ILHA DOS MORTOS (Survival of the Dead, 2009), George A. Romero

por Caio de Freitas Paes

Tem muita gente que acha que Romero perdeu a mão pra filmar. Diary of the Dead, um de seus últimos filmes, não é dos melhores, mas mesmo assim, um homem como Romero requer todo respeito que merece. E Survival of the Dead, de 2009, serve pra calar a boca de muita gente. Com uma direção segura, Romero conta mais uma ótima história de um mundo pós-apocalíptico repleto de zumbis.

Desta vez, todos os dramas se centram em uma ilha afastada do continente, local polarizado por duas famílias que se odeiam: os Muldoon e os O’Flynn. Logo no início do filme, o patriarca Patrick O’Flynn (Kenneth Walsh) é banido da ilha por ter o “culhão” necessário para matar os infectados. Seamus Muldoon (Richard Fitzpatrick) acredita que um dia surgirá uma cura, e preza que os infectados sejam mantidos presos – apenas aqueles que sejam conhecidos, pois os forasteiros merecem uma bala na testa. Nessa complexa relação ainda se insere a filha de O’Flynn, Jane (Kathleen Munroe), contrária aos assassinatos do pai e ao comportamento de Muldoon, e o grupo de sobreviventes militares liderados pelo sargento “Nicotine” Crockett (Alan Van Sprang).

Como sempre, Romero trabalha muito bem com os dramas e conflitos entre os personagens humanos de seus filmes de zumbi. Neste, se pode perceber como o temperamento e a intolerância humana ultrapassam quaisquer barreiras em qualquer situação: dois velhos rabugentos não se importam em colocar vidas de familiares em risco pelas suas teimosias.

Tal qual um Napoleão que retorna de seu exílio em Elba, O’Flynn chega novamente à ilha para resolver de uma vez por toda as rusgas com o velho Muldoon. Simultaneamente, Romero recorre a uma técnica que já utilizara várias vezes: a do zumbi que ainda tem um resquício de consciência humana. A personagem Janet, já infectada, caminha livremente cavalgando seu cavalo, sem devorá-lo, sem sucumbir ao primitivismo do restante dos zumbis. Ao fim, Romero reforça sua visão negativista e, com seu talento, nos deixa embasbacados. Afinal, há certas coisas que perpassam a barreira da vida e da morte.

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DIÁRIO DOS MORTOS (Diary of the Dead, 2007), George A. Romero

por Caio de Freitas Paes

É triste admitir, mas os tempos passam, e nem sempre nossa obra mantém sua qualidade e constância. Tendo isso em vista, Diário dos Mortos, de 2007, não está nem aos pés das grandes obras do mestre zumbi George A. Romero. A trama mostra um apocalipse zumbi visto pelo prisma de nossa sociedade altamente tecnológica e globalizada, mostrando um grupo munido de câmeras, notebooks, celulares e afins buscando a sobrevivência. No entanto, Romero tenta mostrar os acontecimentos de forma documental, como se víssemos apenas o que os jovens estudantes de cinema tivessem captado através de suas lentes. Há alguns elementos comuns à grande obra de Romero, como o questionamento sobre valores éticos em meio ao caos provocado pela praga zumbi; esta indagação é personificada no pretenso cineasta Jason [Joshua Close], que escolhe renunciar seus vínculos com a humanidade em prol de seu filme (a obra se chama “Death of Death”), pois acredita que no final não haverá nada que valha sua sobrevivência – nem mesmo sua namorada, Debra [Michelle Morgan].

No fim das contas Romero erra a mão, pois o formato mockumentary é bem chato, e seus personagens não possuem força e carisma suficiente para atrair o espectador, que acaba não se importando com as discussões propostas pelo renomado diretor – vide o personagem amish, completamente mal trabalhado. Por mais que haja a crítica à sociedade que se importa mais com um vídeo sobre zumbis do que com seus amigos mais próximos – como pode ser bem observado no momento em que o curta de Jason obtém 72 mil visitas em poucos minutos -, Romero se perde durante o longa. A atuação do elenco prejudica bastante a obra, repleta de efeitos especiais desnecessários – explicados somente pelo status quo de Romero, que resolveu gastar dinheiro da produção em efeitos computadorizados ao invés de um trabalho de maquiagem mais eficiente. Diário dos Mortos vale apenas para os fãs mais ardorosos de Romero, daqueles que amam qualquer coisa que um artista lance, independentemente de sua qualidade.

TERRA DOS MORTOS (Land of the Dead, 2005), George A. Romero

por Caio de Freitas Paes

Tem muita gente que acha que Romero está velho demais, já disse tudo que tinha que dizer. Em 2005, nosso bom velhinho realizou Terra dos Mortos, no qual, mais uma vez, o apocalipse zumbi é o pano de fundo pra se discutir um pouco a respeito sobre o comportamento humano. Desta vez, há uma grande cidade, na qual vivem boa parte dos sobreviventes da praga zumbi. Ali, claro, há empresários e homens poderosos, que se aproveitam destas condições para continuar propagando a ganância humana – alimentando a plebe com violência, vícios, sexo, etc.

O que realmente se destaca no filme é a trajetória do grande zumbi (creditado pelo IMDB como “Big Daddy”), uma espécie de “messias” dos mortos-vivos. Dantes apenas corpos movidos pela fome de seres humanos, Big Daddy se destaca por sua inteligência, e naturalmente se torna o líder dos zumbis. É ele quem comanda a grande invasão à cidade.

De resto, Romero cria, mais uma vez, um bom filme – com boas doses de ação, sangue e tripas. As trajetórias dos protagonistas humanos, como Simon Baker, Asia Argento, John Leguizamo e Dennis Hopper, são bem construídas. Suas relações e motivos que os levam à sobrevivência são bem conduzidos por Romero, com certeza. Agora, bem, você pode ver o filme e se questionar: mas o Romero já não havia feito isso? Já não nos contou esta história? Eu não tenho dúvidas: antes Romero continuar trabalhando suas fábulas pós-apocalípticas de modo satisfatório, do jeito que só ele sabe fazer, do que a maioria dos outros filmes de zumbi que vemos sendo lançados aos montes por aí.

A MÁSCARA DO TERROR, aka Vingança sem Rosto (Bruiser, 2000), George A. Romero

por Leandro Caraça

George Romero apresentou Bruiser – Vingança Sem Rosto após um hiato de seis anos sem dirigir um único longa-metragem. Nesse espaço de tempo acumulou vários projetos abortados ou que foram parar nas mãos de cineastas menos qualificados. Alguns fãs se perguntavam da possibilidade de Romero se aposentar enquanto que os mais radicais queriam apenas que o diretor fizesse um último filme de zumbis.

Financiado em parte por produtoras do Canadá e França e realizado ao custo total de apenas cinco milhões de dólares, Bruiser teve uma recepção fria e acabou sendo lançado direto em vídeo nos EUA. Depois de certo tempo sem um filme novo de Romero os impacientes fãs estavam ávidos por altas doses de violência, humor negro e crítica social por parte do veterano cineasta. Acontece que o filme trazia tudo isso, mas agora de uma maneira um pouco mais sutil e relaxada. Típico de uma pessoa prestes a entrar em sua sexta década de vida.

Com muita ironia, Romero conta a história do executivo de uma revista fashion (Jason Flemyng) que certo dia acorda sem o seu rosto. Ou melhor dizendo, com uma máscara branca e sem face no lugar da cara. A razão disso pode ter vindo do fato dele constantemente ser traído e passado para trás por aqueles em quem confia. No decorrer do filme ele não só buscará vingança como também a consolidação de sua própria identidade, uma vez que esta parece ter sido totalmente consumida. Os atores do filme estão muito bem. Jason Flemyng esbanja simpatia como o patético protagonista e Peter Stormare está deliciosamente exagerado como o dono da revista, que aliás se chama Bruiser. O elenco de apoio ainda conta com o sempre carismático Tom Atkins, que antes já havia trabalhado com Romero em Creepshow – Show de Horrores e Dois Olhos Satânicos. Isso sem falar da participação mais do que especial da banda punk Misfits, presentes em carne, osso e decibéis na parte final.

Desde os tempos de Creepshow que George Romero não dirigia um filme tão descompromissado assim, apesar do sempre presente tom de crítica. Pena que seja a obra menos coesa do cineasta e no epílogo acabe perdendo um pouco da sua força. Realmente às vezes se parece mais com um episódio alongado de alguma antologia de terror e poderia ter um melhor rendimento se fosse realizado nesse formato. Isso não justifica as pedras atiradas pelos fãs mais xiitas. Bruiser serviu para mostrar que Romero ainda estava atuando por aí não comum um zumbi em decomposição, mas sim como o autor que ele sempre foi. Mesmo ganhando dinheiro elaborando roteiros de filmes que nunca chegaram sequer a acontecer e tendo ficado tanto tempo longe do público, ele provou que nunca havia perdido a sua identidade.

Por causa disso, Bruiser é um dos filmes mais pessoais de George Romero. E um dos seus favoritos.

A METADE NEGRA (The Dark Half, 1993), George A. Romero

por Osvaldo Neto

A Metade Negra é um filme obrigatório aos interessados pela filmografia de George A. Romero, que não se resume a um punhado de excelentes filmes de zumbis. Trata-se de um mergulho na mente de um dos únicos autores que continuam imprimindo a sua marca dentro do cinema de terror.

O longa é conduzido com habilidade por Romero e tem apoio no excelente desempenho do subestimado Timothy Hutton em desafiador papel duplo. Hutton interpreta Thad Beaumont, um escritor com problemas de alcoolismo no passado, mas que hoje só tem olhos para a esposa (Amy Madigan) e seus dois filhos gêmeos, ainda bebês. Thad leva uma vida dupla como autor: ele assina suas novelas mais “sérias” usando o próprio nome, que são reconhecidos apenas pela crítica e intelectuais, mas os livros que garantem um melhor padrão de vida para a sua família são as violentas histórias sobre um assassino chamado Alexis Machine, assinadas com o pseudônimo George Stark.

Tudo está tranquilo até o dia em que um verme chamado Fred Clawson (Robert Joy, que trabalharia com Romero em Terra dos Mortos) aparece na universidade onde Beaumont ensina para chantageá-lo, pois ele teve acesso à informação de que o então autor intelectual também é responsável pela literatura popularesca assinada por Stark. Para não ceder às pressões do chantagista, o escritor decide “enterrar” Stark, revelando ao público que também é o autor dos livros de Alexis Machine. A partir deste momento, pessoas relacionadas com a carreira de Beaumont começam a ser assassinadas e para o desespero dele e de sua família, ele é o principal suspeito dos crimes pelo xerife Alan Pangborn (Michael Rooker), pois as suas digitais sempre são encontradas nas cenas dos crimes. Tudo passa a indicar que George Stark, a Metade Negra de Beaumont, ganhou vida. Uma adorável Julie Harris e Royal Dano em seu último filme completam o elenco em pequenos papéis.

Embora baseado no livro de Stephen King, A Metade Negra não deixa de ser um dos trabalhos mais pessoais de Romero. É fácil perceber o quanto Romero se identificou com o material, onde King faz referências ao período em que assinou seus romances como Richard Bachman, entre eles A Maldição do Cigano. Basta notarmos as semelhanças entre o cineasta e Thad Beaumont, que seria o Romero de Martin, O Exército do Extermínio e Cavaleiros de Aço, mais apreciado pela crítica e seus fãs, enquanto que Stark é o Romero favorito do público e fãs de horror em geral, o dos zumbis com a Trilogia dos Mortos, Terra, Diário e Ilha dos Mortos. Pena que A Metade Negra perca boa parte de seu fôlego rumo ao final, inclusive tomando rumos previsíveis, o que não o impede de continuar sendo mais que um simples filme do gênero.

Entre A Metade Negra e Bruiser, tivemos um hiato de sete anos sem filmes de Romero. Foi necessário que ele fizesse outro (grande!) filme de zumbi cinco anos depois para voltar a ser mais ativo, mesmo que isso signifique se repetir e não fazer algo realmente diferente nos últimos anos. O seu próximo trabalho inclusive é outro longa com zumbis anunciado recentemente, já que a refilmagem de Prelúdio para Matar, clássico de Dario Argento, com quem foi parceiro em Despertar dos Mortos e Dois Olhos Satânicos, foi para o brejo. Ao que tudo indica, a “metade negra” de Romero está tomando conta de sua cabeça.

O CASO DO SR. VALDEMAR (The Facts in the Case of Mr. Valdemar, 1990), George A. Romero

por Alana Phibes

Os contos de Edgar Allan Poe são uma fonte inesgotável de inspiração para os cineastas desde sempre. Nesta maravilhosa adaptação do conto O Estranho Caso do Sr. Valdemar, primeira história do filme Due Occhi Diabolici, sendo a segunda, O Gato Preto, dirigida pelo outro mestre, Dario Argento (cuja ideia inicial era reunir também John Carpenter e Wes Craven em adaptações de contos de Poe), George Romero consegue recriar a história estabelecendo um novo contexto, deixando-a mais assustadora e inserindo o clássico tema “homem-velho-e-rico”, “esposa-jovem-adúltera” e “amante-ganancioso-interesseiro”.

O moribundo e milionário Ernest Valdemar (Bingo O’malley) está (convenientemente) sob responsabilidade do médico Robert Hoffman (Ramy Zada), nada menos que o próprio amante da jovem esposa Jessica (Adrienne Barbeau). Para que não ficasse nenhum traço de ilegalidade no plano dos amantes, Robert conduz experiências de hipnose no velho, fazendo com que este assine documentos deixando toda a fortuna para a futura viúva. Tudo ia bem, até que o velho morre sem terminar de assinar toda a papelada necessária. Mas como é mostrado depois, o pior não foi a morte prematura, mas sim o velho ter morrido sem ter “acordado” de uma sessão de hipnose. É aí que o bicho começa a pegar para o lado da angustiada e ansiosa Jessica.

Para que o processo corresse com todos os benefícios para a viúva, só depois de certa data, e ele morre justamente algumas semanas antes do esperado. Para remediar isso, o médico amante tem a “brilhante” ideia de guardar o defunto num freezer no porão e descongelá-lo no dia mais apropriado!

Jessica fica aterrorizada com o fato de estar sozinha na casa com o defunto no freezer, mas é sempre persuadida pelo amante a continuar com o plano. Até que Valdemar, tendo ficado aprisionado em um limbo entre os vivos e os mortos, devido a hipnose, começa a tentar se comunicar.Intrigado e por curiosidade médica, Robert resolve explorar e então… só posso vir até aqui.

Há quem ache exagerado o final da história, mas estamos falando do “rei” dos zumbis, e nada mais interessante que ele, digamos, imprima essa marca no resultado final. O casal de atores principais também está ótimo; Adrienne Barbeau convence bastante como a esposa tensa e depressiva, e Ramy Zada, que apesar de canalha e ganancioso, não deixa de lado seus princípios médicos nem a curiosidade pela pesquisa. Uma boa pedida para os fãs dos zumbis de Romero, e para os que se interessam por adaptações modernas das histórias de Poe, sem deixar sua essência.

O episódio seguinte é outra adaptação muito bem sucedida pelo mestre Dario Argento, mas isso é assunto para outra ocasião.

INSTINTO FATAL (Monkey Shines, 1988), George A. Romero

por Ronald Perrone

Distanciando um pouco dos zumbis repugnantes que comem carne humana, logo após realizar seu terceiro filme da série dos Mortos Vivos, George Romero resolveu utilizar em Instinto Fatal uma dócil macaquinha como “vilã”, que de ameaçador mesmo não tem, aparentemente, nada. O filme se sustenta numa base cuja premissa realmente não é nada fácil de engolir. Fácil é entender porque se trata de um dos filmes menos lembrados do diretor, mas o fato é que o resultado não deixa de ser um sólido horror e quem comprar os absurdos do filme, vai encontrar uma obra regida por um mestre que sabe exatamente o que faz.

O protagonista é Allan Mann (Jason Beghe), um estudante de direito que foi atropelado por um caminhão, acabou paralisado do pescoço pra baixo, confinado numa cadeira de rodas, abandonado pela bela namorada e vigiado por uma enfermeira insuportável. E você aí reclamando da vida…

A alegria de Allan chega na forma de Ella, uma macaquinha treinada para ajudar pessoas tetraplégicas. O que ele não sabe é que sua nova amiga peluda é cobaia de uma experiência secreta que visa elevar a inteligência dos animais. E até que funciona bem. Bem até demais, chegando a criar uma ligação telepática entre o dono com o pobre animal, que acaba se tornando uma peça alegórica que representa o mal em sua forma mais pura e instintiva. Não demora muito para que a fúria de Allan em determinadas situações seja canalizada para Ella e se transforme em misteriosos assassinatos cometidos… por quem? Pela inofensiva macaquinha? Será mesmo?

Quem precisa de grandes efeitos especiais de maquiagem (embora o responsável por aqui seja o Tom Savini) ou litros de sangue espalhados pelos cenários quando em Instinto Fatal tudo é sugerido com a precisão angustiante de uma boa atmosfera? Temos um sinistro clima de suspense, uma macaca realmente muito bem treinada – que, no fim das contas, consegue causar um certo arrepio no espectador – e, não menos importante, a primeira cena de sexo entre uma mulher e um tetraplégico que já vi na vida! Romero surpreendendo até em seus filmes menores… Chegou a ser lançado em VHS no Brasil com o título Comando Assassino.

DIA DOS MORTOS (Day of the Dead, 1985), George A. Romero

por Davi de Oliveira Pinheiro

Dia dos Mortos está dois passos à esquerda da porta da locadora. A caixa da fita VHS chama sempre a atenção quando entro. Tenho menos de dez anos; alugar filmes é ritual diário entre eu e meu pai. Dia dos Mortos é território aparentemente proibido, já que nunca se discute e sempre que me aproximo sou levado a crer que não devemos assistir. Vi Creepshow, Cavaleiros de Aço, Martin e Instinto Fatal. Por que o medo de assistir a Dia dos Mortos?

O filme se torna mito e na adolescência me desaponta. Considero o pior filme da trilogia. Revisito anos depois, sob a influência de Isidoro B. Guggiana, futuro produtor, e se torna meu Romero favorito, ao lado do melhor vampiro da História do cinema, Martin. No entanto, mantém-se o questionamento: o que fascina na infância, repugna na adolescência e agora desafia a compreensão?

Já advoguei em favor das mensagens políticas nos filmes de Romero, porém considero os filmes de mortos-vivos do mestre do gênero pueris na expressão de eventos sociais. Todos caem numa superficialidade adolescente. Comunicam idéias acerca dos fatos, mas não transcendem uma discussão política entre indivíduos bem intencionados, sem conhecimento de causa.

É a perfeição técnica dos efeitos que me atraí ao filme? Sim. Gosto muito da maquiagem e, com certeza, é um dos grandes motivos que retornam os fãs aos momentos de carnificina. A qualidade, até hoje insuperável, inspira artistas a criarem suas próprias versões das criaturas concebidas por Tom Savini.

A resposta ao meu fascínio se encontra numa singela noção de ritmo e atuações competentes. Romero, diretor que se entrega ao desleixo na dramaturgia e beira o amador em muitos de seus filmes, constrói tensão e desenvolve, com a clareza dos bons contadores de história, relacionamentos vívidos, mesmo que caricaturais.

Minha vida atual, profissional e artística deve muito ao reencontro instigado por Isidoro. Porto dos Mortos surge, em 2004, sob a égide da paixão por este Dia dos Mortos. O desejo de seguir os passos do mestre – e evitar copiá-lo – inicia uma experiência pessoal que, até hoje, sete anos após a fagulha inicial, faz parte do meu dia-a-dia.

CREEPSHOW (1982), George A. Romero

por Osvaldo Neto

Um pai (Tom Atkins) recrimina o filho por ele viver lendo uma revista de quadrinhos com histórias de terror. Ele a toma das mãos do garoto e a joga no lixo. Enquanto o pai e a mãe dele estão na sala, a criança sorri com a aparição de uma sombria figura esquelética na janela do seu quarto. Assim começa Creepshow, que se inspira nos quadrinhos da EC Comics. O filme é dirigido por George A. Romero e roteirizado pelo escritor Stephen King, que também atua nele.

Com nada menos que 6 histórias (se contarmos o prólogo e o epílogo), este inesquecível programa de 2 horas de duração marcou demais a geração de cinéfilos dos anos 80 e a minha também pelas suas reprises no extinto Cine Trash. O elenco tem atores como os veteranos Hal Holbrook, Fritz Weaver, Leslie Nielsen, E. G. Marshall e Adrienne Barbeau. Ed Harris e Ted Danson podem ser vistos aqui mais jovens do que de costume. O mestre Tom Savini cuida dos excelentes efeitos especiais.

Acredito que este filme deve fazer parte da memória afetiva de muitas pessoas. É impossível ele não ser mencionado em qualquer papo cinéfilo de mesa de bar onde todo mundo inventa de lembrar de alguns filmes de terror que marcaram a nossa infância e adolescência. Não demora minutos para vir aqueles “Pô, tu se lembra daquele onde um matuto toca num meteoro e se ferra bonitinho?” ou “Sabe aquele do monstro que vive numa caixa e que depois sai dela pra comer gente?“. Aí logo depois vem alguém dizendo: “Porra, vocês tão falando de um filme só… do CREEPSHOW!“.

Segue abaixo uma rápida sinopse das histórias com pequenos comentários:

1 – DIA DOS PAIS: Uma família se vê às voltas com as memórias do seu odiado patriarca.

Acho essa a mais fraca, apesar de divertir mesmo assim. Quem aparece aqui é o jovem Ed Harris, já um pouco calvo.

2 – A MORTE SOLITÁRIA DE JORDY VERRILL: Um autêntico caipira (Stephen King, perfeito) tem uma surpresa ao ver que um meteoro caiu na frente da sua casa. Ele inventa de tocar nele e realmente acaba se ferrando bonitinho.

Atraente pela sua comicidade, pela atuação de King e pelo inevitável trágico desfecho, esta história é uma das mais lembradas. A maquiagem de Savini é um de seus pontos altos.

3 – INDO COM A MARÉ: Amantes tornam-se vítimas de sádica vingança do marido traído.

Previsível, mas de imagens marcantes. Duelo de atuações entre Leslie Nielsen (inesperadamente odioso) e Ted Danson não desaponta.

4 – A CAIXA: Um professor universitário está cheio do seu casamento patético. O amigo de trabalho dele encontra uma criatura sanguinária dentro de caixa escondida no campus da universidade.

A história principal do filme e minha favorita. Com cerca de 30 minutos de duração, ela certamente é responsável por grande parte da fama de Creepshow. Atuações irrepreensíveis de Hal Holbrook, Adrienne Barbeau e Fritz Weaver dão credibilidade ao material. Ela é muito lembrada pelos fãs também por causa do design do monstro e diálogos memoráveis.

5 – VINGANÇA BARATA: Homem poderoso que tem medo de baratas sofre com o repentino aparecimento destes insetos no seu apartamento.

Passada em um futuro indefinido, o conto é um show particular do veterano E. G. Marshall. A segunda melhor história do filme se passa basicamente só com esse ator em um único cenário com pequenas participações de outros atores. De todas, essa tem mais a cara do diretor por criticar a questão da desigualdade social e olhar o futuro da humanidade de maneira negativa.

Romero estava inspirado quando colocou as mãos neste projeto. Em todas as histórias, ele faz questão que o seu expectador tenha a sensação de estar lendo o filme ao invés de apenas o assistindo. Vários elementos como aquelas pequenas observações acima dos quadrinhos são inseridos com regularidade. Ao início e final de cada história, a “revista” começa a ser folheada para chegar onde deve ser “lida”. E uma imagem desenhada dos quadrinhos com balões ou não passa a se transformar aos poucos em sua recriação com os atores do filme e vice-versa. Iniciativas sutis como essa fazem extrema falta nas recentes adaptações de quadrinhos para o cinema. Elas primam tanto pelo exagero e estupidez que até parece que o espectador não tem a menor capacidade de saber que aquilo é uma produção do estilo. Haja paciência….

Sendo assim, Creepshow é muito mais do que um simples filme dos anos 80 com pequenas, ingênuas e nostálgicas histórias de terror. É uma experiência cinematográfica inovadora que não tem medo de usar a beleza de sua despretensão para conquistar o espectador, seja ele fã de terror ou de cinema mesmo.

CAVALEIROS DE AÇO (Knightriders, 1981), George A. Romero

por Davi de Oliveira Pinheiro

É impossível não me identificar com o Billy (Ed Harris), protagonista de Cavaleiros de Aço. Ele é um homem que usa códigos de honra como maior critério de vida, no lugar da conquista social ou financeira. Billy não apenas tem o desejo de ser rei, tem o desejo de estar fora do século XX e do ainda mais desvirtuado século XXI. Billy é um homem fora do tempo.

O que me chama atenção, principalmente, é como um homem fora do tempo é deslocado, incômodo, um problema social. Por mais que tente ressuscitar e relembrar o que há de grandioso em si e nos outros, ele está em processo de defasagem e é necessário o esquecimento do mesmo, para que o mundo não tenha que parar e fazer julgamentos sobre seu processo de mediocrização.

David Cronenberg, em entrevista, no livro “Cronenberg on Cronenberg”, fala da impossibilidade de realizar um filme de época “realista”, pois nossos conceitos de vida são tão diferentes através dos séculos. É impossível realizar um filme genuinamente em outro tempo histórico sem alienar o público. As pessoas desejam o conforto do agora, a possibilidade de pertencer ao grupo, de não se aquietarem na solidão. Billy, talvez, seja o mais próximo que o cinema já viu da personalidade de outra época.

Billy é outro mundo, que não só desapareceu, mas talvez seja apenas um ideal. George A. Romero foi básico e encontrou o homem que precisava que fosse a personagem. Então, jogou Billy em meio a pessoas que querem a idéia de viver no passado, a superfície, sem precisar arcar com a conseqüência, com o mergulho que é necessário para fazer a fantasia histórica ser uma verdade. O homem fora do tempo, de Romero, é o mais profundo exemplo de sua visão quase infantil, pura, do ser humano, do que a humanidade é capaz numa escala mesmo ínfima. É o filme mais positivo sobre a raça humana que Romero fez e o seu mais próximo de uma consciência natural do homem.