratados para procurar um submarino nuclear perdido. Acaba tendo um contato com seres extraterrestres engajados ecologicamente. No elenco um time de primeira com Ed Harris, Mary Elizabeth Mastrantonio, Michael Biehn colaborando com o diretor pela terceira vez, Todd Graff, John Bedford Lloyd, e vários outros.

Naquela altura, James Cameron já buscava maneiras de transcender os limites tecnológicos do cinema. As filmagens de O Segredo do Abismo, por exemplo, foram extremamente difíceis, grande parte debaixo d’água, com som direto, etc. Mas nada interferia no processo criativo do diretor em conduzir seu projeto e o resultado, tecnicamente, reforça o talento do sujeito em relação ao seu olhar visionário para com a tecnologia de efeitos especiais, computação gráfica, algo realmente impressionante para a época, um verdadeiro avanço.

Mas Cameron vai muito além de um exercício técnico, extraindo de cada situação a essência de diversos gêneros e subgêneros inseridos à narrativa (terror aquático, fantasia mística, aventura, ação, romance). O problema é que essa mistura toda não agradou o público da época. Talvez por uma falta de coerência, acabou indo mal nas bilheterias, injustamente, mesmo com várias sequências de suspense e ação bem eficazes. Alguns anos mais tarde, Cameron resolveu lançar sua “versão do diretor” com 27 minutos a mais que o original. O que já era bom ficou ainda melhor.

Walker (1987), Alex Cox

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Sinopse: Em meados do século XIX, William Walker, americano bastante popular por ter tentado anexar o México aos Estados Unidos, alia-se a uma das facções da guerra civil que assolava a Nicarágua. Aos poucos, as intenções e objetivos de Walker vão ficando mais claros, quando ele mesmo promove um golpe de estado e se declara presidente.

Comentários: A partir dos anos 60, não foram poucos os filmes que tentaram apresentar um outro olhar sobre a conquista do oeste americano. O Pequeno Grande Homem e Um Homem Chamado Cavalo tentavam dar voz aos índios e até mesmo John Ford iria relativizar a bravura indômita do cowboy em Cheyenne Autumn. A mitologia do western era questionada dentro do próprio país, enquanto era revisada e reescrita na Itália.

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Mas foi preciso esperar mais tempo para que a imagem do cowboy fosse aplicada explicitamente à política intervencionista americana. Alex Cox, diretor de Walker, sabia que o cowboy americano não se limitou a matar índios dentro de seu próprio território. Para além do oeste, queria conquistar outras lugares, principalmente ao sul.

Cox, diretor inglês que foi estudar cinema nos Estados Unidos, tornou-se cult nos anos 80 após cruzar ladrões de carro e alienígenas em Repo Man (1984), colocar Sid Vicious e Nancy Spungen como protagonistas de uma bela e estranha história de amor em Sid e Nancy (1986) e fazer a mistura de faroeste e policial mais estranha, pop e fuleira de todos os tempos, com Elvis Costello, Dennis Hopper, Jim Jarmuch e até Courtney Love no mesmo cul-de-sac em A Caminho do Inferno (1987). Mas ele viria mesmo acertar o alvo, em vários sentidos, com Walker.

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Estávamos no auge da era Reagan nos Estados Unidos e Thatcher na Inglaterra. Eram os anos seguintes à new wave, uma época normalmente acusada de alienada. Ao mesmo tempo, havia a revolução Sandinista na Nicarágua, louvada e apoiada por artistas vindos do punk como The Pogues e The Clash (que deu a um álbum triplo o nome do movimento). Mesmo nos Estados Unidos, Cox era ligado intimamente a essa cena – A Caminho do Inferno foi feito com as “sobras” de um projeto em prol dos Sandinistas que acabou não saindo. Estando na Nicarágua para acompanhar as eleições de 1984, Cox foi inquerido por um sandinista: se ele era um cineasta tão interessado no país, por que não fazer um filme sobre ele? Cox respondeu que cinema custava caro, mas nem ele, nem seus amigos sandinistas acharam satisfatória a resposta.

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Anos depois, graças à entrada em cena do produtor peruano Lorenzo O’Brien, Cox achou o formato ideal para um filme sobre a Nicarágua na história de William Walker, um médico e advogado de Nashville que fez fama como mercenário. A invasão da Nicarágua por Walker é um paralelo evidente com o envolvimento americano com os “contras” nos anos 80.

Produto da sua época, o cinema de Cox não é sutil, embora extremamente inteligente e com um humor bem particular. Walker começa sério, mas, à medida que o caráter demente do personagem vai se tornando mais claro, o filme também vai mostrando sua narrativa anti-naturalista, que inclui distanciamentos brechtianos (há um plano genial no filme, com um nicaraguense enterrado até o pescoço na areia, uma garrafa de coca-cola ao lado, e, ao fundo, Walker e um jornalista conversando sobre as questionáveis mudanças de posição do nosso “herói”), planos-sequências absurdos, humor negro nos momentos mais inesperados e até mesmo uma série de anacronismos que vão ficando cada vez mais fortes – a presença de televisores, de coca-cola e até de um helicóptero retira o espectador do naturalismo, à força. Punk is not dead!!!

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Ed Harris encarna Walker de forma absoluta, passando toda a demência do personagem, principalmente no final do filme, quando o clima psicodélico low-fi explicita de forma genial a maluquice americana. Se Apocalipse Now é The End de The Doors, Walker é I’m So Bored With USA do The Clash. Não por acaso, Joe Strummer, que já tinha participado de A Caminho do Inferno e Sid e Nancy, foi chamado para compor a trilha sonora do filme, fazendo um trabalho primoroso de mistura de timbres latinos e batidas rock. Com certeza, um dos melhores trabalhos do saudoso militante.

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Alex Cox não deixa de ser um equivalente cinematográfico do The Clash (com toda a imprecisão que esse tipo de comparação carrega). Político e irreverente, direto, mas nada paternalista. Em um determinado momento de Walker, um nicaragüense agradece aos céus pela presença dos americanos na sua terra. Cox sabia como poucos bater forte contra o imperialismo americano e, ao mesmo tempo, expor o facínio daquela cultura. Chegou a ser quase tão popular quanto um Jarmush, para cair no esquecimento nos anos 90, embora tenha trabalhado ativamente. Walker foi malhado pela crítica americana e desprezado pela própria distribuidora, Universal, que fez questão de lançá-lo em pouquíssimos cinemas quase sem divulgação. Em tempos de Iraque ocupado, pode dizer mais sobre o jeito cowboy de ser do que muito documentário-denúncia que existe por aí.

Milton do Prado
Participação especial